domingo, 12 de julho de 2026

Cenas da vida de um lavrador (III) - O mistério da saca das cuecas vermelhas



Não me recordo exatamente quando foi, mas terá sido, talvez, há 8 ou 10 anos. Um dia, no corredor de alimentação da vacaria, a que antigamente chamávamos “casa da erva”, apareceu uma saca com cuecas para senhora, vermelhas e de outras cores. Não recordo quem encontrou, mas não esqueço que ninguém sabia de onde veio ou para quem era. 
Pelo tamanho serviam à minha esposa, mas não tinha sido ela a comprar, nem imaginava quem teria trazido aquilo e se eram mesmo para ela, e porquê. Eu não fazia ideia. A minha mãe, por questões de saúde, já não andava sozinha fora de casa. O meu pai também não sabia, nem o nosso funcionário, nem a senhora que costumava vir passar a ferro e ajudar nas limpezas da casa. Mistério. Não faltava nada mas tinha aparecido uma coisa e não sabíamos como. Durante vários dias, puxámos pela cabeça e perguntámos a toda a gente que frequentava a casa mas ninguém sabia. Aqui na zona, ao contrário de outras regiões do país, quase sempre a casa do agricultor fica junto dos estábulos, currais e dos armazéns e ao conjunto chamava-se tradicionalmente “Casa de lavoura” e tecnicamente ainda se chama “assento de lavoura”.
Lembrei-me entretanto que já tínhamos câmaras de videovigilância. Quando tive oportunidade, sentei-me ao computador e “puxei o filme atrás”. Apareceu a saca e apareceu uma pessoa a entrar com ela na mão e a sair sem ela. 
Era uma senhora, nossa conhecida, tia de um amigo e vizinho, que nos tinha pedido, quando fosse possível, para mostrar as vaquinhas às suas netas. Uma tarde, mais ou menos sem avisar, apareceu. Trazia as meninas numa mão e na outra, para agradecer a visita, uma saca com roupa da sua fábrica de confecções, para oferecer à minha esposa (com a experiência que tinha, tirara-lhe as medidas só com o olhar). Entretanto as meninas, que eram pequeninas, deviam ter 4 anos, assustadas com as vacas, começaram a chorar, a visita acabou rapidamente e a senhora deu a saca e o recado ao meu filho mais velho, na altura pré-adolescente e que, com “a cabeça no ar”, não deu recado, nem saca e nunca mais pensou no assunto. E foi assim que as câmaras de videovigilância tiveram “uso efetivo” pela primeira vez... 
#carlosnevesagricultor #agricultura #lavoura #misterio

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Aqui o calor já passou, mas tenham cuidado

O nevoeiro pegou ao serviço no turno da manhã e a nortada arrefece as tardes e incomoda os banhistas da Póvoa e Vila do Conde. 
Foi duro para os animais, para as plantas e para nós. Levei a sério o aviso e estava mais preparado do que em anos anteriores. Ventiladores a funcionar, rega adiantada e mais equipamentos de rega do que nos anos anteriores, mas ainda assim o milho sofreu, as vacas sofreram, produziram menos leite e tiveram mais problemas de saúde. Podia ter corrido um pouco melhor se não houvesse uma avaria e se, na equipa de manutenção, o mais novo tivesse dado ouvidos ao mais velho: “Não queres ver aquela caixa?” Não quis.  Só a viu dois dias depois, e afinal tinha lá dentro uma coisa desapertada, quando depois de avarias e intermitentes e vários testes os voltei a chamar. 
Às vezes são os mais velhos que não ouvem os mais novos e isso é ainda mais complicado. Como contrariar o pai, mãe ou avô, a quem obedecemos toda a vida? 
Já partilhei há tempos um texto, que descobri através do canadiano Farmer Tim, com o título “Como, e quando, dizer não ao pai” - no caso, dizer ao pai “Não, não podes mais conduzir o trator, porque não estás em condições”, ou, no nosso caso, dizer “hoje está muito calor, não vais para o campo e muito menos para a estufa!” 
Para complicar, como escrevi há dias, andam por aí muitos “Pedros” a gritar “lobo” para chamar a atenção e depois, quando é a sério, como foi agora, as pessoas não levam a sério. Na Estela, uma freguesia da Póvoa de Varzim a 10 km daqui, também junto ao mar, duas idosas foram encontradas mortas numa estufa, no domingo de manhã, porque faltaram à feira. Viviam juntas e a mais velha cuidava da mais nova, que tinha um deficit cognitivo. A mais velha terá desmaiado ou tido um AVC ou ataque do coração e a mais nova não saiu da beira dela. Apesar do calor acima do normal, mantiveram a rotina, foram à estufa colher as coisas durante a tarde de sábado para vender na manhã seguinte. Faltaram à missa no fim da tarde mas as pessoas acharam normal por causa do calor, só deram pela falta delas na feira domingo de manhã. Ainda está a decorrer a autópsia, os resultados demoram meses e não quero aqui tirar conclusões, mas, como o calor ainda continua, e vai voltar, porque é verão, e pode voltar forte, mais forte do que estávamos habituados, vim aqui outra vez insistir: Tenham juízo, tenham cuidado convosco, com os vossos animais, com as crianças e com os idosos, por mais rabujentos e teimosos que sejam, porque somos todos um bocado assim, e, se Deus quiser, os que lá chegarmos, seremos também todos cada vez mais teimosos com o passar dos anos mas queremos continuar a desfrutar da vossa teimosia e da vossa companhia. Protejam-se, bebam água e fiquem à sombra. Agora, adeus, porque está fresco e vou regar.
#carlosnevesagricultor #agricultura #milho #regas #calor #Estufas

domingo, 5 de julho de 2026

Cenas da vida de um lavrador (II) - No campo e no futebol


O futebol é uma cena a que pouco assisto. Tornei-me adepto do Benfica por influência do meu pai, mas, tal como ele, nunca fui muito praticante dessa “religião”. Nunca fui à “catedral” da Luz, mas fomos os dois assistir a um jogo Benfica - Rio Ave, os nossos clubes, no antigo Estádio da Avenida, em Vila do Conde. Pelo contrário, fui duas vezes ao Estádio do Dragão, mas nunca para ver o “papa”, porque o nosso sempre esteve em Roma. A primeira vez terá sido há 15 anos, ao festival Panda e a segunda vez foi para ver a seleção, na Liga das Nações, derrotar a Suíça, tornando realidade a previsão que me fez ganhar dois bilhetes e duas camisolas num concurso da GALP, com a frase: “vamos comê-los como um queijo suíço!” E, se não estou em erro, foi um hat-trick de Ronaldo. Já posso dizer que o vi jogar ao vivo.

O futebol tem coisas horríveis, como a violência das claques nos estádios e os ataques de ódio nas redes sociais, mas também tem coisas fantásticas.
Em 2002, fui com um grupo de agricultores numa viagem organizada pela empresa Semex visitar vacarias de alta genética e o Royal Show no Canadá, atravessando de Montreal a Toronto. Aterrámos com 30 graus negativos e fomos parar a um interrogatório de duas horas no departamento de imigração - “Vais visitar quintas? E não trazes botas?” Fora do aeroporto estava a equipa da Semex que então nos deu as botas descartáveis tipo sacas de plástico para colocar por cima dos sapatos normais. O resto da viagem correu muito bem, com um detalhe que não esqueço, já em Toronto. Era meia-noite e regressávamos de táxi ao hotel. O motorista perguntou de onde éramos, respondemos “Portugal”. “Portugal? Luís Figo!!!”
Regressemos a 2026, manhã de 3 de julho, sexta-feira. Na ponta do mesmo campo por onde saiu, a caminho do mar, a “mulher misteriosa” da história que contei na semana passada, agora já com milho alto a pedir rega, estava eu a afinar o aspersor e apareceu-me um homem, menos misterioso, de chapéu e mochila às costas. Passa muita gente aqui perto, pela “Estrada velha”, vindo do Porto pelo “Caminho da Costa” em direção a Compostela. Tentei explicar que ali não era caminho, não percebeu, falei em inglês, percebia pouco, disse-me que era da República Checa, perguntei se conhecia o Marek Cech, futebolista eslovaco, antigo jogador do Porto, abriu um sorriso e respondeu que sim, expliquei que ele mora a 1 km do campo onde estávamos, a atitude do homem mudou, abriu o telemóvel, meteu o tradutor de checo para inglês e percebi que, tal como a outra senhora, também queria ir para o mar, a partir daí foi fácil dar as indicações e lá partiu, feliz, de mochila às costas. Pareceu-me vê-lo mais tarde, já na “estrada velha”, acompanhado, a caminhar em Direção a Santiago.
Recuemos 2 meses. Quando estive na Holanda, em Roterdão, apanhei um uber, nova cena… “De onde são?”, “Portugal” “Ah, Ronaldo!!!”. Minutos antes, na rua, um miúdo levava na mão um lego… do Ronaldo.
O futebol tem a magia do imprevisto, de um ressalto, um penalti, um capricho da bola. Podem-se fazer previsões, mas não basta ordenar as equipas pelo orçamento ou pelo valor de mercado de cada jogador para saber quem vai ganhar. E Ronaldo é muito mais do que futebol e os golos que marca. Com a carreira que construiu a pulso, é a inspiração para milhões e milhões de miúdos e gente de todas as idades em todo o mundo. Não é perfeito porque ninguém é perfeito, mas ninguém pode negar que é inspiradora a história de alguém que nasceu pobre, filho de um pai alcoólico, cresceu sem dinheiro para ir ao Mac Donalds, e mesmo assim teve sucesso na vida. Que este campeonato seja uma festa. Desfrutem!
PS – E parem de chamar velho a uma pessoa 10 anos mais nova do que eu! Se ele fosse agricultor ainda era jovem, carago!