quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

HABEMUS PAC, LASANHAS DE CORRIDA E BENTOS DE MUDANÇA

Carlos Neves
1.       HABEMUS PAC

Contra as piores expectativas que receavam não haver orçamento comunitário antes das eleições alemãs, os líderes europeus chegaram a acordo no Conselho Europeu sobre o orçamento comunitário para os próximos sete anos, sendo a PAC a parte mais importante do orçamento, porque é a única política verdadeiramente europeia e porque os políticos europeus preferem “dar” ao povo comida barata, exigir aos agricultores cuidados extra com a segurança alimentar, a qualidade, o ambiente e o bem-estar animal, abrir as fronteiras à importação de países de outros continentes com menos exigências e depois arranjam umas “ajudas” para manter os agricultores na actividade. Como previsto (escrevi isso aqui há um mês), a oposição e as organizações agrícolas dizem que foi um acordo negativo porque houve redução de verbas e o governo diz que foi positivo porque o resultado final foi melhor que a proposta inicial. Resta agora aguardar pelo acerto entre o Conselho Europeu (conselho de primeiros ministros) que chegou a esse acordo e o parlamento europeu, onde a proposta aprovada parece ser mais favorável e, sobretudo, aguardar pela distribuição das ajudas a nível nacional, para sabermos a dimensão das perdas para a nossa região e para o sector do leite. O melhor de tudo foi haver acordo, porque sem ele paravam as ajudas ao investimento, que, na minha opinião, são o melhor da PAC, ao contrário das ajudas ao rendimento, uma espécie de “esmola” que cola o rótulo de subsídio-dependentes nos agricultores.

2.       LASANHAS DE CORRIDA

Diz-se por aí que os ingleses trocaram as apostas em corridas de cavalo por corridas de lasanhas… isso por causa do escândalo da venda em Inglaterra e no resto da Europa de Lasanhas de marca sueca, fabricadas no Luxemburgo por uma empresa francesa com carne comprada a um empresa holandesa que comprava a outra no Chipre que por sua vez comprava a carne na Roménia, onde eram abatidos os cavalos cuja carne, mais barata, algures pelo caminho, recebia o rótulo de carne de vaca, melhor valorizada, porque muita gente não quer comer carne de cavalo. Salvo certas notícias de alguma contaminação que surgiram e se possam confirmar, estamos perante uma fraude económica que não põem em causa a segurança alimentar mas põem a nú as fragilidades do sistema de comércio e processamento de carne e as negociatas que prejudicam produtores e consumidores. Dentro do escândalo, um outro que nos deve fazer reflectir:  Spanghero, a empresa no centro do escândalo, pertence à cooperativa Lur Berri, mas pelos vistos dedica-se à importação de carne fazendo concorrência aos seus produtores e pressionando os preços para baixo. Será só na França que isso acontece? Quando vires as barbas do teu vizinho a arder, põem a tuas de molho”.

3.       BENTOS DE MUDANÇA

 
A 11 de Fevereiro, o Papa Bento XVI surpreendeu o mundo anunciando a sua resignação devido à idade avançada e falta de forças. Depois da surpresa inicial, fica o exemplo de saber sair pelo próprio pé e dar lugar à renovação. Sabemos, também por muitos exemplos na agricultura, que somos humanos e custa sempre muito deixar o poder, mas é mais fácil quando o encaramos como serviço, temos consciência dos nossos limites e estamos dispostos a partilhar esforços, decisões e tarefas.
(Publicado no "Terras do Ave" em 28-2-2013)