sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

As crianças e os tratores

FB_IMG_1735372394556.jpg


“Alguns miúdos crescem a brincar com tratores, os mais sortudos ainda o fazem.” Li esta frase há poucos dias, numa publicação da AGDAILY e lembrei-me dela ontem quando fui
com o trator cortar erva no terreno de um colega meu em Mindelo. Nas traseiras de uma casa vizinha, dois miúdos, que não conheço e certamente também não me conhecem, brincavam sob o olhar atento de uma mãe. Ao passar perto, acenaram-me com alegria e acenei também para eles. Percebi que brincavam no chão com tratores e reboques. Estavam quase novos, devem ter sido presentes deste Natal. Os miúdos vieram mostrar-me os brinquedos deles enquanto eu trabalhava com o meu. Fizeram uma festa de cada vez que passei perto e, já recolhidos porque o fim da tarde trouxe o frio, vieram cá fora acenar e despedir-se quando perceberam que eu ia embora. Não me parece que fossem agricultores, porque a casa não tinha aspecto de “casa de lavoura” com espaço para guardar um trator no alpendre das traseiras. Acho que são miúdos que gostam de tratores… e de agricultores, já agora, o que é de destacar nos dias de hoje em que tanta gente tem uma imagem negativa da agricultura e dos agricultores. Ou talvez, porque “uma árvore a cair faz mais barulho do que uma floresta inteira a crescer”, talvez sejamos nós que damos mais importância às críticas do que aos elogios, ou pelo menos ao “apoio” implícito da maioria silenciosa que não anda na rua ou nas redes sociais a defender os agricultores mas vai ao mercado e compra os nossos produtos agrícolas.
Também no desfile de natal com tratores, na semana passada, em Vila do Conde, organizado pelos Tainadas Mundiais , havia na rua muitos rostos felizes por verem tratores e agricultores. E, se houvesse prémios para o público como houve para os tratores melhor decorados, também merecia prémio um pequenino que, acompanhado pelo pai, trouxe o seu trator para ver os nossos passar. Não tirei foto, mas houve gente que reparou, tirou foto e fez-me chegar a imagem, de que ocultei os rostos por razões óbvias de privacidade.
No artigo que li no AGDaily, sob o título “O significado de um trator para uma criança no Natal”, Kacie Hulshof escreveu que “Muitos de nós percebemos que nem todos tiveram a mesma educação. No entanto, uma coisa que temos em comum é o amor pelos tratores desde tenra idade. Seja pela admiração de ver a mãe e o pai a conduzir o trator ou simplesmente por contemplar uma máquina enorme.
Quando era miúda da quinta, ainda me lembro de ter recebido o meu primeiro trator de brincar, um John Deere. Tendo crescido apenas com irmãs, fazia com que as nossas barbies conduzissem os tratores juntamente com os cavalos que fui acumulando ao longo dos anos. Tinha apenas 4 anos. As minhas irmãs e eu brincamos com ele durante horas. Não nos preocupávamos com a marca ou com o quão novo ele era, o meu pai sempre disse que o melhor tipo de trator era aquele que funcionava(...)”
#carlosnevesagricultor #tratores #cronicasagricolas

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Um parto difícil

FB_IMG_1735161519570.jpg


25 de dezembro de 2024. São 19h00 e, aparentemente, o trabalho na quinta está feito, por hoje. Normalmente trabalho até às 20h30 mas aos domingos e dias de festa tentamos simplificar e reduzir o trabalho aos cuidados essenciais com os animais. Apesar disso, às vezes parece que está tudo calmo e as coisas complicam-se. Há alguns anos, neste mesmo dia 25, por esta hora, chamei a veterinária para me ajudar num parto difícil e acabámos a noite com uma cesariana complicada.
Este ano aqui na quinta já nasceram 68 vitelos. Desses, 56 nasceram sozinhos, sem qualquer ajuda e quase todos os restantes apenas precisaram de ajuda fácil, com excepção de dois ou três casos complicados. Nem sempre foi assim. Antigamente tínhamos de ajudar na maior parte dos casos e às vezes fazer muita força e pedir ajuda dos vizinhos. O que mudou? Com os registos que se fazem há décadas, em todo o mundo, fomos selecionando as vacas e touros cujas crias nascem em “parto fácil”. Além disso, temos à disposição “sémen sexado” para a inseminação artificial que permite ter 90% de fêmeas e usamos esse sémen nas novilhas, pois o primeiro parto é sempre o mais complicado. Tendo muitas fêmeas filhas das novilhas, podemos inseminar algumas vacas adultas com a raça angus, melhor para a produção de carne mas que também dá crias pequenas ao nascer e por isso partos fáceis.
Na manhã de 5 de novembro, estava tudo calmo na vacaria. Normalmente somos dois, mas nessa manhã eu estava sozinho, porque o Hugo tinha saído para levar uma pessoa da família a uma consulta médica. Passei perto do lote das “vacas secas” e procurei uma vaca que sabia estar em fim de tempo, para ver se deveria retirá-la para a maternidade, um espaço reservado, com palha. Percebi que já era tarde, porque a vaca tinha-se antecipado e já estava em trabalho de parto. Via-se uma pata do vitelo (para quem não saiba, os vitelos nascem com as patas para frente junto à cabeça, como os nadadores que se atiram para a água na piscina). Pensei que estava tudo bem e continuei o que estava a fazer por mais alguns minutos. A regra geral é que não devemos atrapalhar, devemos observar, deixar a vaca dilatar e a natureza seguir o seu caminho. Pensei melhor. Faltava a parte de “observar”. Há quanto tempo estaria a vaca em trabalho de parto? Calcei luvas obstétricas e meti a mão dentro da vaca (uma vaca é muito grande e os vitelos nascem com cerca de 40 kgs, há algum espaço). Vi que tinha uma pata virada para trás, por isso não tinha nascido sozinha. Foi fácil endireitar. Fui buscar os “forceps”, a que chamamos aparelho, amarrei as cordas às patas do vitelo, comecei a puxar com calma e o vitelo começou a sair normalmente. Também aqui, regra geral, devemos dar tempo para a vaca dilatar. De repente, quando já faltava pouco para sair, a cria (uma vitela) deu dois esticões, estrebuchou! Percebi que devia estar há muito tempo para nascer e que podia perdê-la. Não vais morrer na praia, caramba, pensei (devo ter dito palavras piores, que já não lembro e se lembrasse não escrevia aqui). Puxei rapidamente para acabar o parto. Percebi que a vitela não tinha movimentos de respiração. Tentei pendurá-la para sair alguns líquidos do nariz que deve ter ingerido durante o parto. Não consegui à primeira. Agarrei-a junto a mim, a vitela ainda molhada e escorregadia cheia do líquido amniótico, que se lixe a roupa, vai para lavar e depois eu também tomo banho, que a água lava tudo menos a má-língua. Adiantou pouco. Puxei-a para fora do estábulo, tentei provocar tosse / espirro com uma palhinha no nariz, também não vi resposta. Fui buscar o feno que tinha preparado para a cama da vitela, ajoelhei-me, esfreguei-a com força, mexia as patas, fiz compressões no peito (boca-a-boca não dá jeito). Comecei a vê-la respirar, levantou a cabeça. Escapou! Às vezes perdemos estas batalhas, mas esta ganhei e não vou esquecer. Algumas horas mais tarde, novo susto, mas falso alarme, estava só a dormir. Não mamou como é normal, mas é normal não mamar depois de uma cena destas. Um vitelo normal levanta-se ao fim de meia hora e vai procurar as tetas da vaca. Dei mais tempo. Não fazia sucção. Temos uma sonda para essas situações, para dar o leite entubando o vitelo, mas temos que usar com cuidado, para não ir líquido para os pulmões e perder tudo. Demos-lhe o leite com sonda dois ou três dias, foi vista e medicada pela veterinária, demorou mais alguns dias a levantar-se e algumas semanas até ficar com a pata direita (a tal que estava virada para trás no momento do parto). Chamei-lhe "Pretinha" mas posso mudar o nome se tiverem outra sugestão que eu goste mais.
Felizmente, isto não acontece todos os dias, mas qualquer criador de vacas têm histórias como esta para contar. Na Natureza, o final seria diferente. A vaca e a vitela teriam morrido ao fim de horas ou dias de sofrimento, sem assistência. Aqui a sua vida também terá um fim daqui a alguns anos, mas até lá daremos todos os cuidados e assistência médica para estarem com o melhor conforto possível a produzir leite e bifes para vos alimentar.
#carlosnevesagricultor #vacas #leite #vitela #angus

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Cinco fardos, dois rolos e favores em cadeia


feno24-1.jpg




feno24-4.jpg


feno24-3.jpg


feno24-2.jpg



“Cinco pães e dois peixes” é o nome de uma campanha solidária que a ACR (*) tem há vários anos, onde o pouco se torna muito para ajudar quem mais precisa.

Antes desta campanha surgir, noutra atividade da ACR, eu ouvi um dia alguém, talvez o saudoso Padre Rui Osório, Assistente da ACR no Porto, talvez outro que não recordo, levantar a hipótese de que o milagre da multiplicação dos peixes não tivesse sido multiplicação mas antes um “milagre da divisão”. Talvez não houvesse apenas um rapaz com cinco pães e dois peixes. Talvez o exemplo de partilha desse alimento tenha contagiado outros que também tinham trazido uma merenda escondida e dessa partilha tenham sobrado doze cestos.

Não sabemos exatamente o que aconteceu e não quero discutir isso. Sabemos que a Bíblia não é para ler “à letra”, como uma notícia de um acontecimento ou um livro de história. É muita coincidência ter cinco pães e dois peixes, 7 alimentos, como os sete dias da semana, e tenham sobrado 12 cestos como os 12 meses do ano e as doze tribos de Israel. Sabemos que 3, 7 e 12 são números que representam a plenitude na Bíblia. Pode ter sido multiplicação ou divisão. Foi impressionante e inspirador e deve servir de exemplo.

Assisti aos incêndios de Setembro de 2024 com o coração apertado, debaixo do fumo trazido pelo vento, mas longe do fogo, orgulhoso por ver o contributo que a agricultura e muitos agricultores deram para proteger as casas e bens de muita gente, com tratores, cisternas e depósitos improvisados, combatendo o fogo onde os bombeiros não conseguiram chegar. Entre muitos relatos de heroísmo que devem ser recordados, Impressionou-me o relato do trabalho de um estudante universitário com o trator do avô, a lutar contra o fogo num trator com o motor de arranque avariado, que só pegava de empurrão (agora os tratores novos com caixa de velocidades automática já não arrancam assim). Já depois de ter escrito este artigo fiquei feliz ao saber que a empresa que importa os motores Perkings já lhe ofereceu a revisão e reparação do trator. Merecido!

Alguns dias depois, recebi um pedido para ajudar os agricultores de Castro Daire que perderam tudo nos incêndios, nomeadamente pastagens e feno. Quem pediu ajuda não era agricultor, mas alguém preocupado com os agricultores e sabia que no Verão de 2017 também andei de trator, reboque e camião a recolher rolos de fenosilagem para ajudar um pouco quem precisava mais.

Este ano tínhamos menos tempo e mais experiência, por isso dei a volta com o “chapéu” a “fazer o peditório” de forma moderna. Discutimos o assunto num grupo online de produtores de leite da Aprolep Associação dos Produtores de Leite de Portugal e quem quis ajudar escreveu num formulário Google que valor estaria disponível para dar e contratámos a compra de feno para enviar. Contactámos a associaçao de criadores da raça arouquesa, responsáveis locais da ACR e da autarquia de Castro Daire para organizar a distribuição local do feno aos pequenos agricultores de Cinfães e Castro Daire. Muito obrigado a quem ajudou e trabalhou em todo este processo! Para acabar de encher o segundo camião de feno, porque ainda havia espaço após esgotar as primeiras ofertas, coloquei à venda alguns exemplares do meu livro de crónicas agrícolas e o valor, descontando o custo do envio dos livros, foi todo para converter em feno. Da minha parte, só dei algum tempo para isto.

A impressão desses livros já tinha sido paga pela generosidade de um amigo e o valor da venda tem me permitido tornar real o que vi no filme “Favores em cadeia”, em que alguém ajuda outro, de alguma forma, e quem é ajudado não pode agradecer, mas é “obrigado” a fazer três boas ações a três pessoas diferentes, numa espécie de “reação em cadeia”.

A nossa intenção é preservar a privacidade de quem ofereceu e quem deu ajuda, mas é importante divulgar estas coisas para que os agricultores, enquanto grupo, não sejam notícia apenas para pedir ajuda, mas também quando são solidários. Para que isto sirva de exemplo para outras situações e para que exista um controlo público sobre as ofertas e ajudas, de modo a que a repartição seja o mais justa, equilibrada e abrangente.

É claro que o Estado deve ajudar e vai ajudar, mas as ajudas do estado demoram tempo, há sempre leis a fazer, formulários a preparar, faturas a exigir, controlos a fazer. Por isso as pequenas ajuda privadas imediatas são importantes (e houve muitas que não foram notícia!), não só pela ajuda em si, mas sobretudo porque são um sinal de esperança, de ânimo para quem perdeu muito, para quem passou por muito. Permitem-nos dizer a essas pessoas que não estão sozinhos e dizer que os apoiamos porque sabemos que a agricultura é importante para produzir alimentos, para ocupar o território, para modelar a paisagem e para proteger as populações dos incêndios ao manter os terrenos limpos pela pastagem ou cultivados junto às povoações. E por ter os tratores que ajudam a apagar incêndios, mesmo sem motor de arranque!...

Que esta minha história aconchegue os vossos corações neste Natal. Um santo e feliz para todos! (*) Escrito para a revista da Acção Católica Rural - ACR - Mundo Rural

Carlos Neves

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Novembro quente

FB_IMG_1733214919376.jpg


Chegámos a Dezembro e as árvores do meu pomar ainda não perderam as folhas. Pelo contrário, nasceram folhas novas nos pessegueiros e os marmeleiros estão em flor. O milho de algumas espigas que caíram durante a silagem está nascido no meio do nabal, onde os grelos se adiantaram e não sabemos se chegam ao Natal. Novembro foi quente e a primeira semana de Dezembro continua igual. Não está fácil para a agricultura, sobretudo para aquela que é mais sensível ao clima, por exemplo a fruta e a vinha. Mas nunca foi fácil para a agricultura e se houver investigação, tecnologia e partilha, a agricultura vai lutar, adaptar-se e resistir. Felizmente, o nosso sistema milho - erva - vacas estabuladas, apesar de ser tão criticado, é um dos mais resistentes às alterações climáticas. Os silos estao cheios e a erva está a crescer. Este campo de azevém que semeei no fim de Setembro já deu um corte e está pronto a dar outro, sem ter levado qualquer adubo ou estrume, apenas aproveitando o que sobrou do milho e o estrume liquido colocado antes da sementeira. Pela nossa parte (nossa, de todos os agricultores) , não vai faltar comida na vossa mesa.


#carlosnevesagricultor #agricultura #desconfinaraagricultura #milho #erva #azevem #azevemgalego


 

sábado, 23 de novembro de 2024

Visita da Escola

FB_IMG_1732400561192.jpg


FB_IMG_1732396798575.jpg


FB_IMG_1732396793319.jpg


FB_IMG_1732396787813.jpg


FB_IMG_1732396763045.jpg


No início de Novembro, assim que terminámos as sementeiras, começámos a preparar a quinta para uma visita de gente pequena mas muito importante: os colegas da escola do Luís, do primeiro ao quarto ano. No dia de S. Martinho, tentámos receber bem aqui em casa tal como ele foi bem recebido na escola e também, na posição de "embaixadores" da agricultura, mostar o melhor possível como os agricultores cultivam os campos e criam animais para alimentar a população, para que os miúdos saibam que o leite não nasce no supermercado. 


 Falei da história da nossa família e da "casa de lavoura", expliquei a função do Sinal, respondi a muitas perguntas, mostrei as vitelas, as novilhas e as vacas e o "passaporte sanitário" que é o seu boletim de vacinas. As crianças deram feno aos vitelos e novilhas. Em pequenos grupos viram o robô a ordenhar as vacas que esperavam em fila pela sua vez. Os miúdos sentiram a temperatura do leite quente, acabado de ordenhar, no vaso de vidro do robô. Meteram as mãos no milho e desfolharam algumas espigas na eira improvisada com os tratores à volta (Era isso que os tratores faziam reunidos ao sol, num vídeo que mostrei dias atrás). Sentiram o cheiro do feno, da silagem e do estrume, porque não há rosas sem espinhos. No final, enquanto viram alguns vídeos sobre colheita de milho silagem e milho grão e a transformação e embalamento do leite na fábrica da Lactogal, foi a hora do lanche que incluiu leite chocolatado que a Agros nos ofereceu para esta visita, junto com um pequeno livrinho sobre a origem do leite. Foi um gosto receber estes meninos, as professoras e auxiliares.

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

Previsão do tempo

20240709_113818.jpg


Antigamente, prever o tempo para além das horas seguintes era um exercício de adivinhação. Víamos uma “barra ao mar” e sabíamos que vinha chuva no dia seguinte. Com o céu muito vermelho ao pôr do sol tínhamos um sinal de calor. Ver as andorinhas a voar baixo era e sinal de chuva, porque as moscas também estão mais baixas (e já agora, ferram mais, porque tem que guardar provisões antes da chuva).
Há uns 30 anos, as previsões eram muito genéricas e para uma previsão mais específica tinha de se ligar para uma linha de valor acrescentado do Instituto de meteorologia. Um dia algum colega mais desenrascado, querendo cortar erva, precisava saber se teria dias suficientes de sol para secar, de modo a fazer feno. Ligou para o nosso aeroporto, então chamado “Pedras Rubras” e pediu informações. A coisa espalhou-se e foi muito útil durante algum tempo até que os funcionários do aeroporto se cansaram de dar informações a cada vez mais agricultores.
Nos últimos anos, as previsões tornaram-se mais precisas, pelo menos até 10 dias e muitos sites oferecem, de forma gratuita, previsão de chuva e vento quantificados para cada local. Todas as previsões são, como o nome indica, previsões, não são garantias e têm um grau de falibilidade. Ainda assim, há sites que nos permitem comparar as previsões dos vários “modelos” que se baseiam em diferentes computadores e fontes de informação, como as estações meteorológicas e os radares meteorológicos. Se pagarmos, podemos ter informações mais precisas e atualizadas.
Ora acontece que nós já pagamos, com os nossos impostos, o IPMA, Instituto português do mar e da atmosfera, que apresenta as suas previsões de forma muito genérica e que, na minha opinião, devia quantificar as previsões com o número de litros de chuva por metro quadrado e os kms/hora de vento previsto, como fazem sites como o windguru ou weather underground. Estou convencido que tem essas previsões disponíveis, mas não estão à vista como nos sites que referi.
Um último ponto: temos observado nos últimos anos, com mais frequência, fenómenos extremos de chuva, vento e temperaturas que afetam a agricultura e muitas vezes põe em risco os bens e a vida das pessoas . Por isso acho super-importante dar ao instituto de meteorologia todos os meios necessários para terem à disposição a melhor tecnologia existente e, por outro lado, para além de quantificar as previsões, fazê-la chegar rapidamente às pessoas em caso de alerta grave, para não suceder o que aconteceu em Valência.
Em casos extremos, como tivemos a tempestade Kirk, que estava prevista desde 10 dias antes de ocorrer, penso que os governantes devem ajudar a divulgar a informação e apelar às pessoas para se protegerem (como fazem os governadores nos Estados Unidos em caso de furacões).
E devem também dar mais formação sobre os fenómenos meteorológicos, porque o desconhecimento aliado à facilidade de espalhar qualquer teoria trouxe-nos a um paradoxo. Até à pouco tempo as pessoas duvidavam da capacidade dos meteorologistas preverem o estado do tempo. Agora acham que os meteorogistas manipulam o tempo. E os meteorologistas que deviam estar a investigar têm de passar o tempo a explicar e discutir com quem leu umas coisas na Internet e acha que sabe mais do que Acontece o mesmo na saúde e na agricultura.

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Lições de Valência

FB_IMG_1731610899512.jpg


Em Valência, os agricultores não falharam. Falhou muita coisa e muita gente, mas não falharam os agricultores. Pouco tempo após a catástrofe, foram com os tratores ajudar a limpar a lama e o entulho das ruas inundadas e depois de uns foram outros. Li uma frase muito forte alguns dias mais tarde, algo deste género: “Estais a ver aqueles tratores que vieram ajudar? São os agricultores locais. Lembrem-se deles também quando estiverem no mercado a escolher as vossas compras!”
Os agricultores espanhóis não são melhores nem mais generosos que os agricultores marroquinos, argentinos, portugueses ou de qualquer ponto do mundo. Eram os que estavam próximos e podiam ajudar.
Aposto que foram agricultores de todos os tipos, grandes e pequenos, horticultores ou “ganaderos”, biológicos ou convencionais, intensivos ou extensivos, como às vezes gostamos de classificar e catalogar, com um julgamento moral subentendido. Foram os que tiveram tempo, disponibilidade e “ganas” de ajudar. Não foram todos, uns porque não puderam, outros porque não quiseram, porque os agricultores são como as pessoas, há um pouco de tudo. E, como na guerra, também a família ou outros funcionários ficaram em casa a aguentar o barco e assumir as tarefas sozinhos enquanto alguns saíram para ajudar.
Foram com tratores grandes e pequenos, novos e velhos, de todas as cores e marcas, herdados dos pais (atenção à taxa de 40% sobre a herança de terra agrícola que o governo inglês quer impor, livrem-se de copiar isso!), tratores comprados usados ou comprados novos com os “subsídios” que tanta inveja causam, apesar de haver cada vez haver menos agricultores e menos jovens no setor.
Foram desimpedir as ruas com os tratores que normalmente impedem os condutores apressados de chegar tão rápido como queriam e às vezes causa longas filas de “seguidores”, sabe-se lá com que palavrões, que felizmente não ouvimos porque a cabine é insonorizada e mesmo que não seja o trator faz muito barulho. Barulho que faz algumas pessoas chamar a polícia quando tentamos fazer as colheitas à noite, antes que venha a chuva e o vento.
Foram com as cisternas que escoam a água ou combatem incêndios, com as mesmas cisternas que levam o estrume líquido para a terra e por causa das quais também muitas pessoas chamam a polícia (nunca me vou esquecer de quando o Sr. Maia me telefonou a dizer “Não vás agora ao campo porque a polícia anda à tua procura”).
Numa situação de catástrofe, mesmo que tudo esteja preparado e corra bem (o que manifestamente não aconteceu, mas essa discussão é para outro momento e outro local que não este post e esta página), é importante mobilizar toda a sociedade e todos os meios. Tal como aconteceu com os incêndios em Portugal, onde, entre muitos heróis, tivemos o exemplo do jovem que combateu o fogo na sua aldeia com alguns amigos e o trator do avô, com o motor de arranque avariado (se alguém os conhecer, diga-me se já repararam o Massey Ferguson 240, por favor), também nas cheias de Valência tivemos a prova da importância de ter uma agricultura viva, capaz de produzir alimentos, ocupar o território… e ajudar nas emergências.
#carlosnevesagricultor #agricultura #valencia #cheias #inundaciones

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Aparências que iludem

FB_IMG_1730985314767.jpg


Vi esta imagem há meses, sem indicação do autor. Discordo. Sugere uma ideia repetida nos últimos anos com tal insistência que se tornou “senso comum”. Segundo essa ideia, a fruta maior e mais bonita é produzida ou conservada usando venenos (pesticidas), enquanto a fruta mais feia e mais pequena é produzida “sem venenos”. Pode ser uma imagem enganadora.
O medo é uma emoção essencial à nossa sobrevivência, porque nos afasta dos perigos, mas é também uma emoção aproveitada para nos manipular de modo a afastar-nos de umas escolhas e conduzir-nos para outras, regra geral, para o negócio que interessa a quem instiga esse medo.
Mas então não será preferível comer fruta feia sem resíduos de pesticidas em vez de fruta bonita com venenos? Certamente que é preferível comer fruta sem resíduos, seja feia ou bonita. O problema é que a beleza da fruta, das hortícolas ou das pessoas, por si só, não é garantia de nada.
Duas caixas de fruta, pequenas ou grandes, feias ou bonitas, sãs ou com pontos de podridão, podem ter sido produzidas no mesmo pomar, submetidas aos mesmos tratamentos, e ter sido feita uma escolha separando por calibre e por aspeto ou estado de conservação.
É muito provável que ambas tenham sido tratadas com pesticidas, porque se não combatemos as pragas e doenças a produção é reduzida ou pode ser toda destruída. Poderão ter sido usados pesticidas de origem natural ou de síntese, mas para terem efeito protetor terão que ser “venenosos” em relação às pragas e doenças. Por isso, procurar o selo de certificação do modo de produção na embalagem (biológico, produção integrada ou outro sistema), é mais importante do que o aspeto da fruta.
Pode ter acontecido muita coisa. Pode ter acontecido que na fruta com bicho, com pior aspeto, tenham sido usados um ou vários pesticidas, mas pesticidas errados ou na dose errada, enquanto na fruta mais bonita foi tudo feito de acordo com as regras.
No limite, pode ter acontecido que ambas as frutas tenham sido tratadas com o mesmo produto, mas por causa da dose ou da data de aplicação uma das frutas já não tenha resíduos, já tenha passado o devido intervalo de segurança (intervalo de tempo) e na outra ainda haja resíduos.
Há pessoas que vivem assustadas com a ideia de serem usados produtos químicos na produção de alimentos. Mas os pratos onde comem todos os dias também são lavados com um produto químico (detergente), só que nas últimas lavagens a água arrasta os resíduos do detergente. Também na comida, o importante é que não fiquem resíduos, e isso garante-se usando produtos legais, aplicados por pessoas com formação, seguindo conselho técnico, usando equipamentos afinados, com a dose correta, aplicada da forma correta, na data indicada e respeitando o intervalo de segurança e fazendo controlos.
Por outro lado, pode acontecer que não tenha sido feito qualquer tratamento, pode não haver qualquer resíduo de produto químico, mas o alimento estar contaminado com sujidade que pode conter bactérias que causam doenças mais ou menos graves.
O meu ponto é o seguinte: pode ter acontecido muita coisa que não podemos adivinhar ao tirar conclusões precipitadas através do aspeto, seja feio ou bonito.
Acusar a fruta mais bonita de ter veneno é como acusar os vencedores de uma corrida de usarem doping ou os estudantes com melhores notas de copiarem. Ora nós sabemos que "copiar" ou "dopar", só por si, não é garantia de bons resultados. De Doping não tenho experiência, mas do tempo da escola lembro-me que quem copiava, regra geral, era quem estava mais atrapalhado e mesmo a copiar muitas vezes tirava as piores notas. Insisto: a seriedade de agricultores, estudantes ou desportistas não se pode determinar apenas ordenando ao contrário a tabela de resultados.
Eu não sou produtor de fruta para vender. Não escrevi isto para me defender. Tenho apenas uma dúzia de árvores no pomar que às vezes produzem bem, outras vezes não produzem e muitas vezes dão apenas fruta pequena e feia, porque não faço os tratamentos que devia. Gosto de comer essa fruta de casa e também do mercado, de uma pequena loja ou do supermercado. E sei que uma loja ou supermercado tem que ter mais cuidado a analisar e controlar regularmente os alimentos que vende, porque se for encontrada uma peça de fruta ou uma alface contaminada numa loja, os consumidores de todo o país vão fugir dessa cadeia de supermercados.
Uma ressalva: Este texto não é, de modo nenhum, uma crítica a um projeto fantástico chamado "fruta feia", que coloca à venda as frutas fora de calibre, com pior aspeto. É ótimo evitar o desperdício de fruta que esteja boa, só por ter mau aspeto, mas ter mau aspeto também não quer dizer que seja boa. Só isso.
Tanto quanto possível, tenha o seu pomar ou uma fruteira no jardim. Tanto quanto possível, compre produtos locais ou nacionais. Tanto quanto possível, compre fruta e hortícolas da época, numa dieta completa com um pouco de tudo, mas sem medos irracionais que parecendo lógicos são enganadores. Adaptado do que escrevi para os leitores do Mundo Rural em setembro-outubro de 2024. Bom apetite!

domingo, 3 de novembro de 2024

Adubação verde

 


Screenshot_20241103_131723_Facebook.jpg


20241103_140213.jpg


20240419_083544.jpg


20240216_093133.jpg


Últimas sementeiras das últimas parcelas, última selfie das sementeiras e penúltima vez que tive de escoar a semente da tremonha do semeador para trocar de sementes... Olhei para o tabuleiro, achei que dava uma foto bonita e ao publicar achei que dava um bom passatempo adivinhar o que era e deu muitos comentários no meu Facebook ... O que está aqui são sementes, se correr bem vai ter o mesmo aspeto que teve no ano passado, como podem ver nas imagens. É uma mistura de sementes leguminosas, nomeadamente tremoços, tremocilha, ervilhaca, serradela e trevo encarnado. Há também uns grãos de aveia que tinham ficado da mistura anterior, não fazem mal mas não fazem parte da mistura original. As sementes estão "inoculadas" com Rhizobium, tem uma espécie de calcário para fixar o Rhizobium, que é uma bactéria que vive no solo e num processo de simbiose (benefício mútuo) fixa o azoto em pequenos nódulos nas raízes das leguminosas. No início da primavera esta cultura é cortada, triturada e enterrada, servindo como "Adubo verde" para alimentar a cultura seguinte, neste caso, milho, aumentando também a matéria orgânica no solo. Faço isto apenas numa parcela que fica muito distante da vacaria (é longe para levar estrume) ou onde não posso levar meter estrume, por difícil aceso ou outras razões. No resto da área, em 95% da área que cultivo, como fazem todos os agricultores meus vizinhos, semeio erva para alimentar os animais e com os excrementos dos animais fertilizo a terra. No entanto, para quem não precisa de erva, acho que esta técnica é de considerar...
#carlosnevesagricultor #proterra #leguminosas #rhizobium #sideração

sábado, 2 de novembro de 2024

Agricultores, tratores e inundações

FB_IMG_1730531837669.jpg


FB_IMG_1730531834130.jpg


“Quando vires as barbas do teu vizinho a arder, põem as tuas de molho”...


...e se o vizinho estiver com ”água pela barba”, prepara-te para a inundação!


Impressionantes as imagens da tragédia e os números de mortos e desaparecidos que nos chegam de Valência, Espanha. Esta semana, na Rádio Renascença, Ana Galvão, ao relatar a história de sobrevivência de uma jovem, contou também de forma emocionada como os tratores agrícolas estavam a ser importantes para ajudar nas limpezas da lama após as inundações. Entretanto tornaram-se virais as imagens de dezenas de tratores a chegar a Valência para esses trabalhos.
Sem querer ser oportunista, penso que é oportuno lembrar que a importância da agricultura ultrapassa a produção de alimentos.
A agricultura, os agricultores e os tratores que por vezes incomodam na estrada, que às vezes até levam alguma lama dos campos para a estrada, também servem para limpar as estradas nestas situações em que os bombeiros, autarquias e exército não chegam para acudir a tudo e a todos ao mesmo tempo. As cisternas, que às vezes incomodam ao fertilizar a terra com os excrementos dos animais, e por causa das quais algumas pessoas chamam a polícia, são as mesmas que servem para proteger as casas dos incêndios ou acudir nas inundações. Os campos junto às linhas de água servem para a água se espalhar e reduzir velocidade em vez de inundar rapidamente as zonas urbanas.
Há cerca de 15 anos, também aqui na minha freguesia houve inundações e o presidente da junta de então veio pedir aos agricultores para ajudarem os bombeiros pois só tinham pequenas motobombas incapazes de escoar as caves inundadas de alguns prédios.
A nossa situação não será muito diferente de outras no país. Temos uma ribeira que é um fio de água ao longo de todo o ano. Parte dos seus braços afluentes secam no verão, mas entretanto nos últimos 30 anos, na sua pequena “bacia hidrográfica” foi construída uma autoestrada, uma zona industrial, foi duplicada a linha do comboio para receber a linha do metro e foram construídas muitas casas. Tudo coisas que impermeabilizaram áreas onde a água antes se infiltrava ou escorria lentamente. A hipótese de uma chuva forte causar inundações aumentou. E, como vamos observando, as hipóteses de haver eventos extremos como chuva ou vento forte são mais frequentes.
É verdade que pouco podemos fazer perante fenómenos dantescos, mas será que fizemos esse pouco? Será que as nossas autarquias e governos fizeram tudo o que podiam para limpar as linhas de água ou seguiram a velha máxima romana de “pão e circo”, nas festas no Verão como a cigarra da fábula de La Fontaine? O dinheiro nunca chega para tudo e haverá que escolher as prioridades.
Assim como se ensinaram as populações rurais a proteger-se dos incêndios no centro da aldeia, não haverá nada a treinar sobre inundações nas zonas baixas das cidades? Estamos a dar todos os meios aos meteorologistas para fazerem as previsões? Essas previsões estão a ser comunicadas de forma clara, objetiva e eficaz? Em países que costumam ser afetados por furacões vemos os governadores a avisar as pessoas para se protegerem. Não ficaria mal e não custará muito se os nossos governantes fizerem o mesmo. Temos de aumentar a nossa cultura de segurança e prevenção, porque vai fazer cada vez mais falta. Como a agricultura.

domingo, 27 de outubro de 2024

Bem-vindos e obrigado! (sobre um reboque em marcha-atrás)


silagem24-reboque marcha atras.jpg



Na freguesia onde vivo, Árvore, existem seis casas agrícolas, seis “casas de lavoura” com famílias que se dedicam à produção de leite. Por coincidência, metade estão reunidas à volta do pequeno e antigo largo de Lente, na curva mais apertada da Nacional 104, que liga Vila do Conde a Santo Tirso. Nas suas eiras de granito ocorreram, ao longo de séculos, as desfolhadas coletivas do milho, tal como relatadas nos livros de Júlio Dinis, milho que depois era guardado no espigueiro e servia de alimento a pessoas e animais. Há 50 anos, com o crescimento da produção de leite, passámos do aproveitamento do milho grão para a silagem que utiliza toda a planta do milho, porque, ao contrário de nós e dos outros monogástricos, as vacas conseguem digerir a fibra. A silagem era feita com pequenos tratores e máquinas de ensilar, de forma individual, cada família por si . Mais recentemente, nos últimos 20 anos, essas pequenas máquinas foram substituídas por grandes automotrizes que colhem 6 ou 8 linhas de milho e precisam de vários tratores e reboques para transportar a silagem para o silo. Há quem pague esse serviço e quem faça equipas entreajuda com amigos, vizinhos e familiares, usando o seu trator e reboque.

Há mais de 60 anos, a minha tia Ana, irmã de minha mãe, deixou a casa materna junto à fonte, em Rio Mau, e pelo casamento veio morar para uma destas casas de lavoura aqui no lugar de Lente. Há 15 dias, por algumas horas, eu deixei a minha casa na fronteira dos lugares do Souto, Pindelo e Quintã, que o povo chamava de “Quintão”, e subi até ao lugar de Lente para “ajudar quem me ajudou”, neste caso os meus primos que, como eu, continuam o legado da família na agricultura e produção de leite. No mesmo dia, no sentido oposto mas com o mesmo objetivo, o Carlos Antunes desceu da freguesia de Vairão, para ajudar na silagem do seu tio, vizinho dos meus primos. Numa das viagens entre o silo e o campo, tive de parar na estrada, enquanto o Antunes manobrava o trator e reboque, em marcha-atrás, para começar a cortar o milho num dos campos. Aproveitei a paragem para puxar do telemóvel de modo a filmar e depois mostrar uma manobra bem feita, mas normal nas nossas silagens. Partilhei o vídeo na minha página de facebook alguns dias depois, quando já andava noutra equipa a colher outra silagem, desta vez em Mindelo, entre campos, bouças, casas, estradas e linha do metro, no “mosaico” típico aqui de Entre Douro e Minho.

O vídeo tornou-se viral, teve milhares de “gostos”, mereceu elogios, partilhas e impressionou agricultores de todo o mundo, nomeadamente do Norte da Europa, uns admirados com a destreza da manobra, outros a teimar que devia “entrar de frente”. Pela amostra dos comentários, fiquei com a impressão que somos bons a conduzir, inventar e desenrascar, face aos nossos colegas europeus que resistem mais à mudança.

Foi a minha publicação mais vista de sempre. Milhares de “gostos” e centenas de comentários e partilhas. Em duas semanas, a minha página passou a barreira dos 20.000 seguidores e o alcance das minhas publicações passou de 400.000 para mais 3 milhões de pessoas. A todos os que agora aqui chegaram, bem-vindos!

A quem me acompanha há vários anos, comentando e colocando “gostos”, muito obrigado! Para esses, uma nota final: o campo que aparece no filme é nesta imagem é o campo de uma história que já contei aqui:

No livro "memórias de um lápis de lousa", o autor, Fernando Pinheiro lamentava que o velho tanque de lavar (no canto esquerdo inferior da imagem), por onde passava no caminho para a escola, o tanque para regar o campo onde ia com os colegas de infância fazer xixi na toca dos grilos na primavera, esteja agora abandonado e a ramada tenha desaparecido. Respondi que o tanque está abandonado por um bom motivo: todas as pessoas agora têm água canalizada e máquina de lavar. É verdade que as ramadas foram quase todas cortadas, porque esta terra, muito próxima do mar, tem poucas condições para produzir vinho de qualidade, mas não falta bom vinho português, de melhor qualidade que antigamente. E o terreno continua a ser regado, agora com motor direto do poço e continua cultivado pelos descendentes ou caseiros, tal como todos os terrenos das antigas casas de lavoura do lugar de Lente e de toda a freguesia de S. Salvador de Árvore.

terça-feira, 22 de outubro de 2024

Vantagens, custos e truques de "andar cedo"

FB_IMG_1729602867991.jpg


FB_IMG_1729602864570.jpg


Viram as imagens e vídeos que publiquei nos últimos dias, na minha página de Facebook, com milho caído, tratores enterrados na lama e milho cortado à mão e metido “à posta” para a máquina de ensilar? Pronto. Agora já sabem de onde veio a minha “mania” de semear e colher o milho na data mais cedo possível.
Há uns 40 anos, mais coisa menos coisa, andei eu assim a ajudar a família. Tenho bem vivas as memórias, dos anos 80, de milho caída na “Bouça Aberta”, um campo junto às bouças (“bouças” é como chamamos às parcelas de floresta aqui no Norte, ok?), de pedir o Fiat 640 do Tio Carlos Penas para rebocar o nosso Massey Ferguson 265 no Campo da Ribeira do Loureiro enquanto ensilava o milho, de passar dias a cortar, arrastar e meter o milho à mão na máquina, na “Arroteia de Baixo” e, já no ano 2000, no primeiro ano que veio a máquina grande cortar o milho (a automotriz), no dia 5 de outubro, ter de parar a máquina um bocadinho antes de enterrar e deixar uns 2000 m2 para depois desfolhar à mão, com galochas, no meio da água. E ainda as memórias de agricultores vizinhos que perderam braços e pernas com as máquinas de ensilar por causa do milho caído. É para fugir a tudo isso que “ando cedo”.
“Andar cedo” tem ainda outras vantagens: fugir aos ataques da bicharada (insetos do solo) que costumam ser mais intensos nas sementeiras tardias, por causa das temperatura mais altas, aproveitar as chuvas tardias da primavera (que este ano se estenderam até julho) para poupar nas regas e “apanhar” a máquina de ensilar mais disponível, com as facas novas e os condutores com a cabeça ainda fresca. E ter a comida dos animais disponível mais cedo.
Porque cada moeda tem cara e coroa, também há desvantagens, por exemplo: já me aconteceu ter a terra pronta para semear e não ter ainda adubo ou sementes disponíveis; tenho de colher a erva da produção de outono - inverno mais cedo e com menos produção do que se esperasse pelo fim de abril ou maio para cortar; há algum risco de vir chuva ou uma cheia tardia e ter de repetir a sementeira (mas ainda não aconteceu); e porque "o primeiro milho é dos pardais", ter que usar repelente para evitar o desbaste que as pegas fazem em algumas sementeiras de milho.
Alguns “truques” possíveis para conseguir “andar mais cedo” com as colheitas e sementeiras” (haverá outros, certamente):
- Na sementeira da erva no outono, escolher espécies e variedades e misturas mais precoces;
- Aproveitar os primeiros dias de bom tempo no fim de março ou início de abril;
- Começar pelos campos mais enxutos e deixar os “lameiros” para depois;
- Na sementeira do milho, nos “lameiros”, andar cedo nas partes de cada campo onde é possível e deixar os bocados mais encharcados para semear mais tarde com um ciclo muito curto;
- Usar variedades de milho com ciclos mais curtos;
- Deixar a limpeza das bermas dos campos (as “beiradas”) para depois de cortar o milho;
- Fazer a adubação do milho no semeador (à linha) e depois na cobertura;
- Fazer a “monda química” depois do milho nascer;
- Na altura das colheitas e sementeiras, trabalhar de madrugada, de dia, ao serão, ao domingos e feriados (depois descansa-se);
- Recorrer aos prestadores de serviços para fazer mais rápida a lavoura ou sementeira;
- Observar o que fazem os vizinhos, pedir conselhos aos técnicos, experimentar e “esticar” a corda cada ano um bocadinho mais cedo.
- Adiantar o que é possível, encomendas, revisões, lubrificações.
- Não ficar com a ideia: “Ah, vocês aí à beira mar tem campos com areia e andam todos cedo”. Não. Aqui entreos meus vizinhos também há quem ande cedo, a meio e tarde. Aliás, recorrendo aos prestadores de serviços, não podemos andar todos ao mesmo tempo. “Quem não tem carros nem bois, é antes ou depois”. E cada ainda é livre de semear quando quer na sua casa e na sua terra.
Espero ter-vos ajudado e não enervado mais, como diz um amigo quando publico as fotos das primeiras colheitas ou sementeiras: “Já andas a enervar o pessoal!”. Não é de propósito! Bom trabalho!
#carlosnevesagricultor #agricultura #feno #milho #sementeiras #colheita

sábado, 19 de outubro de 2024

Troco livros por feno para ajuda aos afetados pelos incêndios

 


cn2024-feno.jpg


Feno. Erva que era verde e foi cortada e seca ao sol para alimentar os animais ao longo do ano. Atrás de mim está o feno que fizémos na primavera para os nossos vitelos. Infelizmente, os incêndios de Setembro passado queimaram muitas pastagens e muito feno que os agricultores tinham guardado para alimentar os animais até à próxima primavera. Por isso, de vários pontos do país e através de várias associações, já seguiram alguns camiões de feno oferecidos de agricultores para agricultores. Pequenas ajudas para as necessidades imediatas e também um sinal de estímulo e solidariedade, para que não se sintam tão sós e desanimados depois do inferno que passaram. Eu já dei um pequeno contributo e agora estou a colaborar para encher mais um camião, desta vez com fardos de feno pequenos como estes, mais fáceis de distribuir pelos criadores da região de Castro Daire que não têm máquinas para descarregar rolos de feno de grandes dimensões. Eu tenho pouco feno disponível para oferecer, mas ainda tenho bastantes livros de crónicas agrícolas para vender. A impressão já foi paga e portanto posso oferecer o valor dos livros que vender na próxima semana e comprar feno para oferecer. Por cada livro de crónicas agrícolas que vender por 13,5€, descontando o envio em correio registado, ficam 10 euros para ajudar. Os interessados enviem mensagem por aqui ou por mail (carlosneves74@sapo.pt) para eu indicar o NIB ou MBWay para o pagamento e me enviarem a morada. Ficam com um livro para ler ou para oferecer no próximo Natal, que está quase à porta. Como sabem, "dos Santos ao Natal é um salto de pardal".

Ah, e o trator, que faz aqui? Bem, as minhas publicações sobre tratores costumam ter mais sucesso do que as publicações sobre livros😅, portanto pode ser que ajude a dar visibilidade a esta causa... Fiquem bem!




sexta-feira, 11 de outubro de 2024

O bom, o mau e o vilão na produção de milho grão

462189421_1150938693702382_7617924451391371694_n.j


462837931_1156149566514628_6925209582046003080_n.j


462710956_1156149456514639_6374391444313888678_n.j


462852834_1156149443181307_5727393378920087563_n.j


463013569_1156149399847978_2024337706412367045_n.j


462689427_1156149143181337_7988849594651918577_n.j


462759775_1156149033181348_1287206106542452259_n.j


462839669_1156146973181554_2800241917452445773_n.j


462767227_1156146766514908_871033953191333473_n.jp


Bom: o milho é uma cultura fantástica com grande capacidade de fotossíntese. Na espiga está 60% do valor da planta. O grão é muito energético. Um hectare de milho a crescer liberta mais oxigénio do que uma floresta.

Bom: choveu na primavera e início do verão, pelo que tivemos mais água nos poços para regar, menos necessidade de rega e melhores produções nos campos secos onde falta a água ou o tempo para regar.

Mau: a chuva atrasou as sementeiras e o tempo fresco ao longo do verão atrasou ainda mais a colheita.

Bom: apesar de tudo, consegui semear os campos destinados à produção de milho grão a 15 de abril, escapar aos ataques da bicharada que costumam vir mais tarde e aproveitar as chuvas da primavera e verão.

Mau: muita gente não conseguiu semear tão cedo e quando quis começar a colher o milho disseram-me que não havia milho suficiente para abrir o secador, surgiu ainda uma avaria e a primeira chuva apareceu no horizonte.

Bom: consegui novas parcelas para cultivar e aumentei a área de “milho para as galinhas”, de ciclo muito curto, que não precisava de ir ao secador.

Mau: o portão de entrada de um desses campos só tinha 3 metros de largura e não era suficiente para as debulhadeiras que colhem 4 ou 6 linhas.

Bom: Havia uma debulhadeira pequena disponível (Laverda M100).

Mau: Estava avariada;

Bom: Era possível alargar a entrada com uma obra simples, mas, entretanto, a máquina ficou pronta para trabalhar e marcámos para meio da tarde de um sábado.

Mau: a máquina avariou no campo do cliente anterior.

Bom: Foi reparada e chegou às 20h00 a minha casa.

Mau: Avariou novamente a 100 metros do meu campo.

Bom: o mecânico era boa pessoa, veio ajudar, às 21h30 começamos e às 23h30 acabámos.

Mau: o secador continuava fechado para entregar o outro milho das maiores parcelas; No dia que abriu (segunda-feira, 30 de setembro), quem me vinha debulhar o milho com uma Laverda 3400 de 4 linhas, estava comprometido para fazer uma silagem do milho e depois terça e quarta choveu; Também tive de cancelar os camiões de transporte para o secador porque o reboque graneleiro que tinha contratado para levar o milho da maquina ao camião também avariou antes de chegar.

Bom: na quinta-feira a chuva passou e depois do almoço começámos a debulhar. Fizemos uma parcela grande e começámos outra. Levei o milho ao secador com o meu reboque (uma hora de viagem) e com um reboque emprestado.

Mau: às 20h00, partiu um carreto importante com previsão de avaria demorada. Tive de devolver o reboque emprestado porque ia para a silagem no dia seguinte. A máquina velhinha estava com avaria.

Bom: Na sexta de manhã o Daniel conseguiu trocar o motor de arranque à velhinha e veio continuar o trabalho depois do almoço, primeiro uma pequena parcela, depois acabámos o que faltava na outra; Consegui outro reboque emprestado para levar milho. Levei o Daniel a casa depois do jantar e faltavam pouco minutos para a meia-noite quando passei em Vairão a combinar com o motorista e com o pessoal da debulhadora Claas de 6 linhas, que andou noite fora; no dia seguinte fui “buscar” a máquina como “carro piloto” e colhemos debaixo de muita humidade a parcela maior que me faltava (cerca de 3 hectares). Consegui colher todo o milho que semeei, sem cair, antes do temporal. O reboque graneleiro de trasfega ficou pronto 15 dias antes do previsto e também ajudou um pouco.

Mau: Tentei colher o milho de um familiar mas estava mais verde que o meu e não foi possível.

Bom: Devolvi os reboques emprestados sem os avariar.

Muito bom: a disponibilidade dos motoristas, do pessoal do secador e de quem me emprestou reboques!

E o Vilão? Há dois: Primeiro, o baixo preço do milho, que dificilmente paga todo este trabalho e depois o outro vilão tem sido o estado do tempo, neste outono molhado com o maior temporal dos últimos anos que nos atrasou o trabalho e deitou muito milho ao chão. Espero que, entretanto, venha um BOM Verão de S. Martinho. A agricultura é a arte da esperança.

 

sexta-feira, 13 de setembro de 2024

Balanço da silagem de 2024

20240912_191848.jpg


VideoCapture_20240913-214002.jpg


20240911_122612.jpg


A silagem está feita, o silo está fechado e nós estamos cansados. O stress agora é menor mas não podemos parar. Ainda temos de ajudar na silagem quem nos ajudou e começar a preparar as sementeiras dos terrenos mais frescos no imediato e dos restantes até ao fim de Outubro.
Terminámos a silagem de 2024 no dia 11 de Setembro. Nesse mesmo dia, em 2001, quando caíram as torres gémeas, eu também andava a ensilar, ainda com o trator e a máquina de ensilar uma linha de cada vez, num campo mais distante, mas estava ainda a começar as colheitas. No ano 2000, na primeira vez que usámos uma automotriz para cortar o milho, a data escolhida foi o 5 de Outubro. Alguns dias antes veio uma cheia e tivemos que deixar uma parte da área para desfolhar… de galochas.
Mais atrás, as minhas memórias de silagem na infância e juventude, para além de incluir cortar à foucinha as 3 linhas para abrir caminhos e meter o milho à posta na máquina, ir para cima do reboque fazer a carga com o ancinho e espalhar a silagem com o gancho também à mão no silo, tiveram ainda anos de milho caído por causa dos temporais e outro cortado à mão por causa da chuva. Por isso procuro colher o mais cedo possível, mas sem comprometer a qualidade da silagem.
Para colher cedo semeio o mais cedo possível. Este ano tive como objetivo semear o milho a 15 de Abril, fazer a silagem no final de Agosto e tirar agora uns dias de férias. A chuva abundante da primavera e do início do verão trocou-me as voltas, mas apesar dos atrasos consegui fazer as sementeiras entre 20 e 25 de Abril. A sementeira precoce tem ainda a vantagem de reduzir os ataques de insetos do solo após a sementeira.
Tendo semeado 10 dias mais cedo do que no ano passado, só foi possível colher uma semana mais tarde, porque a temperatura foi inferior. O ano passado foi excepcionalmente quente. Apesar disso, a chuva ajudou-nos a ter uma colheita mais abundante.
E as férias? Conseguimos tirar dois dias no final da sementeira, mais dois dias em Junho e uma semana no início de Agosto, o que foi a melhor opção porque agora não há tempo para parar.
#carlosnevesagricultor
#agricultura #milho #milhosilagem

terça-feira, 27 de agosto de 2024

Histórias da história das regas

FB_IMG_1724789777550.jpg


Durante séculos, os agricultores da minha região regaram os terrenos com “engenhos”, tocados por vacas ou mulas, que tiravam a água de poços. Os poços estavam no ponto mais alto dos terrenos e a água corria por gravidade, regando por alagamento, “ao rego”. Ainda era assim quando o meu pai nasceu e cresceu. Ainda hoje se rega muita área por alagamento, desconheço se ainda funciona algum engenho desses. Há 73 anos, o meu pai comprou o primeiro motor de rega a petróleo, da marca “Winsconsin”. Havia outros motores, Bernard, mais caros e com um som característico. Há 60 anos comprou o primeiro trator, este Fordson Super Dexta e meia dúzia de anos mais tarde esta bomba de rega para o trator, “Perrot”. Os três trabalharam em conjunto por mais de 35 anos consecutivos, nos meses de verão, tirando água de uma pequena ribeira e de pequenos poços onde em tempos funcionou o “engenho” tocado pelas vacas.


 Depois de fazer a ordenha e alimentar as vacas pela manhã, o meu pai saía com o trator, a bomba, o aspersor, o tripé e meia dúzia de canos de rega (tubos de plástico com 56 metros) tudo encavalitado no trator. Tivemos “canos de rega” brancos da “Facar”, com uns fechos que parecem molas da roupa, depois tubos amarelos e por fim tubos brancos com engates azuis e orelhas brancas, da Heliflex, acho…


Há cerca de 15 anos a bomba de rega deixou de ser necessária e ficou arrumada. O trator foi destinado à limpeza diária do estábulo. Deixámos de cultivar um terreno mais pequeno, deixámos de regar outros e no campo maior colocámos motor elétrico com sondas de nível e comando à distância por telemóvel.


Entretanto surgiu a oportunidade de cultivar novos terrenos, com água de rega disponível mas sem eletricidade e a bomba de rega voltou ao serviço com outros tratores. Agora, neste fim de verão e de tempo de rega, uma pequena avaria no Massey-Ferguson fez-me voltar a colocar o “velhinho” Ford Dexta ao serviço, agora que já está livre do trabalho diário na vacaria. Trabalhou 3 dias e portou-se bem.


Para ligar a bomba de rega às mangueiras que conduzem a água usamos engates “Bauer”, em metal, com uma pequena alavanca e ganchos. Ao conduzir o trator num caminho de pedras ou numa estrada irregular, esses engates pendurados na bomba de rega têm um tilintar característico. Não é igual às campainhas que anunciam o compasso, mas é um tilintar que anuncia… o trabalho da rega. Há dias, ouvi esse tilintar do trator a voltar a casa conduzido pelo Hugo, recuei na memória até à minha infância e lembrei-me do meu pai a voltar da rega e fiquei a pensar no que já andámos para aqui chegar…

sábado, 10 de agosto de 2024

Os portões da sucessão na agricultura

FB_IMG_1723324072098.jpg


Sobre a “sucessão nas empresas agrícolas”, Marcelo Cavalcanti, agricultor brasileiro e formador na empresa “Agrotalento”, num curso em que participei, contou que, no Brasil, as grandes fazendas de criação de gado tem várias cercas desde a entrada da rua até chegar ao centro da fazendo onde estão a casa, os armazéns e abrigos dos animais. Quando é preciso entrar ou sair da fazenda de carro, se os filhos acompanham os pais na viagem, é normal serem as crianças, a partir de certa idade, a sair do carro, abrir o portão da cerca e fechar o portão depois do carro passar. «As crianças ficam muito orgulhosas com essa tarefa, mas tem gente com 30, 40 e 50 anos que continua a ser apenas o “abridor de portões” da fazenda».


Esta história lembrou-me outra que já contei no meu blog e nas redes sociais. Há alguns anos, no programa “Parabéns” que tinha na RTP, Herman José, para celebrar Alfredo Marceneiro, entrevistou um neto do fadista:


- O que faz na vida?


- Sou reformado do cinema. 


- Que idade tem?


- 48.


- Ui! Se fosse agricultor ainda era jovem!


Herman exagerou, mas pouco. Em Portugal podemos ter o estatuto de “jovem agricultor” até aos 40 anos. Isto significa que podemos “instalar-nos” ou melhor, apresentar ao Ministério da Agricultura um “projeto de instalação e investimento” até ao dia anterior a completar 41 anos. Depois de muita burocracia e com a formação exigida, podemos receber um “prémio de instalação” a fundo perdido, uma majoração nas ajudas e prioridade no acesso a essas ajudas. 


Há algumas razões para este limite de “40 anos”, quando se costuma considerar 30 anos a idade para ser “jovem”. Esta regra foi um pedido à Europa dos países do Sul, porque a instalação de um jovem agricultor ocorre por sucessão, portanto é preciso esperar que o pai se reforme.


Em Portugal os agricultores costumam ser como as árvores – morrem de pé. Trabalham até não poder mais. Isto acontece por necessidade, porque as pensões de reforma são muito baixas, mas às vezes também por teimosia, por quererem continuar a mandar na empresa agrícola até não poder mais. Deixar o “poder” é difícil. Preparar essa transição é um desafio. São frequentes as queixas de falta de sucessão na agricultura. Há muitas razões para isso, mas devemos começar pela nossa parte, por dar progressiva autonomia aos jovens, para que sejam capazes de tomar decisões.


A sucessão deve ser preparada com tempo e com diálogo entre todos os membros da família. Quem vai “deixar” a empresa deve fazer contas ao rendimento que precisa para a “reforma”. Deve pensar que tarefas vai continuar a fazer, e a que novas atividades se vai dedicar (bricolage, jardim, quintal, turismo…) para deixar os mais novos tomarem decisões e responsabilidades. Quem vai assumir deve fazer um plano de negócios para ver se vai ter rendimento para si, para desenvolver a empresa e para pagar a “renda” a combinar aos pais ou irmãos co-herdeiros, se for caso disso.


Há depois a formação agrícola, essencial, que pode ser no ensino profissional ao nível secundário ou no nível superior.


Haverá também que procurar bons estágios, para além da experiência “de casa”, para que os novos agricultores possam ganhar “mundo” e experiência para além da empresa familiar onde se poderão instalar.


Há depois todo o contexto do mercado, do valor dos produtos agrícolas e do valor da agricultura na sociedade. Se os filhos crescem a ver os pais em dificuldades financeiras, desanimados, naturalmente vão fugir e procurar uma vida melhor fora da agricultura. 


Se a sociedade desvaloriza a atividade agrícola ou condena a agricultura desde os livros escolares como atividade poluente, causadora do aquecimento global e que maltrata os animais, cada uma destas etapas é um “puxão para baixo” no futuro da agricultura.


Há um provérbio que nos diz “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”. Também a preparação dos futuros agricultores, sendo uma decisão pessoal, é responsabilidade da família e da sociedade. (escrito para o Mundo Rural de Julho e Agosto de 2024)

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Sorria, está no Algarve

FB_IMG_1722626161481.jpg


Temos esta placa no nosso jardim, em Árvore, Vila do Conde. Foi colocada pelo meu pai há uns bons pares de anos, quando remodelou o jardim, talvez inspirado por outras placas mais conhecidas, as que diziam "Sorria, está na Maia" que encontrávamos na nacional 13 a caminho do Porto.
Serviu para fazer sorrir quem nos visitava e para nos divertirmos. Quando perguntava à minha mãe "onde está o pai" a resposta era "está no Algarve".
O Algarve não era destino de férias do meu pai. Quando era mais novo, limitado pelo trabalho, não podia ir mais longe do que a "Praia de Árvore". A partir da altura em que pôde sair porque eu já ficava a substituir, preferiu viajar pelo mundo. Nos últimos anos da vida, teve aqui o seu espaço para ler, descansar e apanhar sol.
Nem sempre podemos ir para o Algarve, mas quase sempre podemos arranjar o nosso espaço de descanso dentro dos nossos limites.
Li um dia que "A vida é como um cobertor curto. Puxamos para cima e destapamos os pés, puxamos para baixo e destapamos a cabeça, mas as pessoas que encolhem um pouco as pernas conseguem dormir aconchegadas".
Desejo-vos boas férias, dentro do que for possível...
#carlosnevesagricultor
#férias


 

sexta-feira, 24 de maio de 2024

Na agricultura há lugar para todos

Screenshot_20240524_201606_MEO Cloud.jpg


Os “pequenos” e os “grandes”.
Os que cultivam um pequeno canteiro ou uma grande herdade.
Os que estão no interior rural profundo ou no litoral urbanizado.
Os que comunicam com “pronuncia do Norte”, com sotaque alentejano, de S. Miguel dos Açores ou de qualquer outro lugar.
Há lugar para os jovens que se instalam cheios de sonhos e para os idosos que persistem apesar do cansaço.
Para os que fazem “agricultura de subsistência”, para os que ocupam o tempo livre, para os que tem uma pequena empresa agrícola, uma média empresa ou uma grande empresa.
Há agricultores que recorrem às mais avançadas tecnologias, aos mais modernos equipamentos e há quem ainda use carroças e “carros de vacas”. E mesmo assim cultivam a terra, criam animais e produzem alimentos .
Não há nenhum motivo para ter vergonha da pequena dimensão da nossa agricultura, das nossas parcelas de terra ou dos pequenos tratores, alfaias e ferramentas. Um “pequeno agricultor” é tão digno como um “agricultor grande”.
Pode até acontecer que uma pequena parcela de terra, cultivada de forma intensiva, com uma estufa, ou com horticultura ao ar livre, seja mais produtiva ou mais rentável do que uma grande propriedade sem água de rega. E, porque tudo é relativo, um pequeno agricultor numa região pode ser grande face a outra região onde sejam todos ainda mais pequenos.
Somos cada vez menos agricultores em Portugal. Isso pode ser mau, mas não tem de ser mau.
Pode ser mau se ficarem os campos abandonados, as aldeias vazias e as florestas e campos abandonados com mato a crescer para ser pasto dos incêndios.
Pode ser bom se aqueles que saem da agricultura encontrarem uma vida melhor, com mais conforto e com mais qualidade de vida.
Pode ser bom se aqueles que ficam na agricultura puderem cultivar os campos e criar os animais que os outros deixaram livres e assim ganharem dimensão para também eles, permanecendo na agricultura, terem um rendimento que lhes permita conforto e qualidade de vida.
Ao longo dos últimos anos, das últimas décadas, a dimensão média das empresas agrícolas é cada vez maior. Se no passado os pais foram repartindo os campos entre os filhos e “parcelando”, dividindo as parcelas de terreno até ficarem tão pequenas que se tornou quase impossível cultivá-las, hoje os agricultores vão fazendo o emparcelamento possível com as parcelas que vão arrendando.
Crescer, aumentar a dimensão da “quinta”, da “casa de lavoura”, da “herdade”, pode ser uma necessidade de sobrevivência. Quem não tem uma dimensão mínima, em cada atividade, não tira rendimento para alimentar a sua família e para todos os gastos necessários a uma vida digna e confortável.
Nas últimas décadas, regra geral, os produtos agrícolas tornaram-se mais baratos e foi preciso produzir mais para ganhar o mesmo.
A cada ano, a cada década, a cada geração, tornou-se “obrigatório” aumentar a dimensão das empresas agrícolas. Quem ficou parado, quem não aumentou a dimensão, a produtividade, a qualidade, ou se diferenciou, dificilmente consegue assegurar a sucessão na empresa agrícola.
Mesmo que a empresa agrícola já tenha uma boa dimensão, não é “pecado” ter ambição de crescer, de melhorar, desde que isso não seja feito “passando por cima” das regras e dos outros.
Curiosamente, há um “paradoxo de tamanho” na agricultura. Somos “obrigados” a crescer para sobreviver, temos de continuar a crescer para que a nossa empresa sobreviva e perdure no tempo, mas depois os “grandes” são vistos como os “maus da fita”.
É certo que para além dos agricultores “tradicionais”, grandes ou pequenos, também há “fundos de investimento” e outras novidades que compram terrenos e investem na atividade agrícola ou florestal. Há que ter alguma atenção, há que vigiar, aplicar as regras existentes ou criar novas regras, porque essas empresas, por definição, não são como o agricultor ou a família que tem uma visão de longo prazo porque “não herdou a terra dos seus pais, recebeu-a emprestada dos filhos”.
É compreensível que os mais pequenos e mais pobres, sejam mais apoiados na agricultura ou em qualquer atividade económica. Mas quem cresceu, quem se tornou grande, ou deu continuidade ao trabalho das gerações que antecederam, não tem de ser mal visto por causa disso. Ser grande não é ser mau, por definição. Não há uma linha vermelha, uma fronteira, que separe claramente os “simpáticos pequenos agricultores” dos “grandes e maus”. Há muita terra para cultivar e muita gente para alimentar. Na agricultura há lugar para todos. Todos, todos…
(escrito para o "Mundo Rural" de Maio / Junho de 2024)

domingo, 28 de janeiro de 2024

Como manter ocupados os agricultores mais velhos?

20240127_112328.jpg


20240127_112411.jpg


20240127_112302.jpg


Passou mais um Natal e passaram os anúncios comoventes que nos incentivam a comprar telemóveis para ligar às avós. É assim em Portugal e no resto do mundo. Tim May, um agricultor canadiano que sigo no facebook, como “Farmer Tim”, lembrou depois do Natal que “os bancos alimentares continuam a precisar da sua ajuda, os sem-abrigo continuam a precisar de apoio, os doentes continuam a sofrer e os solitários continuam a precisar de companhia.” 


Isto veio na continuação de outra publicação sua, antes do Natal, um texto fantástico sobre a situação do seu velho pai, limitado pela doença e sozinho após a morte da mãe: “Foi um ano de perdas para todos nós, especialmente para o meu pai. Perdemos uma mãe e uma avó, mas ele perdeu a sua esposa de quase 60 anos. Parte-se-nos o coração quando o ouvimos desejar-lhe boa noite ao passar pela sua fotografia a caminho da cama. 


A sua artrite debilitante tirou-lhe as liberdades num abrir e fechar de olhos. Deixou de conduzir, de cortar a relva, de plantar e de ir rapidamente ao seu restaurante preferido ou à igreja. O mundo que ele conhecia reduziu-se às poucas visitas que ocasionalmente aparecem e às mensagens de texto ou zooms que recebe nos seus dispositivos. 


Duas vezes por dia, os assistentes ajudam-no a tomar banho e a vestir-se - até comer é um desafio. É difícil acreditar que este foi um dos homens mais fortes que já viveu - pelo menos aos meus olhos. O trabalho era a sua vida e a sua quinta e família eram tudo para ele. 


O nosso celeiro está cheio de madeiras cortadas, secas e empilhadas. As pilhas de madeira eram o seu projeto de reforma que ele nunca irá terminar. Os arquivos de revistas de carpintaria e os armários de ferramentas acumulam pó. 


No entanto, mesmo nestes tempos difíceis, há esperança. Tenho-me esforçado por encontrar formas de o manter ativo no corpo e na mente. Depois do desfile dos Tratores de Natal passei com o carro alegórico por casa dele para lhe dar um espetáculo privado. Ele sorriu pela primeira vez desde há muito tempo. Ainda há pouco era ele que conduzia o nosso carro alegórico. 


Esta semana vi-o a escrever postais de Natal. Perguntei-lhe o que estava a fazer e ele respondeu: "Estou só a fazer o que a tua mãe faz todos os anos." A tradição e a rotina dão-lhe obviamente um sentido de vida. 


Hoje liguei-lhe da loja de ferragens para ir buscar a sua encomenda de material - fita-cola, fechos de correr e tubos de plástico para equipar o andarilho e a cadeira de rodas elétrica. Ele está sempre a mexer. O martelo e os pregos podem ser substituídos por cola e rolos de papel higiénico, mas isso mantém-no ocupado e seguro. 


Por isso, aqui fica uma pergunta para si. Que tipo de coisas podem sugerir para ajudarmos um velho agricultor? A mente dele é afiada, mas o corpo está partido. Nunca tomem as pequenas coisas como garantidas - a vida pode mudar num instante. Com amor para todos vós" (Tim May)


Nas respostas à publicação houve inúmeras sugestões que decidi selecionar, copiar e traduzir para aqui, na esperança que vos possa ser útil, para uso pessoal ou para alguém de quem sejam cuidadores. Não vou referir os nomes, mas poderão ver estes e todos os comentários na publicação do Farmer Tim antes do Natal de 2023.


“-Peça-lhe para gravar as suas memórias. Todos os seus sábios anos de agricultura, com a sua voz, seriam um tesouro. A sua ideia da melhor maneira de fazer o que ele fazia. Lembro-me de muita informação do meu pai, mas há muita coisa que nem sequer sei. Uso a sua sabedoria diariamente na quinta. Gostava de ter mais. Especialmente sobre as vacas e a terra. Abraços para si, é difícil vê-los não poderem fazer a única coisa que amaram e viveram toda a sua vida.


- O meu avô fazia reparações e devia ter várias patentes de coisas que inventou e transformou em vida real. Passou de dono do seu próprio negócio e de mecânico ocupado e respeitado a inválido assim que se reformou. Tornou-se um autêntico feiticeiro/mágico na costura/confeção dos projetos maiores e no trabalho do couro. As mãos ociosas são quando o diabo dança... por isso, mantenha-o ocupado e passe o máximo de tempo possível a ouvir e a amar. 


- Arrependo-me de não ter uma história da vida de meus pais. Há tanta coisa que nunca saberei. O teu pai estaria interessado em documentar a sua vida? Talvez haja alguém que o possa ajudar a fazer isso? É só uma ideia e há tanta coisa que se perde por estarmos demasiado ocupados com o nosso dia a dia.


- Com as minhas tias e tios idosos, escrevi perguntas num caderno. A escrita era difícil, por isso forneci um gravador. Talvez um telemóvel ou gravador digital. A chave para o sucesso está nas perguntas que podem dar início às memórias, e trabalhar a partir daí.... 


- Grave as histórias dele, transforme álbuns de fotografias em livros ilustrados, publique as receitas da sua mãe, leve-o a passear de carro, a tomar o pequeno-almoço, adicione controlos de alfaias agrícolas à cadeira dele, ponha música e sente-se a ver qualquer programa. Leia-lhe um livro ou arranje-lhe audiolivros, são apenas algumas ideias.


- Certifique-se de que todas as fotografias têm os nomes das pessoas que nelas aparecem. Ano aproximado em que foi tirada. Há sempre uma história que acompanha cada uma.


- O meu pai adorava passear de carro.


- Os jovens agricultores poderiam visitá-lo para obterem os seus conselhos, ficarão espantados com os seus conhecimentos e ele gostará de ajudar.


- O que fazer? Talvez haja um grupo de amigos também idosos viriam tomar café. Sei que isso implicaria uma organização da sua parte, mas se preparasse o café e se certificasse de que havia bolachas ou uma espécie de lanche, talvez a cozinha dele pudesse ser o ponto de encontro. Mantê-los envolvidos e ocupados mantém a mente ativa quando o corpo não o permite.


- Jogos online (pensar em baixa mobilidade e manter a mente ativa).


- Será que ele pode vigiar as vacas que estão para parir através das câmaras de vídeo? E outras áreas importantes da quinta?


- Depois de o meu pai, também ele agricultor, ter sido submetido a um triplo bypass, ficou bastante doente durante muito tempo. Comprámos-lhe um pequeno aquário com peixes dourados. Ele adorava estar sentado na sua cadeira a falar com eles e a alimentá-los. Não é exatamente o mesmo que trabalhar na agricultura, mas ele gostava de poder cuidar de algo novamente.


- Os comedouros para pássaros no parapeito da janela são divertidos (quando funcionam).


- Talvez construir uma horta de canteiros que ele possa aceder e trabalhar a partir da sua cadeira de rodas? A minha mãe gostava muito disso.


- Mantenha-o envolvido. Pergunte-lhe sempre a sua opinião sobre as coisas. Peça-lhe ajuda. Continue a fazer com que ele faça parte das decisões da quinta.


 - Procura alguém com quem ele se sinta confortável e lhe faça perguntas. Tenho a certeza que sabes quais são as perguntas certas. Façam um livro com fotografias e memórias, tanto para ele como para si. Ele pode pegar nele em qualquer altura e tu também. 


- As visitas provavelmente significam mais para o teu pai agora, tal como eu, que ajudo a minha mãe de 91 anos que ainda vive sozinha em casa, digo que ter família e amigos a fazer pequenas coisas como telefonemas e visitas significa mais para eles agora. Ver álbuns de fotografias antigas pode, por vezes, ser reconfortante. 


- Quando a minha mãe ainda era viva e estava confinada a uma cadeira de rodas devido à poliomielite, mas com a mente intacta, gostava de fazer puzzles com serras de recortes. Há alguns cortados com peças maiores, se isso o ajudar.


- Quando o meu avô ficou com Parkinson e já não podia trabalhar na agricultura, sentiu o mesmo que o seu pai. Estávamos sempre à procura de coisas para o manter ocupado. Ele adorava passear de carro e dizer-me quais eram as quintas, quem vivia e que tipo de agricultores eram. Tenho saudades desses passeios.


- Um gato para o colo dele!


 - Que tal uma história registada de todas as várias peças de equipamento agrícola de que se lembra ao longo dos anos. Aposto que ele se lembrará de quando e onde muitas peças foram compradas e das reparações que fez.


- Quando o meu pai estava no hospital, um vizinho usou o seu drone para captar imagens da quinta e/ou das colheitas para lhe mostrar, para que ele estivesse a par de tudo. Ele também gostava dos meus aquários quando não podia ajudar nas tarefas domésticas. Também está cientificamente provado que o ronronar de um gato reduz o stress e a dor, por isso talvez um gato de abrigo mais velho? Muitos deles são negligenciados por serem considerados demasiado velhos, mas ainda têm muito amor para dar!” (…)


Legenda da imagem: o pai de Tim May com o neto Andy


Tim é produtor de leite em Ontário, Canadá. Tem uma licenciatura em Ciência Animal pela Universidade de Guelph. Tem dois filhos e a sua mulher é veterinária. É apaixonado pela agricultura e pela educação do consumidor. Nos últimos 40 anos, a sua família tem recebido visitas de escolas, grupos de interesse geral e indivíduos. Foi das crianças da escola que recebeu a alcunha de "Agricultor Tim". Menos de 2% dos canadianos são agricultores. Os consumidores estão muito afastados dos agricultores que os alimentam. Não é de admirar que as pessoas tenham tantas dúvidas sobre a origem dos alimentos e a forma como são produzidos. Os agricultores têm dificuldade em lutar contra a desinformação que os consumidores têm de enfrentar todos os dias quando fazem escolhas alimentares. Se todos os agricultores divulgassem a sua história, os seus esforços contribuiriam muito para dar aos consumidores alguma paz de espírito. Tim afirma que todos que os agricultores também são consumidores. Nós somos o que comemos. Queremos nutrir o nosso corpo com alimentos saudáveis, por isso faz todo o sentido que façamos o mesmo por toda a gente!


(Escrito para o Mundo Rural de Janeiro e Fevereiro de 2024)

sábado, 13 de janeiro de 2024

Análises de terra 2024

IMG_20240113_171043_167.jpg


IMG_20240113_171042_919.jpg


IMG_20240113_171043_569.jpg


“Nós não herdamos a terra dos nossos pais, recebemo-la emprestada dos nossos filhos”. Um ditado que o meu pai gostava de repetir e de que me lembro sempre quando tenho de colher amostras de terra para analisar o solo, preparando as culturas da próxima primavera.


O tempo incerto com frio, chuva, constipações e outras atividades concorrentes não permitiu levar os miúdos a todos os campos mas ainda consegui colher algumas amostras em conjunto.
Como expliquei noutros anos, em cada parcela de terreno, caminhamos em zig-zag, levando uma sonda com um tubo metálico que se espeta no solo até 20 cm, se roda e retira para colher uma pequena amostra. As amostras dos vários pontos juntam-se no balde e depois são colocadas num saco, devidamente etiquetado, que os técnicos encaminham para o laboratório de solos. O objetivo é saber como evolui o pH do solo, o teor de matéria orgânica e de alguns nutrientes como fósforo, potássio, magnésio e manganês…


As análises regulares ao solo e o aconselhamento técnico permitem-nos escolher o adubo e calcular a quantidade a aplicar, consoante o estado do solo e as necessidades da cultura, o que protege o nosso rendimento e o ambiente, porque o excesso de adubo iria causar poluição.


Cultivamos a terra ao longo de gerações. O objetivo de todos os agricultores é melhorar e conservar o solo. Deixar a terra o melhor possível para os que vierem a seguir.


#carlosnevesagricultor
#agricultura
#solo