terça-feira, 15 de setembro de 2026

As notícias da morte da agricultura são manifestamente exageradas

Conta-se que, certo dia, ao ler num jornal a notícia da sua própria morte, o escritor Mark Twain respondeu escrevendo que “as notícias da minha morte são manifestamente exageradas”. Conta-se também que “o otimista é alguém que vê a luz ao fundo do túnel, mesmo quando ela não está lá, enquanto o pessimista é alguém que vai a correr apagá-la”. 

A partilha que eu fiz de um excerto de um artigo sobre a falta de candidatos em alguns cursos de agronomia neste ano de 2026, escrito por José Palha num artigo para o jornal Sol, despertou um conjunto de comentários, quase todos negativos, que agradeço e a que pretendo responder.

Primeiro, permitam-me que puxe dos meus galões da idade, porque com os anos não podemos ganhar só mazelas, também temos de ganhar estatuto e eu já vivi mais de meio século e toda a vida convivi com este “agro-pessimismo” generalizado e sempre me irritou ouvir dizer que a agricultura tinha acabado, porque não gosto de ouvir dizer que não existo, pronto! O meu pai dizia que “os homens são como o vinho, a idade adoça uns a azeda outros”, mas, em maior ou menor grau, é normal, à medida que os anos passam, ficamos mais pessimistas e rabugentos, e isso é bom, porque a alternativa era morrer cedo.

Depois, dizem que a falta de alunos em alguns cursos agrícolas é sinal do abandono da agricultura, mas, no passado, a ida de alguém para o ensino superior agrícola tinha muitas vezes, como objetivo, “sair da lavoura” e procurar trabalho atrás de uma secretária, no ministério da agricultura, nas cooperativas, associações, agroindústrias, fábricas de rações, empresas comerciais… e isso não era mau em si, era normal, se uma familia tinha 2, 3, 5 ou 10 filhos, não podiam ficar todos a trabalhar na terra que já era pouca.

Terceiro, pedi ao google para me fazer um gráfico com a evolução do número de vagas em agronomia e do número de candidatos colocados na primeira fase e, afinal, o gráfico não é a desgraça que parece quando olhamos para alguns cursos que ficam vazios. Então, está tudo bem? Claro que não! É evidente que muita coisa está mal, podem ser cursos desajustados ao mercado, pode ser excesso de cursos, talvez o setor agrícola deva estimar e comunicar o numero de licenciados de que vai precisar no futuro, e também os governantes devem avaliar se querem meter “sangue novo” nos quadros do ministério da agricultura, porque se há gente nova, não os vejo, e apesar das organizações agrícolas hoje fazerem muito do trabalho que antigamente era “extensão rural”, ainda assim há coisas, como os controlos e certificações, que, na minha opinião, não deviam ser tão “privatizadas” como estão a ser.

Quarto ponto, este menos positivo, talvez seja só impressão minha, mas, por razões que não quero agora discutir, por falta de tempo e espaço, passamos de um tempo em que se tinha “pena” do agricultor pobre e desgraçado para um tempo em que se ganhou “raiva” ao “agrónomo”, o “gajo mau” que aconselha e vende pesticidas, adubos químicos e sementes transgénicas, já para não falar sobre toda a imagem negativa dos zootécnicos e veterinários da pecuária, por isso os jovens candidatos à veterinária, quando não estão apenas à espera de uma vaga em medicina, tem por objetivo dedicar-se apenas a cães, gatos e outros animais de companhia.

Quinto e último ponto, de forma muito positiva, a todos os alunos (e aos seus familiares, que possam ler isto com o coração apertado) que agora entram em agronomia, zootecnia, veterinária e tudo o que tenha ver com agricultura, sejam bem-vindos, ânimo, pensamento positivo! A agricultura precisa de vós, precisa de sangue novo, precisa de massa cinzenta, os que já cá estão precisam da vossa “concorrência” e Portugal, e o mundo, precisam dos campos cultivados, do território ocupado e de comida na mesa! 
 #agricultura #agronomia #zootecnia #veterinaria #EnsinoSuperior

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

A luta do leite


Em janeiro de 2026 o preço do leite ao produtor desceu 3 cêntimos por litro e em agosto outro cêntimo e meio. Estas descidas representam aproximadamente uma perda de 72 milhões de euros para a produção face a 2025 e coincidem com aumentos dos custos de com fertilizantes, combustíveis e rações e com uma redução na produção de milho devido às ondas de calor. Além disso, pagamos o gasóleo agrícola 20 cêntimos acima dos colegas de Espanha e recebemos outras ajudas a um nível muito inferior em comparação com o país vizinho.
É verdade que o preço do leite ao produtor desceu menos em Portugal do que noutros países da Europa, mas também é verdade que isso aconteceu porque Portugal teve ao longo dos anos o preço mais baixo entre todos os países da EU. Não tivemos em Portugal um período de vacas gordas que nos permitisse acumular reservas e fazer investimentos. 
A descida do preço tem sido comunicada aos produtores tendo como justificação a descida de valor do leite em pó e da manteiga e a dificuldade em escoar leite por causa da importação de leite francês e das promoções agressivas com leite açoriano.

Para evitar ou atrasar tanto quanto possível essas descidas que ocorreram e novas descidas que alguns dizem que ainda vão acontecer, e que seriam dramáticas para o setor, nós, na APROLEP, ao longo dos últimos meses, procurámos combater as causas, desenvolvendo uma intensa campanha de comunicação, primeiro, de forma positiva, para apelar à distribuição e aos consumidores para darem preferência ao consumo de leite nacional, através da oferta de leite e do contacto com os consumidores na Rua de Santa Catarina no Porto e depois numa praia do Algarve. Para reforçar e levar mais longe a mensagem, de forma inédita, pagámos para um avião atravessar o Algarve de Portimão a Vila real de Santo António com a mensagem “BEBA LEITE NACIONAL”. 

Entretanto, apercebemo-nos que voltaram as importações de leite estrangeiro para os supermercados da cadeia Intermarché. Depois de um primeiro apelo que não foi ouvido e de um pedido de reunião que ainda não teve resposta, colocámos um primeiro rolo de palha no Intermarché da Maia e não vamos desistir dessa luta. 

O leite e os produtos agrícolas produzidos em Portugal alimentam os portugueses e a economia de Portugal, reduzindo o défice comercial e mantém os campos cultivados e longe dos incêndios.

O produtor é o elo mais fraco na cadeia de valor do leite e a corrente rebenta sempre pelo elo mais fraco, mas quando uma “casa de lavoura” vende as vacas leiteiras, nunca mais volta à produção de leite. As indústrias privadas e sobretudo a indústria cooperativa têm de ter consciência disto e da responsabilidade de defender a produção, criar valor e partilhar o valor com os produtores a quem pertencem.
Carlos Neves
Secretário-geral da APROLEP
Artigo de opinião no jornal Terras do Ave a 9.9.2026

sábado, 29 de agosto de 2026

Cenas da vida de um lavrador obrigado a crescer



Há muito, muito tempo…(precisamente quando o José Cid, autor de uma canção que começa assim, ainda era uma criança) a minha avó, Esperança, ficou viúva, mas com 3 vacas e 3 leiras de terra, criou 5 filhos e ainda comprou mais 3 hectares de terra.

Vinte anos mais tarde… quando o meu pai casou, já tinha trocado as “cortes” e os “aidos” do gado debaixo da velha casa de lavoura por uma pequena vacaria com 12 vacas e respetivas crias, alimentadas por 6 hectares de terra própria que cultivava.

Vinte anos passados, no início da década de 80, quando eu fui com o meu pai ouvir o José Cid à festa da Nossa Senhora das Neves, na freguesia vizinha de Azurara, já tínhamos mudado para a casa nova com uma vacaria maior e 30 vacas.

Com mais 20 anos em cima, instalei-me, como jovem agricultor, com 40 vacas e 10 hectares.
Parece que foi ontem, mas desde que me instalei já passaram 30 anos e hoje cultivo 30 hectares, a maior parte dos quais “arrendados” (parcelas de terra que há 50 anos eram cultivados por 8 famílias diferentes), tenho 70 vacas e outras tantas vitelas e novilhas, mas poderia ter 200 ou 300, que é agora o tamanho normal de muitas vacarias aqui em Vila do Conde.

Estou a dar estes números como exemplo da evolução da nossa agricultura. Não me estou a gabar nem a queixar. Não quero que tenham pena nem raiva, apesar da avó Esperança dizer que era melhor terem raiva do que pena dela, sinal que estava bem.

Estou convencido que esta história é semelhante à de outros agricultores noutros setores e regiões, cada um com uma evolução diferente, como na parábola dos talentos. Poderão encontrar quem manteve, quem dobrou, algum que passou de 3 para 30, outros para 300 ou até 3000, quer sejam hectares de terra ou animais. Não é esse campeonato que está em causa neste texto.

Quero apenas explicar que houve uma saída contínua de pessoas da agricultura desde há 200 anos, após a revolução industrial, procurando e aproveitando as oportunidades de uma vida melhor fora da agricultura.

Por outro lado, quem escolheu ficar na agricultura, teve de escolher também entre crescer ou acabar, porque parar de crescer ou de melhorar é como deixar de pedalar quando andamos de bicicleta.
Olhando para esta evolução, contudo, vejo dois paradoxos:

Por um lado, precisamos de crescer para ter uma vida mais confortável e uma empresa com futuro para nós e para que os nossos filhos queiram e possam suceder. Por outro lado, ao crescer deixamos de ser o “pequeno agricultor” que desperta simpatia e ficamos mais perto de ser um grande agricultor ou “latifundiário”, palavra negativa, isto é, passamos da “pena” à “raiva”.

As políticas públicas supostamente apoiam o investimento na agricultura, para ganhar dimensão, mas, ao mesmo tempo, os apoios ao rendimento são dados de forma simplificada aos pequenos agricultores e de forma mais complicada aos “grandes”, o que estimula a divisão das empresas agrícolas na procura desses apoios, as multas são mais elevadas para as sociedades agrícolas do que para os agricultores individuais da mesma dimensão e as licenças são mais caras e complicadas de obter.

Se calhar, na próxima PAC, é preciso calibrar os apoios que houver e talvez torná-los mais ajustados e progressivos, tal como as modernas caixas de velocidades dos tratores passaram das mudanças aos saltos para variação contínua, para que possamos continuar a “viver a vida” com a agricultura “viva”, porque “o tempo que passou, não volta mais”.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Cenas da vida de um lavrador - a "bufadeira"

D. Branca, a gata mais velha do pedaço, com um olho amarelo e outro azul, quase morreu de parto e foi salva in-extremis por uma cesariana do Dr. Ernesto, depois da sua brancura ter sido descoberta em cima de um saco branco pela minha esposa, arrastada pela trela de uma Lassie que era suposto passear e não tinha exatamente as melhores intenções em relação à Branca, mas a vida é assim, às vezes “avança-se mais com os pontapés dos inimigos do que com os abraços dos amigos”.
Ao longo da sua vida, a gata Branca teve muitas ninhadas. Alguns não sobreviveram, outros foram dados para adoção. Curiosamente, da ninhada anterior sobraram todos: O “Jorge”, chamado assim por ser igual a outro “Jorge” anterior que era irmão de uma “Pepa”, por causa da “porquinha Pepa”, e que emigrou para o cimo da rua, provavelmente escorraçado pelo “Cream”, de cor creme, que se tornou o “macho alfa” entre a gataria cá de casa; O “Ice”, branco como o “Jorge” e como o comboio rápido da Alemanha onde viajámos de visita às feiras agrícolas de Hannover quando estes gatos eram pequenos (temos portanto um “Ice” e um “cream”, portanto, “Icecream”, gelado, ao contrário da relação “quente” e barulhenta entre os dois, apesar de termos mandado castrar o Ice para não ter o mesmo destino do irmão escorraçado) e ainda (como se dizia no tempo do “1,2,3”), fazia parte dessa ninhada uma gata que se auto-marginalizou, e que se tornou “brava”, ao contrário dos irmãos dóceis que querem mimo, e que “bufa” como sabem bufar os gatos quando se querem mostrar bravos, mesmo quando vem comer os restos do jantar e comida de gato que lhe oferecemos todos os dias, e que por isso foi batizada pela minha esposa de “bufadeira”.
Mal alimentada porque se marginalizou, a “bufadeira” teve várias crias que não sobreviveram mas houve finalmente um gatinho, que também era uma bufadeira pequenina, mas que se aproximou o suficiente da minha esposa para ser criado a sopas de leite e que eu, mais tarde, pacientemente, fui domesticando e mimando para poder dar para adoção , mas apesar de várias publicações ninguém o quis e agora, pequeno adulto, já deve ser tarde para o adotar, e por agora ainda não houve grande stress entre o Cream e o filho da bufadeira” e por isso adotei-o eu novamente, e isto é tudo literalmente verdade, e não é só sobre gatos.

domingo, 23 de agosto de 2026

Milho contra o fogo e contra a fome


O Presidente da Câmara de Águeda quer recuperar o cultivo de milho nos campos agrícolas em redor das aldeias do seu concelho para dificultar a progressão dos incêndios florestais e eu apoio essa ideia.  
A propósito do incêndio que afetou o concelho no início de julho, disse o presidente: “Eu diria que vi o teste. O incêndio estava a progredir com uma violência incrível. Chegou a uma área de milho, chamuscou as duas primeiras carreiras e parou imediatamente”.
Os especialistas têm vindo a alertar que os terrenos abandonados onde a erva cresce no inverno e seca no verão são o equivalente a deixar a torneira do gaz aberta, à espera de uma faísca.
Eu concordo que não será simples a câmara fazer a sementeira e tratar do milho, mas acho que se deve começar já a tratar do assunto, e não é no próximo verão quando estiver a arder, nem no inverno quando Águeda e os restantes concelhos do país estiverem ocupados com as festas de Natal e preocupados com as inundações. O melhor é começar a estudar e decidir já, enquanto o assunto está, literalmente, “quente” e atrevo-me a atirar meia dúzia de ideias para a fogueira dessa discussão que não se deve apagar com a chegada das chuvas, tal como esperamos que se apaguem os incêndios.
Podem começar com uma área experimental.
A Câmara pode começar por dar um apoio aos agricultores locais que se comprometam a semear o milho.
Se não houver disponibilidade dos agricultores locais, pode contratar prestadores de serviços agrícolas que conseguem lavrar, preparar a terra, semear, fazer a monda e colher.
Pode, (deve!) chamar os agricultores locais, associações, cooperativas, historiadores, a gente mais velha, e perguntar porque deixaram de cultivar o milho, o que acham da ideia, o que pode correr mal.
Foi por causa da destruição causada pelo javali que abandonaram o milho, como aconteceu em muitas aldeias de Portugal? Ok, vamos controlar o javali, ou vamos deixar o javali mandar em nós para morrermos à fome e queimados?
Falta rega? Mas nunca se regou lá? Como dava milho antes? Não há poços, regadios tradicionais, pequenos ribeiros? Um pouco de água que dê para usar com a rega gota-a-gota? Há eletricidade? Temos de vender um rim para pagar cada “baixada”? Ou usar variedades de ciclo muito curto, semeadas o mais cedo possível, que produzem menos, mas também precisam de menos água?
O milho vai ser destinado a grão ou a silagem? Se não houver vacas para comer essa silagem, podem fazer “bolas” ou rolos e vender ou oferecer para alimentar no inverno os rebanhos de cabras e ovelhas que no resto do ano podem limpar os montes e terras impossíveis de cultivar para também aí proteger os incêndios.
E se for de todo impossível cultivar milho, porque não experimentar a luzerna, que não precisa de adubo azotado, nem de herbicida e tem uma raiz que vai buscar a água lá o fundo, muito fundo, e só exige cortes múltiplos dando um alimento com muita proteína? Ou azevém, ou aveia, que se colhe no fim da primavera ou início do verão, e que depois, não estando verde como o milho, pelo menos também não deixa crescer arbustos e ervas no inverno para arder no verão?
A agricultura é a única forma de alimentar a população e é a melhor forma de a proteger contra os incêndios e, como ouvi um dia numa palestra a D. António Couto, Bispo de Lamego: “Quem quer arranja maneira, quem não quer arranja desculpas”. Força com isso, e comecem já!
#carlosnevesagricultor #milho #agueda #incendios #fogo

terça-feira, 11 de agosto de 2026

O que vão fazer as vacas durante o eclipse?

 

Se me perguntassem isso, a minha resposta seria que vão fazer o que fazem sempre, noite e dia: comer, beber (água), ruminar, dormir, caminhar, brincar, coçar-se na escova, andar à pancada a mostrar quem manda, fazer leite durante esse tempo todo e ser ordenhadas 2 ou 3 vezes por dia durante 7 minutos de cada vez, em média.
Entretanto, num grupo de produtores de leite franceses, encontrei um texto de Alix Penichou, de L'Action Agricole Picard / Reussir fr , com o título "Eclipse: O que as vacas farão quando o dia estiver quase no fim?", pensando sobretudo nas vacas em pastagem:
"Na quarta-feira, 12 de agosto, o sol ficará encoberto em aproximadamente 91% na região do Somme. Essa queda repentina de luminosidade poderá afetar os padrões de deslocamento do gado. No entanto, não há motivo para pânico generalizado nos pastos. Cientistas já observaram esse fenômeno.
Amanhã à noite, as vacas poderão ter uma sensação estranha: a de que o dia terminará mais cedo do que o esperado. Em Amiens, o eclipse solar começará às 19h20, atingirá o seu máximo às 20h16, com 91,2% do disco solar obscurecido, antes de terminar às 21h08. O sol estará então muito baixo, a apenas 8,1° acima do horizonte, na direção oeste-noroeste.
Para os criadores de gado da região do Somme, esse fenómeno pode ser uma oportunidade para observar os seus animais. A luz desempenha um papel significativo nos ritmos diários dos animais e, quando desaparece repentinamente no meio do dia, alguns podem alterar o seu comportamento.
Será que as vacas conseguem acreditar que a noite está a chegar?
A resposta é sim… mas com algumas nuances. Um estudo publicado na revista Applied Animal Behaviour Science examinou especificamente o comportamento de vacas leiteiras durante um eclipse total. Os pesquisadores observaram o gado durante um eclipse em que o nível de luz caiu para níveis comparáveis ​​aos da noite.
O resultado: o eclipse não causou grandes alterações no comportamento de pastoreio ou ruminação das vacas. Os pesquisadores concluíram que a intensidade da luz, por si só, não parece desempenhar um papel importante no controle dos ritmos diários de pastoreio. Em outras palavras, as vacas não interrompem as suas atividades assim que a luz diminui. No entanto, outras observações mostram que os animais ainda conseguem reagir à mudança repentina de luminosidade.
Durante o eclipse solar total de 2017 nos Estados Unidos, uma equipe de pesquisadores estudou o comportamento de 17 espécies de animais no Zoológico Riverbanks, na Carolina do Sul. Treze das 17 espécies exibiram comportamentos diferentes do habitual.
Os pesquisadores identificaram quatro tipos principais de reações: comportamento consistente com hábitos noturnos, sinais aparentes de ansiedade, comportamentos incomuns e… ausência completa de reação. Em algumas espécies domésticas e selvagens, foram observados comportamentos associados ao anoitecer: retorno aos locais de repouso, agrupamento ou diminuição da atividade.
Mais recentemente, pesquisadores da Universidade Estadual de Ohio monitorizaram de perto um rebanho de 165 vacas da raça Holstein durante o eclipse solar total de 8 de abril de 2024. O gado foi equipado com coleiras para registar a sua atividade. Os pesquisadores compararam o comportamento dos animais antes, durante e depois do eclipse.
Os resultados são bastante tranquilizadores para os agricultores: não foi observada nenhuma diferença significativa na atividade no dia do eclipse em comparação com os períodos anteriores e posteriores ao evento. Os pesquisadores também vigiaram a produção de leite. Notaram variações na produção, mas estas corresponderam principalmente a um aumento nas médias ao longo dos dias e não permitiram atribuir qualquer efeito ao eclipse.
Portanto, não houve queda repentina na produção. E, sobretudo, não há motivos para crer que um eclipse possa ter um impacto duradouro na saúde ou no desempenho do rebanho.
Então, devemos ficar de olho em nossos animais?
Sim, mas mais por curiosidade do que por preocupação. As vacas poderiam continuar pastando como se nada estivesse errado... ou decidir que o dia acabou. De qualquer forma, alguns minutos de observação poderão render imagens interessantes.
Entretanto, nós por cá, na RFM, temos um artigo "Eclipse solar: há cuidados que também deves ter com os teus animais", onde se diz
"Mas se tens um animal de estimação (sim, digo eu, tenho bastantes), há uma recomendação simples que deves guardar: não tentes pôr-lhe óculos de proteção nem o obrigues a olhar para o eclipse. (ó pá, era mesmo isso que eu estava a pensar fazer...).
Enfim, como se diz aqui à moda do Porto, "Balha-me Deus!!!"
PS - Tende mas é cuidado que não baixem ainda mais o preço do leite ou de outros produtos aos agricultores durante o eclipse!!!

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Cenas da vida de um lavrador (IV) - Futebol, Fátima e Fado


 Futebol
Algures na década de 90 do século passado, eu teria cerca de 15 anos, era aluno da Casa-Escola Agrícola Campo Verde, em S. Pedro de Rates, Póvoa de Varzim, vogal multifunções da “Junta de autogoverno” da turma (uma equipa de 5 elementos que fazia as funções do “delegado de turma”) e guarda-redes da equipa de futebol da mesma turma. Um dia, tendo sido combinado um jogo com uma turma da escola C+S local, por razões que já esqueci, foi preciso ir à dita escola antes do jogo combinar os últimos detalhes. Lamentavelmente, aceitei tomar café, coisa com que não tinha experiência, mas que me deixou ainda mais nervoso. Entretanto, durante o jogo, quando já estávamos a perder 2-0, por golos de que não tive culpa, atrasaram-me a bola, não a consegui agarrar e à segunda tentativa escorregou-me das mãos e ainda meti a bola dentro da baliza. A minha carreira no futebol acabou aí… 

Fátima
No final desse mesmo ano letivo, as seis “Casas-Escolas Agrícolas” que então existiam agrupadas na APDR (agora existe apenas a nossa Escola em Rates, para além das outras escolas agrícolas que são públicas), juntaram-se em Fátima num convívio. Depois das orações e missa durante a manhã e do almoço de convívio e partilha de farnéis, 600 pessoas reuniram-se no auditório Paulo VI para uma palestra de que nada recordo, exceto que a dada altura o Dr. António Damásio, então diretor da nossa escola, sem me ter avisado ou preparado, foi ao microfone e chamou-me ao palco para ir dizer umas palavras sobre a escola e sobre a região do Entre Douro e Minho. Não me lembro do que disse, mas sei que correu bem, porque bateram palmas no fim e não me criticaram. A única coisa de que me lembro é que estava tão nervoso que as minhas pernas tremiam como varas verdes. Foi a primeira e a última vez. Depois disso já falei com 3 presidentes da república, ministros, deputados, eurodeputados, comissários europeus, já dei entrevistas em direto, no estúdio ou no meio das vacas… e nunca mais fiquei tão nervoso como dessa vez. Foi uma vacina e peras! 

Fado
Quando fiz o 9º ano na Escola Secundária José Régio, em Vila do Conde, cruzei-me na turma do 9ºI, se a memória não me falha, com um colega chamado Alexandre, que nunca mais vi, muito simpático e com um sentido de humor refinado… Sempre que me ouvia a cantarolar uma música, coisa que eu fazia com frequência, dizia: “Ó Neves, gostas dessa música?”, e eu dizia que sim, na primeira vez, pelo menos, porque “à primeira quem quer cai, à segunda cai quem quer” e portanto:
Gostas dessa música?
Gosto!
Então não a estragues!...
E portanto, citando Frei Hermano da Câmara, “Ser fadista foi meu sonho / mas não foi esse o meu fado / Deus traçou-me outro caminho / cheio de amor e carinho / fez-me andar para outro lado!”
(Escrito para a revista Mundo Rural de julho - Agosto de 2026)