domingo, 12 de julho de 2026
Cenas da vida de um lavrador (III) - O mistério da saca das cuecas vermelhas
quarta-feira, 8 de julho de 2026
Aqui o calor já passou, mas tenham cuidado
domingo, 5 de julho de 2026
Cenas da vida de um lavrador (II) - No campo e no futebol
O futebol é uma cena a que pouco assisto. Tornei-me adepto do Benfica por influência do meu pai, mas, tal como ele, nunca fui muito praticante dessa “religião”. Nunca fui à “catedral” da Luz, mas fomos os dois assistir a um jogo Benfica - Rio Ave, os nossos clubes, no antigo Estádio da Avenida, em Vila do Conde. Pelo contrário, fui duas vezes ao Estádio do Dragão, mas nunca para ver o “papa”, porque o nosso sempre esteve em Roma. A primeira vez terá sido há 15 anos, ao festival Panda e a segunda vez foi para ver a seleção, na Liga das Nações, derrotar a Suíça, tornando realidade a previsão que me fez ganhar dois bilhetes e duas camisolas num concurso da GALP, com a frase: “vamos comê-los como um queijo suíço!” E, se não estou em erro, foi um hat-trick de Ronaldo. Já posso dizer que o vi jogar ao vivo.
domingo, 28 de junho de 2026
Cenas da vida de um lavrador (I) - A mulher misteriosa
Ao fim tarde, mais uma vez, fui para o campo à hora de vir. O campo fica a 400 metros da foz do Rio Ave, nas traseiras do convento abandonado de Nossa Senhora dos Anjos, convento franciscano mais conhecido pela Igreja de S. Donato. Para chegar ao campo atravessei outro campo que fica no fim de uma rua sem saída. O objetivo era juntar a erva que já estava cortada e seca ao sol ou, como nós dizemos, “encordoar”, colocar em “cordões” para fazer rolos e plastificar no dia seguinte. Cheguei ao campo e desci do trator para “armar a tenda”, que no caso consistia em montar as várias hastes do “encordoador” na posição horizontal, posição de trabalho, ficando com 4 metros e trinta de largura. Na hora de voltar a subir para o trator e começar a juntar a erva, vi uma mulher, relativamente jovem, a caminhar ao meu encontro, já depois de ter atravessado o primeiro campo. Trazia na mão uma latinha de creme nívea e dois ou três pedaços de creme colocados no rosto, talvez em borbulhas ou queimaduras.
sexta-feira, 26 de junho de 2026
Os Pedros, os lobos e os calores
quinta-feira, 18 de junho de 2026
História de um gato preto
Tive um tio (por afinidade) que era médico de família, como o Dr. João Semana, do livro “As pupilas do Sr. Reitor”, de Júlio Dinis, e também dentista, com um consultório no Porto e outro na freguesia natal. Na sala de espera, tinha um quadro / aviso: “Ao médico, ao advogado e ao padre, dizei só a verdade”. No consultório, tinha uma cadeira antiga de dentista, onde passei longas horas a sofrer e também, em jeito de anestesia, a ouvir muitas histórias da sua vida.
Dermatose e outras doenças emergentes – como proteger os nossos animais?
“Houve um tempo, até há cerca de 35 anos, em que a vacina da febre aftosa era obrigatória para os bovinos. Nessa altura o meu pai fazia engorda dos novilhos e um nosso vizinho, o senhor António, tinha um talho e comprava-nos alguns desses animais. Um dia combinámos vender-lhe um touro, ele veio vê-lo, eu entreguei-lhe o "boletim de sanidade” do animal e a folha comprovativa da vacina. Recordo bem que era uma folha A5, letra azul e papel fino. O Sr. António quis ver novamente a traseira do novilho, para se certificar que estava bem gordo. O animal estava preso à manjedoura num anexo com 3 animais. O Sr. António pousou os papéis na manjedoura, que ficava a 50 cm do chão, à moda antiga, e lá fomos todos avaliar a gordura do touro. Quando voltámos à frente a folha da vacina já estava na boca do animal. Basicamente, comeu a sentença de morte e durou mais uma semana, enquanto esperámos pela segunda via pedida na “Zona Agrária”…
Lembrei-me desta história, presente no meu livro
de crónicas agrícolas, inserida num texto sobre vacinas, ao ouvir num destes
dias recentes, uma notícia sobre o regresso da Febre aftosa à Europa, com focos
na Grécia e em Chipre. A doença está de volta após décadas de erradicação que
tornaram a vacina desnecessária.
Nos últimos meses a Direção Geral de Veterinária
e as organizações de agricultores tem chamado a atenção para várias doenças
“emergentes”, doenças que estão a “emergir”, a surgir pela primeira vez na
Europa, por causas diversas, nomeadamente a maior movimentação de pessoas e
mercadorias e também as alterações climáticas, com o aumento de temperatura que
tem feito aparecer insetos que até agora apenas andavam por regiões tropicais.
A Dermatose Nodular Contagiosa é uma doença que
afeta os bovinos e foi identificada pela primeira vez em África, na Zâmbia,
então Rodésia, em 1929. A doença não é transmissível aos humanos, mas provoca febre
alta, nódulos cutâneos característicos, inchaço dos gânglios, queda severa na
produção de leite, emagrecimento, abortos e infertilidade. A doença é
transmitida principalmente por insetos. Em África a doença é comum mas não
existia na Europa. Apareceu em 2016 na Grécia, vinda da Turquia, mas foi
controlada e erradicada. Voltou a surgir na ilha da Sardenha em 2025, na França
e na Espanha (Catalunha). Como o objetivo é manter a Europa livre de doença, só
é permitida a vacinação nas regiões afetadas pela doença e sempre que surge um
caso num estábulo, todos os animais desse estábulo são abatidos e os animais 20
km à volta são obrigatoriamente vacinados.
O que podemos fazer para nos protegermos destas e de outras
doenças “emergentes” antes que se tornem uma “emergência”?
Para começar, nós os crentes podemos rezar para que a doença
não chegue a Portugal. Mas, lembrando o aviso “fia-te na Virgem e não corras…”,
neste caso correr significa prevenir.
Apresento de seguida alguns conselhos de “Biosegurança” que
escolhi entre os sugeridos pela Dra. Andreia Santos, Médica Veterinária
responsável pela sanidade animal na Cooperativa Agrícola de Vila do Conde:
1. Arrumar
· Antes de pensarmos em lavar ou desinfetar, há que
pensar em manter os espaços arrumados.
2. Limpar
·
Retirar os excessos de materiais inertes ou não
inertes. Facilitamos as ações como lavagem ou desinfeção.
3. Lavar
· O uso de detergentes específicos ajuda a retirar
carga de matéria orgânica, gorduras, biofilmes e potenciam a desinfeção.
4. Desinfetar
·
A desinfeção é a última escala da defesa por
aplicação de biocidas.
5. Estabular e
Desinsetizar
·
Estabular os animais e aplicar insecticidas
adequados.
6.
Limpar o excesso de vegetação em volta da
exploração (20metros)
· A vegetação é considerada uma barreira de
biossegurança, mas deve estar afastada da exploração alguns metros, por poder
ser abrigo de insetos e pássaros, visitas pouco desejadas nas manjedouras.
7.
Eliminar locais de águas paradas, como
lagos, pocinhas, pneus dos silos (locais de eclosão de insetos)
· Os bebedouros também podem ser locais de
germinação de larvas de insetos se não forem higienizados de forma sistemática.
· Atenção aos pneus usados para manter a cobertura
dos silos: a água que se mantém no interior aquece e mantem temperatura mais
elevadas facilmente, incluindo no Inverno, fazendo deles excelentes locais de
multiplicação e manutenção das populações de insetos.
8.
Aplicar redes mosquiteiras nas grandes
áreas abertas, como topos e laterais das explorações
9.
Manter ventilação ligada 24h por dia
·
Insetos tão pequenos como o culicóide (2 a 4mm)
têm dificuldade em lutar contra correntes de ar e, por essa razão, a ventilação
ligada permanentemente reduz o risco de ataque.
10.
Lavar e desinfetar qualquer veículo
ou instrumento que tenha sido emprestado ou usado para ajudar outros
agricultores.
11.
Dispor de umas quantas batas na exploração
para os visitantes técnicos utilizarem por cima do equipamento que trazem.
12.
Dispor em locais estratégicos de lava botas
com desinfetante.
13.
Criar um espaço de verdadeira quarentena
· Animais que são comprados deviam cumprir um
período de quarentena, pelo menos até serem conhecidas os resultados de
análises.
14.
Desenvolver o hábito de ter agenda para
receber visitas na exploração.
15.
Ter um espaço para receber as viaturas
estranhas à exploração.
16.
Ser agente de mudança.
·
Exigir aos técnicos e pares mudanças de
comportamentos, sendo exemplo. Atitudes em bloco têm infinitamente mais força e
expressão.
17.
IMAGINAÇÃO E DETERMINAÇÃO!!! (artigo
completo sobre Biosegurança disponível na Revista “Produtores de Leite” nº 33)
segunda-feira, 15 de junho de 2026
Queijos e mimosas
sábado, 13 de junho de 2026
Eng Sousa Veloso - uma justa homenagem
Para assinalar o centenário do nascimento do Eng. Sousa Veloso foi lançado um selo comemorativo na Feira Nacional de Agricultura - Feira do Ribatejo, com a presença do Presidente da República António José Seguro e da família do homenageado. Na imagem, à esquerda, está o filho do Eng. Sousa Veloso. Uma justa homenagem a alguém que foi, na minha opinião, o primeiro e o maior comunicador da agricultura em Portugal.
quinta-feira, 11 de junho de 2026
Telerruptores
quarta-feira, 10 de junho de 2026
Carta a um inconsciente
sexta-feira, 5 de junho de 2026
Crónicas agrícolas - ler para ajudar



quinta-feira, 28 de maio de 2026
A cruz, as primas e as regas

Quando escrevi o texto “O que fazem os agricultores quando já está tudo feito”, partilhei a frase de um colega canadiano: «Fazer agricultura é dizer “depois desta semana as coisas vão abrandar um pouco...” e repetir isto sucessivamente ao longo de toda a vida».
Lembro-me sempre disso nesta altura porque a erva foi colhida, a terra lavrada, o milho semeado, a sacha vai a meio… e o pior começa agora: A rega, a “cruz” que vamos carregar até quase ao fim do verão com pausas por alguma chuva que será cada vez menos provável e mais rara, depois de dois meses e meio de pouca precipitação que deixaram o solo seco. A chuva abundante que caiu no inverno e não correu para o mar está lá em baixo, no subsolo. Como dizia o meu pai, “a água está no poço a fazer mal ao milho”.
Preparar, levar e ligar motores nos poços e captações de água, estender mangueiras, preparar as “máquinas de rega”, estender fita gota-a-gota, reparar o que se estragou por estar parado no inverno mais o que se vai estragar com o uso, afinar os “aspersores”, mudar as regas de sítio e de campo… e antes de tudo isso garantir que temos eletricidade, onde ela existe, porque nos outros sítios a regar com tratores ou motores a gasóleo ainda é pior.
O inverno foi duro em chuva e vento. Mesmo aqui fora da zona do grande temporal, houve temporais que derrubaram arvores e abalaram fios elétricos. Mandei ligar os contadores mais cedo para prevenir alguma avaria. Como faltavam fases num dos poços, mandei um mail à empresa de comercialização a pedir que comunicasse a avaria. Responderam que tinham encaminhado, mas da próxima vez que eu ligasse para o numero das avarias. Dias mais tarde, fui ao campo fazer um trabalho e vi que estava tudo na mesma. Parei o trator e liguei às primas: “prima 1, prima 2, prima 3, vá para junto do local, desligue o aparelho”, respondi á gravação que nem conseguia ligar quanto mais desligar… a máquina desligou-me a chamada na cara. Acabei o trabalho, fui lanchar e no final vim para a frente do computador para comunicar a avaria no site da E-redes. Já tinha feito o registo de outras vezes, mas não aceitava a password que eu tinha apontado. Insisti mas lá tive de criar outra, quer dizer, meti a mesma que o programa tinha esquecido e ele aceitou o registo da password, fiz “login”, demorei depois 2 minutos a registar a avaria e entretanto estava no fim da tarde. Ninguém apareceu nas horas seguintes e esqueci o assunto. Eram quase 10 da noite, o telemóvel estava quase sem bateria quando me ligaram de um nº 21… Pensei que o pessoal dos contratos da Meo e da Nos, que costuma ligar desses números, estava a ligar cada vez mais tarde. Atendi, afinal eram dois eletricistas do piquete das avarias que estavam já próximo do local. Expliquei que não valia a pena ir àquela hora, a avaria era na barraca de um poço, estava sem luz, o fio passa numa bouça, mas eles insistiram porque tinham de responder ao pedido antes de 4 horas senão pagavam multa… e lá fui com eles para o meio da bouça, o cabo estava traçado, ficou previsto virem substituir no dia seguinte (e vieram) e depois o homem gastou mais tempo a registar a ocorrência no telemóvel do que tinha gasto na avaria. Bem, entretanto já consegui ligar alguns motores, mas ao fim do dia, um motor não ligou e um dos contadores “inteligentes” que supostamente envia as leituras automaticamente, estava com a mensagem “anomalia- contacte o fornecedor de rede”, portanto lá vou eu ter de mandar um mail às primas, mas acho que vou deixar para de manhã, porque se adiantar serviço agora à noite vem o piquete de madrugada…
#carlosnevesagricultor #agricultura #milho
terça-feira, 26 de maio de 2026
Cimeira do Leite

Participei esta manhã, em representação da APROLEP, na “Cimeira do Leite”, um colóquio que terminou com um almoço de “Networking” para convidados e dirigentes cooperativos, organizado pela Lactogal para encerrar a celebração dos 30 anos de existência.
Confesso que tenho uma relação agridoce com a Lactogal, a empresa de base cooperativa que há 30 anos transforma, comercializa e valoriza mais de 60% do leite português. Para contestar aspetos negativos da sua gestão e descidas do preço do leite, ao longo destes mesmos 30 anos, em representação dos produtores, escrevi comunicados, dei entrevistas, organizei manifestações à porta da fábrica e da sede, escrevi artigos de opinião muito duros, paguei um preço por isso e mesmo assim fui também criticado por ser demasiado brando, suave, por não atacar o suficiente e até acusado de proteger demais a empresa e de estar comprado ou calado à espera de um lugar “no poleiro”. Nada de novo. Afonso de Albuquerque, o português que controlou o Estreito de Ormuz em 1500, já então se queixava : “Mal com el-rei por amor dos homens, mal com os homens por amor de el-rei."
Mas, como escrevi acima, a Lactogal valoriza o leite português, é líder de mercado, pertence às cooperativas que pertencem aos produtores e quanto melhor for gerida, quanto mais protegida for, quanto mais união congregar entre produtores, técnicos e dirigentes das várias cooperativas associadas, quanto mais sucesso comercial tiver, melhor para todos, mesmo para aqueles cujo leite produzido tem outro destino. A prova é que neste momento, finalmente, as cooperativas associadas na Lactogal estão a pagar aos produtores um preço acima da média europeia e os restantes compradores, sobretudo os que têm capacidade industrial e maior dimensão, até agora, conseguiram também manter o preços, isto é, descer menos do que no resto da Europa.
Por tudo isto, hoje só quero “manifestar” que foi um dia muito positivo: pelo aniversário, pelos oradores presentes nos debates que nos falaram de bem-estar animal, de ambiente, do valor do leite e dos produtos lácteos enquanto alimentos ricos em cálcio, iodo, proteínas, vitamina B12, pelas perspectivas de futuro do leite enquanto proteína de alto valor biológico, um alimento rico, natural e completo. Aprendi uma coisa nova: o “Dairy Matrix”, ou “matriz láctea” é um conceito das ciências da nutrição que significa que os benefícios para a saúde de consumir laticínios são superiores à soma dos seus componentes isolados, o que não é de admirar num alimento produzido pela natureza e consumido pelos humanos há 9000 anos. Ah, e encontrei velhos amigos que nos ajudam a valorizar o leite e o trabalho dos agricultores.
#carlosnevesagricultor #agricultura
#leite #queijo #iogurte #Lactogal
domingo, 10 de maio de 2026
Porque não controlamos o preço dos produtos agrícolas?

Esta pergunta, em jeito de desafio e desabafo, foi colocada por um jovem agricultor numa assembleia realizada no final de março, numa altura em que o preço do gasóleo e dos outros fatores de produção disparava por causa da guerra e em sentido inverso pairava sobre nós a ameaça de nova descida do preço do leite a todos os produtores.
A pergunta não foi colocada a mim, mas fiquei a pensar nela porque é uma coisa que nos toca a todos, tanto o problema dos preços baixos como a responsabilidade de fazer alguma coisa para melhorar a situação. Agora, com as sementeiras terminadas, tenho finalmente tempo para dar os meus 5 tostões de contributo para essa discussão.
Trabalhando e escrevendo em Vila do Conde, vou responder à moda de José Régio. “Não sei por onde vou, não sei para onde vou, sei que não vou por aí”. Não vou pela resposta fácil de procurar culpados ou esperar por um D. Sebastião que numa manhã de nevoeiro vai voltar para resolver tudo, até porque aqui o nevoeiro quase nunca tem hipótese face ao vento fresco da nortada.
Antes de mais, este problema não é só daqui e não é de agora. “O agricultor é o único homem da nossa economia que compra tudo a retalho, vende tudo por grosso e ainda paga o frete nos dois sentidos.” Quem disse isto foi Jonh F. Kennedy, num discurso aos agricultores antes de se tornar presidente dos EUA na década de 60 do século passado. O mundo, a economia e a agricultura evoluíram imenso, mas o problema persiste. Há poucos meses vi um documentário sobre as dificuldades económicas dos agricultores americanos face a fornecedores e compradores que estão agrupados em grupos económicos cada vez maiores.
Perante as dificuldades económicas dos agricultores, no início do século XX surgiram os “sindicatos agrícolas”, os grémios da lavoura e mais tarde as cooperativas. Mas os agricultores são empresários agrícolas, por isso os “sindicatos” evoluíram para “associações”. Por exemplo, em números redondos, uma pessoa que de repente queira instalar-se como um pequeno produtor de leite com 50 vacas e outras tantas novilhas, numa dimensão abaixo da média atual da minha região, mesmo que já tenha terra disponível, precisa de investir um milhão de euros em instalações, equipamentos básicos e animais. Um empresário que gere um investimento destes precisa de um “sindicato”? Por outro lado, mesmo alguém que tenha 1000 vacas em produção, apesar de ser um empresário com mais poder negocial e economia de escala, não consegue controlar o preço a que vende o leite e, direta ou indiretamente, continua a precisar de associações e cooperativas.
Assim como há quem diga que “a galinha da vizinha é mais gorda do que a minha” ou que “a erva do outro lado da cerca é sempre mais verde”, também há quem ache que as associações dos outros setores ou dos outros países são sempre melhores do que as nossas, mas as associações somos nós, aqueles que participamos nelas e são dirigidas por aqueles que elegemos e os que ficam de fora abstém-se. Viajando pelas redes sociais, já vi portugueses a pedir “sindicatos” como em Espanha, espanhóis a criticar os seus sindicatos e franceses admirados de fora pelas suas ações musculadas mas envolvidos em enormes divisões e discussões internas. Voltarei a este assunto num próximo artigo.
Há quem diga que a culpa é das cooperativas, mas as cooperativas foram criadas há dezenas de anos porque já havia estes problemas com a compra e venda de produtos agrícolas e efetivamente não podem comprar aos seus associados mais caro do que conseguem vender. Há até estudos a nível europeu que mostram que em média as cooperativas pagam um pouco menos do que os compradores privados, porque os privados compram só o que precisam para o mercado que têm, em geral com produtos de maior valor acrescentado, enquanto as cooperativas têm muitas vezes a obrigação de comprar toda a produção dos associados e por isso são pressionadas a “escoar” a produção a qualquer preço. Apesar disso, há uma enorme distância entre cooperativas que funcionam e pagam bem e outras que já faliram e ficaram pelo caminho. A diferença talvez esteja na “massa crítica” dos cooperadores e na capacidade dos dirigentes e gestores por eles escolhidos. Por outro lado, porque “novas soluções trazem novos problemas”, há uma tendência global para fusões e aquisições entre cooperativas e o exercício do poder fica cada vez mais longe do agricultor que está na base.
Em desespero, há quem peça aos governos para fixar os preços dos produtos agrícolas em tabela, mas ao longo da história os países que seguiram este caminho de ditaduras e economia planificada deixaram os povos na fome e pobreza.
No extremo oposto, há quem diga que não podemos fazer nada porque “isto é o mercado a funcionar”, mas, tal como na estrada só conseguimos ser livres e ir a qualquer lado sem correr o risco de ser imediatamente atropelados, também o mercado livre precisa de regras que protejam os mais pequenos e os mais fracos como é o caso dos agricultores. Por exemplo, foi a luta de produtores em associações e cooperativas que conseguiu a rotulagem da origem do leite e outras regras de mercado face aos compradores que são cada vez maiores e com maior capacidade de impor a sua vontade. E pronto, agora que este texto já ficou maior do que eu queria, qual é a vossa opinião? O que acrescentavam nesta discussão?
sábado, 14 de março de 2026
O justo preço do leite

No capítulo 41 do primeiro livro da Bíblia, o Génesis, ficamos a conhecer a história do Faraó do Egipto que sonhou com 7 vacas gordas que pastavam junto ao Nilo e eram devoradas por 7 vacas magras. José, filho de Jacó, explicou ao Faraó que o sonho era um aviso para aproveitar os anos de fartura na colheita de modo a armazenar reservas para enfrentar os anos de más colheitas que se iriam suceder. O Faraó seguiu os conselhos de José e o povo do Egipto sobreviveu à fome que afetou outros povos da região. Esta história mostra não só como a criação de vacas e o consumo de leite já existiam há 4000 anos (mais tarde o povo hebreu abandonou o Egipto a caminho da terra prometida onde também havia “leite e mel”) mas também como ao longo do tempo acontecem anos bons e anos maus em termos de preço e produção na agricultura.
Os produtores de leite portugueses viveram um período de “vacas médias” ao longo dos últimos anos face às crises anteriores. Não foram “vacas gordas” porque estivemos nos últimos lugares entre os países da Europa no preço ao produtor. Agora que os preços internacionais dos lácteos entraram em modo “vacas magras”, esperava-se que pelo menos a indústria portuguesa, em particular a indústria de base cooperativa, se afirmasse no mercado mantendo o preço estabilizado tal como esteve estabilizado quando os outros subiram. Lamentavelmente, isso não aconteceu e todos os compradores desceram o preço. É um mau sinal, que deixa os produtores na linha de água da rentabilidade. Uma decisão que retira esperança no futuro, que desanima e revolta os jovens que pensam instalar-se no setor e que obriga os produtores de leite a ponderar deixar a atividade e procurar alternativas como a eventual reconversão para a produção de carne.
Se o governo, a indústria e a distribuição querem assegurar o futuro da produção de leite em Portugal, devem suster esta descida e trabalhar para aumentar o preço para um nível que consideremos um “preço justo”, capaz de pagar os custos de produção, o trabalho dos produtores e manter viva a nossa agricultura. Um preço que nos permita criar reservas para os anos e momentos difíceis como a tempestade Kristin que atingiu vários colegas nossos na região centro. Agora, nós, os que sobrevivemos e resistimos na produção de leite em 2026, temos de ser solidários, resistir e reconstruir.
P. S. - já depois de ter escrito este texto para editorial da nova edição da revista Produtores de Leite, a guerra voltou ao médio oriente e à "terra prometida". Por causa da guerra, estão a subir os custos de produção: gasóleo, rações, fertilizantes. Agora é ainda mais necessário atualizar o preço do leite ao produtor.
domingo, 22 de fevereiro de 2026
O milho colhe-se quando se pode

Não sei em que ano foi, mas fiquei suficientemente traumatizado para me lembrar como se fosse hoje. Na década de 80, um outono com muita chuva impediu a colheita do milho com o trator nos terrenos mais encharcados e obrigou-nos a andar dias a cortar o milho à mão com a foucinha e arrastá-lo às postas por cima da terra enlameada até à máquina de ensilar colocada num ponto mais alto.
Alguns anos mais tarde, o vento tombou milheirais e as máquinas não conseguiam apanhar esse milho caído.
No ano 2000, no primeiro ano em que colhi o milho silagem com uma ensiladora automotriz, uma cheia na véspera obrigou-me a deixar uma parte para mais tarde desfolhar, à mão e de galochas.
Por causa de tudo isto que passei desde tenra idade, fui antecipando a sementeira e a colheita do milho, conforme permitem os terrenos e o clima.
O facto de cultivar mais de 20 parcelas dispersas num raio de vários kms tem muitos custos mas também tem a vantagem de cultivar solos diferentes, uns mais secos outros mais frescos. Nos terrenos mais secos consigo semear no início de abril, nos outros só um mês mais tarde e, às vezes, em alguns pontos só em junho, colocando aí variedade de milho muito curto. Na maior parte dos terrenos faço milho silagem e escolho alguns terrenos mais secos para milho grão, que tem de ficar mais tempo no terreno a secar. Noutras zonas do país, por causa da temperatura e humidade, só conseguem semear e colher mais tarde.
Andar o mais cedo possível é uma opção minha, que me permite quase sempre colher antes do vento e da chuva, mas também tem custos. Tenho de colher a erva mais cedo e com menos produção. Se vier muita chuva depois da sementeira pode arrastar a terra e encharcar os terrenos mais frescos.
Idealmente o milho silagem tem de ser colhido com uma humidade de 65% em toda a planta e o milho grão só pode ter 14% de humidade no grão para ser armazenado ou utilizado nas rações. Costuma-se colher com mais humidade, idealmente pelos 20%,mas depois tem que ir ao secador, e fica mais caro quanto mais humidade tiver.
Para evitar a despesa com o secador, há regiões no centro da Espanha ou aqui em Chaves e na zona centro / sul de Portugal onde o milho só é colhido só no final do ano ou nos primeiros meses do ano seguinte. São regiões onde chove menos do que aqui no Minho e onde só fazem uma cultura anual, o milho. Se tiver boa sanidade no caule para não cair e a espiga estiver virada para baixo, o grão de milho está protegido e bem conservado… Se não chover torrencialmente e ao longo de meses como aconteceu este ano. Por isso é que ainda há milho sem colher. Começou a chover em Novembro e ainda não houve uma temporada para enxugar a terra.
Produzir um hectare de milho custa cerca de 2000€. É preciso ter uma boa produção para pagar as despesas. Há um pequeno subsídio de 200€ por hectare… mas que só é pago a quem produzir e entregar milho numa organização de produtores.
Vi muitos comentários sobre estas notícias de quem pensa que as pessoas deixaram ficar o milho no campo para receber subsídios. Não façam essas acusações, não faz sentido, é como acusar outras pessoas de ter os telhados mal seguros…
Muita força para quem foi afetado e que venha bom tempo para colher o que se puder aproveitar e reparar o que se estragou nos campos e nas casas.
#carlosnevesagricultor #agricultura #milho #kristin
domingo, 11 de janeiro de 2026
Mercosul: difícil acordar, difícil discutir

A União Europeia aprovou esta semana o acordo comercial com o Mercosul, que basicamente consiste em baixar as tarifas aduaneiras de uma lista de produtos com os 4 países do Mercosul: Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, que reúnem 270 milhões de pessoas. O acordo foi negociado ao longo de 25 anos e apesar de concluído em 2019 esteve “parado” desde então até que a guerra de Tarifas com Trump e também com a China parece ter tornado urgente concluir este acordo para procurar mercados alternativos para as nossas exportações.
Sempre vi esse acordo com apreensão. Em resumo, dizia-se que a Europa iria facilitar a entrada de produtos agrícolas para poder vender carros, e sempre houve muitas reservas por parte da agricultura europeia. Por causa disso, foram negociados limites de quantidades em vários produtos sensíveis nos dois mercados. Por exemplo, o Mercosul só pode exportar 99.000 toneladas de carne a taxa reduzida e a Europa só pode exportar 30.000 toneladas de queijo a taxa reduzida. Nas últimas semanas, foram ajustadas “cláusulas de salvaguarda” que, por exemplo, suspendem o acordo na importação de carne se o preço baixar mais do que 5%. Também está previsto o controlo da qualidade por causa das diferenças de fitofármacos ou medicamentos autorizados, mas ainda não percebi como isso vai ser efetuado.
No caso da importação de milho ou soja para as nossas rações e óleos alimentares atualmente já não há tarifas e portanto não será de esperar mudanças.
O acordo é muito mais complexo do que posso explicar neste texto ou num dos muitos vídeos de 2 minutos feitos por especialistas em “Mercosul” que se tornam virais nas redes sociais. Redes sociais cujos algoritmos são controlados pela China ou Estados Unidos, os blocos económicos que são concorrentes da Europa e que tem todo o interesse em travar o acordo Mercosul, acabar com a União Europeia e dividi-la em pequenos países mais fáceis de dominar, por isso a minha opinião não se baseia apenas no que vejo na Internet mas sobretudo nas perguntas que vou fazendo a quem está no mercado e faz estudos. O acordo tem cerca de 180 páginas e uma série de anexos que quase ninguém leu.
Eu tenho muitas dúvidas e acho que tão cedo não vamos poder tirar conclusões, porque a implementação do acordo será gradual. As tarifas vão baixar ao longo de 10 a 15 anos, conforme os produtos. Quer dizer que na próxima semana, no próximo mês ou no próximo ano as coisas vão mudar muito pouco por causa do Mercosul e muito mais por causa de outras acontecimentos, guerras, inteligência artificial, doenças emergentes… que se sucedem a um ritmo cada vez mais vertiginoso e que daqui a dias ou semanas provavelmente quase toda a gente já esqueceu porque entretanto já passamos para a próxima indignação.
Também não posso esquecer que, se a indústria automóvel europeia falir, os trabalhadores não vão ter dinheiro para ir ao talho comprar bifes ou legumes ao mercado. Por outro lado, se a agricultura acabar, fica o território abandonado à mercê dos incêndios e fica a restante população sem segurança alimentar e dependente das importações. Por isso é preciso um equilíbrio que proteja ambos os setores.
No caso da agricultura portuguesa, quem estudou o assunto diz que o acordo poderá ser vantajoso para setores como vinho, o azeite e o queijo, pela possibilidade de exportação para o Brasil, pela nossa vantagem pela proximidade da relação com o Brasil, por falarmos a mesma língua, e poderá ser negativo por causa da importação de carne de bovino e aves.
Acho que devemos estudar melhor o que está no acordo, tentar perceber como pode afetar cada setor agrícola em concreto, como nos devemos preparar, como nos podemos adaptar e o que devemos lutar para mudar, por exemplo, desligar o complicómetro de regras com que a União Europeia nos atrofiou ao longo dos últimos anos.
Acho que não devemos entrar em desespero, não sofrer por antecipação, não desistir da agricultura, não deixar de trabalhar, mas manter uma atitude de prudência tanto em relação ao acordo como a quem quer aproveitar este acordo como a gota de água para provocar uma revolução. E não desatar a insultar quem pensa diferente de nós.





