quinta-feira, 28 de maio de 2026

A cruz, as primas e as regas

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Quando escrevi o texto “O que fazem os agricultores quando já está tudo feito”, partilhei a frase de um colega canadiano: «Fazer agricultura é dizer “depois desta semana as coisas vão abrandar um pouco...” e repetir isto sucessivamente ao longo de toda a vida».
Lembro-me sempre disso nesta altura porque a erva foi colhida, a terra lavrada, o milho semeado, a sacha vai a meio… e o pior começa agora: A rega, a “cruz” que vamos carregar até quase ao fim do verão com pausas por alguma chuva que será cada vez menos provável e mais rara, depois de dois meses e meio de pouca precipitação que deixaram o solo seco. A chuva abundante que caiu no inverno e não correu para o mar está lá em baixo, no subsolo. Como dizia o meu pai, “a água está no poço a fazer mal ao milho”.
Preparar, levar e ligar motores nos poços e captações de água, estender mangueiras, preparar as “máquinas de rega”, estender fita gota-a-gota, reparar o que se estragou por estar parado no inverno mais o que se vai estragar com o uso, afinar os “aspersores”, mudar as regas de sítio e de campo… e antes de tudo isso garantir que temos eletricidade, onde ela existe, porque nos outros sítios a regar com tratores ou motores a gasóleo ainda é pior.
O inverno foi duro em chuva e vento. Mesmo aqui fora da zona do grande temporal, houve temporais que derrubaram arvores e abalaram fios elétricos. Mandei ligar os contadores mais cedo para prevenir alguma avaria. Como faltavam fases num dos poços, mandei um mail à empresa de comercialização a pedir que comunicasse a avaria. Responderam que tinham encaminhado, mas da próxima vez que eu ligasse para o numero das avarias. Dias mais tarde, fui ao campo fazer um trabalho e vi que estava tudo na mesma. Parei o trator e liguei às primas: “prima 1, prima 2, prima 3, vá para junto do local, desligue o aparelho”, respondi á gravação que nem conseguia ligar quanto mais desligar… a máquina desligou-me a chamada na cara. Acabei o trabalho, fui lanchar e no final vim para a frente do computador para comunicar a avaria no site da E-redes. Já tinha feito o registo de outras vezes, mas não aceitava a password que eu tinha apontado. Insisti mas lá tive de criar outra, quer dizer, meti a mesma que o programa tinha esquecido e ele aceitou o registo da password, fiz “login”, demorei depois 2 minutos a registar a avaria e entretanto estava no fim da tarde. Ninguém apareceu nas horas seguintes e esqueci o assunto. Eram quase 10 da noite, o telemóvel estava quase sem bateria quando me ligaram de um nº 21… Pensei que o pessoal dos contratos da Meo e da Nos, que costuma ligar desses números, estava a ligar cada vez mais tarde. Atendi, afinal eram dois eletricistas do piquete das avarias que estavam já próximo do local. Expliquei que não valia a pena ir àquela hora, a avaria era na barraca de um poço, estava sem luz, o fio passa numa bouça, mas eles insistiram porque tinham de responder ao pedido antes de 4 horas senão pagavam multa… e lá fui com eles para o meio da bouça, o cabo estava traçado, ficou previsto virem substituir no dia seguinte (e vieram) e depois o homem gastou mais tempo a registar a ocorrência no telemóvel do que tinha gasto na avaria. Bem, entretanto já consegui ligar alguns motores, mas ao fim do dia, um motor não ligou e um dos contadores “inteligentes” que supostamente envia as leituras automaticamente, estava com a mensagem “anomalia- contacte o fornecedor de rede”, portanto lá vou eu ter de mandar um mail às primas, mas acho que vou deixar para de manhã, porque se adiantar serviço agora à noite vem o piquete de madrugada…
#carlosnevesagricultor #agricultura #milho

terça-feira, 26 de maio de 2026

Cimeira do Leite

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Participei esta manhã, em representação da APROLEP, na “Cimeira do Leite”, um colóquio que terminou com um almoço de “Networking” para convidados e dirigentes cooperativos, organizado pela Lactogal para encerrar a celebração dos 30 anos de existência.
Confesso que tenho uma relação agridoce com a Lactogal, a empresa de base cooperativa que há 30 anos transforma, comercializa e valoriza mais de 60% do leite português. Para contestar aspetos negativos da sua gestão e descidas do preço do leite, ao longo destes mesmos 30 anos, em representação dos produtores, escrevi comunicados, dei entrevistas, organizei manifestações à porta da fábrica e da sede, escrevi artigos de opinião muito duros, paguei um preço por isso e mesmo assim fui também criticado por ser demasiado brando, suave, por não atacar o suficiente e até acusado de proteger demais a empresa e de estar comprado ou calado à espera de um lugar “no poleiro”. Nada de novo. Afonso de Albuquerque, o português que controlou o Estreito de Ormuz em 1500, já então se queixava : “Mal com el-rei por amor dos homens, mal com os homens por amor de el-rei."
Mas, como escrevi acima, a Lactogal valoriza o leite português, é líder de mercado, pertence às cooperativas que pertencem aos produtores e quanto melhor for gerida, quanto mais protegida for, quanto mais união congregar entre produtores, técnicos e dirigentes das várias cooperativas associadas, quanto mais sucesso comercial tiver, melhor para todos, mesmo para aqueles cujo leite produzido tem outro destino. A prova é que neste momento, finalmente, as cooperativas associadas na Lactogal estão a pagar aos produtores um preço acima da média europeia e os restantes compradores, sobretudo os que têm capacidade industrial e maior dimensão, até agora, conseguiram também manter o preços, isto é, descer menos do que no resto da Europa.
Por tudo isto, hoje só quero “manifestar” que foi um dia muito positivo: pelo aniversário, pelos oradores presentes nos debates que nos falaram de bem-estar animal, de ambiente, do valor do leite e dos produtos lácteos enquanto alimentos ricos em cálcio, iodo, proteínas, vitamina B12, pelas perspectivas de futuro do leite enquanto proteína de alto valor biológico, um alimento rico, natural e completo. Aprendi uma coisa nova: o “Dairy Matrix”, ou “matriz láctea” é um conceito das ciências da nutrição que significa que os benefícios para a saúde de consumir laticínios são superiores à soma dos seus componentes isolados, o que não é de admirar num alimento produzido pela natureza e consumido pelos humanos há 9000 anos. Ah, e encontrei velhos amigos que nos ajudam a valorizar o leite e o trabalho dos agricultores.
#carlosnevesagricultor #agricultura
#leite #queijo #iogurte #Lactogal

domingo, 10 de maio de 2026

Porque não controlamos o preço dos produtos agrícolas?

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Esta pergunta, em jeito de desafio e desabafo, foi colocada por um jovem agricultor numa assembleia realizada no final de março, numa altura em que o preço do gasóleo e dos outros fatores de produção disparava por causa da guerra e em sentido inverso pairava sobre nós a ameaça de nova descida do preço do leite a todos os produtores.


A pergunta não foi colocada a mim, mas fiquei a pensar nela porque é uma coisa que nos toca a todos, tanto o problema dos preços baixos como a responsabilidade de fazer alguma coisa para melhorar a situação. Agora, com as sementeiras terminadas, tenho finalmente tempo para dar os meus 5 tostões de contributo para essa discussão.


Trabalhando e escrevendo em Vila do Conde, vou responder à moda de José Régio. “Não sei por onde vou, não sei para onde vou, sei que não vou por aí”. Não vou pela resposta fácil de procurar culpados ou esperar por um D. Sebastião que numa manhã de nevoeiro vai voltar para resolver tudo, até porque aqui o nevoeiro quase nunca tem hipótese face ao vento fresco da nortada.


Antes de mais, este problema não é só daqui e não é de agora. “O agricultor é o único homem da nossa economia que compra tudo a retalho, vende tudo por grosso e ainda paga o frete nos dois sentidos.” Quem disse isto foi Jonh F. Kennedy, num discurso aos agricultores antes de se tornar presidente dos EUA na década de 60 do século passado. O mundo, a economia e a agricultura evoluíram imenso, mas o problema persiste. Há poucos meses vi um documentário sobre as dificuldades económicas dos agricultores americanos face a fornecedores e compradores que estão agrupados em grupos económicos cada vez maiores.


Perante as dificuldades económicas dos agricultores, no início do século XX surgiram os “sindicatos agrícolas”, os grémios da lavoura e mais tarde as cooperativas. Mas os agricultores são empresários agrícolas, por isso os “sindicatos” evoluíram para “associações”. Por exemplo, em números redondos, uma pessoa que de repente queira instalar-se como um pequeno produtor de leite com 50 vacas e outras tantas novilhas, numa dimensão abaixo da média atual da minha região, mesmo que já tenha terra disponível, precisa de investir um milhão de euros em instalações, equipamentos básicos e animais. Um empresário que gere um investimento destes precisa de um “sindicato”? Por outro lado, mesmo alguém que tenha 1000 vacas em produção, apesar de ser um empresário com mais poder negocial e economia de escala, não consegue controlar o preço a que vende o leite e, direta ou indiretamente, continua a precisar de associações e cooperativas.


Assim como há quem diga que “a galinha da vizinha é mais gorda do que a minha” ou que “a erva do outro lado da cerca é sempre mais verde”, também há quem ache que as associações dos outros setores ou dos outros países são sempre melhores do que as nossas, mas as associações somos nós, aqueles que participamos nelas e são dirigidas por aqueles que elegemos e os que ficam de fora abstém-se. Viajando pelas redes sociais, já vi portugueses a pedir “sindicatos” como em Espanha, espanhóis a criticar os seus sindicatos e franceses admirados de fora pelas suas ações musculadas mas envolvidos em enormes divisões e discussões internas. Voltarei a este assunto num próximo artigo.


Há quem diga que a culpa é das cooperativas, mas as cooperativas foram criadas há dezenas de anos porque já havia estes problemas com a compra e venda de produtos agrícolas e efetivamente não podem comprar aos seus associados mais caro do que conseguem vender. Há até estudos a nível europeu que mostram que em média as cooperativas pagam um pouco menos do que os compradores privados, porque os privados compram só o que precisam para o mercado que têm, em geral com produtos de maior valor acrescentado, enquanto as cooperativas têm muitas vezes a obrigação de comprar toda a produção dos associados e por isso são pressionadas a “escoar” a produção a qualquer preço. Apesar disso, há uma enorme distância entre cooperativas que funcionam e pagam bem e outras que já faliram e ficaram pelo caminho. A diferença talvez esteja na “massa crítica” dos cooperadores e na capacidade dos dirigentes e gestores por eles escolhidos. Por outro lado, porque  “novas soluções trazem novos problemas”, há uma tendência global para fusões e aquisições entre cooperativas e o exercício do poder fica cada vez mais longe do agricultor que está na base.


Em desespero, há quem peça aos governos para fixar os preços dos produtos agrícolas em tabela, mas ao longo da história os países que seguiram este caminho de ditaduras e economia planificada deixaram os povos na fome e pobreza.


No extremo oposto, há quem diga que não podemos fazer nada porque “isto é o mercado a funcionar”, mas, tal como na estrada só conseguimos ser livres e ir a qualquer lado sem correr o risco de ser imediatamente atropelados, também o mercado livre precisa de regras que protejam os mais pequenos e os mais fracos como é o caso dos agricultores. Por exemplo, foi a luta de produtores em associações e cooperativas que conseguiu a rotulagem da origem do leite e outras regras de mercado face aos compradores que são cada vez maiores e com maior capacidade de impor a sua vontade. E pronto, agora que este texto já ficou maior do que eu queria, qual é a vossa opinião? O que acrescentavam nesta discussão?