quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Balanço do ano velho e antevisão do ano novo

20251231_163707.jpg


Último dia do ano, últimos trabalhos, última foto dentro do trator para desejar bom ano e mandar um abraço a todos os que virem esta mensagem, a todos os que me fizeram companhia neste ano que passou.
Em 2025, li mais e escrevi e publiquei menos, por vários motivos, sobretudo porque, como é normal na agricultura, os dias e as tarefas se sucedem iguais, dia após dia, ano após ano e nem sempre há coisas novas para dizer. A primavera foi chuvosa, o verão foi seco e assim continuámos até meio do Outono. Tive medo que depois do verão seco que me obrigou a regar como nunca começasse a chover na hora da colheita mas foi a época de colheitas mais tranquila dos últimos anos. Depois a segunda metade do Outono pareceu um inverno à moda antiga. Curiosamente o sol voltou desde que o inverno oficialmente começou.
Para mim e para a minha agricultura não foi um ano espetacular nem foi um ano complicado, foi um ano bom, razoável, "mais ou menos".
2026 começará com algumas nuvens negras, mais concretamente sobre o preço do leite, a nossa principal produção aqui na "bacia leiteira" do Entre Douro e Minho. Teremos que ser prudentes e resistentes, tanto em relação aos problemas como às soluções milagrosas com que algum tocador de flauta nos queira encantar.
O mais importante é ter saúde, para que daqui a um ano possamos olhar para trás, avaliar o que fizemos e descobrir que não vale a pena sofrer por antecipação, porque "nunca chove como venta". Já passámos por muito e somos os herdeiros e continuadores de quem passou muito mais.
A agricultura vai continuar, "a vida encontra sempre um caminho" e eu aqui voltarei sempre que tiver uma imagem, um assunto, uma história e tempo para publicar. A todos, em especial aos que se sintam mais sós, doentes ou angustiados, um abraço e votos de bom ano novo. Quando estamos em baixo, a única saída é para cima!
#carlosnevesagricultor #agricultura #2026 #bomanonovo

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Dividir para reinar

FB_IMG_1766002886473.jpg


Amanhã, 18 de Dezembro de 2025, haverá uma importante manifestação em Bruxelas. Não estarei presente, mas estarei certamente bem representado por muitos agricultores portugueses e de toda a Europa que se vão manifestar por muitos motivos, mas essencialmente contra o acordo do mercosul e contra a proposta de redução de 20% do orçamento da próxima PAC, política agrícola comum.
É certo que a Europa precisa de ir buscar a algum lado o dinheiro para se defender, ameaçada por uma Rússia que quer voltar a dominar o território da União Soviética e "abandonada" pelo tradicional aliado americano, mas os decisores europeus não podem esquecer que a agricultura tem que ser estratégica e que a ocupação do território e a produção de alimentos fazem parte da segurança.
Penso que começa a ser evidente que a Europa seguiu nas últimas décadas um caminho demasiado esverdeado e demasiado regulamentado, tudo isso pode ser discutido, inclusive se queremos mais integração ou mais autonomia dos países, mas convém não cair na ilusão dos que querem ver Bruxelas a arder e a União Europeia a terminar.
Uma Europa dividida é o que querem os rivais da Europa, os mesmos que apoiaram o brexit. Para poderem dominar o mundo, económica ou militarmente, querem uma Europa dividida, países divididos, agricultores divididos.
Dividir para reinar e incentivar revoluções para ocupar o poder são estratégias muito antigas que não devemos esquecer para não sermos também nós usados nessa estratégia de divisão. A democracia só será possível com mais diálogo, mais argumentação racional e menos "ódio digital".

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Do Monte Saint-Michel à Ferme Cara-Meuh

FB_IMG_1765394313934.jpg


FB_IMG_1765394330994.jpg


A viagem de avião do Porto a Nantes durou cerca de hora e meia. Chegámos já de noite, debaixo de chuva, pernoitamos num hotel junto ao aeroporto de Nantes e no dia seguinte seguimos viagem num carro alugado, durante duas horas, até à baía do Monte Saint-Michel. Para ser menos cansativo, procurei alojamento numa das muitas casas de turismo rural da região. Durante essa busca, reparei no mapa que havia muitas quintas com produção de hortícolas e criação de ovelhas e vacas. Perguntei num grupo de produtores de leite franceses por vacarias que poderia visitar na região e vários sugeriram a Ferme (quinta) Cara-Meuh. "Cara" é de caramelo e "Meuh" é como as vacas francesas dizem "múu". É mais chique😅...
Aceitei a sugestão porque o nome já me era familiar, uma vez que tinha sido convidado para um evento dos produtores de leite Europeus, EMB, nesse lugar mas na altura não foi possível participar.
Depois de visitar o Monte, ao fim da tarde dirigimo-nos à Ferme Cara-Meuh que está a 25 minutos a Norte do Monte Saint-Michel e pertence à família Lefranc há várias gerações, desde 1929.
Em 2009, em plena crise do leite na Europa quando o preço por litro desceu aos 20 cêntimos, houve uma greve do leite durante 15 dias na França e a família desta quinta também participou nas manifestações com espalhamento de leite nos campos junto ao Monte Saint-Michel. Depois, insatisfeitos com os resultados, começaram a procurar formas de valorizar diretamente o leite. Em 2010 começaram a produzir caramelos, natas e manteiga e em 2011 iniciaram a reconversão da produção para o modo biológico. Começaram a fazer venda direta e abrir as portas da quinta ao fim de semana. Agora organizam anualmente o festival "Cara-Meuh". Em 2017 adaptaram um velho autocarro para galinheiro móvel, e em 2018 começaram a produção de mel. Com as dificuldades do confinamento por causa do covid, anteciparam o projeto de fazer queijo e mais recentemente cerveja com base na cevada que produzem. E agora até lançaram um queijo com
cerveja...
A loja da quinta, aberta nos 7 dias da semana, tem disponíveis mais de 600 produtos próprios e da região e no piso superior um "museu do leite" que merece a visita. Tendo chegado à quinta quase ao anoitecer, já não tivemos luz para ver todo o espaço exterior, mas pudemos ver as vacas a serem ordenhadas, coisa que vemos todos os dias, mas na nossa vacaria temos um robô de ordenha e assim pude mostrar ao meu filho mais novo como era o nosso trabalho antes do robô chegar há 12 anos.
Se visitarem Saint-Michel e não tiverem hipótese de ir à quinta, encontram os caramelos e mais alguns produtos na primeira loja de souvenires logo após a passagem da "ponte levadiça" nas muralhas do monte.
#carlosnevesagricultor #agricultura #viagens #montsaintmichel #carameuh

sábado, 23 de agosto de 2025

Lavrar, pastar, queimar e ajudar

FB_IMG_1755952719181.jpg


FB_IMG_1755952275405.jpg


Nas últimas semanas, dividi a minha atenção entre os cuidados das vacas, a rega do milho e as notícias dos incêndios.
Com os fogos por longe, a rega foi o maior trabalho e não tenho memória de um ano intenso como 2025. A chuva de Março e Abril encharcou os campos e atrasou as sementeiras mas desde o início de maio praticamente não choveu mais. Por causa dessas chuvas de inverno e primavera os poços e rios ainda têm água para rega, mas foi também por causa dessa chuva que ervas e arbustos cresceram mais do que o costume por todo o lado e agora depois de três meses sem chuva e algumas semanas de tempo quente secaram como nunca. Por isso é que neste verão temos incêndios mais violentos. O ano passado tivemos chuva em maio e Junho, talvez alguma em julho e os maiores incêndios só aconteceram em Setembro.
Para agravar, como explicam cada vez mais especialistas na floresta, em Portugal, tal como Espanha, França e outros países que evoluíram como os nossos, estamos sentados em cima do “barril de pólvora” que é uma floresta com cada vez mais “combustíveis finos” para arder.
Antigamente (nos últimos 3000 anos) havia mais gente nas aldeias, na agricultura e na pastorícia. Os terrenos à volta das casas estavam todos cultivados e os rebanhos iam mais longe pastar e limpar a floresta, onde os agricultores iam cortar mato para as camas dos animais e o povo ia buscar lenha para cozinhar.
Tudo isso mudou nos últimos 60 anos, algumas vezes por decisões políticas a impor regras com boas intenções mas também com consequências negativas, outras vezes, a maior parte das vezes, porque as pessoas saíram da pobreza que tinham no campo à procura de uma vida melhor e agora eles e os filhos e netos só voltam durante alguns dias de férias e quem ficou no meio rural também trocou a lenha da bouça pelo fogão a gás ou elétrico e os poucos que ficaram na agricultura também trocaram o pastoreio por estábulos sem mato nas camas dos animais, que é a forma possível de trabalhar com máquinas e a pouca mão de obra disponível.
Depois dos terríveis incêndios de 2017, aumentou a “limpeza” da floresta, sobretudo junto a estradas e habitações, mas é tempo de avaliar se essa limpeza à base de roçadoras e capinadeiras não estará apenas a deixar cada vez mais palha e lenha (o combustível) cortados no chão à espera dos incêndios. Parece-me que têm razão aqueles que dizem que é preciso trocar a capinadeira pela grade de discos, onde for possível, para que a erva se misture com a terra e a matéria orgânica comece a decompor-se. E fazer muito mais fogo controlado no inverno e primavera, quando houver menor risco.
Talvez seja possível colocar mais ovelhas, cabras e vacas nos montes. Não será fácil. Já é difícil encontrar gente para trabalhar abrigado num estábulo, numa estufa ou dentro de um trator com ar condicionado, quanto mais para ser pastor. É verdade que esses ruminantes vão arrotar algum carbono sob a forma de metano, mas esse carbono foi captado pelas plantas e é menos mau ser arrotado pelos ruminantes do que ser libertado violentamente pelos incêndios.
Sobre agricultura e acesso à água para regadio, é preciso descomplicar para deixar os agricultores trabalhar.
O mais importante é não esquecer o assunto com as primeiras chuvas e só voltar às discussões quando voltarem os próximos incêndios.
E por agora, é preciso ajudar quem foi afetado, nomeadamente quem ficou sem comida para os animais até que as pastagens voltem a crescer. Não tenho muito feno disponível, mas ainda tenho livros de crónicas agrícolas para vender por 13€ e o resultado, descontando o custo de envio, será para comprar feno e rações para a campanha que está a ser promovida pela Ordem dos Médicos Veterinários, agora para Meda e Trancoso. Quem tiver interessado em ajudar envie mensagem para carlosneves74@sapo.pt.

domingo, 13 de julho de 2025

Três erros na utilização de pesticidas

20250713_154518.jpg


Proteger as plantas é uma necessidade que acompanha a agricultura desde que a humanidade aprendeu a cultivar. Certamente foi um longo processo de aprendizagem na procura e experimentação de produtos para ajudar a manter as plantas saudáveis e afastar as pragas, doenças e ervas daninhas.


Nos anos mais recentes, após a revolução industrial e o desenvolvimento tecnológico da primeira metade do século XX, surgiram os produtos agroquímicos de síntese, produzidos nas fábricas, que se juntaram aos produtos de origem natural que foram sendo descobertos ao longo dos séculos, como é o caso da “calda bordalesa”, baseada na cal e no sulfato de cobre. Hoje existem uma enorme variedade de produtos à nossa disposição, mas persistem alguns erros para os quais devemos alertar:


Falta de proteção individual


Os pesticidas podem provocar intoxicações “agudas”, repentinas, no caso da ingestão do pesticida, ou intoxicações “crónicas”, quando resultam da exposição prolongada, ao longo do tempo, sem utilizar os equipamentos de proteção durante a preparação ou a aplicação da calda. Os equipamentos mais básicos, obrigatórios, devem ser a máscara e luvas de borracha, mas também é importante usar roupa e óculos de proteção. À boa “maneira portuguesa”, muitas vezes facilitamos nestas coisas básicas e não nos protegemos.


Falta de cuidado na aplicação


Para além da falta de proteção connosco próprios, outras vezes não se protege quem vai consumir os alimentos. Às vezes as pessoas estão tão focadas em combater uma praga ou doença que aumentam a dose para além do recomendado no rótulo. Outras vezes nem leram o rótulo onde é indicada a dose a aplicar e o “intervalo de segurança”, que é o período de tempo que deve ser respeitado entre a aplicação do pesticida e a data da colheita, para que os resíduos desapareçam da planta. Outras vezes, ainda, aplicam-se os pesticidas com demasiado vento, que arrasta o produto para culturas vizinhas.


Pensar que o natural não faz mal


Percebendo que os produtos químicos de síntese podem ser perigosos, as pessoas procuram alternativas naturais, mas uma coisa “natural” também pode ser muito tóxica, muito venenosa, em certos casos mais tóxica do que a alternativa de síntese. Por exemplo, o veneno de cobra e os cogumelos venenosos são produtos naturais, mas extremamente venenosos, podendo causar a morte. Outro exemplo: circula pelas redes sociais uma receita de “herbicida natural”, para controlar as ervas daninhas “sem veneno”, que consiste em diluir água, vinagre e sal. Depois de escrever “natural” ou “sem veneno” com letras gordas no título, a publicação, nas letras pequenas que muitas pessoas já não leem, diz que não se deve usar a receita se tencionar voltar a cultivar nesse terreno. Lendo os comentários nas várias publicações, a maioria das pessoas que comentam dizem que é um erro colocar sal em grande quantidade porque vai esterilizar a terra, mas a “receita natural” vai circulando e certamente alguns vão experimentar e vai correr mal. Neste, como noutros casos, “a dose faz o veneno”. Um terceiro exemplo: a calda bordalesa, baseada em sulfato de cobre e cal, é um fungicida natural, já antigo, autorizado em agricultura biológica, mas tem “intervalo de segurança” e quem usava com frequência em ramadas sabia que a terra por baixo apresentava problemas por excesso de cobre. Mais uma vez, a dose faz o veneno.


Recapitulando:
Os pesticidas são uma ferramenta essencial para proteger as culturas que não devemos dispensar nem usar de forma generalizada, sem regras.
Devemos pedir conselho aos técnicos para usar um produto “legal” que seja mais eficaz e menos tóxico para o aplicador, para o ambiente e para o consumidor.
Devemos ler o rótulo e usar o equipamento de proteção, a começar pela máscara e luvas.
Devemos ter igualmente cuidado com as receitas “naturais” que apesar de naturais podem ser mais tóxicas do que os pesticidas que só podemos comprar e aplicar depois de fazer o “curso de aplicador de produtos fitofarmacêuticos”.
Depois de aplicar os pesticidas, devemos fazer a “tripla lavagem” das embalagens e devolver as embalagens vazias dos pesticidas nos centros de recolha da valorfito – regra geral, no mesmo local onde se compram os pesticidas. Escrito para a revista Mundo Rural de Maio - Junho de 2025

domingo, 11 de maio de 2025

Dias de campo, dias da rádio


494132949_1338014154994834_4540070025876516808_n.j


495898407_1338014334994816_3787726810593675663_n.j



Ouvi o anúncio do "fumo branco" no rádio do trator, quando estava a terminar as sementeiras do milho. Por curiosidade, o fumo branco contém lactose, mais uma utilidade do leite.

Ouvi o nome do novo Papa no rádio do trator, já abrigado no armazém. Acompanhei a evolução do apagão também via rádio, dentro do trator, primeiro a semear milho, depois a enfardar erva. Notícias nunca me faltaram.

Tal como na estrada, a rádio é a companhia de quem anda no campo, sobretudo nestas alturas de longas horas no trator a colher, lavrar ou semear. Rádios nacionais ou locais, com vários tipos de música, com mais ou menos informação. Pessoalmente, dou prioridade à informação e vou alternando entre rádios quando o noticiário já se torna repetido e juntando alguma música.

As redes sociais espreitam-se nos intervalos, porque a atenção é precisa no trabalho, para que as lavouras e sementeiras não fiquem tortas, porque o autoguiamento por GPS ainda é muito raro.

Não foi preciso faltar a luz para descobrirmos a rádio, entre o os agricultores. É a nossa primeira companhia nestas longas jornadas. Obrigado aos animadores, técnicos e a todas as equipas que mantêm a rádio "no ar".

sexta-feira, 9 de maio de 2025

As notícias da morte da charrua são claramente exageradas



495487203_1334600638669519_3911617516874864920_n.j





Consegui lavrar a última parcela para a sementeira do milho, o que ainda não tinha sido possível por causa da chuva e da humidade da terra. Ficam ainda para trás dois pequenos pedaços ainda mais encharcados, à espera de dias mais secos.

Pelo que vou observando, ao vivo entre os meus vizinhos e ao longe através das redes sociais, andam todos os agricultores a aproveitar estes dias de sol para colher ervas, fertilizar a terra, lavrar e semear.

A propósito de lavrar, li há meses um daqueles textos muito "cheios de razão", com alguém a defender que as charruas deviam estar no museu. Quando é que já ouvi isso?

Em 1998, eu tinha acabado de me instalar como jovem agricultor e, seguindo os meus colegas, decidi atualizar o meu equipamento de preparação da terra e sementeira. Comprei um trator com 90cv, acrescentei um ferro / aiveca na charrua que já tinha, comprei uma rotofresa de 2,5 metros e um semeador de milho de 4 linhas. Como jovem agricultor, tive na altura um apoio de 25%.

Nesse mesmo ano, ou no ano seguinte, aderi, apenas com uma parcela de 1 hectare, a um projeto experimental de "sementeira direta", num grupo de 25 agricultores, processo que dispensa a mobilizaçao da terra. Perante as vantagens que ouvia sobre o novo sistema, lembro-me de ter pensado que tinha feito asneira ao investir na charrua e na fresa. Ao fim de 5 anos, quase todos abandonámos a experiência da sementeira direta e voltamos a 100% à lavoura. As razões foram dificuldades com infestantes, pragas (no meu caso, tive um ataque de uma espécie de pulgões que invadiram as casas vizinhas ao terreno), falhas na sementeira e necessidade de incorporar o chorume na terra. Também houve quem tivesse bons resultados, mas aqui na minha zona a percentagem de sementeira direta é muito baixa.

É uma técnica muito interessante para evitar a erosão, mas aqui, até agora, não teve sucesso. Pelo contrário, as charruas, nas suas variadas formas e tamanhos, sucessoras dos arados usados há centenas ou milhares de anos, continuam a atualizar-se e virar a terra. Os lavradores continuam a lavrar.


domingo, 20 de abril de 2025

Viver a Páscoa como agricultor


492039532_1318795200250063_1645447409337916173_n.j



O “compasso” ou “visita pascal” é uma tradição do dia de Páscoa, no Norte de Portugal, organizada em pequenos grupos que em cada paróquia levam um crucifixo ornamentado com flores, anunciado por campainhas, a todas as casas que o queiram receber, abrindo a porta e colocando no chão um pequeno “tapete” com algumas folhas e flores. A tradição tem muitas variantes, a começar pelas roupas. Aqui no topo Norte da Diocese do Porto usamos umas capas vermelhas a que chamamos “opas”, noutras zonas usam vestes brancas ou apenas uma faixa.

Quando eu tinha 10 anos, o meu pai foi o “Juiz da Cruz” que tinha a responsabilidade de organizar o compasso e dar o almoço aos participantes e eu fui pela primeira vez no compasso, a tocar a campainha. Nos anos seguintes raramente voltei a participar no compasso porque me competia ficar na vacaria a “segurar as pontas” enquanto o meu pai participava e depois ajudar a minha mãe a preparar a mesa com um pequeno lanche para a comitiva do compasso. Só nos últimos anos voltei a participar no compasso de forma ativa.

Para um agricultor e criador de animais, participar nestas atividades pode ser difícil ou quase impossível. O trabalho nos campos ainda pode esperar, mas é preciso assegurar a ordenha, a alimentação e providenciar os cuidados necessários.

Apesar disso, através das fotos publicadas nas redes sociais, vi com satisfação que muitos colegas agricultores participaram ativamente nesta tradição pascal. Para isso certamente adiantaram o trabalho possível, levantaram-se mais cedo, organizaram as coisas e deixaram algum trabalho para depois.

Regra geral, os agricultores trabalham a terra que herdaram dos pais, a terra onde viveram os seus pais e avós e são, portanto, gente da terra e das terras, gente que conhece e mantém viva as tradições. Por isso as tradições precisam dos agricultores e os agricultores, mesmo que tenham de fazer um esforço extra, também precisam de participar nas tradições, integrar-se na comunidade e manter vivas estes momentos de festa, de encontro, de partilha, de esperança, de contacto direto com as pessoas.

Votos de uma Páscoa feliz e bom descanso para quem “andou” no compasso!

O trator é uma ferramenta útil e perigosa


490707190_1316267847169465_6450821214872924067_n.j



A civilização foi uma consequência da descoberta da agricultura. Quando os homens começaram a produzir os alimentos de que necessitavam sem precisar de serem nómadas para ir caçar e colher num sítio diferente, para além de poderem construir cidades “permanentes” ficaram com tempo livre para se dedicarem a todo um conjunto de atividades, como a escrita.

As ferramentas sempre foram essenciais para a agricultura. Primeiro pequenos utensílios de pedra lascada, depois ferramentas de metal, mais tarde alfaias de tração animal e finalmente os tratores.

Os primeiros tratores e debulhadoras, a vapor, surgiram por volta de 1850 e terão chegado a Portugal algumas décadas mais tarde. Ao longo do século XX, chegaram também a Portugal e a tração animal, de vacas, burros e cavalos, foi progressivamente substituída pelos tratores.

O primeiro trator da nossa “casa de lavoura” foi este Fordson Super Dexta que o meu pai comprou em 1963. Ainda funciona, mas faço apenas pequenos trabalhos com ele para o manter a funcionar, como “museu vivo”. Há muitos tratores como este, desta e de outras marcas, alguns ainda mais velhos, outros mais novos, que ainda funcionam e são úteis por todo o nosso país.

Neste momento existem cerca de 200.000 tratores em Portugal. Metade desses tratores não tem sistemas de proteção, como cabine ou o “arco de segurança” ou “arco de S. António”. Por causa da falta de proteção, dos terrenos perigosos, com muitos declives, por causa da falta de cuidado típica dos portugueses e da idade avançada de muitos condutores, todos os anos morrer dezenas de agricultores esmagados por tratores que capotam, que viram sobre si próprios.

Em 2019, morreram 57 pessoas debaixo de um trator. Em 2020, no artigo “Temos vacina para as mortes com trator, vamos usar?”, sugeri o seguinte:

- “Para agricultores e empresas que tenham muito trabalho para o trator, um programa para a troca/abate dos tratores velhos, poluentes e perigosos, substituindo por tratores novos, mais seguros, económicos e ecológicos com apoio a fundo perdido.

- Para quem apenas usar o trator poucas horas por ano, se estiver em bom estado de mecânica, um apoio de 90% para a instalação do arco de proteção.

- Uma boa campanha de comunicação para meter na cabeça dos mais casmurros que o arco da segurança só protege se for usado corretamente. Trazer o arco dobrado para passar debaixo das árvores ou ramadas não funciona, é como levar o capacete no braço para o caso de aparecer a polícia.

Além de poder salvar vidas todos os anos, este dinheiro não fica nos agricultores. Vai dar trabalho às pequenas empresas, aos mecânicos e serralheiros que vendem e reparam tratores e máquinas agrícolas. Acima de tudo, quanto vale uma vida? Quanto custa o socorro, o tratamento dos feridos e as reformas por invalidez aos sobreviventes?”

A primeira medida que propus, apoio à troca de tratores muito velhos (enviados para abate) por novos, foi colocada em prática nos anos seguintes, numa primeira fase com muitas limitações, depois mais abrangente. Falta a segunda parte, colocar estruturas de proteção, os arcos de segurança, nos tratores existentes. Vamos a isso?

(Escrito para a revista Mundo Rural de Março - Abril 2025)

domingo, 9 de março de 2025

Os soldados também precisam de comer

FB_IMG_1741516940378.jpg


Mais cedo ou mais tarde, com mais ou menos diplomacia, com mais ou menos justiça, haverá paz na Ucrânia. Espero que seja mais cedo do que tarde, porque a guerra é algo muito mau e espero que seja com o máximo possível de diplomacia, respeito e justiça, porque uma paz sem justiça é uma paz podre.
Qualquer que seja o futuro que agora nos parece incerto, uma coisa parece certa: vamos gastar mais dinheiro com a defesa. Seja para a guerra efetiva, seja para a paz, porque "quem quer a paz prepara-se para a guerra", seja para reconstruir a Ucrânia destruída pelas bombas, seja para integrar a Ucrânia na União Europeia, isso vai custar dinheiro.
Um orçamento, nacional ou comunitário, é sempre uma escolha na gestão de uma manta curta. Para tapar uma coisa destapa-se outra. Temos de estar conscientes que aumentar o orçamento da defesa irá pressionar cortes nos outros setores, como a agricultura.
Governar é fazer escolhas e as escolhas atuais não são fáceis nem são simples como pode parecer quando teclamos furiosamente no telemóvel e vivemos em bolhas informativas, com manipulação cada vez mais sofisticada. Convém manter o espírito aberto para ponderar entre os valores que não podemos esquecer e as limitações da realidade com que temos de viver. Convém estudar a história para não repetir os erros do passado e antecipar o que pode acontecer. O meu pai lembrava muitas vezes que "a história é uma velha chata que se repete com frequência".
Quando estive em Paris com a família há poucos dias, pelo interesse de visitar o túmulo de Napoleão, fomos visitar o museu militar que fica nos "Invalides", o antigo hospital para os feridos da guerra. Num museu repleto de armas, chamou-me a atenção este cartaz do Ministério da agricultura francesa na primeira guerra mundial, "Semear batatas, pelos soldados, pela França". Lembra-nos que o povo e os soldados precisam sempre de comer. A agricultura faz parte da segurança estratégica de um país ou de uma comunidade democrática, como devemos defender que seja a Europa.
#carlosnevesagricultor

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Três recordações de uma viagem a Paris

 


480353580_1262130575916526_6584284955176853957_n.j


480487579_1262130132583237_5992372507632653378_n.j


480507908_1262129075916676_2559460324824661194_n.j


480511527_1262129395916644_5362205004166969713_n.j


480568893_1262130002583250_1232136293175331813_n.j


480656278_1262129609249956_474122824505611043_n.jp


480683313_1262129762583274_3875855499013893277_n.j


480695762_1262129349249982_5983605649490132092_n.j


480724998_1262130519249865_4762511600202210178_n.j


480748480_1262130069249910_5893057107774557508_n.j




Fui passar um fim de semana a Paris com a família e quero partilhar convosco três recordações:

 

Liberdade. Perguntaram-me há pouco tempo se concordava que "a produção de leite é uma prisão". Respondi que às vezes estamos presos, mas temos de fazer sempre um esforço para sair. Cada saída, cada viagem, seja a Aveiro ou ao estrangeiro, é um objetivo de “libertação” que me proponho alcançar. O meu pai dizia que havia quem chamasse ao nosso trabalho "escravatura branca" (por causa da cor do leite). E cada publicação minha sobre férias é um desafio, um incentivo que vos faço para também sair desta "prisão" que, às vezes, é psicológica.

 

Igualdade. Viajar é uma aula prática de igualdade, diversidade e encontro com o diferente em múltiplas situações. Descontando a excepção das pessoas muito ricas que viajam em jatos privados, a igualdade começa logo na revista de segurança do aeroporto que nos obriga, todos, a colocar os pertences na caixa que vai ao raio-x e passar o detetor de metais com as calças na mão e às vezes descalsos. Diversidade que depois continua com os turistas de todos os cantos do mundo que nos pedem para tirar uma foto junto à Torre Eifel ou com os imigrantes de todas as origens que nos vendem souvenirs, conduzem os táxis ou ubers e nos atendem nos cafés, restaurantes e hotéis.


 

Fé e fraternidade. A fraternidade vem de fraterno, frater, irmão. A “fraternidade”, enquanto valor da sociedade ocidental, tal como outros valores, bebe na fonte do cristianismo, à luz do qual todos somos irmãos por sermos “filhos de Deus”. Sejamos ou não crentes ou praticantes, a nossa cultura, aquilo que somos, tem um chão comum que nos marcou nos últimos 2000 anos, que devemos conhecer e proteger. Por isso todos nos comovemos com o incêndio da Catedral de Notre-Dame e rejubilámos com a sua recuperação. De cara lavada, a catedral, onde fomos à missa no domingo, tal como o Sacré-coeur (igreja jubilar) ou a igreja de S.Severin, que encontrámos por acaso, são casas de porta aberta para os crentes que queiram rezar, para os turistas que querem visitar enquanto obras de arte ou para quem quiser simplesmente entrar e meditar ou descansar.

domingo, 9 de fevereiro de 2025

O preço dos ovos e o custo das regras

IMG-20250209-WA0010.jpg


Para o “Dia dos namorados” de 2025, o “presente de luxo” mais sugerido pelos utilizadores de redes sociais nos Estados Unidos são… ovos!


O site AGDAILY mostrou várias dessas publicações e deu um exemplo de Lisa Shepard que publicou: “Não sou de me gabar, mas o meu marido comprou-me 4 dúzias de ovos de presente de dia dos namorados hoje!”
As piadas multiplicaram-se à medida que o sentido de humor acompanhou a subida do preço dos ovos registada nos últimos meses. A principal causa desta subida parece ser a gripe aviária, que tem levado ao abate de muitas galinhas e consequente redução da produção, mas o meu colega Derick Josi, TDF Honest Farming, não sendo produtor de ovos, chamou a atenção para outra hipótese que merece ser considerada: Esta subida do preço dos ovos acontece depois da imposição de uma série de regras nos últimos anos ao nível de aviários, nomeadamente a obrigação das galinhas terem acesso ao ar livre, regras que aumentam os custos.
Já agora, convém lembrar que a gripe aviária é transmitida pelas aves migratórias e quando as galinhas têm acesso ao exterior o risco de contrair a doença é maior.
E outra coisa ainda: as regras de bem-estar animal, que podem parecer razoáveis, que muita gente defende preocupando-se genuinamente com o bem-estar dos animais de produção, também podem ser um “truque” para causar o aumento do preço da proteína animal, nomeadamente o custo dos ovos e da carne de frango e assim favorecer o mercado das alternativas de base vegetal ou as imitações de carne produzidas em laboratório...

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Gente como vós

20250207_182741.jpg


Lembram-se do filme Forrest Gump? Protagonizado por Tom Hanks, conta-nos 40 anos de história dos Estados Unidos de uma forma divertida, através das histórias da vida de um rapaz com Q.I. abaixo da média. Numa das cenas mais comoventes do filme, Forrest, com o coração nas mãos, pergunta se uma certa criança (ao contrário dele) é normal. Noutra cena, corta a relva. Cortar a relva também é uma coisa que eu gosto de fazer. Sinto-me “normal”, igual a qualquer outra pessoa de classe média, de qualquer profissão, que corta a relva do seu jardim. 


Na cabeça de muita gente, trabalhar na agricultura não é ser normal, é estar um bocadinho abaixo do normal na pirâmide da sociedade. Lembro-me, ainda criança, de ouvir coisas como “desperdiçar na agricultura uma cabecinha boa para estudar”. Lembro-me mais tarde de me aperceber que muitos e muitas jovens preferiam trabalhar numa fábrica de confeções a ganhar o salário mínimo (que já foi muito mais mínimo do que é hoje) em vez de trabalhar na agricultura da família. Lembro-me ainda de ler George Stilwell relatar o “orgulho de ser agricultor” que observou no Royal Show em Inglaterra, por oposição à baixa autoestima dos agricultores em Portugal… 


Com tudo isto, com o trabalho às vezes duro, com os preços baixos dos produtos agrícolas, não admira que uma parte significativa dos agricultores tenha saído do meio rural em direção à cidade ou ao estrangeiro ou diga aos filhos para fugirem da agricultura e procurarem um trabalho atrás de uma secretária.


Entretanto, se antigamente os portugueses tinham pena dos agricultores, por causa da dureza do trabalho e da pobreza da maioria dos trabalhadores agrícolas, hoje, por vezes, têm medo e veem os agricultores como malfeitores que poluem o ambiente, maltratam animais e enchem a comida de químicos que fazem mal. 


No entanto, com as novas tecnologias, a agricultura pode ser mais confortável e cativante. Há muitas pessoas descontentes noutras profissões, a trabalhar por turnos, a fazer trabalhos duros e repetitivos que na agricultura poderão encontrar um trabalho mais compensador… se forem chamados, se lhes for proposto um ordenado compensador, se o preço dos produtos agrícolas compensar esse pagamento e ainda se não acontecer a resistência social que referi atrás. 


Com a saída da mão de obra agrícola, com a redução normal do número de filhos por família, com o fim do trabalho infantil, a solução de quem fica na agricultura manter a atividade passa pela mecanização possível e pela contratação de imigrantes para o trabalho agrícola. 


Neste momento, 40 em cada 100 trabalhadores agrícolas em Portugal já são estrangeiros. São 40% da força de trabalho e também são 40% das pessoas que fazem descontos para a segurança social… 


Por muito que alguns possam ter saudades do passado em que não faltava gente (pelo contrário, havia tanta gente que emigrar era a única forma possível de fugir à pobreza), por muito medo que possa haver em relação a rostos e línguas estranhas que chegaram, esta é a realidade atual da nossa agricultura. 


A dignidade desses imigrantes é posta em causa pelas redes de tráfico humano, pelas condições miseráveis em que por vezes são alojados, pela falta de resposta dos serviços do Estado que deviam proceder ao seu registo e tratar da documentação e pela insegurança que a população portuguesa vai percecionando com o aumento da imigração. Os imigrantes são essenciais na agricultura e noutras atividades económicas, são essenciais para manter viva essas atividades, para manter vivo o meio rural português, mas tem de ser integrados e acompanhados para não serem marginalizados ou se tornarem marginais com todas as consequências sociais que se podem esperar. Escrito para Mundo Rural - Janeiro / Fevereiro 2025

sábado, 25 de janeiro de 2025

Tempo de discussões sobre o tempo

FB_IMG_1737831384860.jpg


Tenho saudades do tempo em que o estado do tempo era um desbloqueador de conversas e não um detonador de discussões entre guerreiros do teclado. Uma pessoa chegava à sala de espera do médico, comentava que estava frio ou vinha chuva e uns acenavam com a cabeça, outros ficavam calados e outros, se quisessem, tinham conversa para ocupar o tempo de espera comentando o calor das férias do Algarve, o frio de Trás-os-montes ou a nortada da Póvoa. As discussões aconteciam entre os adeptos dos boletim meteorológico, das fases da lua, do almanaque ou dos ditados antigos como o humor da Senhora das candeias.
Agora, aparece uma notícia sobre vento e chuva e começa a discussão entre os adeptos da teoria do “fim do mundo” (que vai acabar por causa do aquecimento global) e do “fim do mês” (o que interessa é ganhar o dia a dia e depois vê-se). Para os primeiros, no limite, cada vez que alguém espirra a culpa é das alterações climáticas, para os segundos ventos de 200 km / hora é normal no inverno. Pelo meio, ou por trás de tudo isto, há sempre negócios. Uns tentam manter as vendas e outros vender novas coisas e às vezes até são os mesmos que vendem gasóleo e eletricidade, que furam num lado e colocam painéis solares no outro e ganham em ambos enquanto nós, o povo, nós consumimos a consumir, a discutir e a fazer publicidade grátis.
Para complicar, a própria meteorologia “privatizou-se” e agora em vez do boletim meterológico no fim do telejornal temos 20 canais de televisão, 40 jornais e 400 páginas “meteo” a lutar por likes e visualizações, e se alguns tentam manter o rigor, outros não se importam de anunciar a “tempestade do século” em letras garrafais quando o centro da tempestade está a milhares de kms e aqui “só” está previsto um bocado de vento e chuva. E depois, como na história do Pedro e do lobo, o povo deixa de dar atenção aos avisos e responde sempre “é inverno, é normal”, e não toma os cuidados que devia ter…
Ó gente, quando a Proteção civil faz avisos, é como quando a vossa mãe dizia “Está frio, leva o casquinho! Vem chuva logo à noite, leva o guarda-chuva ou anda para casa mais cedo!” Vocês respondiam “Ó mãe, é normal, estamos no inverno?” Então…
#carlosnevesagricultor #tempo #meteo #chuva #vento #herminia

quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

Leite inteiro e "gordofobia"


473533940_1235702948559289_731560427884489240_n.jp


473452004_1235717135224537_3924073728213695319_n.j



Andam por aí "mosquitos por cordas" com um polémica por causa de algumas marcas terem passado a chamar "Leite inteiro" ao que até agora se chamava "leite gordo". Eu não tenho tempo para discutir o assunto nem tenho qualquer esperança de acabar com essa polémica, porque polémica é precisamente o que toda a gente quer (a comunicação social, os donos das redes sociais e as pessoas que estão aborrecidas e querem resmungar com alguma coisa), mas venho aqui dar o meu contributo, não sei se estou a deitar "água no lume" ou "achas para a fogueira", mas cá vai.

Eu acompanhei a "luta" de dezenas de anos de pessoas como o Dr Pedro Pimentel, que foi secretário-geral da ANIL, Associação dos Industriais de Lacticínios, para que se pudesse chamar "inteiro" ao leite gordo. Fez-se essa luta porque nos diziam que as pessoas não bebiam leite gordo com medo da gordura e portanto seria bom para o setor mudar o nome para "leite inteiro", como sempre se chamou nos outros países, e portanto, posso testemunhar que, na origem, isto não teve nada a ver com as modas "woke" dos últimos anos.(C.N.) Passo a palavra ao Pedro Pimentel:

"O tema da 'gordofobia' no leite tem uma história longa.

Em Portugal vingou, de há muito, a designação de magro, meio-gordo gordo para os leites que apresentam um teor de gordura inferior a 0,5%, a entre 1,5 e 1,8% e acima de 3,5%.

Refira-se que quando o leite é ordenhado tem, em média 3,7% de gordura. Ou seja o leite tal como é produzido pela vaca tem essa parcela de gordura, mas convencionou-se - noutros tempos - que essa seria a designação de venda do produto.

Como refere a notícia do DN a designação INTEIRO (a também as designações DESNATADO e SEMI-DESNATADO) é a que prevalece na generalidades dos países: Espanha, França, Alemanha, Bélgica, Itália, Reino Unido, EUA, Canadá, Brasil e em muitos mais e corresponde ao que efetivamente acontece: leite com a gordura natural ou leite a que foi parcial ou totalmente retirada a respectiva nata (a gordura do leite).

Em boa verdade, é muito redutor falar num produto GORDO quando o mesmo contém apenas 3,5% de gordura, quando existem no mercado inúmeros produtos magros ou light que têm 5 ou 10 vezes mais gordura.

No final dos anos 90, quando exercia as funções de secretário geral da associação de lacticínios portuguesa, fiz inúmeras démarches para alterar a nomenclatura utilizada ou, pelo menos, permitir às marcas que tivessem a hipótese de utilizar a designação de venda que entendessem.

Na altura, a autoridade portuguesa que poderia propor essa alteração legal opôs-se sempre a essa modificação com o extraordinário argumento, apresentado pelo responsável à época, de que "a minha mulher está habituada a essa designação e não perceberia a nova terminologia".

A coisa, não tendo qualquer graça, converteu-se em piada e dizia-se que as leis teriam que ser previamente validadas pela mulher do Eng.º X.

Contudo, num contacto totalmente fortuito com os serviços de tradução da União Europeia, consegui convencer a tradutora de um Regulamento sobre as designações de Leite, a - na versão portuguesa - referenciar as duas famílias de terminologias: gordo, meio-gordo, magro ou inteiro, desnatado e semidesnatado.

Ou seja, 'venceu-se' na secretaria um jogo que estava engalinhado dentro de campo.

Apesar disso, as marcas mantiveram a terminologia utilizadas por muitos anos, não sei se por temerem confundir o consumidor se por alguma cristalização de raciocínio.

E, sim, acredito que a mudança de designação de venda é um sinal-dos-tempos. Mas que poderia estar em prática, já não tenho de cor, mas há pelo menos dezena e meia de anos.

Uma das peripécias que, um dia, farão parte, por certo, de um livro de memórias que esses tempos me deixaram."(PP)

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Ir para o campo à hora de vir

473891010_1238131438316440_5608642501166308254_n.j


473800679_1238131144983136_4185888247324879411_n.j


473443825_1238130868316497_6669752823149299870_n.j


473441013_1238130581649859_4961041077929039066_n.j


474551654_1238130761649841_3290770390055076650_n.j


473803954_1238130978316486_3031544063481004957_n.j


473810128_1238130564983194_128805307063644593_n.jp


474763085_1238130931649824_955871804358985615_n.jp


473452572_1238131041649813_8685006650435691419_n.j


473804588_1238131084983142_6910577096738394597_n.j


“Ides pró campo à hora de vir!”, dizia a minha avó Esperança. Lembrei-me dela mais uma vez ao percorrer o meu arquivo de fotos, porque tenho muitas fotos do pôr do sol.


E porque vou “para o campo à hora de vir”? De uma forma resumida, a resposta pode ser “porque posso e porque quero”, uma expressão partilhada há dias por um avô que sigo  nas redes sociais (que se mete frequentemente em polémicas por causa de frases como esta, sempre que o assunto não são as fotos dos netos) e que deu esta frase como um exemplo de boa resposta para quando queremos dizer a verdade sem dar muitas explicações. Mas eu quero dar algumas essas explicações e por isso vou usar a frase como mote.


Porque posso? Porque, ao contrário da minha avó que nasceu no início do século XX e ia para o campo num carro de vacas com uma sachola e uma foicinha ou foucinhão (foucinhão é aquela coisa que a geração da minha avó usava para cortar erva e a geração Z só conhece das brincadeiras do halloween ou do carnaval), eu vou para o campo num trator com cabine, sem apanhar frio e com boa iluminação fazer trabalhos com máquinas. E também posso porque, ao contrário da minha avó e dos meus pais, não tenho que voltar ao fim da tarde para fazer a ordenha das vacas, porque tenho um “robô” de ordenha a trabalhar há 12 anos. É sempre preciso acompanhar e tocar alguma vaca atrasada, mas é um trabalho mais leve e mais rápido do que a ordenha tradicional, manual ou com máquinas, por isso posso aproveitar o fim da tarde noutras atividades.


Porque quero? Porque, como li há muito tempo num cartoon de uma  revista agrícola, “gosto da liberdade que a agricultura me dá, com licença do banco e do governo posso fazer tudo o que quero”. Isto para dizer que, apesar das regras que quem nos governa nos vai impondo cada vez mais, umas vezes com boa intenção, outras vezes com intenções que temos de enfrentar e muitas vezes a complicar, apesar de tudo, a atividade agrícola, sobretudo de quem trabalha por conta própria, é uma atividade livre em que podemos fazer escolhas. E eu escolho muitas vezes “ir para o campo à hora de vir”, mas não demoro muito, não fico lá toda a noite e escolho voltar a casa a horas decentes para jantar, ou “cear”, como dizia a minha avó, que almoçava de manhã, jantava ao meio dia e “ceava” à noite. #carlosnevesagricultor #pordosol #agricultura

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Farpas e javalis

IMG-20250108-WA0001.jpg


Um dia, há mais de 30 anos, na Casa-Escola Agrícola Campo Verde, o professor de português trouxe-nos um texto das “Farpas”, de Ramalho Ortigão. Nunca mais encontrei esse texto, até comprei e li o livro, mas descobri depois que existe outro volume onde deve estar essa “farpa”, de modo que vou citar “de cor” conforme me recordo. Ramalho comentava uma notícia da chegada do Rei, de comboio, a um determinado sítio, e criticava o floreado do discurso do autarca local, algo sobre a alteza real e um trono ou degrau imaginário, e também a resposta do Rei, cheia de maneirismos e vazia de conteúdo. Dizia Ramalho que, em vez dessa treta, os discursos deviam ser sobre os problemas concretos das pessoas, por exemplo “Majestade, o povo está a passar fome porque os pomares desta terra estão a ser atacados por pulgões” e o Rei devia responder: “Muito bem, logo quando regressar ao palácio vou chamar o Primeiro-ministro para ele chamar o Ministro da agricultura para que dêem ordens aos agrónomos para investigar o vosso problema e trazer-vos uma solução!”. Pronto.
Se fosse em 2025 e eu tivesse a oportunidade de falar, diria assim: “Senhor Presidente / Primeiro-ministro / Senhor Ministro ou secretário de Estado, os Javalis estão a tornar-se um problema cada vez mais grave em todo o país e também nesta região. Na semana passada, um amigo meu fotografou um bando de 15 javalis aqui ao lado em Bagunte, Vila do Conde. Contou-me o meu amigo que nunca tinham andado javalis por ali, que no próximo verão vai haver destruição de milho como já acontece noutros locais e que os caçadores não podem ajudar a controlar a espécie por causa dos distâncias de segurança que tem de manter em relação a casas e equipamentos, distâncias que podem fazer sentido nas regiões com grandes áreas e povoação concentrada, mas que tornam impossível a caça nas zonas de minifúndio”. E ficava à espera de uma resposta. Concreta.
#carlosnevesagricultor #agricultura #javali #javalis #milho #umdiaistovaicorrermal