domingo, 12 de julho de 2026

Cenas da vida de um lavrador (III) - O mistério da saca das cuecas vermelhas



Não me recordo exatamente quando foi, mas terá sido, talvez, há 8 ou 10 anos. Um dia, no corredor de alimentação da vacaria, a que antigamente chamávamos “casa da erva”, apareceu uma saca com cuecas para senhora, vermelhas e de outras cores. Não recordo quem encontrou, mas não esqueço que ninguém sabia de onde veio ou para quem era. 
Pelo tamanho serviam à minha esposa, mas não tinha sido ela a comprar, nem imaginava quem teria trazido aquilo e se eram mesmo para ela, e porquê. Eu não fazia ideia. A minha mãe, por questões de saúde, já não andava sozinha fora de casa. O meu pai também não sabia, nem o nosso funcionário, nem a senhora que costumava vir passar a ferro e ajudar nas limpezas da casa. Mistério. Não faltava nada mas tinha aparecido uma coisa e não sabíamos como. Durante vários dias, puxámos pela cabeça e perguntámos a toda a gente que frequentava a casa mas ninguém sabia. Aqui na zona, ao contrário de outras regiões do país, quase sempre a casa do agricultor fica junto dos estábulos, currais e dos armazéns e ao conjunto chamava-se tradicionalmente “Casa de lavoura” e tecnicamente ainda se chama “assento de lavoura”.
Lembrei-me entretanto que já tínhamos câmaras de videovigilância. Quando tive oportunidade, sentei-me ao computador e “puxei o filme atrás”. Apareceu a saca e apareceu uma pessoa a entrar com ela na mão e a sair sem ela. 
Era uma senhora, nossa conhecida, tia de um amigo e vizinho, que nos tinha pedido, quando fosse possível, para mostrar as vaquinhas às suas netas. Uma tarde, mais ou menos sem avisar, apareceu. Trazia as meninas numa mão e na outra, para agradecer a visita, uma saca com roupa da sua fábrica de confecções, para oferecer à minha esposa (com a experiência que tinha, tirara-lhe as medidas só com o olhar). Entretanto as meninas, que eram pequeninas, deviam ter 4 anos, assustadas com as vacas, começaram a chorar, a visita acabou rapidamente e a senhora deu a saca e o recado ao meu filho mais velho, na altura pré-adolescente e que, com “a cabeça no ar”, não deu recado, nem saca e nunca mais pensou no assunto. E foi assim que as câmaras de videovigilância tiveram “uso efetivo” pela primeira vez... 
#carlosnevesagricultor #agricultura #lavoura #misterio

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Aqui o calor já passou, mas tenham cuidado

O nevoeiro pegou ao serviço no turno da manhã e a nortada arrefece as tardes e incomoda os banhistas da Póvoa e Vila do Conde. 
Foi duro para os animais, para as plantas e para nós. Levei a sério o aviso e estava mais preparado do que em anos anteriores. Ventiladores a funcionar, rega adiantada e mais equipamentos de rega do que nos anos anteriores, mas ainda assim o milho sofreu, as vacas sofreram, produziram menos leite e tiveram mais problemas de saúde. Podia ter corrido um pouco melhor se não houvesse uma avaria e se, na equipa de manutenção, o mais novo tivesse dado ouvidos ao mais velho: “Não queres ver aquela caixa?” Não quis.  Só a viu dois dias depois, e afinal tinha lá dentro uma coisa desapertada, quando depois de avarias e intermitentes e vários testes os voltei a chamar. 
Às vezes são os mais velhos que não ouvem os mais novos e isso é ainda mais complicado. Como contrariar o pai, mãe ou avô, a quem obedecemos toda a vida? 
Já partilhei há tempos um texto, que descobri através do canadiano Farmer Tim, com o título “Como, e quando, dizer não ao pai” - no caso, dizer ao pai “Não, não podes mais conduzir o trator, porque não estás em condições”, ou, no nosso caso, dizer “hoje está muito calor, não vais para o campo e muito menos para a estufa!” 
Para complicar, como escrevi há dias, andam por aí muitos “Pedros” a gritar “lobo” para chamar a atenção e depois, quando é a sério, como foi agora, as pessoas não levam a sério. Na Estela, uma freguesia da Póvoa de Varzim a 10 km daqui, também junto ao mar, duas idosas foram encontradas mortas numa estufa, no domingo de manhã, porque faltaram à feira. Viviam juntas e a mais velha cuidava da mais nova, que tinha um deficit cognitivo. A mais velha terá desmaiado ou tido um AVC ou ataque do coração e a mais nova não saiu da beira dela. Apesar do calor acima do normal, mantiveram a rotina, foram à estufa colher as coisas durante a tarde de sábado para vender na manhã seguinte. Faltaram à missa no fim da tarde mas as pessoas acharam normal por causa do calor, só deram pela falta delas na feira domingo de manhã. Ainda está a decorrer a autópsia, os resultados demoram meses e não quero aqui tirar conclusões, mas, como o calor ainda continua, e vai voltar, porque é verão, e pode voltar forte, mais forte do que estávamos habituados, vim aqui outra vez insistir: Tenham juízo, tenham cuidado convosco, com os vossos animais, com as crianças e com os idosos, por mais rabujentos e teimosos que sejam, porque somos todos um bocado assim, e, se Deus quiser, os que lá chegarmos, seremos também todos cada vez mais teimosos com o passar dos anos mas queremos continuar a desfrutar da vossa teimosia e da vossa companhia. Protejam-se, bebam água e fiquem à sombra. Agora, adeus, porque está fresco e vou regar.
#carlosnevesagricultor #agricultura #milho #regas #calor #Estufas

domingo, 5 de julho de 2026

Cenas da vida de um lavrador (II) - No campo e no futebol


O futebol é uma cena a que pouco assisto. Tornei-me adepto do Benfica por influência do meu pai, mas, tal como ele, nunca fui muito praticante dessa “religião”. Nunca fui à “catedral” da Luz, mas fomos os dois assistir a um jogo Benfica - Rio Ave, os nossos clubes, no antigo Estádio da Avenida, em Vila do Conde. Pelo contrário, fui duas vezes ao Estádio do Dragão, mas nunca para ver o “papa”, porque o nosso sempre esteve em Roma. A primeira vez terá sido há 15 anos, ao festival Panda e a segunda vez foi para ver a seleção, na Liga das Nações, derrotar a Suíça, tornando realidade a previsão que me fez ganhar dois bilhetes e duas camisolas num concurso da GALP, com a frase: “vamos comê-los como um queijo suíço!” E, se não estou em erro, foi um hat-trick de Ronaldo. Já posso dizer que o vi jogar ao vivo.

O futebol tem coisas horríveis, como a violência das claques nos estádios e os ataques de ódio nas redes sociais, mas também tem coisas fantásticas.
Em 2002, fui com um grupo de agricultores numa viagem organizada pela empresa Semex visitar vacarias de alta genética e o Royal Show no Canadá, atravessando de Montreal a Toronto. Aterrámos com 30 graus negativos e fomos parar a um interrogatório de duas horas no departamento de imigração - “Vais visitar quintas? E não trazes botas?” Fora do aeroporto estava a equipa da Semex que então nos deu as botas descartáveis tipo sacas de plástico para colocar por cima dos sapatos normais. O resto da viagem correu muito bem, com um detalhe que não esqueço, já em Toronto. Era meia-noite e regressávamos de táxi ao hotel. O motorista perguntou de onde éramos, respondemos “Portugal”. “Portugal? Luís Figo!!!”
Regressemos a 2026, manhã de 3 de julho, sexta-feira. Na ponta do mesmo campo por onde saiu, a caminho do mar, a “mulher misteriosa” da história que contei na semana passada, agora já com milho alto a pedir rega, estava eu a afinar o aspersor e apareceu-me um homem, menos misterioso, de chapéu e mochila às costas. Passa muita gente aqui perto, pela “Estrada velha”, vindo do Porto pelo “Caminho da Costa” em direção a Compostela. Tentei explicar que ali não era caminho, não percebeu, falei em inglês, percebia pouco, disse-me que era da República Checa, perguntei se conhecia o Marek Cech, futebolista eslovaco, antigo jogador do Porto, abriu um sorriso e respondeu que sim, expliquei que ele mora a 1 km do campo onde estávamos, a atitude do homem mudou, abriu o telemóvel, meteu o tradutor de checo para inglês e percebi que, tal como a outra senhora, também queria ir para o mar, a partir daí foi fácil dar as indicações e lá partiu, feliz, de mochila às costas. Pareceu-me vê-lo mais tarde, já na “estrada velha”, acompanhado, a caminhar em Direção a Santiago.
Recuemos 2 meses. Quando estive na Holanda, em Roterdão, apanhei um uber, nova cena… “De onde são?”, “Portugal” “Ah, Ronaldo!!!”. Minutos antes, na rua, um miúdo levava na mão um lego… do Ronaldo.
O futebol tem a magia do imprevisto, de um ressalto, um penalti, um capricho da bola. Podem-se fazer previsões, mas não basta ordenar as equipas pelo orçamento ou pelo valor de mercado de cada jogador para saber quem vai ganhar. E Ronaldo é muito mais do que futebol e os golos que marca. Com a carreira que construiu a pulso, é a inspiração para milhões e milhões de miúdos e gente de todas as idades em todo o mundo. Não é perfeito porque ninguém é perfeito, mas ninguém pode negar que é inspiradora a história de alguém que nasceu pobre, filho de um pai alcoólico, cresceu sem dinheiro para ir ao Mac Donalds, e mesmo assim teve sucesso na vida. Que este campeonato seja uma festa. Desfrutem!
PS – E parem de chamar velho a uma pessoa 10 anos mais nova do que eu! Se ele fosse agricultor ainda era jovem, carago!

domingo, 28 de junho de 2026

Cenas da vida de um lavrador (I) - A mulher misteriosa


Ao fim tarde, mais uma vez, fui para o campo à hora de vir. O campo fica a 400 metros da foz do Rio Ave, nas traseiras do convento abandonado de Nossa Senhora dos Anjos, convento franciscano mais conhecido pela Igreja de S. Donato. Para chegar ao campo atravessei outro campo que fica no fim de uma rua sem saída. O objetivo era juntar a erva que já estava cortada e seca ao sol ou, como nós dizemos, “encordoar”, colocar em “cordões” para fazer rolos e plastificar no dia seguinte. Cheguei ao campo e desci do trator para “armar a tenda”, que no caso consistia em montar as várias hastes do “encordoador” na posição horizontal, posição de trabalho, ficando com 4 metros e trinta de largura. Na hora de voltar a subir para o trator e começar a juntar a erva, vi uma mulher, relativamente jovem, a caminhar ao meu encontro, já depois de ter atravessado o primeiro campo. Trazia na mão uma latinha de creme nívea e dois ou três pedaços de creme colocados no rosto, talvez em borbulhas ou queimaduras.

- Posso passar?
- Para onde quer ir???
- Para o mar. Quero caminhar em direção ao pôr do sol!
Estranhei a voz ligeiramente nervosa, mas pensei que podia ser alguém a passar férias, instalada nalgum alojamento local próximo, à procura de um atalho para a praia. Então respondi:
- Pode descer por ali para o outro campo, ao meio há um caminho onde pode virar à direita e no fim do campo está na foz do rio Ave, virando à esquerda está na praia de Azurara.
Ela agradeceu, seguiu caminho e eu fiquei só com o trator, a máquina e o meu trabalho, mas cada vez mais angustiado com os meus pensamentos. Tirei uma foto quando já estava a 100 metros de distância e filmei-a a caminhar tão longe que já parecia um fantasma. Seria apenas uma turista, como pensei, alguém à procura de um momento “zen”, um momento de paz e meditação em frente ao mar, ou uma pessoa perturbada a caminho de um ato de desespero? Devia eu ter perguntado à senhora se precisava de ajuda? Estaria ela disposta a responder alguma coisa a um “lavrador” armado em psicólogo? Pensei ligar para os bombeiros ou para a GNR, mas e depois? Dizia-lhes que passou por mim uma mulher estranha e que era melhor segui-la para ver se ia apanhar sol ou atirar-se ao mar? Como iriam reagir no quartel? Sairiam em patrulha à procura dela ou diriam para ter juízo e procurar ajuda porque quem não estava bem era eu?
Nunca mais a vi e, sobretudo, mais importante, nas semanas seguintes, não ouvi notícias de qualquer ocorrência negativa. Espero que tenha encontrado a praia e a paz, que esteja bem e que não seja identificada nesta publicação onde procurei respeitar a sua privacidade como, mal ou bem, fiz nesse dia.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Os Pedros, os lobos e os calores

Já escrevi aqui, em plena vaga de frio no inverno de 2025, que tinha saudades do tempo em que o estado do tempo era um desbloqueador de conversas e não um detonador de discussões entre guerreiros do teclado. Uma pessoa chegava a um elevador ou à sala de espera do médico, comentava que estava frio e uns acenavam com a cabeça, outros ficavam calados e outros, se quisessem, tinham conversa para ocupar o tempo de espera.
Na pior das hipóteses, as discussões a sério eram resolvidas à sacholada quando os lavradores não se entendiam nas repartições das águas das presas.
Agora, venha frio ou calor,  vento ou chuva, lá começa a discussão entre os adeptos da teoria do “fim do mundo” (vamos todos morrer, temos de mudar de carro e de dieta) e do “fim do mês” (não se passa nada). 
Para piorar, as redes sociais estão cheias de páginas “meteo”  a lutar desesperadamente por likes e até a comunicação social tradicional às vezes entra nessa luta desesperada pela audiência. São os “Pedros” do nosso tempo, que buscam a mesma atenção que o Pastor Pedro, na história tradicional, procurava quando estava aborrecido a guardar as ovelhas e gritava “lobo” para ver toda a gente acudir, e quando veio o lobo a sério já ninguém o levou a sério. 
O risco, hoje, é que quando os lobos do calor ou de outros extremos vierem, como sempre vieram, mas agora podem vir mais vezes, com mais força, por várias causas que não quero agora aqui discutir, o problema é que se vierem, quem vai sofrer não são os “Pedros” dos likes, que nessa hora já estarão bem isolados do calor ou do frio com o dinheiro que ganharam nas discussões, quem vai sofrer serão as “ovelhas” do nosso tempo, que são os mais idosos, os mais sós, os doentes, os sem-abrigo, e no caso da agricultura, nós, os nossos trabalhadores, os nossos animais e as nossas culturas agrícolas. 
Sejamos objetivos. Procuremos informação credível como o site do IPMA, que na precisão da temperatura não costuma falhar. Na próxima semana, dizem as previsões,  vem calor. Não é o fim do mundo, é só muito calor. Protejam-se, e discutam menos, que aumenta ainda mais a temperatura…
#carlosnevesagricultor #agricultura #tempo #calor #VamosTodosMorrer

quinta-feira, 18 de junho de 2026

História de um gato preto


Tive um tio (por afinidade) que era médico de família, como o Dr. João Semana, do livro “As pupilas do Sr. Reitor”, de Júlio Dinis, e também dentista, com um consultório no Porto e outro na freguesia natal. Na sala de espera, tinha um quadro / aviso: “Ao médico, ao advogado e ao padre, dizei só a verdade”. No consultório, tinha uma cadeira antiga de dentista, onde passei longas horas a sofrer e também, em jeito de anestesia, a ouvir muitas histórias da sua vida.

Aconteceu que um dia, o meu tio foi chamado para acudir a um bruxo ou bruxa de uma freguesia vizinha, que estava doente (vou deixar em dúvida para não identificar exatamente a pessoa em causa). Lá foi o meu “tio doutor” na mota que usava para as consultas na aldeia. Chegou lá, entrou no quarto e um gato preto saltou da cama do/a doente.
- Não tenha medo!
- Não tenho medo de gatos!
Realizada a consulta e deixada a receita, disparou o meu tio para a pessoa, que quando não estava doente era sua “concorrente”:
- Então você atende aqui tanta gente e agora que está doente chama-me???
- Ó Sôtor, eu já passei muita miséria! Agora, com duas tretas, endireitei a minha vida!
Portanto, agora que já prendi a vossa atenção, se alguém precisar de endireitar a vida, ou simplesmente de companhia, tenho esta gatinha preta para adoção (agora já está mais crescida).

Dermatose e outras doenças emergentes – como proteger os nossos animais?

 



“Houve um tempo, até há cerca de 35 anos, em que a vacina da febre aftosa era obrigatória para os bovinos. Nessa altura o meu pai fazia engorda dos novilhos e um nosso vizinho, o senhor António, tinha um talho e comprava-nos alguns desses animais. Um dia combinámos vender-lhe um touro, ele veio vê-lo, eu entreguei-lhe o "boletim de sanidade” do animal e a folha comprovativa da vacina. Recordo bem que era uma folha A5, letra azul e papel fino. O Sr. António quis ver novamente a traseira do novilho, para se certificar que estava bem gordo. O animal estava preso à manjedoura num anexo com 3 animais. O Sr. António pousou os papéis na manjedoura, que ficava a 50 cm do chão, à moda antiga, e lá fomos todos avaliar a gordura do touro. Quando voltámos à frente a folha da vacina já estava na boca do animal. Basicamente, comeu a sentença de morte e durou mais uma semana, enquanto esperámos pela segunda via pedida na “Zona Agrária”…

Lembrei-me desta história, presente no meu livro de crónicas agrícolas, inserida num texto sobre vacinas, ao ouvir num destes dias recentes, uma notícia sobre o regresso da Febre aftosa à Europa, com focos na Grécia e em Chipre. A doença está de volta após décadas de erradicação que tornaram a vacina desnecessária.

Nos últimos meses a Direção Geral de Veterinária e as organizações de agricultores tem chamado a atenção para várias doenças “emergentes”, doenças que estão a “emergir”, a surgir pela primeira vez na Europa, por causas diversas, nomeadamente a maior movimentação de pessoas e mercadorias e também as alterações climáticas, com o aumento de temperatura que tem feito aparecer insetos que até agora apenas andavam por regiões tropicais.

A Dermatose Nodular Contagiosa é uma doença que afeta os bovinos e foi identificada pela primeira vez em África, na Zâmbia, então Rodésia, em 1929. A doença não é transmissível aos humanos, mas provoca febre alta, nódulos cutâneos característicos, inchaço dos gânglios, queda severa na produção de leite, emagrecimento, abortos e infertilidade. A doença é transmitida principalmente por insetos. Em África a doença é comum mas não existia na Europa. Apareceu em 2016 na Grécia, vinda da Turquia, mas foi controlada e erradicada. Voltou a surgir na ilha da Sardenha em 2025, na França e na Espanha (Catalunha). Como o objetivo é manter a Europa livre de doença, só é permitida a vacinação nas regiões afetadas pela doença e sempre que surge um caso num estábulo, todos os animais desse estábulo são abatidos e os animais 20 km à volta são obrigatoriamente vacinados.

O que podemos fazer para nos protegermos destas e de outras doenças “emergentes” antes que se tornem uma “emergência”?

Para começar, nós os crentes podemos rezar para que a doença não chegue a Portugal. Mas, lembrando o aviso “fia-te na Virgem e não corras…”, neste caso correr significa prevenir.

Apresento de seguida alguns conselhos de “Biosegurança” que escolhi entre os sugeridos pela Dra. Andreia Santos, Médica Veterinária responsável pela sanidade animal na Cooperativa Agrícola de Vila do Conde:

1.       Arrumar

·  Antes de pensarmos em lavar ou desinfetar, há que pensar em manter os espaços arrumados.

2.       Limpar

·         Retirar os excessos de materiais inertes ou não inertes. Facilitamos as ações como lavagem ou desinfeção.

3.       Lavar

·     O uso de detergentes específicos ajuda a retirar carga de matéria orgânica, gorduras, biofilmes e potenciam a desinfeção.

4.       Desinfetar

·         A desinfeção é a última escala da defesa por aplicação de biocidas.

5.       Estabular e Desinsetizar

·         Estabular os animais e aplicar insecticidas adequados.

6.       Limpar o excesso de vegetação em volta da exploração (20metros)

·      A vegetação é considerada uma barreira de biossegurança, mas deve estar afastada da exploração alguns metros, por poder ser abrigo de insetos e pássaros, visitas pouco desejadas nas manjedouras.

7.       Eliminar locais de águas paradas, como lagos, pocinhas, pneus dos silos (locais de eclosão de insetos)

·      Os bebedouros também podem ser locais de germinação de larvas de insetos se não forem higienizados de forma sistemática.

·       Atenção aos pneus usados para manter a cobertura dos silos: a água que se mantém no interior aquece e mantem temperatura mais elevadas facilmente, incluindo no Inverno, fazendo deles excelentes locais de multiplicação e manutenção das populações de insetos.

8.       Aplicar redes mosquiteiras nas grandes áreas abertas, como topos e laterais das explorações

9.       Manter ventilação ligada 24h por dia

·         Insetos tão pequenos como o culicóide (2 a 4mm) têm dificuldade em lutar contra correntes de ar e, por essa razão, a ventilação ligada permanentemente reduz o risco de ataque.

10.   Lavar e desinfetar qualquer veículo ou instrumento que tenha sido emprestado ou usado para ajudar outros agricultores.

11.   Dispor de umas quantas batas na exploração para os visitantes técnicos utilizarem por cima do equipamento que trazem.

12.   Dispor em locais estratégicos de lava botas com desinfetante.

13.   Criar um espaço de verdadeira quarentena

·     Animais que são comprados deviam cumprir um período de quarentena, pelo menos até serem conhecidas os resultados de análises.

14.   Desenvolver o hábito de ter agenda para receber visitas na exploração.

15.   Ter um espaço para receber as viaturas estranhas à exploração.

16.   Ser agente de mudança.

·         Exigir aos técnicos e pares mudanças de comportamentos, sendo exemplo. Atitudes em bloco têm infinitamente mais força e expressão.

17.   IMAGINAÇÃO E DETERMINAÇÃO!!! (artigo completo sobre Biosegurança disponível na Revista “Produtores de Leite” nº 33)

#carlosnevesagricultor #vacas #dermatose #vacinas

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Queijos e mimosas

O meu dia começa sempre com um pequeno almoço onde não faltam produtos lácteos e os meus preferidos são os iogurtes, pela facilidade de digestão e outras vantagens para a saúde. Descobri há dias, precisamente no dia da última greve geral, ao participar no fantástico congresso da Centromarca, os novos "Mimosa Colagénio", que, não sendo exatamente iogurtes, parecem iogurtes e são uma mistura suave e equilibrada de leite fermentado (iogurte é uma categoria específica de leite fermentado), gelatina, colagénio (bom para a pele e cartilagens) e vitamina C. Têm baixo teor de calorias por não ter adição de açúcar, mas  por outro lado têm alto teor de proteína. Estão disponíveis nos sabores morango, maracujá e kiwi/aloe vera.
Não quero deixar de partilhar também uma imagem do "monumento" (talvez com mais algumas calorias, mas, paciência, quase tudo o que sabe bem, ou faz mal, ou é pecado😅) monumento esse que era uma mesa , certamente preparada pela Maria João DosQueijos, onde estavam alguns dos mais saborosos queijos de Portugal e à volta dos quais encontrei algumas das pessoas que muito estimo e de quem espero a valorização do leite e do trabalho dos produtores de leite de Portugal. Parabéns pelo congresso  ao Pedro Pimentel / Centromarca e parabéns à Lactogal pelos novos mimosa Colagénio. Experimentem!
#carlosnevesagricultor #agricultura #vacas #leite #iogurte #queijo #mimosacolagenio #mimosa

sábado, 13 de junho de 2026

Eng Sousa Veloso - uma justa homenagem


Para assinalar o centenário do nascimento do Eng. Sousa Veloso foi lançado um selo comemorativo na Feira Nacional de Agricultura - Feira do Ribatejo, com a presença do Presidente da República António José Seguro e da família do homenageado. Na imagem, à esquerda, está o filho do Eng. Sousa Veloso. Uma justa homenagem a alguém que foi, na minha opinião, o primeiro e o maior comunicador da agricultura em Portugal.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Telerruptores

São duros estes dias de rega do milho debaixo de calor intenso, em que tentamos regar "tudo em todo o lado ao mesmo tempo", mas era ainda mais difícil antes de inventarem os "telerruptores", isto é, interruptores por telemóvel, pequenas caixinhas que os eletricistas colocam ligados ao "disjuntor automático" (aqueles que têm bobine de chamada), e que através de um cartão de GSM, cartão de telemóvel, daqueles sem assinatura que podemos comprar nos quiosques a 2,5€, em cada chamada que fazemos para aquele número, ligam ou desligam o motor. Isto é uma grande ajuda quando o aspersor está a centenas de metros da captação de água ou quando queremos lugar ou desligar a rega a partir de casa ou de qualquer sítio. Dois avisos: 1)antes de colocar o cartão no "telerruptor" temos de o colocar num telemóvel para tirar o pin de segurança. 2)após 2 meses de uso, o cartão fica bloqueado porque a máquina, para não nos fazer gastar dinheiro, rejeita sempre as chamadas. Para evitar isso é preciso antes tirar fora o cartão, colocar num telemóvel e fazer uma chamada efetiva para esse número.
#carlosnevesagricultor #agricultura #milho #regas #gadjets

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Carta a um inconsciente

 

Soube bem a cerveja, pá? Espero que sim. Sabias que por trás de cada cerveja, antes da fábrica da cerveja, está o trabalho dos agricultores que produziram a cevada, o lúpulo e outros ingredientes que podem ser adicionados como milho, arroz, aveia ou centeio? Ok, não é preciso agradecer, mas podias ao menos não estragar? Aquela garrafa vazia que atiraste para o campo à beira da estrada (só hoje apanhei 4 garrafas de cerveja e uma de uísque num espaço de 100 metros) podia ter furado um pneu do trator, podia ter ferido a pata de um gato ou cão ou, pior, ser engolido junto com a erva e acabar no estômago de uma vaca e provocar graves ferimentos. Agora já sabes.
#carlosnevesagricultor #agricultura #lixo #cerveja

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Crónicas agrícolas - ler para ajudar

22 de maio. Foi há duas semanas. Consegui acabar o trabalho pelas 20h30, jantei rapidamente, tomei um banho ainda mais rápido e segui tão rápido quanto possível, dentro dos limites, até Ferreiró, nos confins de Vila do Conde, para assistir ao Concerto-oração que a Isabel Azevedo tinha anunciado nas redes sociais, de forma muito discreta, como foi todo o concerto, intimista, numa igreja cheia mas em respeitoso silêncio, porque sendo também oração nos pediram para aplaudir apenas no fim.
Cheguei em cima da hora e cruzei-me à porta com dois amigos agricultores e com um senhor conduzido em cadeira de rodas que percebi mais tarde ser a pessoa que precisava da nossa ajuda.
Se tivesse chegado mais cedo teria ficado nos últimos bancos, mas, porque ao fundo os lugares já estavam ocupados, fui obrigado a ir para o meio da “plateia”, e estando junto à a parede sem risco de tapar a vista de quem estava atrás, gravei o vídeo que já partilhei para contar a história de Joaquim Oliveira, alguém que num momento de azar, enquanto descansava na praia no verão do ano passado, foi atirado para o chão e para uma paralisia quase completa. Felizmente tratamentos e fisioterapia permitiram uma grande recuperação, mas infelizmente esses tratamentos deixaram de ser comparticipados e por isso agora familiares, amigos e vizinhos fazem o que podem para ajudar com as despesas.
Eu fui apenas para assistir, dar uma pequena ajuda e gravar alguns momentos para recordação, mas achei que podia ajudar um pouco mais, divulgando a história com a ajuda de quem  conhece a família ou acreditou em mim e se comoveu como eu. 
Agora, aqui estou de novo, para vos dizer que o resultado das vendas do meu livro de crónicas agrícolas em junho e julho vai ser destinado a ajudar os tratamentos de Joaquim Oliveira, que podem comprar o meu livro a partir de amanhã na Feira Nacional de Agricultura - Feira do Ribatejo em Santarém, tanto no Stand da Carla Araújo Agro-Manual, logo no claustro da entrada como na livraria "Ao pé das letras”, que costuma estar ao pé das cerejas, ou então podem encomendar por mail mandando-me mensagem e podem ainda comprar numa caminhada solidária que vai acontecer em Ferreiró no próximo mês de julho! Histórias da minha vida e da minha agricultura, que não pretendem ensinar mas partilhar a realidade do campo com os leitores. Uma sugestão para as vossas leituras destas férias ou para oferecer a familiares e amigos. Partilhem! Juntos podemos ajudar!

1.jpg

2.jpg

3.jpg

quinta-feira, 28 de maio de 2026

A cruz, as primas e as regas

20260528_201625.jpg


Quando escrevi o texto “O que fazem os agricultores quando já está tudo feito”, partilhei a frase de um colega canadiano: «Fazer agricultura é dizer “depois desta semana as coisas vão abrandar um pouco...” e repetir isto sucessivamente ao longo de toda a vida».
Lembro-me sempre disso nesta altura porque a erva foi colhida, a terra lavrada, o milho semeado, a sacha vai a meio… e o pior começa agora: A rega, a “cruz” que vamos carregar até quase ao fim do verão com pausas por alguma chuva que será cada vez menos provável e mais rara, depois de dois meses e meio de pouca precipitação que deixaram o solo seco. A chuva abundante que caiu no inverno e não correu para o mar está lá em baixo, no subsolo. Como dizia o meu pai, “a água está no poço a fazer mal ao milho”.
Preparar, levar e ligar motores nos poços e captações de água, estender mangueiras, preparar as “máquinas de rega”, estender fita gota-a-gota, reparar o que se estragou por estar parado no inverno mais o que se vai estragar com o uso, afinar os “aspersores”, mudar as regas de sítio e de campo… e antes de tudo isso garantir que temos eletricidade, onde ela existe, porque nos outros sítios a regar com tratores ou motores a gasóleo ainda é pior.
O inverno foi duro em chuva e vento. Mesmo aqui fora da zona do grande temporal, houve temporais que derrubaram arvores e abalaram fios elétricos. Mandei ligar os contadores mais cedo para prevenir alguma avaria. Como faltavam fases num dos poços, mandei um mail à empresa de comercialização a pedir que comunicasse a avaria. Responderam que tinham encaminhado, mas da próxima vez que eu ligasse para o numero das avarias. Dias mais tarde, fui ao campo fazer um trabalho e vi que estava tudo na mesma. Parei o trator e liguei às primas: “prima 1, prima 2, prima 3, vá para junto do local, desligue o aparelho”, respondi á gravação que nem conseguia ligar quanto mais desligar… a máquina desligou-me a chamada na cara. Acabei o trabalho, fui lanchar e no final vim para a frente do computador para comunicar a avaria no site da E-redes. Já tinha feito o registo de outras vezes, mas não aceitava a password que eu tinha apontado. Insisti mas lá tive de criar outra, quer dizer, meti a mesma que o programa tinha esquecido e ele aceitou o registo da password, fiz “login”, demorei depois 2 minutos a registar a avaria e entretanto estava no fim da tarde. Ninguém apareceu nas horas seguintes e esqueci o assunto. Eram quase 10 da noite, o telemóvel estava quase sem bateria quando me ligaram de um nº 21… Pensei que o pessoal dos contratos da Meo e da Nos, que costuma ligar desses números, estava a ligar cada vez mais tarde. Atendi, afinal eram dois eletricistas do piquete das avarias que estavam já próximo do local. Expliquei que não valia a pena ir àquela hora, a avaria era na barraca de um poço, estava sem luz, o fio passa numa bouça, mas eles insistiram porque tinham de responder ao pedido antes de 4 horas senão pagavam multa… e lá fui com eles para o meio da bouça, o cabo estava traçado, ficou previsto virem substituir no dia seguinte (e vieram) e depois o homem gastou mais tempo a registar a ocorrência no telemóvel do que tinha gasto na avaria. Bem, entretanto já consegui ligar alguns motores, mas ao fim do dia, um motor não ligou e um dos contadores “inteligentes” que supostamente envia as leituras automaticamente, estava com a mensagem “anomalia- contacte o fornecedor de rede”, portanto lá vou eu ter de mandar um mail às primas, mas acho que vou deixar para de manhã, porque se adiantar serviço agora à noite vem o piquete de madrugada…
#carlosnevesagricultor #agricultura #milho

terça-feira, 26 de maio de 2026

Cimeira do Leite

20260526_102135.jpg


Participei esta manhã, em representação da APROLEP, na “Cimeira do Leite”, um colóquio que terminou com um almoço de “Networking” para convidados e dirigentes cooperativos, organizado pela Lactogal para encerrar a celebração dos 30 anos de existência.
Confesso que tenho uma relação agridoce com a Lactogal, a empresa de base cooperativa que há 30 anos transforma, comercializa e valoriza mais de 60% do leite português. Para contestar aspetos negativos da sua gestão e descidas do preço do leite, ao longo destes mesmos 30 anos, em representação dos produtores, escrevi comunicados, dei entrevistas, organizei manifestações à porta da fábrica e da sede, escrevi artigos de opinião muito duros, paguei um preço por isso e mesmo assim fui também criticado por ser demasiado brando, suave, por não atacar o suficiente e até acusado de proteger demais a empresa e de estar comprado ou calado à espera de um lugar “no poleiro”. Nada de novo. Afonso de Albuquerque, o português que controlou o Estreito de Ormuz em 1500, já então se queixava : “Mal com el-rei por amor dos homens, mal com os homens por amor de el-rei."
Mas, como escrevi acima, a Lactogal valoriza o leite português, é líder de mercado, pertence às cooperativas que pertencem aos produtores e quanto melhor for gerida, quanto mais protegida for, quanto mais união congregar entre produtores, técnicos e dirigentes das várias cooperativas associadas, quanto mais sucesso comercial tiver, melhor para todos, mesmo para aqueles cujo leite produzido tem outro destino. A prova é que neste momento, finalmente, as cooperativas associadas na Lactogal estão a pagar aos produtores um preço acima da média europeia e os restantes compradores, sobretudo os que têm capacidade industrial e maior dimensão, até agora, conseguiram também manter o preços, isto é, descer menos do que no resto da Europa.
Por tudo isto, hoje só quero “manifestar” que foi um dia muito positivo: pelo aniversário, pelos oradores presentes nos debates que nos falaram de bem-estar animal, de ambiente, do valor do leite e dos produtos lácteos enquanto alimentos ricos em cálcio, iodo, proteínas, vitamina B12, pelas perspectivas de futuro do leite enquanto proteína de alto valor biológico, um alimento rico, natural e completo. Aprendi uma coisa nova: o “Dairy Matrix”, ou “matriz láctea” é um conceito das ciências da nutrição que significa que os benefícios para a saúde de consumir laticínios são superiores à soma dos seus componentes isolados, o que não é de admirar num alimento produzido pela natureza e consumido pelos humanos há 9000 anos. Ah, e encontrei velhos amigos que nos ajudam a valorizar o leite e o trabalho dos agricultores.
#carlosnevesagricultor #agricultura
#leite #queijo #iogurte #Lactogal

domingo, 10 de maio de 2026

Porque não controlamos o preço dos produtos agrícolas?

rolos.jpg


Esta pergunta, em jeito de desafio e desabafo, foi colocada por um jovem agricultor numa assembleia realizada no final de março, numa altura em que o preço do gasóleo e dos outros fatores de produção disparava por causa da guerra e em sentido inverso pairava sobre nós a ameaça de nova descida do preço do leite a todos os produtores.


A pergunta não foi colocada a mim, mas fiquei a pensar nela porque é uma coisa que nos toca a todos, tanto o problema dos preços baixos como a responsabilidade de fazer alguma coisa para melhorar a situação. Agora, com as sementeiras terminadas, tenho finalmente tempo para dar os meus 5 tostões de contributo para essa discussão.


Trabalhando e escrevendo em Vila do Conde, vou responder à moda de José Régio. “Não sei por onde vou, não sei para onde vou, sei que não vou por aí”. Não vou pela resposta fácil de procurar culpados ou esperar por um D. Sebastião que numa manhã de nevoeiro vai voltar para resolver tudo, até porque aqui o nevoeiro quase nunca tem hipótese face ao vento fresco da nortada.


Antes de mais, este problema não é só daqui e não é de agora. “O agricultor é o único homem da nossa economia que compra tudo a retalho, vende tudo por grosso e ainda paga o frete nos dois sentidos.” Quem disse isto foi Jonh F. Kennedy, num discurso aos agricultores antes de se tornar presidente dos EUA na década de 60 do século passado. O mundo, a economia e a agricultura evoluíram imenso, mas o problema persiste. Há poucos meses vi um documentário sobre as dificuldades económicas dos agricultores americanos face a fornecedores e compradores que estão agrupados em grupos económicos cada vez maiores.


Perante as dificuldades económicas dos agricultores, no início do século XX surgiram os “sindicatos agrícolas”, os grémios da lavoura e mais tarde as cooperativas. Mas os agricultores são empresários agrícolas, por isso os “sindicatos” evoluíram para “associações”. Por exemplo, em números redondos, uma pessoa que de repente queira instalar-se como um pequeno produtor de leite com 50 vacas e outras tantas novilhas, numa dimensão abaixo da média atual da minha região, mesmo que já tenha terra disponível, precisa de investir um milhão de euros em instalações, equipamentos básicos e animais. Um empresário que gere um investimento destes precisa de um “sindicato”? Por outro lado, mesmo alguém que tenha 1000 vacas em produção, apesar de ser um empresário com mais poder negocial e economia de escala, não consegue controlar o preço a que vende o leite e, direta ou indiretamente, continua a precisar de associações e cooperativas.


Assim como há quem diga que “a galinha da vizinha é mais gorda do que a minha” ou que “a erva do outro lado da cerca é sempre mais verde”, também há quem ache que as associações dos outros setores ou dos outros países são sempre melhores do que as nossas, mas as associações somos nós, aqueles que participamos nelas e são dirigidas por aqueles que elegemos e os que ficam de fora abstém-se. Viajando pelas redes sociais, já vi portugueses a pedir “sindicatos” como em Espanha, espanhóis a criticar os seus sindicatos e franceses admirados de fora pelas suas ações musculadas mas envolvidos em enormes divisões e discussões internas. Voltarei a este assunto num próximo artigo.


Há quem diga que a culpa é das cooperativas, mas as cooperativas foram criadas há dezenas de anos porque já havia estes problemas com a compra e venda de produtos agrícolas e efetivamente não podem comprar aos seus associados mais caro do que conseguem vender. Há até estudos a nível europeu que mostram que em média as cooperativas pagam um pouco menos do que os compradores privados, porque os privados compram só o que precisam para o mercado que têm, em geral com produtos de maior valor acrescentado, enquanto as cooperativas têm muitas vezes a obrigação de comprar toda a produção dos associados e por isso são pressionadas a “escoar” a produção a qualquer preço. Apesar disso, há uma enorme distância entre cooperativas que funcionam e pagam bem e outras que já faliram e ficaram pelo caminho. A diferença talvez esteja na “massa crítica” dos cooperadores e na capacidade dos dirigentes e gestores por eles escolhidos. Por outro lado, porque  “novas soluções trazem novos problemas”, há uma tendência global para fusões e aquisições entre cooperativas e o exercício do poder fica cada vez mais longe do agricultor que está na base.


Em desespero, há quem peça aos governos para fixar os preços dos produtos agrícolas em tabela, mas ao longo da história os países que seguiram este caminho de ditaduras e economia planificada deixaram os povos na fome e pobreza.


No extremo oposto, há quem diga que não podemos fazer nada porque “isto é o mercado a funcionar”, mas, tal como na estrada só conseguimos ser livres e ir a qualquer lado sem correr o risco de ser imediatamente atropelados, também o mercado livre precisa de regras que protejam os mais pequenos e os mais fracos como é o caso dos agricultores. Por exemplo, foi a luta de produtores em associações e cooperativas que conseguiu a rotulagem da origem do leite e outras regras de mercado face aos compradores que são cada vez maiores e com maior capacidade de impor a sua vontade. E pronto, agora que este texto já ficou maior do que eu queria, qual é a vossa opinião? O que acrescentavam nesta discussão?

sábado, 14 de março de 2026

O justo preço do leite

Screenshot_20260314_193018_Chrome.jpg


No capítulo 41 do primeiro livro da Bíblia, o Génesis, ficamos a conhecer a história do Faraó do Egipto que sonhou com 7 vacas gordas que pastavam junto ao Nilo e eram devoradas por 7 vacas magras. José, filho de Jacó, explicou ao Faraó que o sonho era um aviso para aproveitar os anos de fartura na colheita de modo a armazenar reservas para enfrentar os anos de más colheitas que se iriam suceder. O Faraó seguiu os conselhos de José e o povo do Egipto sobreviveu à fome que afetou outros povos da região. Esta história mostra não só como a criação de vacas e o consumo de leite já existiam há 4000 anos (mais tarde o povo hebreu abandonou o Egipto a caminho da terra prometida onde também havia “leite e mel”) mas também como ao longo do tempo acontecem anos bons e anos maus em termos de preço e produção na agricultura.
Os produtores de leite portugueses viveram um período de “vacas médias” ao longo dos últimos anos face às crises anteriores. Não foram “vacas gordas” porque estivemos nos últimos lugares entre os países da Europa no preço ao produtor. Agora que os preços internacionais dos lácteos entraram em modo “vacas magras”, esperava-se que pelo menos a indústria portuguesa, em particular a indústria de base cooperativa, se afirmasse no mercado mantendo o preço estabilizado tal como esteve estabilizado quando os outros subiram. Lamentavelmente, isso não aconteceu e todos os compradores desceram o preço. É um mau sinal, que deixa os produtores na linha de água da rentabilidade. Uma decisão que retira esperança no futuro, que desanima e revolta os jovens que pensam instalar-se no setor e que obriga os produtores de leite a ponderar deixar a atividade e procurar alternativas como a eventual reconversão para a produção de carne.
Se o governo, a indústria e a distribuição querem assegurar o futuro da produção de leite em Portugal, devem suster esta descida e trabalhar para aumentar o preço para um nível que consideremos um “preço justo”, capaz de pagar os custos de produção, o trabalho dos produtores e manter viva a nossa agricultura. Um preço que nos permita criar reservas para os anos e momentos difíceis como a tempestade Kristin que atingiu vários colegas nossos na região centro. Agora, nós, os que sobrevivemos e resistimos na produção de leite em 2026, temos de ser solidários, resistir e reconstruir.
P. S. - já depois de ter escrito este texto para editorial da nova edição da revista Produtores de Leite, a guerra voltou ao médio oriente e à "terra prometida". Por causa da guerra, estão a subir os custos de produção: gasóleo, rações, fertilizantes. Agora é ainda mais necessário atualizar o preço do leite ao produtor.


 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

O milho colhe-se quando se pode

FB_IMG_1771797598381.jpg


Não sei em que ano foi, mas fiquei suficientemente traumatizado para me lembrar como se fosse hoje. Na década de 80, um outono com muita chuva impediu a colheita do milho com o trator nos terrenos mais encharcados e obrigou-nos a andar dias a cortar o milho à mão com a foucinha e arrastá-lo às postas por cima da terra enlameada até à máquina de ensilar colocada num ponto mais alto.


Alguns anos mais tarde, o vento tombou milheirais e as máquinas não conseguiam apanhar esse milho caído.
No ano 2000, no primeiro ano em que colhi o milho silagem com uma ensiladora automotriz, uma cheia na véspera obrigou-me a deixar uma parte para mais tarde desfolhar, à mão e de galochas.
Por causa de tudo isto que passei desde tenra idade, fui antecipando a sementeira e a colheita do milho, conforme permitem os terrenos e o clima.
O facto de cultivar mais de 20 parcelas dispersas num raio de vários kms tem muitos custos mas também tem a vantagem de cultivar solos diferentes, uns mais secos outros mais frescos. Nos terrenos mais secos consigo semear no início de abril, nos outros só um mês mais tarde e, às vezes, em alguns pontos só em junho, colocando aí variedade de milho muito curto. Na maior parte dos terrenos faço milho silagem e escolho alguns terrenos mais secos para milho grão, que tem de ficar mais tempo no terreno a secar. Noutras zonas do país, por causa da temperatura e humidade, só conseguem semear e colher mais tarde.
Andar o mais cedo possível é uma opção minha, que me permite quase sempre colher antes do vento e da chuva, mas também tem custos. Tenho de colher a erva mais cedo e com menos produção. Se vier muita chuva depois da sementeira pode arrastar a terra e encharcar os terrenos mais frescos.
Idealmente o milho silagem tem de ser colhido com uma humidade de 65% em toda a planta e o milho grão só pode ter 14% de humidade no grão para ser armazenado ou utilizado nas rações. Costuma-se colher com mais humidade, idealmente pelos 20%,mas depois tem que ir ao secador, e fica mais caro quanto mais humidade tiver.
Para evitar a despesa com o secador, há regiões no centro da Espanha ou aqui em Chaves e na zona centro / sul de Portugal onde o milho só é colhido só no final do ano ou nos primeiros meses do ano seguinte. São regiões onde chove menos do que aqui no Minho e onde só fazem uma cultura anual, o milho. Se tiver boa sanidade no caule para não cair e a espiga estiver virada para baixo, o grão de milho está protegido e bem conservado… Se não chover torrencialmente e ao longo de meses como aconteceu este ano. Por isso é que ainda há milho sem colher. Começou a chover em Novembro e ainda não houve uma temporada para enxugar a terra.
Produzir um hectare de milho custa cerca de 2000€. É preciso ter uma boa produção para pagar as despesas. Há um pequeno subsídio de 200€ por hectare… mas que só é pago a quem produzir e entregar milho numa organização de produtores.
Vi muitos comentários sobre estas notícias de quem pensa que as pessoas deixaram ficar o milho no campo para receber subsídios. Não façam essas acusações, não faz sentido, é como acusar outras pessoas de ter os telhados mal seguros…
Muita força para quem foi afetado e que venha bom tempo para colher o que se puder aproveitar e reparar o que se estragou nos campos e nas casas.
#carlosnevesagricultor #agricultura #milho #kristin

domingo, 11 de janeiro de 2026

Mercosul: difícil acordar, difícil discutir

Screenshot_20260111_162947_Google.jpg


A União Europeia aprovou esta semana o acordo comercial com o Mercosul, que basicamente consiste em baixar as tarifas aduaneiras de uma lista de produtos com os 4 países do Mercosul: Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, que reúnem 270 milhões de pessoas. O acordo foi negociado ao longo de 25 anos e apesar de concluído em 2019 esteve “parado” desde então até que a guerra de Tarifas com Trump e também com a China parece ter tornado urgente concluir este acordo para procurar mercados alternativos para as nossas exportações.
Sempre vi esse acordo com apreensão. Em resumo, dizia-se que a Europa iria facilitar a entrada de produtos agrícolas para poder vender carros, e sempre houve muitas reservas por parte da agricultura europeia. Por causa disso, foram negociados limites de quantidades em vários produtos sensíveis nos dois mercados. Por exemplo, o Mercosul só pode exportar 99.000 toneladas de carne a taxa reduzida e a Europa só pode exportar 30.000 toneladas de queijo a taxa reduzida. Nas últimas semanas, foram ajustadas “cláusulas de salvaguarda” que, por exemplo, suspendem o acordo na importação de carne se o preço baixar mais do que 5%. Também está previsto o controlo da qualidade por causa das diferenças de fitofármacos ou medicamentos autorizados, mas ainda não percebi como isso vai ser efetuado.
No caso da importação de milho ou soja para as nossas rações e óleos alimentares atualmente já não há tarifas e portanto não será de esperar mudanças.
O acordo é muito mais complexo do que posso explicar neste texto ou num dos muitos vídeos de 2 minutos feitos por especialistas em “Mercosul” que se tornam virais nas redes sociais. Redes sociais cujos algoritmos são controlados pela China ou Estados Unidos, os blocos económicos que são concorrentes da Europa e que tem todo o interesse em travar o acordo Mercosul, acabar com a União Europeia e dividi-la em pequenos países mais fáceis de dominar, por isso a minha opinião não se baseia apenas no que vejo na Internet mas sobretudo nas perguntas que vou fazendo a quem está no mercado e faz estudos. O acordo tem cerca de 180 páginas e uma série de anexos que quase ninguém leu.
Eu tenho muitas dúvidas e acho que tão cedo não vamos poder tirar conclusões, porque a implementação do acordo será gradual. As tarifas vão baixar ao longo de 10 a 15 anos, conforme os produtos. Quer dizer que na próxima semana, no próximo mês ou no próximo ano as coisas vão mudar muito pouco por causa do Mercosul e muito mais por causa de outras acontecimentos, guerras, inteligência artificial, doenças emergentes… que se sucedem a um ritmo cada vez mais vertiginoso e que daqui a dias ou semanas provavelmente quase toda a gente já esqueceu porque entretanto já passamos para a próxima indignação.
Também não posso esquecer que, se a indústria automóvel europeia falir, os trabalhadores não vão ter dinheiro para ir ao talho comprar bifes ou legumes ao mercado. Por outro lado, se a agricultura acabar, fica o território abandonado à mercê dos incêndios e fica a restante população sem segurança alimentar e dependente das importações. Por isso é preciso um equilíbrio que proteja ambos os setores.
No caso da agricultura portuguesa, quem estudou o assunto diz que o acordo poderá ser vantajoso para setores como vinho, o azeite e o queijo, pela possibilidade de exportação para o Brasil, pela nossa vantagem pela proximidade da relação com o Brasil, por falarmos a mesma língua, e poderá ser negativo por causa da importação de carne de bovino e aves.
Acho que devemos estudar melhor o que está no acordo, tentar perceber como pode afetar cada setor agrícola em concreto, como nos devemos preparar, como nos podemos adaptar e o que devemos lutar para mudar, por exemplo, desligar o complicómetro de regras com que a União Europeia nos atrofiou ao longo dos últimos anos.
Acho que não devemos entrar em desespero, não sofrer por antecipação, não desistir da agricultura, não deixar de trabalhar, mas manter uma atitude de prudência tanto em relação ao acordo como a quem quer aproveitar este acordo como a gota de água para provocar uma revolução. E não desatar a insultar quem pensa diferente de nós.