terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Um Alqueva debaixo de terra

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“Não me inveja de quem tem / Carros, parelhas e montes / Só me inveja de quem bebe / A água em todas as fontes”


 


A chuva que S. Pedro mandou para nos confinar e encher a barragem do Alqueva (e outras barragens do Alentejo e Algarve) é uma riqueza para uma região que sofre há anos com a seca. Aqui mais acima, à esquerda do mapa, no “Entre Douro e Minho”, não tivemos de fazer uma barragem e regadios como o complexo do Alqueva. Ao longo de milhões de anos, a orografia permitiu que os ventos marítimos, vindos do atlântico, entrando pelos vales dos rios Minho, Lima, Cávado, Ave e condensando a humidade ao subir por encontrar as serras, trouxesse a chuva que se infiltra na terra e se acumula nas reservas subterrâneas. Acho que a natureza nos deu uma espécie de “Alqueva subterrâneo”.


Não julguem, contudo, que a chuva é regular e a água fácil de encontrar. Não façam o mesmo ar de espanto que um ministro da agricultura fez, quando, no tempo em que representava os jovens agricultores, me queixei da seca e dos custos da rega. “Vocês aqui regam? Não vi pivôs…”!


´Para além das chuvas do inverno e primavera, que aproveitamos nas sementeiras precoces e que anda perto da superfície de alguns lameiros, a água que temos para regar os campos e dar de beber aos animais foi cavada a pulso e à bomba, ao longo de gerações, pelos nossos antepassados. Hoje fazem-se rapidamente “furos artesianos” mas antigamente cavavam-se poços, com e sem mina, ou apenas minas que serviam para limar os campos e levar água às casas.


A casa onde nasceu a minha mãe, em Rio Mau, Vila do Conde, ainda hoje é conhecida como “Casa da Fonte”, embora a fonte não a sirva. Não sei se foi o avô Figueiredo que mandou fazer a mina, mas foi ele que mandou fazer a fonte para servir o povo mais pobre do seco lugar chamado “Outeiro Figueira”. Quando eu era miúdo e ia trabalhar para o “campo da bouça”, que fica do outro lado do caminho, em frente à fonte, ainda via as pessoas a encher os carrinhos com cântaras, já não de barro, mas de plástico. E eu também lá bebi muitas vezes e soube-me bem. 


A fonte fica quase no extremo entre Rio Mau e Arcos, cerca de 50 metros a poente do “caminho do porto”, que agora é Caminho de Santiago. Não há qualquer indicação sobre a fonte no caminho nem há indicação se a água é própria ou imprópria para consumo, mas posso dizer-vos que continua a jorrar fresca e transparente da fonte até ao pequeno ribeiro que vem da serra de Rates e desagua mais à frente no Rio Este, que desce de Braga até abraçar o Ave quase junto a vila do Conde.


PS - A quadra é do meu tio, Álvaro Figueiredo, da Quinta da Cachada


#carlosnevesagricultor

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