









Colocaram-me mais uma questão por mensagem (podem continuar a perguntar): "Boas, amigo Carlos Neves, gostaria de saber como faz a apanha da erva verde, para alimentar as vacas no estábulo" (JR).
Ponto prévio: Noutras regiões do país, é normal levar as vacas ao campo pastar ou deixá-las sempre no campo. Aqui onde estou, na fronteira do Minho com o Douro Litoral, sempre foi normal cortar as forragens no campo (ervas ou milho) e levá-las para a “casa de lavoura” (complexo que compreende o estábulo, os armazéns e a casa do agricultor) para alimentar os animais abrigados. Recuemos um pouco no tempo. Quando o meu pai nasceu, cortavam a erva com uma foicinha ou “foucinhão”, e carregavam com uma forquilha para o carro de vacas que levava a erva para casa. Quando eu nasci, já os antigos “moços de lavoura” tinham emigrado para a França ou Alemanha (E os meus tios tinham ido para Angola). Devido à falta de mão de obra, o meu pai comprou em 1970, um corta-forragens da marca “JF” (ainda funcionam por aí algumas “taarup” idênticas) que cortava e carregava a erva para um reboque também “JF” que fazia a descarga da erva por tapete que arrastava para trás. Pela década de 80 o meu pai tentou construir uma engenhoca, um tapete colocado atrás do reboque para levar a erva até à manjedoura. Não resultou. Em 1986 fez como os outros agricultores que entretanto tinham comprado ganhadeiras rotativas para cortar a erva e “reboques forrageiros” para carregar e transportar até casa. As duas primeiras gadanheiras já foram para a sucata, mas o reboque ainda cá anda, após várias reparações. Também conhecido por “apanhador de erva”, este reboque tem um pick-up rotativo com molas (como as enfardadeiras) que apanham a erva do solo e depois um “transportador” que empurra a erva para dentro do reboque. Já não se fabricam estes “Santini” porque a fábrica italiana de onde veio faliu, mas ainda há peças e há outras marcas e opções a bom preço no mercado de usados. Como já referi numa publicação anterior, nas maiores vacarias opta-se sobretudo por usar a erva conservada sob a forma de silagem, rolos de fenosilagem plastificados ou fardos de feno. #carlosnevesagricultor
Vídeo do reboque a carregar erva: https://www.facebook.com/100063587865821/videos/344721753767682
Para ver a descarga da erva » https://fb.watch/a8fysRV8Rp/

Silagem de erva

Silagem de milho
Recebi uma mensagem a perguntar qual é a diferença entre “silagem de milho” e “silagem de erva”. Para os colegas agricultores a resposta é obvia, mas o objetivo das minhas publicações é comunicar com quem está fora do setor agrícola para mostrar como produzimos os alimentos, cultivamos os campos e criamos os animais.
A silagem de erva é erva “fermentada” e a silagem de milho é o resultado da fermentação de toda a planta de milho. A silagem de milho é mais energética e mais usada para alimentação das vacas leiteiras. A silagem de erva é mais rica em proteína, podendo ser usada na alimentação das vacas ou das novilhas em crescimento. Nos países mais a norte, onde o frio impede o milho de crescer, a silagem de erva é a única opção. Depois os agricultores, com ajuda dos nutricionistas, equilibram o bolo alimentar das vacas com rações à base de subprodutos de cereais, (por exemplo destilados de milho), oleaginosas (por exemplo bagaço de soja), polpas de beterraba, citrino, etc.
Como já escrevi num texto anterior nesta página, “o milho é cortado e ensilado diretamente, quando tem cerca de 30-35% de matéria seca. Como a erva verde, na primavera, tem muito mais humidade, o que iria dificultar a fermentação, cortámos, espalhamos e deixamos secar 2 ou 3 dias antes de recortar, carregar para os reboques, transportar para o silo, calcar a silagem para tirar o máximo de oxigénio e cobrir com plástico para que não possa voltar a entrar oxigénio. Se houver um buraco no plástico do silo (ou do rolo de erva plastificado) o oxigénio que vai entrar vai permitir o desenvolvimento de bolores e apodrecimento da matéria vegetal.
O processo de conservar forragem sob a forma de silagem é antigo, tendo já sido usado por egípcios e romanos, em fossas, silos e depois em barris de vinho, durante a época medieval. No século 19 o processo de ensilagem desenvolveu-se na Europa e chegou aos Estados Unidos.
Este processo de conservação baseia-se na fermentação láctica da matéria vegetal rica em açúcares, nomeadamente milho ou ervas como azevém, trigos, aveia, cevada, em que as bactérias lácticas, na ausência de oxigénio, degradam a matéria orgânica produzindo ácido láctico e outros ácidos orgânicos, baixando o pH, o que permite a conservação ao longo de todo o ano, podendo-se assim aproveitar as plantas da época de maior produção para alimentar os animais ao longo de todo o ano de forma estável e regular. Perdem-se alguns nutrientes em relação à erva fresca, mas a silagem é mais nutritiva e digestiva que o feno.
É possível que algumas pessoas tenham a ideia que alimentar as vacas com silagem é um processo moderno e artificial, por oposição à alimentação direta na pastagem com erva fresca. Pelo contrário, como expliquei atrás, a silagem é um processo natural com milhares de anos. Nem todos os países ou regiões têm condições de pastagem durante todo o ano ou possibilidade para deslocar os animais ao pasto. Por isso as silagens de milho e erva são a base da alimentação das vacas que produzem a maior parte do leite no mundo."
#carlosnevesagricultor

Dar às nossas vacas uma "ceia de natal" "reforçada" com a erva nova, antes de nos retirarmos para a nossa ceia de natal, era uma tradição antiga. A chuva prevista para os próximos dias deve impedir que cumpramos essa tradição, mas com as silagens de erva e de milho que temos armazenadas não faltará comida para os nossos animais. Aproveitei ontem e hoje as últimas horas de "bom tempo" para cortar e trazer erva fresca para os animais.
#carlosnevesagricultor


O título deste texto é também o título de um livro que recebi de presente de uma pessoa amiga que conheci nestas andanças da ACR. Trata-se da autobiografia ou, como referem na capa, do “itinerário humano e espiritual de um casal de camponeses” franceses, Simone e Roger Leliévre, que foram dirigentes dos movimentos de jovens e adultos da Acção Católica Rural (ACR) em França e da Fimarc.
Achei o título tocante. É uma síntese brutal das suas e das nossas vidas. Nós, crentes, acreditamos que somos ao mesmo tempo filhos do céu, mas também filhos adotivos da terra enquanto estamos cá de passagem. Mas, além disso, nós, rurais, mais ou menos envolvidos no trabalho da terra, filhos ou netos de agricultores, somos “filhos” da agricultura, do meio rural e de toda a cultura ligada à terra. Nesta consciência de “filhos” há também uma humildade e uma simplicidade desarmantes que atravessam todo o livro.
Roger é natural da Normandia, no norte litoral da França. Simone nasceu a 600 km para o interior, próximo da Alemanha. As famílias de ambos dedicavam-se à agricultura desde tempos imemoriais. A sua infância foi marcada pela agricultura de subsistência e pela invasão alemã da segunda guerra mundial. Na juventude aderiram à JAC / JACF (juventude agrária católica masculina e feminina) e conheceram-se em Paris quando ambos estiveram como dirigentes leigos do movimento com responsabilidades de coordenação a nível nacional. Estiveram no congresso internacional de jovens rurais realizado em Lurdes em1960, onde o meu pai e outros jovens rurais portugueses também participaram.
Depois de casarem, decidiram instalar-se na agricultura, na década de 60, seguindo a profissão que tinham aprendido com as suas famílias. Devido à pequena dimensão da agricultura das famílias de origem, foram emigrantes no seu próprio país à procura da sua “terra prometida”, recorrendo a um serviço público que servia para “encontrar terra para gente que não a tem e gente para terra que não tem gente”.
Seguindo um conselho muito útil, os primeiros meses foram passados em estágios. Isto é muito importante mesmo para quem cresceu na agricultura, aprender formas de trabalhar de uma forma diferente da nossa família. Penso que mais estágios aumentariam o sucesso da instalação de jovens agricultores também no nosso Portugal do século XXI.
Encontrada uma quinta disponível, o início da atividade agrícola de Roger e Simone decorreu numa sociedade com outro casal de jovens agricultores, cultivando campos e criando vacas leiteiras nos terrenos e estábulos das duas famílias. A sociedade surgiu como opção devido a terem poucos recursos económicos e na expetativa de poderem ter tempo livre pela repartição do trabalho, mas ao fim de poucos anos romperam a sociedade por dificuldades de relacionamento cujos pormenores são omitidos no livro. Voltaram à “estaca zero” e durante alguns anos criaram vacas até que um surto de tuberculose no rebanho os levou a deixar a produção de leite (o que lhes permitiu libertar-se da “prisão das vacas leiteiras” que os impedia de visitar a família distante) e passaram à engorda de vacas limousine para carne e outras atividades como engorda de perús para o Natal e depois gansos. Simone especializou-se na criação de coelhos, de modo que foi até convidada a dar uma palestra, sendo apresentada como a “Senhora Lebre (Lelievre) que nos vai falar da sua criação de coelhos”. A audiência desatou a rir.
Tendo começado a receber turistas em regime de “turismo rural” familiar, essa foi também, durante anos, a sua oportunidade de fazer férias e visitar as suas famílias de origem, deixando a tomar conta da quinta e dos animais uma família que vinha lá passar férias;
Mais tarde, organizaram campos de férias pedagógicos para crianças. Durante anos foi um sucesso na aproximação das crianças ao mundo agrícola e onde se envolveram os quatro filhos do casal, já crescidos, mas, ao longo do tempo, o aumento das exigências em termos de regras e regulamentos tornou-se desencorajante. Ainda assim foi uma atividade que deixou excelentes recordações, como a menina que na hora de partir perguntou se não tinham para venda, como recordação, um perfume com os “cheiros da quinta” que ela adorava.
Há um capítulo do livro dedicado à disputa de terras entre agricultores vizinhos. O que aconteceu na França e continua a acontecer em todos os países desenvolvidos ou em desenvolvimento é a redução do número de pessoas que se dedica à agricultura e do número de quintas / empresas agrícolas. Os vizinhos que pretendem continuar na agricultura procuram alugar ou adquirir essas terras para ganharem dimensão. Roger foi chamado a mediar um conflito entre vizinhos que após ofensas estava a caminho do tribunal. Por cá não conheci casos tão extremos, mas o fenómeno é idêntico. É assim em todo o mundo agrícola. A opção é crescer ou fechar. Outro fenómeno associado é o endividamento dos agricultores. A substituição da mão de obra tradicional por máquinas cada vez maiores, mais complexas e mais caras, exige um investimento que afoga em dívidas muitos agricultores, num mercado em que não controlam os preços de compra e de venda dos produtos. Lá como cá.
O livro relata ainda a experiência da participação de Simone na gestão autárquica, o envolvimento de ambos no associativismo agrícola, o acidente de trator que capotou sobre Roger e a que sobreviveu “por milagre”, o auxílio a emigrantes, a sua consciência ecológica e o “porquê” das suas opções guiadas por uma “bussola” , um humanismo enquadrado na sua fé cristã. Tudo isso é inseparável da participação no movimento CMR (Cristãos em Meio Rural), a cujo secretariado nacional foram chamados já com os filhos nascidos, passando alguns anos em Paris e mais tarde dedicando dois mandatos à coordenação do movimento internacional da Ação Católica, a Fimarc. Entre as várias atividades há uma referência a um buffet gigante com 800 participantes e toda a diversidade de produtos oriundos de todo o pais. E essa referência levou-me à memória de um jantar memorável, à nossa dimensão, na Casa diocesana da Senhora do Socorro, em Albergaria, por ocasião das jornadas sociais da ACR, salvo erro em 1992.
Obrigado Simone, Roger e Helena Inês, que me fez chegar este livro. Ao longo de toda a leitura, cruzei muitas vezes as histórias relatadas com a minha experiência na agricultura e na ACR. Como escreveram na contra-capa, “não é normal que as gentes da terra tomem a palavra – no caso, a caneta – para contar a sua vida”, mas quiseram avisar-nos sobre “a idolatria do poder e do dinheiro que colocam em risco a Terra” porque acreditam que “o futuro continua aberto aos atores de uma civilização regenerada que escute as lições da natureza e salvaguarde a nossa casa comum”. (publicado no "mundo rural" Novembro -Dezembro 2021)

O Luís é um miúdo normal que gosta de brincar a imitar o nosso trabalho e eu sou um pai normal que gosta de fotografar. Esta semana, uma foto com o trator de pedais, junto às vacas, mereceu alguns comentários muito simpáticos, que agradeço, mas também uma pergunta angustiada de um colega: “Será que tem futuro (na agricultura)?” Boa pergunta. É uma questão que tem estado presente muitas vezes no meu pensamento, em particular ao longo deste ano difícil.
Vamos por partes. Quando o Luís concluir os estudos e entrar na vida ativa o mundo será muito diferente do que é hoje. Não vale a pena sofrer por antecipação. O essencial é que tenha saúde para crescer e nós tenhamos saúde para o acompanhar e rendimento para uma vida digna e tranquila. Mas, para além do meu caso particular, pensemos em todos os miúdos que crescem connosco na agricultura. Será responsável da nossa parte encaminhar os nossos filhos para serem agricultores?
Sei que muitos cresceram a ouvir pais, avós ou vizinhos dizerem para deixar a agricultura e procurar um emprego mais confortável e rentável atrás de uma secretária. Havia razões para isso porque a reduzida dimensão de muitas agriculturas não permitia mais do que uma pobre subsistência. Também hoje me interrogo qual será a dimensão mínima que uma empresa agrícola precisará para sobreviver de forma rentável. Ao longo dos anos, o esmagamento dos preços agrícolas obrigou-nos a produzir mais para ganhar o mesmo. Quem parou de crescer, de melhorar a forma de trabalhar ou de investir na segurança e no conforto dificilmente teve ou terá continuadores.
A agricultura tem futuro. Vai evoluir e ser diferente do que é hoje, mas ainda não inventaram melhor forma de alimentar as pessoas, ocupar o território e manter a paisagem. A criação de animais tem futuro, apesar de estar debaixo do fogo de uma minoria barulhenta que não quer deixar os outros comer carne, ovos ou beber leite. A criação de animais é tão antiga como a agricultura. Os ruminantes são capazes de digerir a celulose das ervas dos montes onde nada mais cresce e completar a sua alimentação com rações feitas com os “subprodutos” da alimentação humana e dos biocombustíveis: polpa de citrinos, polpa de beterraba, bagaços de soja e de colza, destilados de milho, etc. E dão-nos ainda o estrume que fertilizou e enriqueceu as terras ao longo de gerações.
Procuro sempre olhar o copo meio cheio e ver as coisas pelo lado positivo, mas este tem sido um ano difícil. O custo das rações cresceu ao longo do último ano e vai continuar a subir. Nos últimos meses, disparou o preço da energia, do gasóleo e dos adubos. Basicamente, subiram todos os fatores de produção que temos de comprar, mas o leite que vendemos subiu apenas 1,5 cts / litro e não vejo vontade ou perspetiva de subir a curto prazo. Toda a gente diz que os produtores têm razão para se queixar mas as cooperativas são incapazes de valorizar o leite, as indústrias dizem que a culpa é da distribuição, as várias cadeias de distribuição dizem que a culpa é dos concorrentes ou da indústria e a ministra da agricultura e quase todos os restantes políticos quase nada dizem ou fazem para nos ajudar.
O mundo precisa de agricultores e haverá gente disposta a continuar a atividade, mas é preciso que todos os que ocupam lugares de poder (nas cooperativas, nas indústrias, nos supermercados, no poder político ou que de alguma forma possam intervir) coloquem a mão na consciência, tomem decisões corajosas e deem a mão aos agricultores neste momento difícil.
#carlosnevesagricultor

Entre muitas fotos e vídeos de tratores e reboques a ensilar milho, alguém comentou: “Parecem formiguinhas a levar comida para casa! ” Entendi o comentário como elogio de alguém que conhece a história da cigarra que passou o verão a cantar e que não guardou reservas para o inverno, como a previdente formiga. Esta fábula terá sido escrita por Esopo, na Grécia, 600 anos antes de Cristo e foi recontada por Jean de La Fontaine há 400 anos. Ao longo dos séculos, serviu para ensinar a trabalhar e poupar.
No final do Século XX, nos anos 90, António Alçada-Baptista escreveu a “contra-fábula da cigarra e da formiga”. A formiga vivia então cheia de stress a trabalhar na bolsa de valores enquanto a cigarra era artista musical, mas, no fim do verão em que não tirou férias, a formiga descobriu que a cigarra tinha conseguido um contrato para passar o inverno a cantar em Paris. Disse-lhe então: “se lá encontrares um tal de La Fontaine manda-o para o raio que o parta, sim?” 😊 Percebe-se a moralidade sobre o excesso de trabalho, mas não se iludam com o exemplo dado. Para ter sucesso a cantar ou chutar uma bola também é preciso muito trabalho.
Chegámos aos anos 20 do século XXI e agora as cigarras são ativistas nas redes sociais e dedicam-se a criticar as formigas. As formigas já não são o modelo a seguir. Mais do que gozadas, são agora criticadas pela forma como trabalham e cada vez mais condicionadas pelas regras que as cigarras vão promovendo, por exemplo antes de votações do orçamento.
Focadas no trabalho, as “formigas-agricultores” não estão preparadas nem têm tempo e paciência para responder às cigarras no mesmo tom e juntam ao stress do trabalho o stress de serem criticadas e mal pagas. As voltas que este mundo deu!...
#carlosnevesagricultor



Era manhã de dia feriado mas os animais precisavam de comer. Carreguei a mistura com silagem de erva para as novilhas, depois seguiu-se a silagem de milho para as vacas. Faltavam apenas 500 kgs para ter a carga completa quando ouvi “pfffffff…”, o que me alertou para qualquer coisa estranha. Sem que nada fizesse prever, tinha furado um dos tubos do óleo que faz funcionar o motor da “fresa” que carrega o milho. Por sorte, a avaria não afetava a mistura e distribuição da comida e assim pude completar a carga recorrendo ao trator com pá carregadora, enquanto pensava como resolver esta avaria num feriado. Por sorte e boa vontade de quem lá manda e trabalha, a oficina estava aberta. “Só estamos aqui meia dúzia, mas aparece que dá para desenrascar isso”, disse-me o patrão. Não era só meia dúzia. Quando cheguei, também encontrei meia dúzia de colegas agricultores, uns a chegar, outros a sair, outros à espera da reparação de dois reboques para transporte de silagem e uma retrofesa com semeador de erva.
A agricultura não pára porque não pode parar. Os animais têm de ser alimentados, cuidados e ordenhados. As sementeiras e colheitas tem que ser feitas nos dias e horas que sobram com bom tempo na janela temporal apropriada. A agricultura não pára porque os agricultores não páram e tem uma enorme equipa por trás que os apoia e acompanha.
Os agricultores são cada vez menos e para cultivar a terra precisam de máquinas e equipamentos cada vez maiores. Já não são apenas os veterinários que têm de estar de plantão para um parto difícil ou outra doença urgente. A máquina ou robô de ordenha, o tanque de refrigerar o leite, as máquinas de colher o milho, as uvas ou a fruta não podem parar muito tempo.
Ontem levei um trator à oficina para trocar uns parafusos mas a maior parte dos mecânicos andavam fora, nos campos, a dar assistência às máquinas. Ao fim da tarde, o eletricista veio resolver um problema com uma câmara de vídeo. Um colega agricultor e prestador de serviços dizia-me na semana passada: Na hora de comprar, eu não escolho apenas um trator, em primeiro lugar preciso de um serviço de assistência que funcione.
Com as silagens e vindimas na reta final e com outras colheitas ainda a decorrer, fica aqui a minha homenagem e agradecimento a todos os que fazem horas extra para nos “desenrascar”.
#carlosnevesagricultor

Na segunda-feira, estando vazio o corredor de alimentação das novilhas, o Hugo perguntou-me o que ia ser “a comida daquele gado”. Elas não estavam de estômago vazio, pois já tinham tomado os seus “cereais de pequeno almoço” (ração), mas faltava dar a forragem que enche a pança. No domingo à noite, tinha-lhes colocado na manjedoura a última parte do rolo de feno que comeram durante o fim de semana. Respondi que íamos buscar luzerna, porque tinha uma pequena parcela com essa erva já crescida e pronta a cortar, mas depois mudei de ideias. Entre os tratores que costumamos usar para cortar erva, um estava engatado à cisterna e o outro à grade de discos para fazer a incorporação imediata do chorume. Teria de desengatar o trator da grade, engatar a gadanheira, cortar a erva, depois ir buscar com outro trator, descarregar no corredor e depois dar a erva manualmente, com o gancho ou a forquilha, como habitualmente fazemos e tudo isso ia demorar tempo e no fim voltar a desengatar a gadanheira e engatar a grade de discos para colocar o chorume previsto em dois terrenos. Então mudei de ideias, dei silagem de erva às novilhas, muito mais rapidamente, fizemos o espalhamento e incorporação do chorume e deixei para hoje o trabalho com a erva verde.
Tudo isto fez-me lembrar uma conversa que tive há cerca de 25 anos com a Engª Ana Gomes, nutricionista da minha cooperativa, quando me instalei como jovem agricultor e comecei a tomar as rédeas do negócio agropecuário. Perguntei se devia dar erva verde às vacas leiteiras, como era tradicional, ou dar apenas a mistura de palha, silagem de milho, às vezes silagem de erva e ração, tudo misturado no unifeed, como faziam algumas vacarias, em geral as maiores e mais modernas. A resposta foi muito prática: “os seus colegas que não dão erva verde têm maior produção por vaca”. Segui esse conselho, mas isso causou muitas discussões com o meu pai, que queria continuar a dar erva fresca aos animais. Então, para fazer a vontade ao meu pai sem afetar a produção das vacas, passei a dar apenas erva às novilhas que ainda estão em crescimento, e que precisam de uma alimentação com mais proteína e menos energia.
Mas então a erva verde não é um bom alimento para as vacas? Sim, é excelente, mas tem dois defeitos: como expliquei, exige mais mão de obra e nem sempre temos erva disponível. No verão há pouca, em dias de chuva não podemos ir ao campo buscar e noutras ocasiões temos demais. No outono-inverno, quando as primeiras aveias cresciam, havia o risco da erva “melar” (acamar) e andávamos aflitos a cortar erva e dar como alimento em quantidades exageradas. Ora as vacas dão mais leite e com mais qualidade se tiverem uma alimentação regular, porque de cada vez que mudamos a alimentação alteramos a flora ruminal (as bactérias que a vaca tem no primeiro estômago e que são fundamentais para a digestão dos alimentos fibrosos).
Ainda há quem dê erva fresca às vacas leiteiras, mas em geral as vacarias que cresceram e ganharam dimensão para serem competitivas e resistir foram as que simplificaram a alimentação dos animais. A mão de obra é cara, escassa e temos de ser mais eficientes, fazer mais trabalho no mesmo tempo, ganhar dimensão e conseguir economia de escala. Iremos continuar nessa tendência ou voltaremos à erva diária para as vacas? Não sei. Vou manter a erva fresca para as novilhas alguns dias por semana? No imediato sim, mas vou reavaliar, ver outras experiências e repensar o assunto. E se algum colega quiser comentar, partilhar a sua experiência e dar a sua opinião, faça favor!
#carlosnevesagricultor

Na semana passada, uma pessoa amiga viu 5 tratores e reboques juntos numa estrada nacional aqui perto e pensou tratar-se de mais uma manifestação. Não era. Tratava-se apenas de uma equipa preparada para ensilar um campo de milho. As grandes ceifeiras automotrizes exigem vários tratores e reboques de grande dimensão para o transporte da silagem do campo até ao silo situado geralmente junto à vacaria.
Com o outono quase a chegar, chegou a época das colheitas. Milho silagem, milho grão, tomate, frutas... e uvas para vinho, um pouco por todo o país. Para a colheita usamos tratores, reboques e máquinas de todas as idades e dimensões, conduzidos por gente de todas as idades, mas sobretudo idosos. Os idosos que mantém o mundo rural vivo e a terra cultivada mantendo-se ocupados para se manterem ativos e juntar algum sustento à sua reforma.
Sendo veículos de marcha lenta, para serem vistos na estrada os tratores devem ter pirilampo, triângulo de sinalização e o sistema de iluminação a funcionar. Quando são novos todos funcionam, mas com a idade, a ferrugem, o pó e as vibrações as luzes dos tratores e reboques deixam de funcionar. Às vezes basta dar uma volta apertada com o reboque para o fio da ligação rebentar e deixarmos de ter luzes a funcionar mas temos de voltar para casa do campo, ou acabar a colheita porque passadas umas horas virá a chuva que pode estragar a colheita.
Há 30 ou 40 anos atrás, o meu pai costumava pedir ajuda do irmão mais novo, o meu tio David, por altura da silagem ou do feno. Ele trabalhava por turnos, muitas vezes de noite, a conduzir o camião de recolha do lixo e a lavagem de contentores e arranjava algum tempo para nos ajudar. Uma vez veio carregar feno e voltávamos a casa com o reboque cheio de feno, eu em cima do reboque e ele a conduzir o velhinho trator Fordson super dexta. As luzes de pisca do reboque não funcionavam e ouvimos uma reclamação: “ se essa m**** não está em condições de andar na estrada, que fique no campo!”. Foi só uma “boca”, mas eu fiquei muito envergonhado por o meu tio vir ajudar-nos e ainda ter que ouvir reclamações, de modo que por isso, porque temos de fazer muita estrada e não queremos problemas com a polícia ou acidentes, procuro ter a iluminação dos tratores a funcionar minimamente… exceto quando não há tempo para consertar…
Mais tarde, já conduzia, ia atrás de um pequeno camião que deu pisca à esquerda e fui ultrapassado por uma moto de um inteligente que foi bater no camião… felizmente sem danos de maior, pelo que me pareceu na altura. Levava capacete e ficou sentado no chão. E já apanhei sustos semelhantes a conduzir trator, assinalar mudança de faixa à esquerda, o carro de trás vê e respeita mas vem outro apressado atrás a ultrapassar todos…
O meu pedido é que todos tenhamos cuidado e paciência: cuidado na iluminação e condução com tratores, cuidado e paciência ao circular de carro, mota ou camião em estradas com tratores. Para podermos colher em paz e segurança o trabalho de um ano inteiro e chegarmos todos a casa, inteiros, com saúde e sem despesas.
#carlosnevesagricultor

Passei as últimas semanas a saborear pêssegos acabados de colher (peço desculpa por não vos ter convidado, mas sabem como é, com o covid, temos de manter a distância 😊). O Luís ainda não gosta de pêssegos, mas gosta de atividades e gostou de me ajudar a colher os últimos pêssegos. A fruta colhida e comida na hora tem outro sabor, porque podemos colher um bocadinho antes de se estragar, quando está no máximo amadurecimento, com mais açúcar, ao contrário da fruta que tem de ser colhida ainda um pouco verde para não se danificar no percurso entre o pomar, a central frutícola, o armazém, o mercado ou supermercado e a casa do consumidor. Nos últimos tempos comi ameixas e pêssegos, já colhemos maçãs e hoje comi uma pêra. Soube-me bem e lembrei-me do meu pai que plantou e cuidou deste pomar.
Toda esta diversidade fez-me também recordar um episódio com quase 32 anos. Em 1989 fui para a Casa- Escola Agrícola Campo Verde, em S. Pedro de Rates. Todos os meses havia visitas de estudo. A primeira visita foi a Braga, à Sociedade Agrícola da Veiga do Penso, que pertencia ao Presidente da Escola e Presidente da Cooperativa de Braga, Sr. Francisco Marques, que nos recebeu e respondeu às perguntas para o relatório que tínhamos de elaborar. A quinta tinha uma vacaria com alguma dimensão e também produção de vinho e fruta (maçãs e pêssegos, se não estou em erro).
Um ou dois meses depois, na festa de Natal da Escola, o Sr. Marques quis conhecer-me. No relatório da visita, além da descrição tínhamos que fazer uma avaliação apontando o positivo e o negativo e entra 30 alunos eu fui o único que fez uma crítica. Disse que a empresa agrícola estava bem organizada, mas “muito e bem há pouco quem”, e se o agricultor se especializasse numa atividade podia trabalhar melhor. Não me recordo exatamente como terminou a conversa, mas foi o ponto de partida para a relação cordial que tive até hoje com o Sr. Marques. Creio que me terá explicado que as várias atividades agrícolas permitiam manter ocupada a equipa de trabalho ao longo do ano. Mais tarde até estagiei lá durante uma semana.
A ideia da agricultura especializada ser “melhor” do que a “policultura” tradicional não nasceu na minha cabeça. Era algo que eu tinha aprendido meses antes no livro de geografia do nono ano da Escola Secundária. A ironia é que, 30 anos depois, agora que os agricultores estão mais especializados, os atuais livros de geografia e outros livros escolares criticam a “monocultura” e a “perda da diversidade” na agricultura intensiva. É a “fruta da época” em que vivemos…
#carlosnevesagricultor

Derrick Josi, um agricultor americano que assina como TDF Honest Farming, publicou um vídeo sobre “loss leaders”. A tradução literal é “líderes de prejuízo” mas em Portugal chamamos-lhe habitualmente “produto-isco”. É o caso do leite, um produto líder de vendas, que toda a gente precisa e que está frequentemente em promoção e colocado ao fundo das lojas. Atraídos por esses produtos a preço baixo, os consumidores atravessam as lojas e vão comprando outros produtos com margem superior. No vídeo, Derrick explicou que, com o aumento das vendas online devido ao covid19, nos Estados Unidos os consumidores vão menos aos supermercados, há menos promoções e o preço do leite aumentou ao consumidor sem aumentar ao produtor.
Com já devem saber, em Portugal o leite também está há vários anos em constante promoção. Para evitar que as grandes cadeias de supermercados destruíssem as pequenas lojas com essas promoções, foi proibida a venda com prejuízo. Regra geral os supermercados têm muito cuidado com essa lei e não fazem promoções sem a colaboração mais ou menos “forçada” do fornecedor. Houve apenas um caso em que perderam o controlo, na célebre promoção do Pingo Doce no primeiro de maio de 2012, quando as várias cadeias entraram num despique descontrolado e a fiscalização da ASAE encontrou faturas dos fornecedores superiores ao preço vendido ao consumidor. Hoje limitam-se a pressionar fornecedores e abdicar da margem nesses produtos. Por sua vez, as indústrias fornecedoras congelam o preço ao produtor e o setor leiteiro não foi até hoje capaz de compensar o aumento com o custo da alimentação animal, como aconteceu, por exemplo, com os ovos ou carne de frango em que houve atualização de preços para produtores e consumidores.
Não há dúvida que o negócio da distribuição é rentável. As famílias proprietárias das maiores cadeias de supermercados estão entre os mais ricos do país. Não há dúvida que uma parte da fatura tem sido paga, em última análise, pelos produtores de leite portugueses, que estão há 10 anos com um preço médio abaixo da média europeia, há 5 anos vários cêntimos abaixo dessa média e nos últimos meses ficaram no último lugar entre os 27 países da Europa. Aqui em Portugal somos nós, produtores de leite, os líderes no prejuízo.

Fonte do gráfico “Evolução do índice de preços no consumidor”: Maria Cândida Marramaque, Vida Económica 6-8-2021, “Preço do Leite está estagnado há 20 anos”. A linha de baixo representa leite, queijo e ovos, a linha de cima “produtos alimentares e bebidas não alcoólicas”; o afastamento das linhas acentua-se a partir de 2015.

Os últimos 17 anos na produção de leite em Portugal
(escrito para a Gazeta Rural, para assinalar os 17 anos desta revista)
Em 2004, liderando na altura a Associação dos Jovens Agricultores do Distrito do Porto, organizei uma viagem inesquecível ao Norte de Espanha. Fomos à procura do futuro que ainda não existia em Portugal. Começámos por visitar na Galiza, em Lugo, uma cooperativa com “unifeed automotriz coletivo”, seguimos até Santander para visitar uma vacaria a produzir leite em modo de produção biológico e fomos até ao pais Basco (Bilbao e Pamplona) visitar duas vacarias com robôs de ordenha e um laboratório de desenvolvimento de fertilizantes. Um forte nevão impediu o regresso ao Porto pelo caminho mais curto e tivemos de descer até Madrid, entrar por vilar Formoso e descer o IP5 com o autocarro em excesso de velocidade.
Passados dois anos, foi instalado o primeiro robô de ordenha em Portugal. Hoje estão mais de uma centena em funcionamento e as duas marcas que visitámos são as mais vendidas. Não temos “unifeeds coletivos”, mas os carros misturadores automotrizes democratizaram-se. A fertilização de precisão é uma realidade cada vez mais presente e a produção de leite no modo biológico avançou nos últimos anos. O número de produtores tem descido com excesso de velocidade. Em 2004 éramos 18.000 produtores de leite, 12.000 no continente e 4.000 nos Açores, agora somos menos de 4000, metade nos Açores e metade no continente. O facto de termos hoje o pior preço do leite entre os 27 países da Europa explica muita coisa. “Um preço justo para a produção de leite” tem sido o objetivo e a exigência da APROLEP, Associação dos Produtores de Leite de Portugal, nos últimos 11 anos.
A instalação de robôs de ordenha e a aquisição de “unifeeds” automotrizes e outros equipamentos tornou mais confortável o trabalho dos agricultores e produtores de leite. Com esses equipamentos, com a formação que recebemos, com a investigação de nutricionistas, a evolução da genética e com toda a evolução registada, somos hoje mais eficientes e só isso nos permitiu sobreviver à descida do preço do leite. Por outro lado, somos agora atacados por praticar uma agricultura mais intensiva, por causa dos gazes de efeito de estufa libertados pelas vacas, por causa de alegados maus tratos, com imagens manipuladas e de inventados malefícios do leite. Por trás destas queixas está muitas vezes a ideologia animalista que pretende equiparar os animais aos humanos e está o negócio emergente das “alternativas vegetais” processadas, face à tradicional proteína animal natural (carne, leite e ovos). O nosso trabalho, portanto, está mais fácil “fisicamente” e mais difícil “mentalmente”. A resposta necessária é COMUNICAR a agricultura, de forma honesta, direta e permanente.
Indiferentes a tudo isto, as vacas continuam a ruminar, o milho e a erva continuam a crescer e os consumidores continuam a precisar de um agricultor pelo menos três vezes por dia, para se alimentarem. Não admira que ao começar o confinamento tenham corrido aos supermercados e esvaziado as prateleiras a começar pelos produtos de origem animal, na altura em que os aviões pararam, a poluição baixou e as vacas continuaram a ruminar. A vida tem de continuar e a nossa luta também. No trabalho do campo, na vacaria, na rua ou nas “redes sociais”. Carlos Neves









Fazer a primeira silagem de milho a 2 de agosto foi um record para mim. O record anterior já tinha uns 15 ou 20 anos. Recordo-me de estar a ensilar um campo onde agora passa uma estrada e ao sair para mudar para outro terreno tivemos de recuar a automotriz porque ia passar a Volta a Portugal em bicicleta.

Tenho painéis solares há 3 anos aqui na vacaria, para produção de eletricidade. Foi um bom investimento, apesar de não ter sido financiado. Conseguimos economizar bastante energia porque, com o robô de ordenha a funcionar 24 horas e o tanque a arrefecer o leite, temos um consumo regular ao longo do dia, ao contrário das vacarias com sala de ordenha em que os picos de consumo são em horas de pouco sol. A energia que nos sobra em alguns momentos vai para a rede e pagam um valor muito residual.
Por outro lado, foi notícia, há poucos meses, a matança de centenas de animais numa herdade onde está previsto instalar uma área considerável de painéis solares. Tenho lido com preocupação a procura de outras áreas extensas com aptidão agrícola ou florestal para instalar painéis solares.
A questão que gostava de perceber é esta: É mesmo preciso ir ocupar área agrícola ou florestal, com tantos telhados de fábricas, casas, armazéns, centros comerciais, e tanto espaço disponível, por exemplo, nos parques de estacionamento desses centros comerciais e supermercados? Terão feito um levantamento dessas áreas? Uma mega-central fotovoltaica é assim tão mais eficiente do que pequenas ou médias centrais que se podiam colocar nos espaços que referi? Não sei. Alguém sabe?
#carlosnevesagricultor
Imagine que você herdou um terreno e pretende cultivá-lo, mas porque é um terreno pantanoso terá primeiro que o drenar para poder cultivar. Inicia então os trabalhos de drenagem e descobre que o pântano está infestado com crocodilos. Compra uma caçadeira, aprende a disparar. Começa então a lutar contra os crocodilos para os exterminar, mas a luta não é fácil. A certa altura, você está tão empenhado a matar crocodilos que se esqueceu do seu objetivo inicial que era cultivar o terreno...
Desconheço o autor desta pequena história, que li há muitos anos. Recordo-me dela muitas vezes. É útil para refletir sobre a nossa atitude perante a vida. Por exemplo, no que toca ao trabalho e qualidade de vida, o objetivo de qualquer pessoa é ter uma vida confortável e ser feliz. Por isso trabalhamos. Mas algumas pessoas envolvem-se tanto no trabalho que acabam por viver para o trabalho e se esquecem do descanso, do conforto e da família.
O mesmo acontece com o poder, tanto o poder autárquico que vai a votos entretanto como o poder nas organizações agrícolas. Os dirigentes começam por se candidatar (creio eu) com o objetivo de servir as organizações e os colegas agricultores, mas com o tempo podem acomodar-se aos lugares e esquecer-se dos objetivos iniciais. Quanto mais tempo no poder, pior, por isso sou favorável à limitação de mandatos. Claro que nem sempre é fácil substituir as pessoas, mas nenhum de nós é insubstituível. Na verdade, só cá estamos na terra de passagem, mais cedo ou mais tarde havemos de partir e a vida continua sem nós.
Convém lembrar que a vida das organizações agrícolas não se joga apenas nas eleições. Anualmente, há assembleias gerais para analisar as contas do ano que passou e planear as atividades do ano que se segue. Os sócios podem e devem participar com sugestões, críticas ou pedidos de esclarecimento. Compreendo que, mesmo participando, muitos fiquem em silêncio por receio de falar em público. Mesmo esses podem e devem comentar com os colegas que estejam dispostos a falar ou então podem dirigir-se pessoalmente ao presidente ou outro elemento da direção e dizer a sua opinião, criticar, dar uma ideia. Muitas vezes, uma sugestão feita desta maneira dá mais resultados que uma crítica em voz alta feita na assembleia pela “oposição”, porque quem está no poder costuma ter receio de “dar o braço a torcer” publicamente. E, mesmo que a nossa ideia seja rejeitada no imediato, pode ficar a “semente” na cabeça de quem nos ouviu e dar frutos mais tarde. Isto é válido para todas as organizações, agrícolas ou não. É importante participar na gestão daquilo que é nosso.
Não é errado ter ambição de chegar ao poder. É preciso lutar para o alcançar e manter. Para “poder mudar” o que estiver mal ou para “poder fazer” o que falta é preciso ter “poder”. Mas é importante haver sempre “massa crítica” à volta do poder para o chamar à terra e não deixar esquecer os objetivos iniciais do bem comum de todos.
(adaptado a partir de um meu texto de 2005)
#carlosnevesagricultor






A manhã de hoje, fresca e nublada, mas sem o chuvisco dos últimos dias, foi o momento escolhido para arrancar e apanhar as batatas que plantámos a 15 de fevereiro. Temos máquina para arrancar a batata da terra, um arrancador “zaga”. É mais velho do que eu, nem sei a origem, creio que foi máquina de sociedade com outros agricultores. Gastei 300 euros a repará-lo há alguns anos e fiquei a pensar que só esse dinheiro daria para comprar batata para muito tempo… Mas assim temos o gosto de comer o que plantámos e dar ou vender alguma.




O ministro Matos Fernandes foi filmado dentro de um carro a 200 km/h na autoestrada. Confrontado com a situação, o ministro disse que não se apercebeu, que se aconteceu foi um erro e que tomaria providências para não voltar a acontecer.



Lembram-se do milionário Richard Branson, que foi dar uma voltinha ao espaço por estes dias e vai abrir uma empresa de turismo espacial? Deve ter gasto uns litros de gasolina com algumas emissões de carbono… Pois parece que tinha deixado de comer bifes para salvar o planeta (faz lembrar um certa pessoa que passa os dias a queimar pneus e gasolina). Encontrei sobre isso um texto da Brandi Buzzard, agricultora americana, e achei útil traduzir:

Na semana passada, fui com o meu filho Pedro e com o Hugo, nosso funcionário, “montar a rega” no “campo da mangueira furada” 😊 (a explicação para o nome está num texto anterior), que fica alguns quilómetros afastado de casa. “Montar a rega” significa colocar o motor no poço e fazer as ligações elétricas e de “canalização”, o que implica puxar mangueiras que quase sempre estão na bordadura dos campos, presas no meio das ervas que cresceram durante o inverno e primavera.
Não estava muito calor mas estava um tempo abafado, por isso fui comprar água a um café próximo. Quando voltei, na pequena pausa para refrescar, comentei: “Tive de vender três litros de leite para pagar cada uma destas garrafas de meio litro de água! Perante o seu ar de espanto (vosso também?), lembrei que vendemos o leite a 30 cêntimos e que paguei 90 cêntimos por cada garrafa.
Não digo que seja caro pagar 90 cêntimos por uma água num café. Percebo que num café ou restaurante não estamos a pagar apenas a água mas também o serviço. Com o consumo daquela água eu podia ter-me sentado à mesa e passar lá o dia a ver televisão, aproveitar o aquecimento ou ar condicionado e usar a casa de banho. Curiosamente, se pedisse meia de leite ou um galão, com outro valor nutritivo e que dá mais trabalho a preparar, pagaria um valor aproximado.
O problema aqui é o preço do leite, que ficou congelado (o que significa desvalorização tendo em conta a inflação) ao longo dos últimos 30 anos, tanto para o consumidor como para o produtor. Com efeito, desde que Portugal aderiu à União Europeia, se o preço do leite tivesse atualizado ao nível da inflação, o consumidor pagaria hoje 1,20€ por litro de leite, mas só se paga isso por “leites especiais”. As marcas brancas andam quase todas entre 40-50 cêntimos e as marcas próprias à volta dos 60 cêntimos e há sempre várias marcas em promoções, de modo que às vezes pode-se comprar leite UHT abaixo de 40 cêntimos por litro, mas as pessoas não bebem mais leite por causa disso. Os consumidores limitam-se a mudar de loja ou de marca para comprar a promoção dessa semana, ou comprar e armazenar o leite preferido quando está em promoção. Alguma coisa correu mal para chegarmos a esta “desvalorização do leite” que não acompanhou a evolução do preço do café, do pão e até da água engarrafada, mesmo aquela que é comprada no supermercado, naturalmente mais barata do que num café.
A desvalorização do leite UHT em Portugal não justifica tudo, mas é uma parte do problema que é preciso analisar e resolver. Para além do custo do leite ao produtor, há o custo dos transportes entre vacaria – fábrica – armazém – supermercado, o custo da embalagem, da pasteurização e do restante processamento conforme o caso. Mas de uma fábrica ou de um supermercado saem também produtos lácteos, alguns bem valorizados. É com os “produtos de valor acrescentado” que as indústrias e os supermercados equilibram as suas contas e compensam a margem nula das marcas brancas de primeiro preço que usam como isco para o consumidor… e que apresentam como justificação para o baixo preço ao produtor. Além disso, o leite entra na fábrica com um teor de gordura médio de 3,7%, e para fazer “leite magro” e “leite meio gordo” retira-se muita nata que tem um valor elevado no mercado.
Nota: Com exceção desta retirada de gordura, não há qualquer “desdobramento do leite”, como já me perguntaram. Um litro de leite crú que entra na fábrica para transformar dá um litro de leite UHT ou pasteurizado ou aproximadamente 1 kg de iogurte; E são precisos 10 litros de leite inteiro para fazer um kg de queijo. Sobra o soro e, se for queijo magro, sobra também a nata. Uma das melhores manteigas do mundo é feita no litoral minhoto a partir da nata retirada ao leite para fazer queijo magro…
#carlosnevesagricultor













Faltavam 15 minutos para o final do jogo em que a seleção nacional de futebol deslizou para fora do Campeonato Europeu, quando toneladas de terra deslizaram 100 metros encosta abaixo na famosa aldeia de Sistelo, em Arcos de Valdevez. Ninguém ficou ferido, mas 30 pessoas foram evacuadas por precaução nessa noite (voltando a casa no dia seguinte) e os restantes habitantes da aldeia não ganharam para o susto causado por um barulho que “parecia um comboio”.