terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Adeus, ramadas!

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Na casa onde nasci havia uma adega que ficava debaixo da casa, logo à entrada, após a “porta da carreira”. No outro lado ficavam os antigos “aidos” do gado e depois havia o terreiro debaixo de uma ramada. Saí dessa casa com 6 anos mas ainda me lembro da ramada, da adega e do vinho doce a sair do lagar.


Com 6 anos mudamo-nos para a nova casa, porque não havia espaço para ter mais de 12 vacas na “casa velha” e as pipas, os toneis, a espremedeira e tudo o resto veio para a adega da casa nova. Um “tonel” é uma pipa grande, pensava que valia por 3 pipas ou mais, mas leio agora na Wikipédia que equivale a duas pipas de 500 litros. Os toneis eram grandes o suficiente para eu, criança com 6 anos, passar na porta de entrada e andar lá por dentro, em pé, a limpar o sarro.


O vinho era colhido nas ramadas que ocupavam as bordaduras de quase todos os campos e às vezes dos caminhos. A ramada, estrutura de arames amarrados em traves de madeira suportados em esteios de granito, era a forma de condução das videiras tradicional aqui em Vila do Conde, no Baixo Minho / Douro Litoral. Mais para o interior usava-se a “vinha de enforcado”, suportada pelas árvores entre os campos, noutras zonas a vinha cresce junto ao solo.


Por baixo das ramadas plantava-se a “batata do cedo” ou alguma cultura que aproveitava a luz disponível no inverno, enquanto não cresciam as folhas das videiras, que no verão davam sombra e aroma aos caminhos e terreiros das casas de lavoura. Numa zona de solo fértil mas escasso, colocar a vinha em ramada foi forma de aproveitar todo o espaço disponível, uma espécie de “agricultura vertical” com rés do chão e primeiro andar.


Já na escola agrícola, com 15 anos, visitei a estação de viticultura Amândio Galhano em Arcos de Valdevez e vi os sistemas de condução em cordão simples ou cordão duplo que permitem a mecanização das podas e da vindima.


Nas ramadas, tudo era e é manual: a vindima, a poda e os tratamentos. A poda era geralmente feita nos dias soalheiros de janeiro ou fevereiro, mas a vindima era uma carga de trabalho que coincidia com a colheita do milho silagem. Debaixo das ramadas era difícil passar com o trator. Uma das opções adotadas foi tirar os esteios do lado de dentro do campo e pendurar a ramada apenas nos esteios que ficam na bordadura. Outra opção, que o meu pai e outros vizinhos adotaram foi “podar pelo pé”, ou seja, cortar as videiras definitivamente. Sem saudades.


Não foi uma lei que mandou cortar nem creio que fosse por causa do subsídio para arrancar as vinhas velhas. No nosso caso, foi uma questão de trabalho, de falta de mão de obra para os trabalhos manuais da vinha e também pela limitada qualidade do vinho à beira-mar. Muitas ramadas foram ainda retiradas de cima de estradas e caminhos porque impediam a passagem de camiões e máquinas agrícolas.


Quando tínhamos muitas pessoas para trabalhar, muitos “moços de lavoura”, muitas “jornaleiras” e famílias numerosas, era fácil e lógico rodar as equipas de trabalho nos vários trabalhos: vindimas, desfolhadas, podas, limpezas, sementeiras. Quando temos de comprar máquinas para fazer os trabalhos e temos a mão de obra limitada, faz sentido especializar numa produção. O meu pai e agricultores vizinhos especializaram-se na produção de leite e passaram a comprar vinho para beber. O meu pai ainda plantou uma vinha em bardo, das castas loureiro e trajadura, mas os 50 litros de vinho nunca tiveram uma qualidade satisfatória. Plantou depois o pomar que agora nos dá fruta e boas recordações.


Entretanto, apesar de todas as ramadas cortadas e vinhas arrancadas, não há memória de ter faltado vinho em Portugal. Pelo contrário, até aumentou a exportação. O vinho é o principal produto agrícola português e está presente em todas as regiões. A quantidade total de vinho produzido baixou 0,8% ao ano, mas o valor aumentou. O vinho português tem mais qualidade, é mais valorizado e mais mecanizado, porque as novas vinhas são plantadas no sistema de “cordão simples” e, claro, por toda a evolução na vinificação. Aconteceu uma evolução parecida com o azeite mas tem sido muito mal recebida, talvez por causa de terem chamado “olival superintensivo”, de estar concentrado no Alentejo e de ser menos bonito que o tradicional montado. Ou talvez tenham cometido pontuais exageros, não sei, só me parece injusta a forma diferente de julgar os olivais e as vinhas. A vinha parece-me igualmente intensiva e nunca foi criticada por isso. Já dizia o meu pai que “mais vale cair em graça do que ser engraçado”.

domingo, 11 de dezembro de 2022

Portugal e o futebol

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Em Julho de 2016, quando Portugal passou às meias finais do Europeu, um grupo de agricultores envolvidos no espírito de entusiasmo e união que então se vivia no país decidiu escrever com tratores num campo o apoio à selecção de futebol. O nosso objectivo era escrever "Força Portugal", mas não houve tratores suficientes, por isso escrevemos Portugal, sublinhámos, cantámos o hino e o resto do Europeu correu bem até à dramática vitória final.


Neste mundial houve menos união e mais polémica à volta da selecção nacional mas ainda assim ficámos entre as oito melhores equipas do mundo.


Eu às vezes também acho que damos demasiada importância a 11 homens que correm atrás de uma bola, mas, tal como lembrava ontem um amigo, não há muitas outras atividades em que Portugal esteja entre os melhores do mundo, com melhores jogadores, treinadores e isto é ainda mais impressionante quando temos apenas 10 milhões de habitantes face a países muito maiores e com muito mais gente para escolher possíveis talentos. 


O futebol é mau exemplo na violência das claques e na corrupção mas deve ser também motivo de estudo como exemplo para termos a mesma ambição de sermos os melhores do mundo noutros sectores de atividade e noutros aspetos da vida do nosso país.


Há 20 anos, numa viagem ao Canadá, um taxista, de origem paquistanesa, perguntou de onde éramos. "Portugal" . "Portugal? Figo!" Luís Figo tinha sido o melhor jogador do mundo em 2001. Hoje o fenómeno "Ronaldo" é muito superior, com todo o trabalho na marca CR7 e com a sua visibilidade na comunicação social e nas redes sociais. 


É natural estarmos tristes porque a nossa equipa perdeu quando parecia ter capacidade para mais, mas isso também faz parte da magia do futebol. Não basta colocar o valor de mercado das seleções numa folha Excel e colocar por ordem decrescente. Um ressalto, um momento de inspiração ou azar podem ajudar os menos fortes a vencer os favoritos.


O futebol é também um impressionante "elevador social" que permite a muitos passarem da pobreza para um nível de vida muito melhor, serve de motivação para muitos que não chegam tão alto e é motivo de convívio e união para os adeptos de todo o mundo que se deslocam ao estádio, ao café, a casa de amigos ou em família, é é a única coisa que nos faz cantar o hino nacional e colocar bandeiras à janela. Venha o resto do mundial e que traga bons jogos de futebol e venham as próximas competições para voltarmos a sonhar, a sofrer e a festejar.


#carlosnevesagricultor

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Agricultura em viagem - Canadá



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Em Novembro de 2002, tive oportunidade de visitar a agricultura do Canadá, o segundo maior país do mundo, com uma área de quase 10 milhões de km2 e 30 milhões de habitantes, o que dá uma densidade de 3 habitantes por km2 (Portugal tem 123 hab/ km2). Sendo muito extenso, o Canadá tem climas diferentes, desde o polar a Norte até ao temperado da faixa atlântica, mas é basicamente um país frio. Visitei os estados do Quebec e Ontário.

A raça Holstein-frísia (preta e branca), originária do Norte da Europa, levada para a América há pouco mais de um século, foi alvo de seleção ao longo dos anos, de modo que hoje Canadá e EUA são os maiores exportadores mundiais de genética animal no sector leiteiro. Sendo a viagem organizada pela empresa canadiana que reúne as maiores cooperativas do sector para exportação da genética canadiana para 70 países, o programa incluiu visitas a 17 vacarias, 2 centros de inseminação artificial e 2 concursos de animais.

Das visitas às vacarias, destaco o acolhimento dos agricultores canadianos (café quente e bolinhos em todas as explorações), o cuidado posto na limpeza dos estábulos (impecavelmente limpos e pintados) e dos animais (muitas das vacas lavadas e tosquiadas). Em todos os locais visitados se percebia o cuidado e a atenção dedicados aos animais.

Num pavilhão onde habitualmente os canadianos assistem ao seu desporto favorito (hóquei no gelo), visitámos o concurso regional do Quebec, onde foram eleitas as vacas “mais bonitas” da região levadas a concurso nas diversas categorias etárias. Atenção: uma vaca não é considerada bonita por causa do desenho das pintas, mas pela avaliação de um conjunto de parâmetros (o “tipo”) definidos pelos especialistas em todo o mundo, relacionados com o tamanho do animal, saúde de pernas e pés, forma do úbere, que vislumbrem uma boa produção num animal saudável, com uma vida longa.

Passados uns dias, reencontrámos alguns dos vencedores desse concurso no grande concurso nacional da Royal Show - Agricultural Winter Fair, (Feira Agrícola de Inverno) em Toronto.

Enquanto os criadores se concentravam no concurso para eleger a vaca mais bonita do Canadá, o salão anexo, onde estavam os stands das empresas fornecedoras do sector, associações e organismos oficiais, foi literalmente invadido por centenas de crianças da região, crianças do meio urbano, que vieram descobrir a agricultura, os animais, as plantas, o meio rural, recebendo um “passaporte educacional” que tinham de carimbar nos diferentes stands educativos, através de teatros, jogos, concursos, onde podiam ver como se faz a ordenha, por exemplo. Explicava-se como se produzem os alimentos, como os animais são tratados, o que se faz para proteger o ambiente.

Apesar de ter chovido sempre que deixámos a parte profissional e fizemos turismo, visitámos, entre outros locais, Montreal (magnífica Catedral de Nossa Senhora), Toronto (estivemos a 450 metros de altura na CN Tower) e as cataratas do Niagara (pena o frio).

A recordar: O espaço imenso, o verde, o frio, a neve, o calor humano do acolhimento, o profissionalismo, o cuidado com os animais e as peripécias da viagem. Na chegada ao Canadá, com medidas de segurança reforçadas por causa do ataque às Torres Gémeas no ano anterior, fomos interrogados duas horas na alfândega, pois suspeitaram que fossemos um grupo de imigrantes ilegais. A viagem de regresso demorou 24 horas, atrasada pelas medidas de segurança, lavagem da neve sobre o avião, resolução de uma avaria, tendo o piloto dito que “pensava” que estava resolvida, perda do voo de ligação em Paris e evacuação do terminal sob suspeita de bomba por bagagem abandonada… mas voltámos todos bem.


quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Oito mil milhões de pessoas para alimentar

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Segundo as estimativas dos demógrafos, o planeta Terra tem atualmente uma população superior a oito mil milhões de pessoas. O número não me surpreendeu porque, ao longo dos últimos anos, quando alguém queria motivar a audiência numa palestra para agricultores, começava por explicar que em 2050 teremos nove mil milhões de bocas para alimentar e, portanto, à medida que aumentar a procura, os alimentos e o trabalho dos agricultores deverão ser mais valorizados.
Sempre encarei isso com muito cepticismo face à evolução dos preços dos produtos agrícolas no produtor, nomeadamente no setor do leite. Senti muitas vezes que estavam a tentar colocar à nossa frente a cenoura pendurada no pau amarrado às nossas costas, para não desanimarmos. Nos últimos meses finalmente o preço do leite subiu, acompanhando os custos de produção, mas ainda é cedo para perceber se vai estabilizar em preços decentes ou regredir como aconteceu em 2009.
Há 200 anos, quando a terra teria cerca de mil milhões de habitantes, Thomas Malthus, clérigo, economista e matemático inglês, considerado o pai da demografia, observando o crescimento exponencial da população e prevendo um aumento limitado da capacidade de produzir alimentos, avisou que ia faltar a comida para todos se não houvesse controlo da população. As suas previsões não se concretizaram porque entretanto o desenvolvimento científico e tecnológico aumentou a capacidade de produzir comida de tal forma que hoje podemos alimentar estes 8 biliões de pessoas. É certo que muita gente passa fome mas isso tem mais a ver com guerras e injustiças do que com falta de comida no mundo, porque noutros locais há fartura e desperdício.
Foram o trabalho, o estudo e a investigação que nos ajudaram a aumentar a produção agrícola, a reduzir a mortalidade infantil e aumentar a esperança média de vida. Às vezes cometem - se erros e excessos, mas o caminho é por aí. Estudar, investigar e trabalhar.
#carlosnevesagricultor

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Desconfinar a agricultura - Crónicas agrícolas para oferecer


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Em meados de Agosto, estava no campo com o Hugo a terminar de ligar uma rega quando recebi um telefonema: o livro de crónicas agrícolas "Desconfinar a agricultura" acabara de chegar e era preciso ajudar a descarregá-lo do camião. Voltámos rapidamente a casa, descarregámos os livros e no final ofereci ao Hugo o primeiro exemplar. Foi uma escolha natural e merecida por quem trabalha connosco há mais de 20 anos em todas as tarefas, alguém que acompanhou o envelhecimento dos meus pais e o crescimento dos meus filhos, como é normal nas nossas empresas familiares onde os colaboradores se tornam parte da família.

Aproveito para lembrar que ainda tenho alguns livros disponíveis para venda e agora que o Natal se aproxima pode ser uma boa oferta para alguém que goste de ler histórias diferentes sobre agricultura, sobre a forma como se cultivam os campos e criam animais para produzir alimentos.

Histórias com raízes no passado, para explicar como começou, para mostrar de onde viemos, porque mudámos, passado que muitos recordam com saudade mas que não tem que ser motivo de tristeza e por isso procuro apontar e encarar o futuro com esperança.

Posso enviar facilmente o livro pelo correio, por um custo total de 16€ já com o envio incluído. Basta que me contactem através de carlosneves74@sapo.pt para explicar as formas possíveis de pagamento.




sábado, 5 de novembro de 2022

Ligar aos mais velhos

44511 idosos foram sinalizados pela GNR por viverem sozinhos ou isolados em situação vulnerável em zonas rurais, segundo um comunicado divulgado esta semana.


Antigamente a nossa vida era mais curta e as nossas famílias e casas eram maiores. Numa família numerosa era mais fácil encontrar algum filho, quase sempre filha, disponível para sacrificar a sua vida a cuidar dos pais até ao fim da vida. Tenho um enorme respeito e admiração por aqueles e aquelas que cuidaram, cuidam e também precisam de apoio.
Por outro lado, temos hoje segurança social e respostas comunitárias de IPSS que antes não existiam. Apesar do muito que ainda falta fazer e melhorar, temos lares para residência permanente e centros de dia onde os mais velhos podem passar umas horas de convívio com algumas atividades, ter apoio para as refeições e higiene pessoal. E essas horas no centro de dia são também as horas de descanso possível para os cuidadores familiares, para fazer as compras ou para o seu ganha-pão. Deixo aqui uma palavra de agradecimento aos trabalhadores que cuidam dos nossos mais velhos e uma palavra de encorajamento a quem esteja com vergonha ou receio de ir para um centro de dia.
A solidão é dolorosa. As visitas de amigos e familiares atenuam essa solidão, mas se já era difícil encontrar tempo disponível (e coragem, às vezes) para visitar um familiar ou amigo idoso, a necessidade de os protegermos da pandemia deixou-nos ainda mais distantes e aos idosos mais sós.
Por outro lado, hoje temos tecnologias que nos ajudam a manter o contacto, mesmo com os familiares do outro lado do mundo. Claro que um idoso nem sempre consegue fazer uma videochamada no tablet (às vezes, será uma questão de algum tempo e paciência), mas um simples telefonema já vale a pena, nem que seja para dar os bons-dias e falar sobre o estado do tempo, quando não sabemos mais o que dizer. Vamos ligar mais aos mais velhos?
#carlosnevesagricultor

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Conduzir e Operar o Trator em Segurança

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Ligaram-me a propor a frequência de um curso COTS - Conduzir e Operar o Trator em Segurança, dizendo que será obrigatório a partir de Julho de 2023. É um curso de 35 horas e tem um custo de 200 euros. Respondi que não preciso de fazer essa formação, porque obtive a carta de trator frequentando o curso de Operador de Máquinas Agrícolas, onde o módulo da segurança está incluído. Insistiram comigo, pediram-me o e-mail para enviar mais informação e basicamente enviaram a ficha de inscrição.
Liguei para duas organizações agrícolas onde já recebi formação e confirmei a informação que tinha:
- Quem tem o curso de Operador de Máquinas Agrícolas não precisa de fazer o COTS.
- Parece haver dúvidas em relação a quem tirou a carta de conduzir trator numa escola de condução.
- Não há dúvida de que essa formação é obrigatória para quem tem apenas carta de condução de ligeiros ou pesados e pretenda conduzir trator.

Importante: é possível obter essa formação de forma gratuita nas organizações agrícolas que têm fundos comunitários para isso. Informe-se antes de pagar.
Se entretanto já fez ou vai fazer esta formação, é sempre útil. Todos os anos morrem dezenas de portugueses debaixo de tratores. Se servir para evitar que alguém se magoe ou perca a vida, já vale a pena.
P.S. Não esquecer que é obrigatório renovar a carta de trator aos 50 anos (esquecer a data de validade indicada) porque a lei mudou.
#carlosnevesagricultor

sábado, 22 de outubro de 2022

Per vitam ad sanitatem - Confraria Nacional do Leite

 


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"Através da vida, pela saúde" é o lema da Confraria Nacional do Leite que hoje se reuniu em "capítulo de entronização" de novos confrades em Barcelos, o concelho com maior produção de leite do país. Como em todas as confrarias, o encontro anual, agora retomado após dois anos de pandemia, é momento de encontro entre as gentes que dedicam a sua vida à investigação, produção, transformação e comercialização de leite e produtos lácteos e que aqui renovam o seu compromisso de promover e defender este alimento. Leite é vida.


#carlosnevesagricultor


#leite

sábado, 8 de outubro de 2022

Porque se rega nas horas de maior calor?

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Um amigo ficou sobressaltado ao ver “regas de jardins públicos ou campos agrícolas nas horas de maior calor”, convicto que “uma grande parte da água evapora antes de chegar ao solo”. “Porque não efetuam essas tarefas a outras horas?” Penso que é uma boa pergunta, que deve inquietar muita gente e aqui estou para responder. Da parte dos jardins públicos não quero falar, deixo para jardineiros e autarcas, sobre a rega de culturas agrícolas, como o milho, posso dizer alguma coisa.


Eu sou um dos agricultores que, às vezes, rega nas horas de maior calor e também nas horas mais frescas e nas horas de temperatura intermédia. Rego a qualquer hora, quando posso, se tiver água, conforme ela nasce nos poços, em períodos intermitentes, ao longo das 24 horas do dia. Há poços que dão meia dúzia de horas de água por dia (muito bom), outros apenas meia hora, mas não tenho capacidade de armazenamento para escolher regar apenas de noite, quando há menos evaporação. Tenho que aproveitar a água disponível. Só quando tenho excesso de vento é que me sinto obrigado a suspender as regas.


Em sentido oposto, noutros campos não rego. No caso de algumas parcelas não tenho água disponível, noutras não tenho eletricidade, noutros tenho tudo mas não tenho tempo para fazer o trabalho e em alguns casos específicos, os tradicionais “lameiros” não é preciso regar porque a terra tem humidade suficiente (no inverno costuma ter excesso, daí serem “lameiros”, com lama).


Quem tiver água armazenada, acesso ilimitado a um rio ou regadio e um sistema de rega sofisticado, pode programar a hora de rega. Quem tem de “mudar a rega”, afinar o aspersor e vigiar como corre, aproveitar a água disponível e estar atento para desligar o motor quando a água acaba, está limitado a fazer isso durante o dia, quando tem luz, e, por vezes, depois de ordenhar e alimentar as vacas, portanto, quando tem tempo. 


Entretanto, há novos fatores a ter em conta. Tradicionalmente, a eletricidade era mais barata de noite, altura de menos consumo, mas para quem tiver painéis solares a eletricidade é “grátis” durante o dia (ou será a única disponível). Reparem nisto: À medida que tivermos mais sistemas de energia solar a injetar eletricidade na rede poderemos ter de mudar o paradigma e aconselhar a rega nas horas de maior calor.


No caso do milho, os especialistas dizem que a rega por aspersão tem uma eficiência entre 85% a 90% durante o dia e 91% a 95% durante a noite. Portanto, 5 a 10% não é uma grande diferença nem é “uma grande parte da água”. 


É preciso ter em conta que o milho é uma planta muito interessante em termos de aproveitamento de água. Ao contrário de outras plantas, as folhas do milho conduzem a água até ao caule por onde desce para junto da sua raiz. Acresce que o milho não sofre por ser regado nas horas de maior calor, pode até agradecer o arrefecimento em dias de aquecimento excessivo, ao contrário de outras plantas. Não se pode generalizar, é preciso ver caso a caso, ouvir os especialistas, pesar os prós e contras de cada opção e decidir sem fundamentalismos.


#carlosnevesagricultor

domingo, 2 de outubro de 2022

Se um desconhecido lhe oferecer alcatrão, desconfie!

Este semana, pela terceira vez, fui abordado por uma pessoa a falar inglês, com a seguinte conversa: “Estamos a fazer uma obra a 6 km daqui e vai sobrar algum alcatrão…” Não teve tempo de dizer mais, pois eu disse-lhe que não e foi à vida dele num carro branco que me pareceu um opel corsa de último modelo.


Nas outras vezes, em anos passados, também recusei a “oferta”, apesar de achar tentadora. Uma pessoa minha conhecida aceitou a proposta. Ouvi-o depois dizer que “é tudo aldrabice”. Muito recentemente, soube de outro caso: disseram que ia sobrar um pouco de alcatrão ao fim da tarde e faziam um preço barato. Vieram só no dia seguinte, com um camião inteiro e no fim faturaram mais área, mais espessura do que a realidade, passando fatura de uma empresa espanhola com IVA.


Quem quiser saber mais sobre isto tire uns minutos e pesquise notícias sobre “gang do alcatrão”. Vai encontrar notícias da prisão de um desses grupos, os comunicados de aviso da GNR, a notícia de que ameaçavam as vítimas com violência para cobrar mais do que o combinado. Repito aqui um texto importante:


"A GNR aconselha: se tiver conhecimento ou o contactarem para alcatroar ou fazer obras de melhoramento na sua habitação ou empresa, desconfie e contacte de imediato as autoridades.


Um grupo do crime organizado internacional, que atua por toda a Europa, sob o disfarce de uma empresa de aplicação de alcatrão, foi detetado a atuar em Portugal.


As vítimas são, habitualmente, pequenos empresários e proprietários de herdades que dispõem de locais por alcatroar ou com o piso alcatroado em más condições, designadamente estacionamentos ou acessos a casas ou empresas.


Os burlões aproveitam, na maior parte das vezes, a ausência dos proprietários, “invadem” habitações ou empresas, e, sem qualquer autorização, iniciam um trabalho de alcatroamento das entradas ou dos acessos às casas ou edifícios empresariais, disponibilizando serviços de pavimentação, com recurso a maquinaria, a custos reduzidos, com alcatrão excedente de obras anteriores, dispondo-se a cobrar apenas o valor da mão-de-obra.


No final da “obra” realizada, pedem quantias avultadas pelo serviço, exigindo o pagamento em dinheiro, na maioria das vezes ameaçando e intimidando as pessoas para pagarem a quantia e da forma exigida."


Já sabe: Se um desconhecido lhe oferecer alcatrão, não caia no impulso de aceitar. Partilhe esta informação para que todos se possam prevenir!


#carlosnevesagricultor


#gangdoalcatrao

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Porque é que deixamos o milho esquecido nos campos?

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“Se as rações estão mais caras, qual o motivo pelo qual vejo imensos campos de milho que não foi apanhado e acabou por secar? Os agricultores não precisam desse milho para alimentar os animais?”


Boa pergunta. Para os agricultores a resposta é óbvia, mas para quem não é agricultor é uma pergunta que faz sentido e à qual tenho todo o gosto em responder, tal como os meus colegas “agro-escritores” norte-americanos já fizeram. 


A resposta é simples: quando o objetivo é conservar o milho através de silagem, a colheita é feita com a planta verde, com cerca de 35% de matéria seca. Toda a planta é cortada / picada e a presença de humidade é importante para uma correta fermentação e conservação da silagem. Se o milho estiver muito seco, acima dos 40% de matéria seca, é mais difícil a compactação para expulsão do ar, a fermentação, a conservação da silagem e a digestão pelos animais. 


Se o objetivo for apenas colher os grãos de milho, para utilizar nas rações para animais, no fabrico de broa de milho ou até para fazer cerveja ( sim, o gritz de milho é utilizado no fabrico da cerveja), nesse caso os agricultores deixam o milho a secar nos campos para colher quando tiver aproximadamente 20% de humidade no grão. 


Tradicionalmente, as espigas de milho eram guardadas nos espigueiros e secas pelo vento que os atravessavam ao longo dos meses e o milho debulhado (retirado da espiga) era seco ao sol na eira. O milho só pode ser armazenado e utilizado nas rações se tiver 14% de humidade (acimda disso pode ganhar bolor), portanto depois de colhido vai ao secador, que funciona a gaz, cujo preço é mais um motivo para deixar o milho secar bem no campo antes de colher. 


Há também um processo intermédio de conservar o milho que é o “Pastone”, que é uma silagem feita apenas com grão ou espiga quase seca.


Mas porque é que se vêem hoje mais campos de milho seco do que há alguns anos atrás? De facto, aqui na minha região, ao longo dos últimos 50 anos, o milho foi quase todo colhido para silagem para alimentar as vacas leiteiras, à medida que a produção de leite se generalizou. Nos últimos anos, muitos agricultores abandonaram a produção de leite mas continuaram a cultivar os campos ou arrendaram a terra a outros agricultores, como é o meu caso. Em parte da terra que aluguei cultivo milho para silagem para alimentar os meus animais, noutros terrenos cultivo milho que deixo secar para grão que vai ser vendido para fazer rações para as várias espécies pecuárias.


O facto do haver falta de milho no mercado mundial, de ter melhor preço atualmente e de haver alguns secadores privados e um grande secador cooperativo agora a funcionar na região explica porque se vêem este ano mais campos de milho “seco” do que se via antigamente. Infelizmente houve ainda algumas situações em que a falta de água não permitiu a produção de milho e não há sequer milho para colher. Espero que sejam situações pontuais, mas sei que houve muitos casos de menor produção e menor qualidade, em que se fez “silagem sem espiga", para aproveitar o pouco que cresceu.


#carlosnevesagricultor


#milho


#milhogrão

sábado, 24 de setembro de 2022

Órfaos e viúvas das colheitas

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O tempo de colheitas é talvez o tempo de maior alegria para os agricultores mas é também o tempo de maior exigência. Para os agricultores e produtores de leite como nós significa adicionar ao trabalho de rotina com os animais uma longa jornada extra de trabalho no campo, jornada que às vezes se prolonga pela noite dentro. Colheita que é igualmente exigente no caso do milho grão, das vindimas, da fruta ou qualquer outra cultura.
Colheita que exige a dedicação dos agricultores, dos prestadores de serviços que conduzem as máquinas e tratores contratados para a colheita, dos mecânicos que asseguram rápidas reparações a qualquer hora para o funcionamento permanente, necessário para aproveitar as janelas de bom tempo.
É também um tempo exigente para os que se sentem "órfãos" ou "viúvas" das colheitas, filhos e esposas que deixam de ver pais e maridos durante semanas. Não inventei esta expressão, fui buscá-la a "agro-escritores" americanos (outra palavra que aprendi), partilhada num texto da The Farmer's Daughter. Noutro registo, a Modern-day Farm Chick escreveu também esta semana sobre o desafio de segurar as pontas com dois gémeos bebés nos 15 dias de silagem. Agora, mais crescidos, já vão na cabine dos tratores e máquinas de ensilar a colecionar experiências e memórias. Bom trabalho, boas colheitas e não se esqueçam de comunicar com os mais próximos!
Para quem quiser seguir, coloco ligação para os dois textos que referi:


https://www.agdaily.com/insights/farm-season-when-many-become-harvest-orphans/ 


https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=pfbid02PV6ajcBw1wWjKfNjaUNHq92F1rBxVaiE7eGoXXDebBgfFzAzZy7rySStWJPmbkP9l&id=100044307825512


 

domingo, 18 de setembro de 2022

Biogás

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“Em França não há gás mas há ideias”. Vi esta imagem há uma semana partilhada por Paul Aballea no grupo “La page des producteurs de lait” e recordei uma visita de estudo feita há mais de 30 anos com os colegas da Casa-Escola Agrícola Campo Verde, em S. Pedro de Rates, concelho da Póvoa de Varzim. A escola funcionava então na antiga casa da D. Laura, agora sede da junta de freguesia, a nascente da velha igreja romana que fica no caminho de Santiago.


Foi uma das viagens para visita mais curtas de sempre. Saímos da escola a pé e caminhamos pelas ruas da povoação até encontrarmos uma “casa de lavoura” com um arcaico sistema de biogás a funcionar. O senhor tirava uma pequena cisterna de 3000 ou 4000 litros de chorume (estrume líquido) da fossa das vacas e colocava numa outra fossa, circular, (feita com argolas de poço) e com dupla parede. Entre as duas paredes havia água que servia como vedação para o gás não escapar e havia também uma tampa oscilante, que subia ou descia consoante a presença do gás libertado e acumulado. Do centro dessa tampa uma mangueira conduzia o gás até um pequeno fogão a gás colocado no alpendre, à porta da cozinha (ficava cá fora por causa do cheiro).


Não sei se o senhor ainda vive e o sistema ainda funciona, provavelmente não. Sei que mais tarde, de autocarro, visitamos um complexo sistema de biogás na “Quinta dos Ingleses” em Lousada, que anos mais tarde foi desativado, antes da vacaria e aviário que também já fecharam. Sei de um outro sistema a funcionar atualmente numa vacaria em Monte Real (Leiria) e outras unidades que aproveitam o biogás libertado em aterros sanitários. Sei que antes de eu chegar à Escola agrícola o meu pai já tinha um dossier com informações sobre o biogás e sempre teve esperança de ver o sistema avançar. Sei que na França, na Alemanha e noutros países do norte da Europa há várias unidades de biogás, algumas inclusive produzindo biogás a partir da silagem de milho (sem passar pelos animais).


O princípio do biogás consiste em colocar matéria orgânica num “digestor” para libertar o gaz que depois vai ser acumulado e usado para aquecimento ou produção de energia. O efluente restante mantém as qualidades fertilizantes com menos mau cheiro. Ao longo dos anos, por diversas vezes prestei informação e colaboração a investigadores que tencionavam desenvolver um sistema “chave na mão”, para o aproveitamento do biogás para aquecimento ou produção de energia elétrica. Por razões que desconheço nunca chegaram a bom porto.


Mantenho uma dose elevada de ceticismo em relação ao biogás, porque se fala disto há muito tempo sem ver a tecnologia expandir-se. Regra geral, quando uma tecnologia funciona e é rentável, quando dá resultados, essa tecnologia é adotada sem precisar de grandes apoios. Admito que ainda falte alguma ou muita coisa. Certamente o gás russo era mais barato, mas agora as contas certamente mudaram. Talvez valha a pena olhar de novo e com mais atenção para esta tecnologia.


#carlosnevesagricultor


#biogás

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Outras máquinas noutros tempos

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Com o milho silagem guardado no silo, aproveitei o final da manhã de ontem para ir buscar uns rolos de erva (rolos de fenosilagem, plastificados) a um campo distante, a “Bouça Aberta”. Durante a viagem de quase 4 km, viajei também no tempo 40 anos e recordei a altura em que o meu pai comprou esse campo no meio de bouças. Nessa altura, estes tratores, o Massey Fergusson 265 e o Fordson 45 eram as máquinas disponíveis para fazer a silagem e tudo o resto.
O Massey Ferguson cortou silagem quase 20 anos, primeiro com uma máquina Krone, depois com uma Claas Jaguar 25. A referência dos modelos automotrizes da mesma marca que agora se usam já vão nas sérias 800 e 900. Cortam num dia aquilo que demorávamos um mês a ensilar. Só esse campo com 2 hectares levava uma semana. A partir dos 9 anos, ajudado pela minha mãe no primeiro ano, eu conduzia o trator a ensilar com máquina e reboque enquanto o meu pai transportava com o Fordson. Usávamos dois reboques com capacidade para 4000 kg cada (em 1990 passámos para 5000). Depois de ter o reboque cheio ainda tinha tempo de apanhar castanhas nos castanheiros das beiradas do campo, que guardava na caixa de ferramenta do trator, para depois assar nas noite seguintes no fogão a lenha. Debaixo dos castanheiros também almoçava o farnel ou comia a merenda, enquanto esperava que o meu pai voltasse da viagem do campo ao silo, demorada ainda pelo trabalho de espalhar a silagem ao gancho e calcar com o mesmo trator. Tratores que, não tendo tracção dupla, enterravam no silo com muita facilidade. O que a gente andou até aqui! O trabalho era mais duro, mais difícil e menos produtivo, mas mais bem pago e muito menos criticado.
#carlosnevesagricultor

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Livro na agrosemana

 


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Passei a manhã e o início da tarde a ajudar um dos vizinhos que me ajuda, "acartando" silagem para a casa de lavoura onde funcionou o posto do leite de que falo no meu livro, na "história da produção de leite na minha família". Ao fim da tarde recolhemos as mangueiras da rega, as que levam a água dos poços até aos caminhos de rega onde colocamos os enroladores. É um trabalho cansativo mas consolador. Significa que a rega acabou e a colheita está próxima.
Antes disso, porém, temos a AgroSemana, que decorre no espaço Agros, junto ao cruzamento da A28 com a A7 e o acesso a Vila do Conde. Entre 1 e 4 de Setembro, podem visitar uma das maiores feiras agrícolas do país, ver os nossos animais que vão estar no concurso, máquinas agrícolas, gastronomia regional, música, Gincana de Tratores, workshops de queijo fresco e muito mais coisas, incluindo a #cãominhada onde a Lassie vai participar com mais de 1000 cães inscritos, o concurso de jovens manejadores, onde o Luís vai participar com a Ameixa e... encontrar o meu livro "DESCONFINAR A AGRICULTURA" com as histórias da produção de leite, do milho, das regas e tudo o resto das nossas vidas agrícolas, no pavilhão dos expositores cooperativos, no Stand da Escola Agrícola Cea Campo Verde. Estaremos por lá tanto tempo quanto possível. Até já!
#carlosnevesagricultor
#desconfinaraagricultura
#crónicasagrícolas
#dopradoaoprato
#agrosemana

sábado, 27 de agosto de 2022

Prestação de contas

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Aqui venho prestar contas sobre o destino do resultado da venda do livro “Desconfinar a agricultura - Crónicas agrícolas do prado ao prato”. Já tinha anunciado que os lucros da publicação do livro seriam destinados em primeiro lugar à compra de rações para os pastores afetados pelos incêndios em Murça, Valpaços e Vila Pouca de Aguiar, através da Associação ANCRAS, em segundo lugar à “PORTA SOLIDÁRIA”, que fornece refeições aos sem abrigo e outros pobres na Cidade do Porto e, por último, mas de forma mais substancial, ao “BANCO DE LEITE”, Associação Amparo da criança, dirigida por Frei Fernando Ventura. É uma associação que procura dar resposta ao problema da carência alimentar e escassez de recursos no âmbito infantil, em Portugal e S. Tomé e Príncipe, com leite em pó, leite substitutivo de leite materno, farinhas lácteas, papas, fraldas e artigos de puericultura, material escolar e está a construir o lar de S. Francisco.


Foram assim os pagamentos efetuados: 200 euros de ração para cabras e ovelhas, 177 euros em leite para a Portal Solidária e 300 euros para o “Banco de Leite”. Eu tinha feito perguntas e tive referências positivas sobre a seriedade das pessoas envolvidas nas três organizações.


Uma breve explicação para estas escolhas: apoiar o “banco de leite” era a minha intenção inicial e um desejo que já vinha de trás, desde a altura em que fui surpreendido pela existência de uma associação focada em obter leite para alimentar as crianças numa altura em que era “moda” atacar o leite como alimento. 


Partilhando a ideia com uma pessoa amiga (de Lisboa, sublinho) tive como resposta a sugestão de também apoiar uma instituição local e a “Porta solidária” surgiu como opção natural pelo testemunho de pessoas que lá fazem regularmente voluntariado. Aproveitámos a viagem ao Porto por causa de levar os livros para a feira do livro (stand rota do livro), fomos a um supermercado, compramos leite e entregámos imediatamente na “Porta Solidária” da Igreja do Marquês. 


Mais recentemente, vi uma publicação / partilha da página “rebanhos + clima positivo” a pedir apoio para os pastores afetados pelos incêndios. De Murça sei que vem bom vinho, de Vila Pouca de Aguiar boas castanhas, mas Valpaços tem um significado diferente, porque era de lá natural um vizinho, o Sr. Luís, já falecido, que ajudou os meus pais nas horas vagas do seu trabalho na “emissora” (Posto emissor de rádio que existia entre Azurara e Árvore). Foi também a minha oportunidade de agradecer o seu trabalho e da sua família. De uma forma simbólica, espero que a minha pequena contribuição lembre a todos (governo, autarquias, sociedade em geral) que é urgente ajudar de imediato e acompanhar de forma continuada as vítimas dos incêndios, a gente que resiste no meio rural mais profundo.


P. S. Só é possível dar estas ajudas porque também tive ajudas na publicação do livro e houve quem comprasse o livro - eu sou apenas mensageiro a transmitir a vossa generosidade. 


#carlosnevesagricultor

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Água, rega e seca

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Eram horas de jantar e eu estava cansado. Cansado com o trabalho do dia e a rega dos últimos dois meses, Julho e Agosto. Num ano normal teria publicado a foto e perguntado na legenda se estavam cansados como eu. Não perguntei. Lembrei-me que podia ter como resposta “quem me dera ter água para me cansar a regar”. Tenho que dar graças.
Não estamos num ano normal, num ano daqueles com chuva no fim de agosto que nos permite parar de regar. Faltam duas semanas para ensilar o milho e ainda não posso desligar as regas. Há um campo arenoso que já costumava ser assim, eu até costumava dizer que só podia tirar a máquina de rega por um lado quando a máquina de ensilar entrava pelo outro, mas as restantes parcelas não eram assim.
Apesar de termos algumas pontas e margens mais secas, que não conseguimos regar quando necessário, temos tido sorte. Amigos e familiares nas redondezas já tem os poços secos, mas os nossos ainda tem água.
Dizem-nos que poderá ser o ano mais seco em 500 anos. Há seca nos Estados Unidos, Canadá, China. Nos rios da Europa já se veem as “pedras da fome”, aquelas que ficam à vista quando falta a água e significa que pode faltar a comida. Na França e na Inglaterra colheram-se campos de milho sem espiga. O Norte da Europa que gastava menos água porque não precisava de regar percebe agora porque temos de regar em Portugal e nos outros países do sul da Europa.
Fala-se em seca e fala-se nos consumos de água pela agricultura, mas a agricultura transforma água em comida. Querem comer ou ficar só com água? A água que não é usada pelas plantas ou animais evapora-se para a atmosfera ou infiltra-se na terra. A água que não vai nos alimentos (leite e carne) é excretada pelos animais, armazenada nas fossas e devolvida à terra. Os agricultores pagam pela água dos regadios, pagaram pelas captações que fizeram e pagam muito caro pela energia necessária para bombear a água de rega. Nenhum agricultor normal vai querer regar em excesso com os custos atuais. Teremos de procurar água, armazenar água, poupar água e, se necessário, estabelecer prioridades, mas não façam da água mais um tema de ataque contra os agricultores. Além da seca e da rega, também já estamos cansados desses ataques.
#carlosnevesagricultor

domingo, 21 de agosto de 2022

AGRADECIMENTOS E IMAGENS DA APRESENTAÇÃO DO LIVRO DE CRÓNICAS AGRÍCOLAS

MUITO OBRIGADO!

De coração cheio, agradeço aos que estiveram presentes na apresentação do livro "Desconfinar a agricultura" em Vila do Conde; aos que telefonaram, mandaram mensagens, aos que já compraram o livro, aos que vão comprar e sobretudo a todos os que tornaram possível este livro e esta apresentação!

Um agradecimento particular à Câmara Municipal de Vila do Conde, na pessoa do Vereador da Cultura, Dr. Paulo Vasques e à organização da Feira de Gastronomia de Vila do Conde, através dos Drs. Saraiva Dias e Carlos Laranja, pela cedência do espaço para a apresentação.

Apresento de seguida foto da mesa (João Villalobos, Arlindo Cunha, Carlos Neves e Ana Marques) e dos amigos presentes.

 

COMO COMPRAR O LIVRO?

 

Na feira de Gastronomia de Vila do Conde até 18 de agosto

Na Papelaria / Bazar TicoTico em Vila do Conde (Centro Comercial Alameda)

Por encomenda diretamente ao autor, através de e-mail para carloneves74@sapo.pt

Carlos Neves

 

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

DESCONFINAR A AGRICULTURA - Livro

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“DESCONFINAR A AGRICULTURA | Crónicas agrícolas - do prado ao prato”, de Carlos Neves, agricultor, foi apresentado publicamente a 20 de agosto por  Arlindo Cunha, ex-ministro da agricultura, Ana Trocado Marques, jornalista e João Villalobos, consultor de comunicação.
O livro é uma seleção de alguns textos do blog “Carlos Neves Agricultor” e da página do Facebook com o mesmo nome, publicados ao longo de dois anos, entre o outono de 2019 e o verão de 2021. Inclui ainda, a título póstumo, textos inéditos do pai do autor, Manuel da Silva Neves e do filho mais velho, Pedro Neves. As crónicas estão agrupadas nos capítulos “agricultura e família”, “cultivando os campos”, “milho”, “vacas e leite”, “máquinas e tratores”, segurança no trabalho”, “ambiente”, “vida associativa” e “temas diversos”.
Em jeito de prefácio, o livro conta com o comentário de três ex-ministros da agricultura, Assunção Cristas, António Serrano e Arlindo Cunha, que descrevem assim esta obra:
“Carlos Neves tem procurado ao longo dos anos fazer um enorme esforço de conciliação da sua atividade de agricultor, com a sua família, com a atividade associativa e ainda com uma presença diária nas redes sociais, revistas e diversos outros meios de comunicação, falando de Agricultura. Neste livro sistematiza e organiza em diversos capítulos as suas histórias de Agricultor, sempre com uma perspetiva didática, explicativa sobre os mais diversos temas associados à sua atividade.” (António Serrano)
“Nestas crónicas, escritas numa linguagem simples, mas elegante e apelativa, aborda, essencialmente, as vivências quotidianas de um agricultor do seu tempo e do seu meio. Sublinho três: Uma vivência pessoal, um testemunho objetivo de um agricultor tecnicamente preparado para a profissão que conscientemente escolheu e uma vivência de comunicador e pedagogo.” (Arlindo Cunha)
“Ao juntar as suas crónicas neste livro, Carlos Neves faz exatamente aquilo em que acredita: tece mais uns fios na história, na sua história, que também é, de alguma forma, a história de todos nós. Com este relato das suas vivências, filtrado por um olhar atento e sensível, assegura uma passagem ininterrupta para as gerações que se seguem. E mostra como a agricultura é um espaço privilegiado para a realização profunda da humanidade.” (Assunção Cristas)
Os lucros da publicação do livro foram destinados em primeiro lugar à compra de rações para os pastores afetados pelos incêndios em Murça, Valpaços e Vila Pouca de Aguiar, através da Associação ANCRAS, em segundo lugar à “PORTA SOLIDÁRIA”, que fornece refeições aos sem abrigo e outros pobres na Cidade do Porto e, por último mas de forma mais substancial, ao “BANCO DE LEITE”, Associação Amparo da Criança – Associação de Solidariedade Social, IPSS, dirigida por Frei Fernando Ventura (www.bancodeleite.pt). É uma associação que procura dar resposta ao problema da carência alimentar e escassez de recursos no âmbito infantil, em Portugal e S. Tomé e Príncipe, com leite em pó, leite substitutivo de leite materno, farinhas lácteas, papas, fraldas e artigos de puericultura e material escolar.
O livro estará à venda diretamente pelo autor através do e-mail carlosneves74@sapo.pt e noutros locais que serão anunciados nas suas redes sociais. 


Sobre o autor:
Carlos Neves nasceu em 1974. Cresceu, vive e trabalha em Árvore, Vila do Conde. É Técnico de Gestão Agrícola formado pela Casa-Escola Agrícola Campo Verde (Rates - Póvoa de Varzim) e licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Aberta. É casado com a Carina e pai do Pedro e do Luís. Cultiva os campos para alimentar as vacas e cria vacas leiteiras para alimentar os portugueses. Tem como paixões o associativismo e a comunicação. Escreve regularmente na revista “Mundo Rural”, em meios de comunicação social, no seu blog e diariamente no Facebook e Instagram sob o nome “Carlos Neves Agricultor”.

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Desconfinar a agricultura - crónicas agrícolas do prado ao prato

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 O livro “DESCONFINAR A AGRICULTURA | Crónicas agrícolas - do prado ao prato” está quase pronto e será apresentado no próximo dia 20 de agosto, sábado, a partir das 15 horas, na Feira de Gastronomia de Vila do Conde, com entrada livre. É baseado numa seleção dos textos que escrevi e publiquei no blog “Carlos Neves Agricultor” entre o Outono de 2019 e o verão de 2021 e tem mais algumas surpresas.


“Desconfinar”, porquê? Porque a agricultura e os agricultores, em termos de comunicação, estão “confinados” nos campos remotos, nas cabines dos tratores e máquinas agrícolas, nos estábulos e estufas, nas casas de lavoura à moda antiga, na moderna academia agrícola ou agrupados pelos algoritmos nas redes sociais do século XXI.


A publicação deste livro é o meu contributo para o setor agrícola sair da “bolha” em que está habitualmente e comunicar com a sociedade. Passar do digital para o papel. Sair das redes sociais e chegar um pouco mais longe. 


O livro será apresentado por Arlindo Cunha (Ex-ministro da agricultura), Ana Trocado Marques (jornalista) e João Villalobos (consultor de comunicação). Mais novidades nos próximos dias.


#carlosnevesagricultor 


 

terça-feira, 2 de agosto de 2022

Luzerna

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A luzerna é uma planta fantástica!
Não foi à toa que lhe chamaram a rainha das forragens. Estamos a 2 de Agosto, não chove há mais de um mês, o solo está seco, estas parcelas não são regadas, as infestantes concorrentes estão secas, não são terrenos frescos ao pé do rio, mas são solos profundos. A luzerna, sendo uma cultura que fica na terra ao longo de vários anos, vai desenvolvendo a raiz em profundidade (já ouvi falar em 10 metros, não sei exatamente o seu recorde) e vai captando o azoto da atmosfera através da simbiose com o rizobium nas suas raízes. Não podemos dizer que é uma cultura sem água, porque todas as plantas precisam de água e utilizam água, mas é uma planta muito poupadinha em termos energéticos, considerando a energia que seria necessária para bombear a água de rega e para captar e sintetizar o azoto nas fábricas de fertilizantes através do processo Haber-Bosch. Semeia-se de preferência na Primavera e fica vários anos a produzir. Os primeiros cortes têm a concorrência de muitas infestantes, uma coisa que ajuda é juntar aveia para o primeiro corte, depois ao fim de vários cortes a concorrência desiste e a luzerna fica só. O mais importante é evitar terrenos que encharcam no inverno, porque aí a luzerna morre.
#carlosnevesagricultor

domingo, 31 de julho de 2022

Agricultura biológica, o carro ou a bicicleta?

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O meu primeiro contacto direto com o mundo da agricultura biológica ocorreu há 30 anos num encontro sobre pecuária biológica em Barcelos, salvo erro, a 28 de março de 1992. Não tenho a certeza da data do encontro, mas foi o dia da minha inscrição como sócio da AGROBIO - Associação Portuguesa de Agricultura Biológica, que organizou o encontro. Eu tinha uma grande preocupação com as consequências do uso de agroquímicos na agricultura e uma enorme expetativa sobre este sistema alternativo de fazer agricultura, mas nesse encontro, sobre produção de leite havia apenas uma apresentação sobre a utilização de bagaço de cerveja numa vacaria do Algarve. Nada mais soube desse projeto. Anos mais tarde, quando lá fui de férias, já não havia produção de leite no Algarve, convencional ou biológica. Reparei com preocupação na recusa de usar antibióticos para tratar os animais (hoje ainda é assim nos EUA, mas o seu uso é permitido na agricultura biológica da Europa, em caso de “risco de vida do animal”, dobrando o intervalo de segurança). A saúde animal no modo biológico era assegurada por “prevenção” (sem vacinas), produtos “homeopáticos” e terapias alternativas. Percebi que não tinha condições para reconverter a vacaria do meu pai para o modo biológico e fiz o meu projeto final de curso na Escola agrícola sobre a implementação de umas estufas com horticultura em modo biológico. Tive uma excelente nota, mas na hora de decidir a minha instalação segui a agricultura convencional. Contudo, não esqueci o assunto. Durante anos recebi e li religiosamente o boletim da associação, a “joaninha”, impressa em papel reciclado. Divulguei a agricultura biológica. Em 2004, na primeira viagem que organizei com a AJADP, levei o grupo a ver uma vacaria no modo biológico no norte de Espanha, na Cantábria. Com 30 ou 40 animais, o agricultor vendia metade do leite para o mercado biológico e metade para o convencional, para não inundar o mercado. Em 2013, já  com a APROLEP, organizei uma visita à Casa Grande de Xanceda, na Galiza, com vacaria, produção de iogurtes e queijos. Acompanhei à distância a tentativa falhada de produzir leite biológico na região de Mogadouro e, mais tarde, a experiência positiva na ilha Terceira. E enquanto Vice-presidente da AJAP assinei centenas ou milhares de contratos de assistência técnica a agricultores no modo biológico ou de produção integrada.


Então, porque não faço agricultura biológica? E vocês, porque não compram produtos biológicos? Fui uma vez ao supermercado procurar os produtos lácteos biológicos e reparei nos autocolantes com desconto pela aproximação do fim de prazo de validade. Vemos notícias de aumento da venda de produtos biológicos, mas continua a ser um nicho de mercado, uma pequena percentagem. São produtos mais caros e somos um país com baixo poder de compra. Outra dificuldade é a mudança dos consumidores. Muitos consumidores que procuram a novidade do “biológico” depois seguem à procura de outras novidades e mudam para outros produtos mais depressa do que um agricultor muda a sua quinta para a produção biológica (são precisos dois ou três anos de reconversão).  Têm surgido notícias sucessivas de excesso de produção de leite biológico / falta de mercado nos Estados Unidos e na França, onde o preço do leite convencional ultrapassou o biológico nos últimos meses. A área cultivada em modo biológico tem aumentado no nosso país e na Europa, mas tenho a perceção que isso acontece essencialmente por causa das ajudas da PAC e não por causa do mercado.


Outra coisa que acho negativa na agricultura biológica é a recusa em usar vacinas ou pesticidas de síntese (como escrevi acima, já se usam antibióticos se for necessário). É a recusa de aproveitar o trabalho da investigação mais recente. Quem produz no modo biológico tem menos opções para proteger as plantas que cultiva ou os animais que cria. Um produto não é mais tóxico apenas por ser artificial. Um cogumelo venenoso é natural. Veneno de cobra é natural. Um pesticida natural pode ser mais tóxico do que um produto sintetizado em laboratório. O critério para usar um produto devia ser a toxicidade e não o seu modo de fabrico. 


Ainda outra coisa que me fez afastar da agricultura biológica foi perceber que havia sempre uma crítica em relação à restante agricultura “convencional”, a agricultura “normal”, a que produz 95 ou 99% dos produtos que se vendem nos mercados. Via mais críticas à outra agricultura do que valorização da agricultura biológica.  Produzir biológico fica mais caro porque a produção em geral é menor, os fatores de produção são mais caros (adubos, pesticidas e rações certificados) e há menos ferramentas de proteção das culturas disponíveis. Para convencer o consumidor a pagar mais, o marketing biológico cai muitas vezes na tentação de promover o medo passando a ideia de que os produtos da agricultura normal estão “cheios de químicos”, mas no modo biológico também se usam pesticidas (de uma lista mais restrita).  Qualquer produto agrícola que se vende ao público não pode ter resíduos de pesticidas ou antibióticos. Há gente que não cumpre as regras? Sim há. Mas há fraudes em ambas as formas de agricultura, tal como acredito que a maioria seja gente séria e bem-intencionada de ambos os lados. Não há santos de um lado e diabos do outro.


O problema é que a agricultura biológica é mais fácil de defender em debates teóricos do que colocar em prática. Esses debates lembram-me as discussões sobre o carro ou a bicicleta que aconteceram há 20 anos quando chegou a Portugal o “dia sem carros”.  Toda a gente dizia na televisão que a bicicleta era uma excelente ideia. Experimentaram um dia sem carros no centro de Lisboa durante um dia da semana e foi um enorme sarilho para levar os idosos ao lar e os miúdos à escola e para o trânsito do resto da cidade. Nos anos seguintes o dia sem carros passou a ser feito num local simbólico e ao domingo, para não dar problemas. 


Comparei a agricultura convencional ao carro e a agricultura biológica à bicicleta. Entretanto, tal como as agriculturas, os carros e as bicicletas evoluíram. Surgiram os carros elétricos, que não libertam gazes durante a circulação. Do outro lado, surgiram as bicicletas elétricas que permitem a sua utilização em cidades de colinas como Lisboa. Surgiram ainda ciclovias ao lado das estradas para os automóveis. 


Também a agricultura biológica e a agricultura convencional evoluíram. Tenho o máximo respeito por quem consome ou produz no modo biológico por paixão, por convicção ou por ser mais rentável combinar a venda dos produtos com as ajudas existentes. Não digo que dessa água não beberei, mas ao fim de 30 anos á volta deste assunto continuo a apostar na “terceira via” da “produção integrada”, uma espécie de meio termo entre uma agricultura que recusa todos os “químicos” e outra que os utilize de modo excessivo e sem cuidado. Penso que é por aí que passa o futuro, por uma agricultura que aproveita o melhor da inovação e investigação, que escolhe os produtos testados como menos tóxicos e mais seguros, mas sem deixar de garantir a produção de alimentos para todos (escrito para o "Mundo Rural" de Julho / Agosto de 2022




domingo, 24 de julho de 2022

Ponham os olhos na França, na Holanda e no Sri Lanka

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Nos anos em que o meu Verão corria mais devagar, isto é, quando cultivava menos parcelas e o meu pai tomava conta de algumas regas, costumávamos sentar-nos no sofá após o almoço a ver a volta à França em bicicleta, “o único veículo em que o animal puxa sentado”, como dizia o meu pai. A volta à França, o “Tour”, é mais do que desporto individual e coletivo, esforço e estratégia de equipa. É uma montra dos monumentos e paisagens de França, mantidas pelos jardineiros da paisagem que são os agricultores. A agricultura é importante na França e há uma preocupação de manter a agricultura em todo o território e uma oportunidade para os agricultores criarem empatia com a sociedade, com os consumidores mostrarem o seu orgulho pela sua atividade de cultivar e alimentar o país.


Havendo na França uma tradição de violentos protestos por parte dos agricultores, por estes dias esses protestos ocorrem na Holanda. Ao longo das últimas semanas, milhares de tratores estiveram nas estradas, autoestradas, aeroportos, centros de distribuição e todo um conjunto de locais para gritar “No farmers, no food” (sem agricultores não há comida), porque o governo holandês quer impor uma redução brutal da emissão de nitrogénio através da redução de adubações e da atividade agrícola em algumas áreas, ameaçando com expropriação de terras em última análise. Para além de serem obrigados a reduzir a produção em alguns casos para níveis que não permitem viver da agricultura, os agricultores sentem a injustiça de verem outras atividades, por exemplo indústrias com evidentes impactos ambientais, serem consideradas prioritárias e não sujeitas a reduções. Tudo isto acontece quando o mundo enfrenta uma crise alimentar por causa de secas e da guerra na Ucrânia e quando a Comissão Europeia, no caso guiada pelo Vice-presidente holandês Frans Timmermans, quer impor a toda a Europa a estratégia “Farm to fork” ( “da quinta ao garfo” ou “do prado ao prato” como nós dizemos) que impõem uma redução acentuada no uso de adubos químicos e pesticidas por toda a Europa, uma proposta que, para mim, continua sem fundamentação cientifica para os números  que se apontam como objetivos a reduzir ou aumentar.


Entretanto, do outro lado do mundo, a Sul da Índia, no Sri Lanka, antiga Ceilão, houve uma revolução  e o presidente fugiu do país em consequência de uma enorme crise. Crise por causa do custo dos alimentos, por causa da guerra na Ucrânia, por causa da crise do turismo por causa do Covid… e porque quiseram proibir os adubos químicos e os pesticidas de forma imediata e radical. A experiência durou seis meses até o governo voltar atrás, mas o estrago já estava feito e um país que exportava chá e produzia arroz em abundância passou a ter de importar comida nas atuais condições…


Ficam aqui algumas ligações para quem quiser saber mais sobre estes assuntos, que são complexos. Não acreditem em tudo o que lêem, vejam ou ouçam aqui ou noutros lados, nem pensem que ficam a saber tudo nos jornais e telejornais. Mantenham uma desconfiança prudente e moderada. Moderação, ponderação e diálogo franco e fundamentado, coisas que parecem faltar cada vez mais num mundo extremado e nestes casos em particular.


#carlosnevesagricultor


PS – por causa das regas, do trabalho associativo e de uma surpresa que estou a preparar, tem havido pouco tempo para escrever, mas em breve haverá novidades com muito para ler.


https://www.publico.pt/2022/07/16/azul/noticia/transicao-forcada-agricultura-biologica-sri-lanka-ajudou-ruina-pais-2013419


https://onovo.pt/opiniao/o-fim-do-mundo-e-o-fim-do-mes-DF11726577

domingo, 3 de julho de 2022

Se querem comer, controlem este gado

 


Pode ser uma imagem de relva

Nenhuma descrição de foto disponível.

“A minha aldeia produzia 20 toneladas de milho grão por ano, agora não produz nada por causa dos javalis. Que se pode fazer? Eu sou velho e manco e já não posso fazer nada”.



Este testemunho tocante, que estou a citar de cor, foi o comentário que mais me marcou, entre os 1200 comentários na minha página  do facebook à publicação “Portugal não é um país agrícola”, onde explicava porque não é fácil, de repente, produzir em Portugal os cereais que agora importamos, nomeadamente por ter vastas áreas “pedrícolas”. Não consegui ler todos os comentários por falta de tempo, acho que me perdi entre os elogios dos que me queriam fazer ministro e outros que diziam o contrário, incluindo alguém que disse “vai trabalhar, pá!”, que foi uma boa ordem porque já costumo fazer isso e portanto fui… 🙂

Lembrei-me do desabafo sobre os javalis alguns dias mais tarde, ao ver um vídeo da Lúcia Velasco, uma “ganadera asturiana”, que cria vacas em extensivo e vídeos intensivos em direto a partir do meio rural e em defesa do meio rural de Espanha. “O campo não se vende, se defende”. Eu tinha começada a seguir a Lúcia alguns dias antes e acompanhei a deslocação da sua manada de vacas para a “brañas”, que devem ser o mesmo que as brandas que temos no Gerês, e que são “núcleos habitacionais temporários” nas partes altas das montanhas, ocupados durante a Primavera e Verão, para acompanhar o gado na pastagem. O vídeo tinha como título: “Senhora Rivera, venha cá tomar conta do seu gado!” e eu pensei, a sério que pensei, que a senhora Rivera era alguma vizinha cujas vacas tinham fugido e andavam na horta dos outros a comer as couves, mas não, o “gado” da senhora Rivera eram os lobos que ameaçavam os rebanhos e a senhora Teresa Rivera é a Ministra do Ambiente de Espanha que apresentou uma lei que proíbe a caça aos lobos que servia para controlar a sua população, e no vídeo a Lúcia vai respondendo aos comentários e explicando que os terrenos são privados, que levam as vacas para o monte há centenas de anos daquela forma, que não tem condições para guardar as vacas em currais durante a noite e que não lhe podem dizer que querem as vacas criadas ao ar livre e depois ter que andar a tomar conta dos lobos durante a noite.

Voltemos a Portugal. Eu não sou caçador e ainda não tive problemas com lobos ou javalis, mas cada vez encontro mais notícias sobre este problema e mais desabafos como do senhor da aldeia que deixou de produzir milho. Os javalis destroem milheirais e outras culturas, podem espalhar doenças ao porco doméstico e ser um perigo noutras situações. Não sei dizer se a caça é a melhor ou a única solução, mas acho que a sociedade, o governo, as autarquias, se querem ter comida produzida em Portugal, têm que estudar isto a sério e tomar decisões para controlar este “gado” que se tornou numa praga.

(A foto dos javalis foi tirada de um vídeo de França, a foto do prejuízo é de um vídeo de Portugal).


quinta-feira, 30 de junho de 2022

Caminhos de rega

Pode ser uma imagem de ao ar livre

Pode ser uma imagem de ao ar livre

Pode ser uma imagem de ao ar livre

Ontem usei a velha fresa para limpar as ervas daninhas que cresciam em alguns caminhos de rega. Noutros campos passei a capinadeira para o mesmo fim. Chamamos "caminho de rega" ao espaço livre que deixamos no meio das searas de milho para que possa passar o "trenó" onde está fixado o "canhão de rega", "bico" ou "aspersor". Quando o meu pai comprou esta fresa há 42 anos, não havia caminhos de rega. Colocavam-se os tubos amarelos da "Facar" pelo meio do milho com os pequenos aspersores ou com o tripé do canhão de rega, e era um esforço enorme para mudar a rega de sítio. Depois vieram os tubos brancos da heliflex mas o serviço não melhorou. Antes disso, há 50 anos para trás, também não havia caminhos de rega, regava-se por alagamento com a ajuda de regos abertos pelos arados entre as linhas do milho.

Nessas alturas havia muita gente para o trabalho agrícola e era quase um sacrilégio deixar assim um caminho no meio do campo sem semear. Depois, numa fase de transição, o meu pai passou a semear sorgo na zona do caminho da rega e no cabeceiro, porque "abrir os caminhos" à foucinha e carregar para o reboque ou mais tarde meter à posta na máquina de ensilar era outro frete que exigia a ajuda de jornaleiros e familiares que deixaram de existir. Se os nossos avós vissem estes "caminhos" por semear que hoje deixamos nos campos iam moer-nos o juízo, mas os tempos são diferentes. Antigamente faltava terra para cultivar, hoje falta gente para a trabalhar manualmente, e desta forma com menos gente e com as máquinas conseguimos cultivar mais área que entretanto ficou disponível.

Curiosamente, quando usamos "rega gota a gota" não são precisos caminhos de rega e com as "novas"automotrizes para ensilar (coloquei aspas porque já chegaram há 20 anos à nossa região) também não precisamos destes caminhos para começar a ensilar. Antigamente eram necessários porque a máquina cortava uma linha de milho ao lado do trator.

domingo, 19 de junho de 2022

As nossas férias e alguns postais

Pode ser uma imagem de 1 pessoa, em pé, monumento e interiores


Após a visita à Feira Nacional de Agricultura, em Santarém, na quinta-feira, 9 de junho, aproveitamos meia viagem e seguimos para umas mini-férias a Sul, pensadas há muito mas marcadas em cima da hora, porque há sempre questões de trabalho e família a ponderar. Na manhã seguinte, o mais cedo possível, com mais hora e meia de viagem fomos a Sevilha visitar a sua enorme catedral gótica onde repousam os restos mortais de Cristóvão Colombo. Mesmo ao lado da Catedral está o Real Palácio Alcazar de Sevilha, também enorme com a sombra refrescante dos seus jardins. Deixámos rapidamente os 40 graus de Sevilha e passámos as últimas horas dessa tarde na praia de Monte Gordo. Voltamos lá nos dias seguintes e na manhã de hoje, fora as horas de calor, que foi muito, mas a praia e a água estavam fantásticas.


E contar isto vem a propósito de quê? Bom, partilho estas coisas para que saibam que estamos bem e despertar uma pontinha de inveja (boa) que sirva de exemplo. Um agricultor ou qualquer outra pessoa não tem que estar prisioneiro do seu trabalho. Pode tirar férias, mesmo que sejam curtas, mesmo que sejam próximas, mesmo que sejam simples. Mesmo que seja ir uns bocados à praia como fizemos há 2 anos e faremos no resto do verão, se não houver oportunidade de fazer mais alguma "escapadinha".

Como é evidente, não há tempo para a escrita de grandes textos por estes dias, mas houve imagens e episódios que deram alguns "postais":



Postal de férias I

Pode ser uma imagem de flor, árvore e ao ar livre

A A49 é a auto-estrada espanhola que dá seguimento à Via do Infante / A22 e nos permitiu ir de Vila Real de Santo António a Sevilha em pouco mais de hora e meia. É uma estrada muito bonita, pelos arbustos floridos ao longo de todo o trajeto (nas bermas e separador central) e por estar ladeada por muitos camposcde girassol e alguns de trigo. Um passeio bonito, um encanto para os olhos. A qualidade das fotos não permite mostrar toda essa beleza porque é muito limitada por serem fotos tiradas de um carro em andamento.

 



Postal de Férias II - agricultura na praia

Pode ser uma imagem de ao ar livre e texto que diz "T&M GESTÃOAGRO-SILVICULAS, CAMPOS Agrícolas DA SERVIÇOS Prestações de Serviços Alentejo e Algarve com 966 f tmcampos 143 756"



- Olha a bola de Berlim!!!

Fiz sinal ao vendedor e esperei que chegasse ao pé de nós. Pedi uma bola de alfarroba com creme e meti conversa ao reparar na publicidade colocada na frente da caixa.

- Então diz aí que presta serviços agrícolas e vende bolas de Berlim?!

E ele explicou que são duas atividades complementares, que na praia estão muitos potenciais clientes das limpezas e vedações que fazem na zona Sul de Portugal, apesar da falta de mão de obra. Fica aqui o contacto, para o caso de precisarem. A bola de alfarroba estava muito boa.

 



Postal de férias III - Orgulho de ser agricultor

Pode ser uma imagem de 2 pessoas, pessoas em pé e ao ar livre



"Os homens não nascem todos iguais, só os melhores se tornam agricultores." É esta a tradução da frase que está escrita nesta T-shirt que costumo usar nas férias.

Está escrita em inglês porque a comprei há cerca de 20 anos na feira agrícola do Canadá, em Toronto, e traz-me boas memórias dessa viagem realizada com 20 graus negativos, menos 60 do que encontrei nestas férias e algumas peripécias que um dia gostava de contar. Nessa altura ainda havia um sentimento generalizado de "pena" dos agricultores, pobres, sujos, analfabetos, "obrigados" a ser agricultores por não terem capacidade de fazer outra coisa. Hoje isso acontece cada vez menos, a agricultura é cada vez mais uma opção, mas na habitual tradição de passar do oito para o oitenta, trocou-se a "pena" pela "raiva" dos agricultores que "destroem o ambiente" ou "provocam o aquecimento global".

O meu objectivo ao usar esta T-shirt não é ser arrogante, entrar no campeonato das profissões mais importantes ou dizer a toda a gente na praia que sou agricultor, até porque acho que na rua, na praia ou no Shopping o agricultor deve passar despercebido, mas tão só marcar uma posição com algum humor e uma pontinha de orgulho para equilibrar as posições habituais. Bom domingo, bom descanso, boas férias!





 

sexta-feira, 3 de junho de 2022

A soberania alimentar de Portugal e a "Desglobalização"

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Só temos cereais para um mês em Portugal. Parece mau? Já foi pior. Quando a guerra começou só tínhamos cereais para 15 dias. Como de costume, há navios a caminho de Portugal e cereais “comprados” para abastecer o país até final do ano mas muito mais caros, como é evidente. O mercado já estava sob pressão e a guerra na Ucrânia veio agravar tudo. Era moda poupar no armazenamento, mas algo está a mudar. O mundo que nas últimas dezenas de anos avançou em força para a globalização está agora num processo de “desglobalização”. Até onde irá, não sei.


Portugal deu um enorme contributo para a globalização com os descobrimentos. As vantagens do comércio internacional foram defendidas em 1817 pelo economista inglês David Ricardo baseando-se no Tratado de Methuen, o “Tratado dos panos e dos vinhos”, realizado entre Portugal e a Inglaterra em 1703. Segundo essa teoria económica, cada país ganha em exportar aquilo em que é mais competitivo e importar de outros países aquilo em que é menos produtivo. O desenvolvimento dos transportes e a paz global das últimas décadas aumentaram a globalização. A China tornou-se a fábrica do mundo e o que nos permitiu ter acesso a coisas de baixo preço e tirou da fome e miséria milhões de chineses, importando comida do resto do mundo.


Entretanto, um navio encalhou no canal do Suez e provocou um enorme congestionamento de mercadorias que paralisou fábricas em todo o mundo. Depois o combate à pandemia fechou fronteiras, faltaram chips, a pandemia foi bloqueando economias e os transportes de forma desfasada e agora a guerra na Ucrânia veio mostrar a dependência energética da Europa em relação à Rússia. O mundo ocidental percebeu que, a troco de coisas baratas, comida barata e energia barata, estava refém de parceiros económicos perigosos. 


Do prado ao prato, é preciso aumentar o armazenamento. A Alemanha aconselhou os cidadãos a ter em casa reservas para 10 dias. Penso que é um bom conselho para acautelar uma tempestade, um ataque informático, uma greve ou outra coisa que impeça os transportes de funcionarem como é habitual. Não deixar esvaziar a despensa, o depósito de combustível ou os silos de ração da vacaria. Ter alguma produção própria e manter os stocks altos. 


A Europa dos excedentes que tomava decisões de “barriga cheia” já tinha esquecido o objetivo inicial da PAC, acabar com a fome após a segunda guerra mundial. Nas últimas revisões, a PAC tornou-se cada vez menos alimentar e cada vez mais ambiental. Nos últimos meses está tudo a ser repensado. O primeiro objetivo da agricultura tem que ser a alimentação. 


Não é tempo de voltar à policultura de subsistência em que cada família comia aquilo que cultivava, mas quem puder cultive alguma coisa no seu quintal. Não é tempo de voltar a fronteiras nacionalistas, mas penso que o bloco europeu deve ser autosuficiente na alimentação. Apesar da agricultura ter sido “moeda de troca” nos acordos comerciais com os países para onde a Europa queria vender carros e outras tecnologias, também na agricultura temos vantagem em importar máquinas, fertilizantes e muita coisa que não temos cá e, por outro lado, vender a melhor preço alguns dos nossos produtos. 


Talvez não seja razoável produzir 100% do trigo em Portugal, mas podemos produzir mais do que os 5% atuais. Podemos produzir mais milho e arroz. Podemos produzir mais frutas, hortícolas, vinho e muitos outros produtos em que tenhamos vantagem e que podemos exportar para quem nos vende o trigo e outros produtos. Podemos substituir os 500 milhões de euros que importamos de leite e produtos lácteos de valor acrescentado por produtos nacionais. Podemos fazer tudo isso se pagarem aos agricultores um preço justo que cubra os custos de produção. Não se trata de viver orgulhosamente só, trata-se de criar e manter reservas para estar seguro, ter poder negocial e não ir às compras com fome.


#carlosnevesagricultor