domingo, 11 de maio de 2025

Dias de campo, dias da rádio


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Ouvi o anúncio do "fumo branco" no rádio do trator, quando estava a terminar as sementeiras do milho. Por curiosidade, o fumo branco contém lactose, mais uma utilidade do leite.

Ouvi o nome do novo Papa no rádio do trator, já abrigado no armazém. Acompanhei a evolução do apagão também via rádio, dentro do trator, primeiro a semear milho, depois a enfardar erva. Notícias nunca me faltaram.

Tal como na estrada, a rádio é a companhia de quem anda no campo, sobretudo nestas alturas de longas horas no trator a colher, lavrar ou semear. Rádios nacionais ou locais, com vários tipos de música, com mais ou menos informação. Pessoalmente, dou prioridade à informação e vou alternando entre rádios quando o noticiário já se torna repetido e juntando alguma música.

As redes sociais espreitam-se nos intervalos, porque a atenção é precisa no trabalho, para que as lavouras e sementeiras não fiquem tortas, porque o autoguiamento por GPS ainda é muito raro.

Não foi preciso faltar a luz para descobrirmos a rádio, entre o os agricultores. É a nossa primeira companhia nestas longas jornadas. Obrigado aos animadores, técnicos e a todas as equipas que mantêm a rádio "no ar".

sexta-feira, 9 de maio de 2025

As notícias da morte da charrua são claramente exageradas



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Consegui lavrar a última parcela para a sementeira do milho, o que ainda não tinha sido possível por causa da chuva e da humidade da terra. Ficam ainda para trás dois pequenos pedaços ainda mais encharcados, à espera de dias mais secos.

Pelo que vou observando, ao vivo entre os meus vizinhos e ao longe através das redes sociais, andam todos os agricultores a aproveitar estes dias de sol para colher ervas, fertilizar a terra, lavrar e semear.

A propósito de lavrar, li há meses um daqueles textos muito "cheios de razão", com alguém a defender que as charruas deviam estar no museu. Quando é que já ouvi isso?

Em 1998, eu tinha acabado de me instalar como jovem agricultor e, seguindo os meus colegas, decidi atualizar o meu equipamento de preparação da terra e sementeira. Comprei um trator com 90cv, acrescentei um ferro / aiveca na charrua que já tinha, comprei uma rotofresa de 2,5 metros e um semeador de milho de 4 linhas. Como jovem agricultor, tive na altura um apoio de 25%.

Nesse mesmo ano, ou no ano seguinte, aderi, apenas com uma parcela de 1 hectare, a um projeto experimental de "sementeira direta", num grupo de 25 agricultores, processo que dispensa a mobilizaçao da terra. Perante as vantagens que ouvia sobre o novo sistema, lembro-me de ter pensado que tinha feito asneira ao investir na charrua e na fresa. Ao fim de 5 anos, quase todos abandonámos a experiência da sementeira direta e voltamos a 100% à lavoura. As razões foram dificuldades com infestantes, pragas (no meu caso, tive um ataque de uma espécie de pulgões que invadiram as casas vizinhas ao terreno), falhas na sementeira e necessidade de incorporar o chorume na terra. Também houve quem tivesse bons resultados, mas aqui na minha zona a percentagem de sementeira direta é muito baixa.

É uma técnica muito interessante para evitar a erosão, mas aqui, até agora, não teve sucesso. Pelo contrário, as charruas, nas suas variadas formas e tamanhos, sucessoras dos arados usados há centenas ou milhares de anos, continuam a atualizar-se e virar a terra. Os lavradores continuam a lavrar.