“Houve um tempo, até há cerca de 35 anos, em que a vacina da febre aftosa era obrigatória para os bovinos. Nessa altura o meu pai fazia engorda dos novilhos e um nosso vizinho, o senhor António, tinha um talho e comprava-nos alguns desses animais. Um dia combinámos vender-lhe um touro, ele veio vê-lo, eu entreguei-lhe o "boletim de sanidade” do animal e a folha comprovativa da vacina. Recordo bem que era uma folha A5, letra azul e papel fino. O Sr. António quis ver novamente a traseira do novilho, para se certificar que estava bem gordo. O animal estava preso à manjedoura num anexo com 3 animais. O Sr. António pousou os papéis na manjedoura, que ficava a 50 cm do chão, à moda antiga, e lá fomos todos avaliar a gordura do touro. Quando voltámos à frente a folha da vacina já estava na boca do animal. Basicamente, comeu a sentença de morte e durou mais uma semana, enquanto esperámos pela segunda via pedida na “Zona Agrária”…
Lembrei-me desta história, presente no meu livro
de crónicas agrícolas, inserida num texto sobre vacinas, ao ouvir num destes
dias recentes, uma notícia sobre o regresso da Febre aftosa à Europa, com focos
na Grécia e em Chipre. A doença está de volta após décadas de erradicação que
tornaram a vacina desnecessária.
Nos últimos meses a Direção Geral de Veterinária
e as organizações de agricultores tem chamado a atenção para várias doenças
“emergentes”, doenças que estão a “emergir”, a surgir pela primeira vez na
Europa, por causas diversas, nomeadamente a maior movimentação de pessoas e
mercadorias e também as alterações climáticas, com o aumento de temperatura que
tem feito aparecer insetos que até agora apenas andavam por regiões tropicais.
A Dermatose Nodular Contagiosa é uma doença que
afeta os bovinos e foi identificada pela primeira vez em África, na Zâmbia,
então Rodésia, em 1929. A doença não é transmissível aos humanos, mas provoca febre
alta, nódulos cutâneos característicos, inchaço dos gânglios, queda severa na
produção de leite, emagrecimento, abortos e infertilidade. A doença é
transmitida principalmente por insetos. Em África a doença é comum mas não
existia na Europa. Apareceu em 2016 na Grécia, vinda da Turquia, mas foi
controlada e erradicada. Voltou a surgir na ilha da Sardenha em 2025, na França
e na Espanha (Catalunha). Como o objetivo é manter a Europa livre de doença, só
é permitida a vacinação nas regiões afetadas pela doença e sempre que surge um
caso num estábulo, todos os animais desse estábulo são abatidos e os animais 20
km à volta são obrigatoriamente vacinados.
O que podemos fazer para nos protegermos destas e de outras
doenças “emergentes” antes que se tornem uma “emergência”?
Para começar, nós os crentes podemos rezar para que a doença
não chegue a Portugal. Mas, lembrando o aviso “fia-te na Virgem e não corras…”,
neste caso correr significa prevenir.
Apresento de seguida alguns conselhos de “Biosegurança” que
escolhi entre os sugeridos pela Dra. Andreia Santos, Médica Veterinária
responsável pela sanidade animal na Cooperativa Agrícola de Vila do Conde:
1. Arrumar
· Antes de pensarmos em lavar ou desinfetar, há que
pensar em manter os espaços arrumados.
2. Limpar
·
Retirar os excessos de materiais inertes ou não
inertes. Facilitamos as ações como lavagem ou desinfeção.
3. Lavar
· O uso de detergentes específicos ajuda a retirar
carga de matéria orgânica, gorduras, biofilmes e potenciam a desinfeção.
4. Desinfetar
·
A desinfeção é a última escala da defesa por
aplicação de biocidas.
5. Estabular e
Desinsetizar
·
Estabular os animais e aplicar insecticidas
adequados.
6.
Limpar o excesso de vegetação em volta da
exploração (20metros)
· A vegetação é considerada uma barreira de
biossegurança, mas deve estar afastada da exploração alguns metros, por poder
ser abrigo de insetos e pássaros, visitas pouco desejadas nas manjedouras.
7.
Eliminar locais de águas paradas, como
lagos, pocinhas, pneus dos silos (locais de eclosão de insetos)
· Os bebedouros também podem ser locais de
germinação de larvas de insetos se não forem higienizados de forma sistemática.
· Atenção aos pneus usados para manter a cobertura
dos silos: a água que se mantém no interior aquece e mantem temperatura mais
elevadas facilmente, incluindo no Inverno, fazendo deles excelentes locais de
multiplicação e manutenção das populações de insetos.
8.
Aplicar redes mosquiteiras nas grandes
áreas abertas, como topos e laterais das explorações
9.
Manter ventilação ligada 24h por dia
·
Insetos tão pequenos como o culicóide (2 a 4mm)
têm dificuldade em lutar contra correntes de ar e, por essa razão, a ventilação
ligada permanentemente reduz o risco de ataque.
10.
Lavar e desinfetar qualquer veículo
ou instrumento que tenha sido emprestado ou usado para ajudar outros
agricultores.
11.
Dispor de umas quantas batas na exploração
para os visitantes técnicos utilizarem por cima do equipamento que trazem.
12.
Dispor em locais estratégicos de lava botas
com desinfetante.
13.
Criar um espaço de verdadeira quarentena
· Animais que são comprados deviam cumprir um
período de quarentena, pelo menos até serem conhecidas os resultados de
análises.
14.
Desenvolver o hábito de ter agenda para
receber visitas na exploração.
15.
Ter um espaço para receber as viaturas
estranhas à exploração.
16.
Ser agente de mudança.
·
Exigir aos técnicos e pares mudanças de
comportamentos, sendo exemplo. Atitudes em bloco têm infinitamente mais força e
expressão.
17.
IMAGINAÇÃO E DETERMINAÇÃO!!! (artigo
completo sobre Biosegurança disponível na Revista “Produtores de Leite” nº 33)

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