quinta-feira, 18 de junho de 2026

Dermatose e outras doenças emergentes – como proteger os nossos animais?

 



“Houve um tempo, até há cerca de 35 anos, em que a vacina da febre aftosa era obrigatória para os bovinos. Nessa altura o meu pai fazia engorda dos novilhos e um nosso vizinho, o senhor António, tinha um talho e comprava-nos alguns desses animais. Um dia combinámos vender-lhe um touro, ele veio vê-lo, eu entreguei-lhe o "boletim de sanidade” do animal e a folha comprovativa da vacina. Recordo bem que era uma folha A5, letra azul e papel fino. O Sr. António quis ver novamente a traseira do novilho, para se certificar que estava bem gordo. O animal estava preso à manjedoura num anexo com 3 animais. O Sr. António pousou os papéis na manjedoura, que ficava a 50 cm do chão, à moda antiga, e lá fomos todos avaliar a gordura do touro. Quando voltámos à frente a folha da vacina já estava na boca do animal. Basicamente, comeu a sentença de morte e durou mais uma semana, enquanto esperámos pela segunda via pedida na “Zona Agrária”…

Lembrei-me desta história, presente no meu livro de crónicas agrícolas, inserida num texto sobre vacinas, ao ouvir num destes dias recentes, uma notícia sobre o regresso da Febre aftosa à Europa, com focos na Grécia e em Chipre. A doença está de volta após décadas de erradicação que tornaram a vacina desnecessária.

Nos últimos meses a Direção Geral de Veterinária e as organizações de agricultores tem chamado a atenção para várias doenças “emergentes”, doenças que estão a “emergir”, a surgir pela primeira vez na Europa, por causas diversas, nomeadamente a maior movimentação de pessoas e mercadorias e também as alterações climáticas, com o aumento de temperatura que tem feito aparecer insetos que até agora apenas andavam por regiões tropicais.

A Dermatose Nodular Contagiosa é uma doença que afeta os bovinos e foi identificada pela primeira vez em África, na Zâmbia, então Rodésia, em 1929. A doença não é transmissível aos humanos, mas provoca febre alta, nódulos cutâneos característicos, inchaço dos gânglios, queda severa na produção de leite, emagrecimento, abortos e infertilidade. A doença é transmitida principalmente por insetos. Em África a doença é comum mas não existia na Europa. Apareceu em 2016 na Grécia, vinda da Turquia, mas foi controlada e erradicada. Voltou a surgir na ilha da Sardenha em 2025, na França e na Espanha (Catalunha). Como o objetivo é manter a Europa livre de doença, só é permitida a vacinação nas regiões afetadas pela doença e sempre que surge um caso num estábulo, todos os animais desse estábulo são abatidos e os animais 20 km à volta são obrigatoriamente vacinados.

O que podemos fazer para nos protegermos destas e de outras doenças “emergentes” antes que se tornem uma “emergência”?

Para começar, nós os crentes podemos rezar para que a doença não chegue a Portugal. Mas, lembrando o aviso “fia-te na Virgem e não corras…”, neste caso correr significa prevenir.

Apresento de seguida alguns conselhos de “Biosegurança” que escolhi entre os sugeridos pela Dra. Andreia Santos, Médica Veterinária responsável pela sanidade animal na Cooperativa Agrícola de Vila do Conde:

1.       Arrumar

·  Antes de pensarmos em lavar ou desinfetar, há que pensar em manter os espaços arrumados.

2.       Limpar

·         Retirar os excessos de materiais inertes ou não inertes. Facilitamos as ações como lavagem ou desinfeção.

3.       Lavar

·     O uso de detergentes específicos ajuda a retirar carga de matéria orgânica, gorduras, biofilmes e potenciam a desinfeção.

4.       Desinfetar

·         A desinfeção é a última escala da defesa por aplicação de biocidas.

5.       Estabular e Desinsetizar

·         Estabular os animais e aplicar insecticidas adequados.

6.       Limpar o excesso de vegetação em volta da exploração (20metros)

·      A vegetação é considerada uma barreira de biossegurança, mas deve estar afastada da exploração alguns metros, por poder ser abrigo de insetos e pássaros, visitas pouco desejadas nas manjedouras.

7.       Eliminar locais de águas paradas, como lagos, pocinhas, pneus dos silos (locais de eclosão de insetos)

·      Os bebedouros também podem ser locais de germinação de larvas de insetos se não forem higienizados de forma sistemática.

·       Atenção aos pneus usados para manter a cobertura dos silos: a água que se mantém no interior aquece e mantem temperatura mais elevadas facilmente, incluindo no Inverno, fazendo deles excelentes locais de multiplicação e manutenção das populações de insetos.

8.       Aplicar redes mosquiteiras nas grandes áreas abertas, como topos e laterais das explorações

9.       Manter ventilação ligada 24h por dia

·         Insetos tão pequenos como o culicóide (2 a 4mm) têm dificuldade em lutar contra correntes de ar e, por essa razão, a ventilação ligada permanentemente reduz o risco de ataque.

10.   Lavar e desinfetar qualquer veículo ou instrumento que tenha sido emprestado ou usado para ajudar outros agricultores.

11.   Dispor de umas quantas batas na exploração para os visitantes técnicos utilizarem por cima do equipamento que trazem.

12.   Dispor em locais estratégicos de lava botas com desinfetante.

13.   Criar um espaço de verdadeira quarentena

·     Animais que são comprados deviam cumprir um período de quarentena, pelo menos até serem conhecidas os resultados de análises.

14.   Desenvolver o hábito de ter agenda para receber visitas na exploração.

15.   Ter um espaço para receber as viaturas estranhas à exploração.

16.   Ser agente de mudança.

·         Exigir aos técnicos e pares mudanças de comportamentos, sendo exemplo. Atitudes em bloco têm infinitamente mais força e expressão.

17.   IMAGINAÇÃO E DETERMINAÇÃO!!! (artigo completo sobre Biosegurança disponível na Revista “Produtores de Leite” nº 33)

#carlosnevesagricultor #vacas #dermatose #vacinas

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