sábado, 26 de dezembro de 2020

Presente com sabor especial

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Entre os vários presentes e lembranças que recebi neste natal, quero partilhar aqui (lamento, só posso partilhar a imagem, não dá para partilhar uma fatia 😊) uma dupla surpresa, este queijo que me ofereceram. Surpresa pela oferta e pelo queijo em si. Não sou especialista de queijos e, portanto, não vou estar com muito detalhes descritivos, mas este queijo tem uma forma de prato achatado, “esborrachado”, mas sem rachas, devido a ser amanteigado. Lembra vagamente o queijo camembert. Sabe (soube😊, a toda a família) muito bem. Já acabou.
É um queijo da ilha do Pico, onde a produção de leite atravessou muitas dificuldades há alguns anos, com os produtores a passarem meses sem receber devido a uma cooperativa que terá falido. É um queijo diferente de uma ilha diferente, numa embalagem de aspeto original e instrutiva, que me ensinou o que são os mistérios da ilha do Pico (se não conseguirem ler a explicação na imagem terão de comprar o queijo 😊).
Nunca estive na ilha do Pico. Em junho de 2003, com a minha esposa, nas nossas primeiras férias, tivemos viagem marcada para o Pico a partir do Faial, depois de passar 3 dias em S. Miguel, mas, estando eu constipado e com febre, ficámos pelo Peter’s café na Baia da Horta e pelos restantes encantos da Ilha do Faial.
Este queijo é um excelente exemplo do que pode ser um futuro melhor para a produção de leite nos Açores e em Portugal continental: produzir diferente, com valor acrescentado; produzir mais queijo para substituir o queijo importado e para que sobre menos leite nos Açores que depois é oferecido, despejado e desvalorizado em promoções a 39 cêntimos nos supermercados de Portugal continental, o que é muito mau para todo o setor leiteiro.
#carlosnevesagricultor

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Agricultura - Feliz Natal!

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(texto publicado no "mundo rural" de dezembro)


Vamos lá tentar ver as coisas pelo lado positivo: se está a ler este texto, é porque sobreviveu a 2020, talvez o ano mais difícil da história recente do mundo ocidental.
Escrevo nos últimos dias de Outubro, quando batemos recordes diários de casos positivos de Covid-19. Não sei como vai evoluir até ao final do ano e em 2021.Continuo a pensar que não vai correr tudo bem nem vai ficar tudo mal. Vai correr mais ou menos, mais duro para uns, mais leve para outros.
A agricultura não parou. As vacas continuaram a arrotar metano ao digerir a erva, mas a poluição baixou. Não faltou comida na mesa, nem no supermercado, nem na horta de um amigo.
Na Europa, foi aprovada mais uma reforma da PAC, que os ministros da agricultura e o parlamento europeu dizem ser mais verde, mais ecológica, apesar da opinião contrária dos ambientalistas que queriam mais dinheiro para os seus ideais e projetos.
Entretanto, o Presidente da República disse que teremos de repensar o natal. Não podemos ter 50 ou 100 pessoas à mesa. Anda por aí muita gente indignada, mas acho que é fácil perceber a recomendação de celebrar o natal com o núcleo familiar mais restrito para não agravar o risco de propagar a doença. Vai doer a ausência. Mas também dói a doença, dói mais e pode ser irreversível. Quando isto passar, a correr bem, com vacinas a funcionar, já poderemos celebrar com normalidade o natal de 2021, as outras festas e as feiras agrícolas.
Mantenham a distância física, mas aproximem se das pessoas pelos meios de comunicação à distância. Telefonem, mandem e-mail, escrevam, façam vídeo chamadas, reuniões de zoom, etc, etc. Mantenham sentido crítico sobre o que se publica nas redes sociais. Há muita gente que gosta de criticar por criticar, de “incendiar” para ver arder e espalhar boatos ou coisas agradáveis aos ouvidos de quem está revoltado mas que podem enganar muito e fazer mal. Escolham bem se confiam no vosso medico de família, no diretor do hospital da vossa zona, nos médicos que estão na urgências de covid e não-covid ou numa pessoa que vos apareceu no Facebook, no Youtube ou no whatsapp. De vez em quando, desliguem das redes sociais. Cuidem da saúde física e da saúde mental. Fiquem bem, passem um bom natal com produtos agrícolas nacionais. Ofereçam, comam bem, bebam bem (pouco e bom), e mimem-se. Santo Natal! E um ano novo melhor!


#carlosnevesagricultor 

A história por trás de um filme de Natal

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Estávamos a 30 de novembro e no grupo “Leite é Vida” a Marisa Costa lutava para fazer um vídeo de Natal, com testemunhos de vários agricultores e produtores de leite a desejar boas festas, tal como fizemos no início da pandemia desejar cuidado e saúde. O ano passado foi mais fácil para nós, pois o António, a Vânia, a Theresa e a restante família Campos trataram de tudo.
Desta vez, como de costume, o Sérgio Moninhas respondeu imediatamente ao desafio de mandar um vídeo, a Manuela Dias Pimenta também, mas os restantes convidados demoravam a reagir. Foi aí que, meio a sério meio a brincar, eu sugeri fazermos um vídeo a cantar, inspirado por exemplos americanos e espanhóis, apesar de não serem vídeos de Natal. Se eles conseguem, porque não havemos de conseguir? O ano passado, para o encerramento do colóquio nacional do leite, também descobrimos que o Manuel Maia é agricultor / veterinário / organista quando aceitou tocar o "Shalow" da Lady Gaga e Bradley Cooper. De certeza, insisti, haverá por aí agricultores que cantam no coro da igreja, no rancho folclórico ou em algum grupo musical, para além dos que simplesmente gostam de cantar, como eu. A Marisa continuava a torcer o nariz, mas a Ana apoiou a ideia e sugeriu convidar o Rui Nova para ajudar.
Bati à porta certa no dia seguinte. Bastou um telefonema para a minha prima Lurdes e a "família Penas" mostrar que podia ser a Kelly family portuguesa. A Lurdes sabe cantar e tem boa voz, o marido Manuel toca acordeão, a filha Isabel, para além do curso de medicina, toca órgão e viola, o irmão Álvaro tem uma voz linda que canta e encanta no salmo na missa, a esposa Florinda e os filhos Nuno e Pedro ajudaram no coro e as vacas fizeram o cenário para a sequência base do nosso filme. Pedi de manhã, filmaram á tarde e no dia seguinte tinha no mail o vídeo e o instrumental.
Depois foi "só" passar umas horas ao telefone, eu, a Marisa e o Sérgio, a ligar, convidar, mandar mensagens, "atirar o barro à parede ", pedindo para gravar com o telemóvel na horizontal e com o mesmo ritmo do primeiro vídeo. Para cantar, se tivessem coragem, ou pelo menos dizer umas breves palavras. Pouco a pouco, com falhas de comunicação pelo meio, surgiram as “peças do puzzle”, vindas de produtores de todo o pais, veterinários, podólogos de bovinos, mecânicos, técnicos de refrigeração do leite... Depois a equipa Norte Litoral TV fez em tempo recorde o milagre da montagem e edição, a parecer que cantamos todos bem. 13 de Dezembro, domingo à noite mandaram-nos a primeira versão, sugerimos pequenos acertos, o "grupo leite é vida" deu ok com nota máxima e pela meia noite o vídeo ficou online no YouTube e agendado para publicar no Facebook na manhã do dia seguinte, com um comunicado pronto a ser divulgado pela Nélia Silva da Comunicland.
Tudo parecia correr bem, reações positivas, quando o Eduardo Soares manda uma mensagem: "Então e o vídeo do meu irmão?" Referia-se ao irmão gémeo Filipe Soares. Só ao fim de vários anos aprendi a distingui-los, é mais fácil pela voz, mas não a cantar em família… Bem, fiquei espantado... Eu de facto estranhei o Eduardo ter mandado três vídeos e num deles só havia uma criança, mas era escuro e pensei que tivesse mandado um filme de ensaio por engano… O cenário era diferente do que ele me tinha prometido ( o viteleiro) mas ele tinha dito que o irmão não podia filmar… quando o vídeo chegou, eram quase 10h da noite, espreitei à pressa no telemóvel e encaminhei os vídeos que tinham vitelos para o Rui Nova, pois já passava da hora combinada. Não me passou pela cabeça que tivessem feito um esforço imprevisto para a família do Filipe também filmar e não olhei para o rosto das esposas e dos miúdos, que são diferentes… bem, já apresentei as desculpas, já nos rimos com isto e considerem, portanto, que está a toda a família Soares representada, bem como todo o setor leiteiro, pois era esse o nosso objetivo. Portanto, com mais ou menos imprevistos, desejo “A todos um bom natal, que seja um bom natal para todos nós! “
#carlosnevesagricultor
#natal
#boasfestas

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Palha de Natal

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O calendário Agros deste dezembro lembra-nos que a palha não serve apenas para fazer a cama do Menino Jesus no presépio. Também a usamos para garantir o bem-estar na cama dos vitelos, nas primeiras semanas de vida. Aliás, no presépio, que significa manjedoura, representamos o nascimento de Jesus num humilde abrigo de animais.
Dei comigo a pensar: Quem diria! A palha, quase sem valor, acabou por ter uma função tão importante. Mais tarde, Jesus perguntou (Mt 21, 42): «Vocês nunca leram isto nas escrituras? "A pedra que os construtores rejeitaram veio a tornar-se pedra angular" (Salmos, 118, 22).


Ou, na versão mais recente de Mafalda Veiga,


“Geme o restolho, a transpirar de chuva
Nos campos que a ceifeira mutilou
Dormindo em velhos sonhos que sonhou
Na alma a mágoa enorme, intensa, aguda


Mas é preciso morrer e nascer de novo
Semear no pó e voltar a colher
Há que ser trigo, depois ser restolho
Há que penar para aprender a viver”


Penso que vem a propósito distinguir palha de feno. Feno é erva seca, cortada inteira ainda verde, com espiga, cortada na Primavera ou Verão antes da espiga estar madura e depois seca ao sol. Geralmente fazemos feno de azevém ou outra gramínea semelhante, às vezes com trevos à mistura. A melhor variedade para fenar, por secar mais rápido, é o tradicional azevém galego, embora seja menos produtivo e nutritivo que as modernas variedades de azevém. Por outro lado, o feno bravio dos lameiros de Trás-os-Montes tem um cheiro especial, a aromáticas selvagens...
Palha é o que sobra da planta colhida já seca, depois de tirarmos a espiga. Podemos ter palha de milho (que antigamente servia para fazer cabaneiros que abrigavam máquinas, animais e depois ainda dava para comer, enganando a fome às vacas) e palha de arroz, mas a palha mais comum, que vemos a circular na estrada em camiões com grandes fardos, é palha de trigo ou cevada. Enquanto o feno tem valor nutritivo, pois é rico em proteínas, a palha não tem valor alimentar, mas é uma importante fonte de fibra, fundamental para o bom funcionamento do rúmen das vacas, em conjunto com produtos que alimentam mas tem pouca fibra, como é o caso da silagem de milho, da erva fresca e da ração. Por falar em erva, era costume os lavadores darem uma refeição reforçada de erva na noite de natal, conta o meu pai que havia até a disputa sobre quem levava para casa o maior carro de erva. No fundo, ainda temos esse gosto de saber que os animais que criamos também tem direito à sua "ceia de natal".
Por falar em Natal, uma das memórias que tenho da infância na "Casa de Quintão" onde vivi até aos 6 anos, era colocar palha no chão da cozinha na noite da consoada, para brincarmos todos. Era um costume aqui de Árvore, mais comum no vizinho lugar da Areia. Ainda fizemos pelo menos uma vez na nova casa, mas depois o costume perdeu-se. Aposto que os miúdos iam adorar a experiência, mas acho que a minha esposa não vai apoiar o regresso desta tradição. 😂😂
Boas Festas, divirtam-se!
#carlosnevesagricultor
#palha
#feno

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Imagens do nosso Natal



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Em boa hora a Marisa Costa organizou o passatempo de Natal na página “Leite é vida”. Foi uma forma de manter a distância física por causa da Covid19 e aproveitar esta autoestrada de comunicação que é esta rede social.





Estão de parabéns todos os que responderam ao desafio de enviar imagens de Natal relacionadas com a produção e consumo de lácteos. Estão de parabéns pelas mensagens inseridas nas publicações, pela criatividade demonstrada, qualidade dos cenários, a pose de alguns jovens modelos e a votação expressiva. Agora que o concurso já terminou, sem risco de influenciar resultados, quero apontar 3 imagens que me encantaram:

A primeira a destacar é a foto vencedora, do Gonçalo Pereira. Aquele olhar feliz do Gonçalo na paisagem verde com cenário a condizer, lembrou-me uma palestra que fiz há cerca de 4 anos na Escola C+S da Ribeirinha, Macieira, Vila do Conde. Eu fui convidado para falar sobre agricultura aos miúdos do 9º ano, no âmbito da orientação profissional e dessa reunião recordo-me de ver, ao fundo, no centro da sala, o mesmo brilho no olhar enquanto eu falava. É natural ter reparado nele porque o conhecia, pois fui colega do seu pai na Escola Agrícola e na vida associativa e cooperativa, mas aquele olhar dizia o mesmo que dizem as imagens e filmes que vai partilhando do seu trabalho nos campos e na vacaria, no tempo livre do curso agrícola que já frequenta na Universidade. Vê-se que é feliz na agricultura.

Para ser feliz também é preciso ter sentido de humor, arriscar fazer certas “cenas” e não se levar demasiado a sério. É tudo isso que eu vejo numa foto do pai Natal com um vitelo ao colo (também vestido de vermelho) e um copo de leite na mão. Desta vez o Filipe Carneiro não ganhou, mas está de parabéns pelos sorrisos e gargalhadas que nos proporcionou!

Deixo para o fim a referência ao presépio mais original, surpreendente e ternurento que vi este ano. Dois pequeninos no papel de José e Maria, dois olhares deliciosos, um cachorrinho ao colo de Maria como o menino jesus, dois vitelos deitados na palha como o burro e a vaca do presépio e tudo isto à frente de uma verdadeira manjedoura atual com as vacas em cenário. O nosso cenário. Recordo que presépio quer dizer manjedoura, de alguma vaca ou boi, que representam a mansidão. E que o Papa Francisco, na carta apostólica sobre o presépio, disse que estava muito bem colocarmos toda a nossa vida no presépio. Está de parabéns a família do Cláudio Lourenço que representa aqui todas as que participaram e todas as que "dão o litro" neste setor.





sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Vacinas - história, opinião e experiência



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Com as vacinas para o novo Coronavírus quase a chegar, vieram também as velhas dúvidas. Fui buscar um texto meu de 2018, na altura por causa do regresso do Sarampo devido á recusa da vacina, fiz uns recortes para não vos maçar, acrescentei alguns tópicos de reflexão e ficou assim:





“Vacina” é uma palavra com origem no latim “vacca”. Reproduzo a partir do site “Origem das coisas”: “Na Europa no século XVIII havia uma quantidade de doenças, sendo a pior delas a varíola. (…) Poucas pessoas conseguiam ultrapassar a juventude sem contrair varíola e a taxa de mortalidade situava-se entre os 10 e 40%, o que fazia dela a doença transmissível mais temida no mundo.

Nessa época, Lady Mary Montagu, que era a mulher do embaixador inglês em Istambul, reparou que a varíola podia ser evitada através da introdução na pele de indivíduos sãos o líquido extraído de uma crosta de varíola de um indivíduo infetado. Isto provocava a doença mas de forma muito menos agressiva para o organismo. Pensa-se que este método, conhecido por “variolação”, terá tido origem na China. O método foi trazido para a Europa Ocidental e, apesar de ter provocado vários casos de morte por varíola, foi ainda largamente utilizado em Inglaterra e nos EUA até virem a público as investigações do médico inglês Edward Jenner, publicadas em 1796, que se podem considerar como as bases científicas da vacinação.

Jenner tinha decidido investigar uma crença muito popular entre os camponeses, e que era a de que os trabalhadores rurais que lidavam muito diretamente com vacas doentes com a varíola das vacas, conhecida como “cowpox”, e que desenvolviam pústulas semelhantes às dos animais, (uma condição benigna conhecida por “vaccinia”, do latim “vacca”), não eram contagiados com a varíola humana.

Com base nessa investigação, Jenner inoculou um rapaz de 8 anos saudável, que nunca tinha tido nem varíola nem “vaccinia”, com pús de “cowpox”. A criança rapidamente desenvolveu sintomas benignos de “vaccinia” e, mais tarde, foi inoculado com o vírus da varíola humana mas não desenvolveu a doença.

Em resultado da conclusão desta experiência, o vírus causador da “cowpox” passou a substituir o vírus da varíola na técnica de variolação, com a enorme vantagem de causar uma mortalidade muito inferior à deste último (…)”

Alguns pontos de minha reflexão:

1. O processo inicial de vacinação causou vítimas. Depois foi investigado e desenvolvido para ser cada vez mais seguro e isento de efeitos secundários, mas risco zero não existe. Sabemos que usar o cinto de segurança ou ter airbag protege em 99% dos casos e provavelmente prejudica em 1% das vezes, mas não deixamos de usar o cinto por causa disso. Penso que devemos abordar as vacinas da mesma maneira.

2. Apesar dos erros que se cometeram e possam cometer, manifesto a minha confiança na investigação científica e nas medicinas veterinária e humana, cujo saber ensinado nas universidades e praticado nos hospitais é um saber acumulado ao longo de séculos, devidamente registado nos livros (agora computadores) e avaliado pelos cientistas ao longo do tempo. É desse trabalho minucioso de milhares de estudos e investigadores, passando por avaliações e testes de segurança, que se chega às vacinas, antibióticos ou outros medicamentos disponíveis.

3. As vacinas que chegam agora ao mercado são estudadas, produzidas, analisadas e autorizadas pelas mesmas pessoas, empresas e organizações que produzem e analisam as outras vacinas e medicamentos que utilizamos. São recomendadas e administradas pelos médicos e enfermeiros que nos tratam nos hospitais, clínicas e centros de saúde em todas as outras doenças. Se confiamos neles nos outros assuntos, porque havíamos de desconfiar agora?

4. Também os meus animais são regularmente vacinados de acordo com a indicação dos médicos veterinários (inclusive contra o velho coronavírus bovino, que não se transmite aos humanos). Com a sua vacinação evito mortes, sofrimento, prejuízos e reduzo substancialmente o uso de antibióticos para tratamentos.

5. Acho sintomático que muitas pessoas que defendiam ser preciso viver com o risco do vírus e não se preocupavam com as sequelas a longo prazo da doença estejam agora preocupadas com o risco da vacina e os seus efeitos a longo prazo.


quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Porque é que as nossas vacas não estão em pastagem?



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Escrevo depois de uma semana de chuva e com mais chuva prevista nos próximos 10 dias. Não posso ir ao campo buscar erva para as novilhas, dou graças a Deus por ter comida armazenada para todos os animais e tenho finalmente o tempo e o motivo para explicar porque é que a maior parte das vacas leiteiras em Portugal estão dentro de vacarias.





No mundo da publicidade, as vacas estão sempre num prado verde, limpo e seco. Pois. Nesse mundo ideal da publicidade, as famílias também vivem quase sempre felizes em vivendas com jardim. Mas, na vida real, nem todas as pessoas têm casa. Algumas vivem em barracas (pior que vacarias), outras em casas pobres e a maioria em apartamentos nas cidades. Quase sempre por questões económicas, por não ter dinheiro para uma vivenda. Porque, apesar de tudo, um pequeno apartamento na cidade, a poucos kms de trabalho, escola e hospital tem mais qualidade de vida do que a aldeia dos avós, sobretudo se a escola já não existe e a maternidade fica a duas horas de distância. Eu sei que há imensos artigos nas revistas e no facebook a dizer como é bela a vida no campo, com dois ou três exemplos, mas na vida real as pessoas, vá-se lá saber porquê, moram cada vez mais nas cidades e não obedecem a essas opiniões de "boa imprensa").



A criação das vacas em estábulos permite-nos ser mais eficientes, produzindo mais leite na mesma área, na pouca área que temos disponível, o que significa produzir leite a um preço acessível, competitivo no mercado e que os consumidores podem pagar. Produzindo milho no verão, erva no inverno e armazenando sob a forma de silagem, conseguimos alimentar mais vacas que produzem mais leite. Ou, como é o caso de Portugal há vários anos, produzir o mesmo leite com menos vacas! Produtivismo? Ambição? Não. Realismo. É a vida. Estamos no mercado livre. Quem não acompanhou o ritmo ficou para trás, porque não faturou o suficiente para pagar as contas, comprar um trator, a máquina de ordenha e sustentar a família. Os filhos esqueceram a lavoura e foram procurar trabalho noutro lado.



Guardar as vacas nunca foi novidade aqui no Entre Douro e Minho. As vacas pastavam de dia no campo mas voltavam a casa à noite e lá ficavam no inverno, nas “cortes” do gado, no rés-do-chão da casa de lavoura, fazendo estrume com o mato trazido da bouça e aquecendo a casa com o seu bafo e a fermentação do estrume. Hoje não há camas de mato debaixo da casa do produtor de leite (haverá alguma exceção para confirmar a regra), mas quase sempre há colchões de borracha, às vezes camas de serrim, de areia, colchões de água ou camas de palha. Há um telhado isotérmico, cortinas nas janelas e ventiladores automáticos para os dias de calor. Às vezes, nos dias solarengos de Outono e Inverno, quando há espaço disponível, as vacas têm acesso a um parque próximo da vacaria. Na primavera / verão, quase todo esse espaço é necessário para produzir milho. Mesmo que houvesse área suficiente para pastagem, são poucas as casas de lavoura em forma de “quinta” fechada, com todos os terrenos juntos. Os campos estão longe da vacaria. Levar todas as vacas ao pasto seria impossível, pelo perigo de acidentes e porque sujava as estradas com os excrementos dos animais.



Ordenhar vacas na pastagem, com lama, frio e chuva, é duro. Não admira que, mesmo nos Açores, onde existem condições excecionais para a pastagem e pernoita dos animais no campo, se construam cada vez mais estábulos (parto do princípio que as vacas continuam a poder sair durante o dia para o pasto). É uma questão de conforto do agricultor e dos funcionários, de segurança no trabalho, de trabalhar abrigado, poder tratar mais facilmente os animais que precisam de assistência e obter leite com mais limpeza e segurança alimentar.



Na Alemanha, foi realizado um estudo comparativo entre pastagem e estabulação, “Systemanalyse Milch", pelo centro de pastagens da Baixa saxónia/Bremen, em cooperação com várias universidades. Entre outros aspetos, “tomando a pegada de CO2 como uma medida da eficiência climática da produção de leite, o estudo constatou que, em média, o leite das vacas mantidas exclusivamente no estábulo ou mantidas até seis horas no pasto tem uma pegada de CO2 ligeiramente menor e, portanto, tem uma melhor eficiência climática do que o leite das vacarias com pastagem todo o dia.” Há também uma referência a menores emissões de metano na digestão de silagem e concentrado face à pastagem, porque na pastagem há maior digestão de fibra / celulose e é no processo de fermentação / digestão da celulose que se liberta o metano, o que não é necessariamente mau porque esse metano é composto por parte do carbono que as plantas da pastagem captaram na fotossíntese.



Qualquer que seja o sistema de produção, o leite é um excelente alimento e uma importante fonte de fonte de lípidos, proteínas de alto valor biológico, vitaminas e minerais, com destaque para o cálcio. A composição nutricional dos vários “leites” é muito semelhante. As análises mostram uma ligeira vantagem do “leite de pastagem” ao nível de ácidos gordos insaturados, mas essa diferença deve-se à maior ingestão de erva fresca pelas vacas e não à pastagem em si. Portanto, poderemos considerar no futuro voltar a alimentar regularmente as vacas leiteiras estabuladas com alguma erva fresca e poderemos, em muitos casos, dar algumas horas de pastagem por dia para as vacas leiteiras ou, pelo menos, nos dois meses de descanso da vaca antes do novo parto, isto se a indústria e os consumidores estiverem dispostos a pagar o custo acrescido em área e mão de obra. O atual “leite de pastagem” apesar de significativamente mais caro para o consumidor, não é devidamente pago ao produtor.



#carlosnevesagricultor

domingo, 6 de dezembro de 2020

O caminho do presépio até à bouça



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No ano seguinte à morte da avó Esperança, meu pai e os irmãos venderam a última bouça que ficara como a “reserva de usufruto” da matriarca da família. Caso alguém não saiba, “bouça” é o nosso regionalismo para dizer floresta. A nossa floresta, quase sempre pequena e parcelada, como os nossos campos. Era a essa bouça que ia com o meu pai buscar o musgo e cortar um verdadeiro “pinheiro bravo” para árvore de Natal. Procurávamos numa zona da bouça onde houvesse muitas árvores e fosse útil fazer uma monda que deixasse espaço para as árvores restantes crescerem fortes e saudáveis. Nesse tempo, pinheiros e eucaliptos cresciam tranquilos e desordenados lado a lado por entre mato e fetos, sem as polémicas florestais do século XXI.

Depois, mantive o presépio, troquei o musgo por papel verde e comprei a árvore artificial que ainda hoje faz companhia ao presépio, que voltou a ter musgo. Sobre isso, podem (re)ler aqui a minha publicação de 15 de dezembro do ano passado (anda tudo adiantando neste 2020😊) (https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=171859227545718&id=109029053828736 ).

Com a venda da bouça, ficámos com uma “casa de lavoura” sem bouças, o que era estranho há 30 anos, mas também deixámos de andar com o coração nas mãos por causa dos incêndios. Ir à bouça cortar e carregar mato é trabalho de que não tenho saudades, mas, como expliquei aos meus filhos enquanto procurávamos musgo na bouça do avô Ribeiro, foi esse mato que serviu para “astrar” a cama dos animais e esse mato, devidamente amassado e misturado com os excrementos dos animais e depois curtido ao longo de meses, deu o estrume que tornou as nossas terras férteis e produtivas (transportado até lá em carros de bois). A bouça dava também a lenha para cozinhar e aquecer a casa dos lavradores e dos outros que, com ou sem autorização do dono, iam lá buscar lenha. A bouça servia, ainda serve para quem as tem e consegue escapar aos incêndios, como reserva ou “mealheiro” para acudir a uma despesa inesperada da família.

Curiosamente, hoje pela manhã o facebook mostrou-me uma imagem da página Farmers Against Misinformation (Agricultores contra a desinformação) com uma imagem que explica que tudo é agricultura: floresta, pecuária e cultivo dos campos. Mesmo a pecuária “sem terra”, por exemplo a criação intensiva de porcos, aves ou coelhos, é baseada na compra de alimentos a outro agricultor que os cultivou nas suas terras. Apesar de tudo isto, há algum tempo atrás, apagaram-me uma publicação sobre leite num grupo do facebook porque o tema do grupo era “agricultura”...

Estamos no inverno, todos preocupados e ocupados a comentar o vírus, mas era agora que devíamos estar a pensar e comentar como integrar a floresta de forma moderna num ciclo de equilíbrio com o cultivo dos campos e a criação de animais. Era agora que devíamos preparar a defesa da floresta para os incêndios do próximo ano, para continuarmos a ter tudo de bom que ela nos dá, incluindo o musgo e o serrim para o presépio cá de casa!


sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

A “bimby” das vacas

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Quando recebo visitantes na minha vacaria, costumo apresentar-lhe um estranho reboque amarelo que costuma estar acoplado ao trator e parado próximo das vacas como “a minha bimby” 😊. Para ser exato, tenho de reconhecer que os reboques misturadores que temos nas vacarias portuguesas, mais conhecidos como “unifeeds”, não são ainda os “robots” ou sistemas automáticos de alimentar vacas que já existem noutros países, mas andam perto. São a segunda máquina mais importante, a seguir ao sistema de ordenha.


Até há 40 anos, as vacas eram alimentadas com erva ou silagem de milho carregados à mão (com gancho e forquilha) para o reboque ou caixa de carga e às vezes levados em cestas para alguns corredores estreitos dos velhos estábulos. Em pequenas vacarias, esse trabalho duro ainda subsiste, mas ao longo destas 4 décadas fomos aliviando essa tarefa, primeiro com  “desensiladores” e depois com o reboque misturador “unifeed”.


O princípio do sistema “unifeed” ou TMR (total mixed ration – ração totalmente misturada) baseia-se em colocar à disposição das vacas, 24 horas por dia, toda a comida que precisam, devidamente misturada, sob análise e conselho do nutricionista. Carrega-se para o unifeed a palha ou feno, que podem ser recortados e junta-se depois a silagem de erva, silagem de milho, ração ou outros alimentos, mistura-se tudo como numa “picadora 1-2-3“ e distribui-se imediatamente às vacas. Estas, conforme a sua produção de leite ou estado corporal (mais ou menos gordo) podem ainda receber um suplemento individual de concentrado na ordenha ou “estações de alimentação”.


Oferecer sempre a mesma comida pode parecer monótono, mas é mais eficiente porque, na verdade, nós não alimentamos as vacas. Nós alimentamos a “flora ruminal”, que vive na sua pança ou rúmen, o primeiro dos seus 4 estômagos. Para a digestão de cada alimento, depois de triturado na boca, misturado com saliva, ruminado e fermentado, há uma equipa de digestão, composta por bactérias e protozoários específicos. Quando mudamos o alimento, temos de esperar que se desenvolva a nova “equipa” e só depois o animal vai alcançar todo o seu potencial de produzir leite ou engordar para produzir carne. É essa “bicharada pequenina” que é capaz de degradar a celulose e tornar disponível a digestão complementar nos 3 “estômagos” seguintes. É isto que permite alimentar os bovinos e outros ruminantes com pastagens (há áreas enormes que não poderiam ter outra forma de servir para nos alimentar) e aproveitar todo um conjunto de subprodutos para alimentação animal que doutro modo iriam para o lixo.


Nos últimos anos, os reboques misturadores, puxados por tratores, tem sido substituídos por “misturadores automotrizes” mais modernos, inclusive com sensores capazes de analisar imediatamente os alimentos para ajustar as doses de modo a equilibrar o alimento a fornecer. Tal como nos robôs de cozinha para uso humano, também para as vacas podemos escolher entre diferentes cores, marcas e sistemas. Para além das imagens, podem ver aqui um pequeno filme de 2 minutos a mostrar uma dessas maquinas em funcionamento.


#carlosnevesagricultor

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Neste Natal, queijo e vinho nacional!

Já escolheu todos os presentes para este Natal? Já escolheu as lembranças para os clientes especiais ou para aquela pessoa que lhe fez um favor quando mais precisou? Já pensou como “mimar” aquele amigo que é especial para si? A minha sugestão é “QUEIJO”, acompanhado de um bom VINHO. Porquê? Porque há imensas variedades de vinhos e de queijos. Porque “há mais filosofia numa garrafa de vinho do que em todos os livros”, segundo Pasteur, que não ficou conhecido pela sua filosofia ou pelas suas frases, mas pelos enormes avanços científicos que nos trouxe, como as vacinas e a pasteurização… do LEITE, que nos permite obter bons queijos de forma segura.

 

Queijo e vinho são alimentos que resultam de trabalhar a terra, cultivar as plantas e cuidar dos animais. São produtos da transformação do leite e das uvas, com técnicas apuradas através de milhares de anos de história, experiência e inovação. Difícil é escolher. Recomendo produção nacional, porque sabe bem a quem prova e faz bem à economia de Portugal. Com a pandemia e o consequente fecho de restaurantes, queijos e vinhos foram dois dos produtos agrícolas mais afetados!

 

Escolhi meia dúzia de exemplos para ilustrar esta proposta, entre pequenas empresas de amigos que são agricultores, criadores, queijeiros e amantes de queijo, mas que não tem orçamento para publicidade na TV ou espaço nos corredores dos maiores hipermercados. São apenas exemplos para vos abrir o apetite e deixar água na boca. Escolham à vontade. Há estes e muitos mais! Não precisam sair de casa, podem encomendar. Boas escolhas, bom apetite! Natal saboroso! Provem e partilhem!









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domingo, 29 de novembro de 2020

Três coisas que aprendi com a minha avó Esperança

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Entre os meus avós, a única que ainda vivia quando nasci era a minha avó paterna, que se chamava Esperança Rosa da Silva mas era mais conhecida como “Esperança Painça”. “Painço” é uma espécie tradicional de “milho” pequeno, parecido com o sorgo, já cultivado por estas terras antes do atual milho chegar da América com os descobrimentos e que era e é usado na alimentação humana e animal (para aves). Não sei exatamente como chegou essa alcunha à família, mas o bisavô Bernardino, pai da avó Esperança, já foi nomeado como "Painço" quando foi notícia no jornal em 1897, por ter sido espancado por dois capangas contratados, alegadamente num caso de ciúmes😁. Não sei se foi calúnia, caso isolado ou sintomático, mas a minha avó, bem-disposta apesar de austera e religiosa, que teve um filho padre e 3 sobrinhas freiras, parece ter puxado mais ao lado da mãe, de quem herdou os nomes de família.



As memórias que tenho dela correspondem à sua última década de vida, começando quando tinha 4 anos e me dava bolachas (embora eu preferisse fugir para a vacaria atrás da mãe) e acompanharam o declínio da sua saúde até falecer com 90 anos. Não foi à escola, mas aprendeu na “mestra” a ler e escrever. Lia sempre o jornal “A “ordem”. Dizia “auga”, como os galegos (lembro-me dela quando os ouço falar) e mandava apagar a televisão ou a luz que “estava a arder”. Agora as memórias que tenho muitas vezes presentes:

1. Durante a segunda guerra mundial, a minha avó ficou viúva (o avô morreu de insuficiência cardíaca), com 5 filhos a cargo, o mais velho com 12 anos e o mais novo com 7 meses. Desse tempo ficou o exemplo de ter governado a família com a pequena casa agrícola, tendo inclusive aumentado a área, comprando o terreno onde agora moramos, não deixando de valer aos mais necessitados da aldeia;

2. Vivendo connosco, um dia numa discussão a minha mãe disse-lhe: “Não seja teimosa” e teve resposta pronta: “Somos as duas” (e ficou tudo bem).

3. Pela boca do meu pai, aprendi um lema da minha avó que recordo muitas vezes “Antes quero que tenham raiva do que tenham pena de mim!” Não que seja bom sermos vítimas de raiva, às vezes é só ilusão dos outros, mas se houver pena é porque estamos mesmo mal...

São três pequenas e simples memórias que vos quis trazer hoje para apresentar mais uma referência da minha vida. Cada um de nós é único e irrepetível, mas é também o resultado da herança genética, da educação que recebeu e das influências que sofreu.

Lembrei-me destas coisas depois de ler que “A produção de leite é, na maioria das vezes, delegada ao longo de várias gerações”, no calendário Agros de 2020 - mês de novembro. (e obrigado ao primo Fernando Soares por algumas das imagens)


sábado, 28 de novembro de 2020

Plásticos!

Esta semana, na data marcada, entreguei na cooperativa os plásticos que usei ao longo do ano para conservar alimentos para as vacas e regar o milho (fita de rega gota a gota). Quem vende tem obrigação de recolher as embalagens ou plásticos usados. Para pequenas quantidades há os ecocentros. A cooperativa organiza a concentração e chama depois um operador qualificado para levar o plástico para reciclagem.
Antes da pandemia, estava na moda dizer mal do plástico. Parecia que todo o plástico era levado em rios de plástico até ao mar. Parecia que o plástico não podia ser reutilizado, reciclado, que as pessoas não podiam ser educadas, pelo menos, a usar o contentor do lixo, parecia que a única maneira de salvar o mundo era acabar com o plástico, sobretudo o descartável. Lembram-se? Talheres e pratos descartáveis tinham os dias contados.
Depois veio a pandemia deste vírus contagioso e de repente tudo o que era descartável tornou-se precioso. Sacos de plástico destinados a conter lixo foram adaptados para servir de bata e proteger profissionais de saúde. Se a pandemia viesse um ou dois anos mais tarde encontraria o mundo sem plásticos descartáveis e seria ainda pior.
Mesmo sem pandemias de doenças contagiosas, trocar plástico por vidro ou papel também tem custos ambientais na sua produção. O vidro é mais pesado para transportar. Lavá-lo devidamente para voltar a usar sem risco de transmitir covid ou qualquer outra coisa tem custos energéticos e ambientais. Se é melhor ou pior, não sei. Não sou fabricante, nem vendedor, nem especialista em plástico. Procuro ser um utilizador consciente. Mas não aceito a "narrativa" de que trocar o plástico por outra coisa não tem custos. Estudem bem o assunto, façam todas as contas e expliquem-nos bem as coisas antes de tomar decisões dessa natureza. Porque eu repito e insisto: O plástico, por si, não é bom, nem mau, não tem vontade própria, não tem perninhas, asas ou barbatanas, não vai sozinho para o mar. Quem deve ser censurado e castigado são as pessoas "porcas" que atiram o plástico para o chão, para os rios, para o mar ou para o campo do agricultores, com um contentor a poucos metros.
#carlosnevesagricultor


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terça-feira, 24 de novembro de 2020

Subsídio à eletricidade verde 2020? Assim não, obrigado!


 



Estou há dias a adiar escrever sobre isto. Estou há dias à espera de uma resposta aos comunicados das confederações e associações agrícolas sobre o absurdo que se está a passar com o regresso do subsídio à eletricidade verde. Esta ajuda, uma das poucas ajudas à agricultura com fundos nacionais (quase tudo o resto vem de Bruxelas), foi extinta num episódio de tristes declarações do ministro Jaime Silva no Governo de José Sócrates e voltou por ocasião do orçamento retificativo de julho deste ano, por causa da pandemia. Creio que foi a única ajuda para a agricultura nesse orçamento.

Cito o comunicado da Associação interprofisisonal de horticultura do Oeste (AIHO): “A Lei 27-A/2020, de 24 de julho, que aprovou a alteração ao Orçamento de Estado para o ano 2020 (OE 2020), veio reforçar o orçamento do IFAP – Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas para a operacionalização da eletricidade verde (EV). Nesta lei foram criados os apoios descritos no nº 2 do artigo 309.º-A: 20% do valor da fatura para explorações agrícolas até 50 hectares (ha) ou 10% do valor da fatura para explorações agrícolas com área superior a 50 ha.”

Depois disto, o silêncio. Nunca mais se ouviu falar desta ajuda. No final de agosto, várias associações agrícolas, em comunicado, perguntaram pela ajuda. Finalmente, e volto a citar o comunicado da AIHO porque é muito elucidativo, “ A 16 de novembro de 2020, foi publicada a Portaria nº265-B/2020 que estabelece as condições e procedimentos à atribuição deste apoio financeiro. Nesta portaria, é incluído apenas apoio financeiro sobre o termo fixo da fatura (potência contratada estipulando um valor fixo por KVA contratado) não sendo considerado o consumo energético de forma global, o que torna quase insignificante o valor a receber por cada agricultor.

Com base na Lei 27-A/2020, de 24 de julho, um produtor agrícola com área até 50 ha e que consuma 3 500€ + IVA de eletricidade/ano, receberia de apoio cerca de 700€/ano. Com base na Portaria nº265-B/2020, esse mesmo produtor com o total de potência nos contadores igual a 35 KVA, receberia de apoio aproximadamente 120€.” (mas só irá receber 40 ou 50 euros, porque só conta a partir de julho). O título deste comunicado foi “O regresso da eletricidade verde é uma mão cheia de nada!"

Noutro comunicado subscrito por várias associações, incluindo a APROLEP, temos outro exemplo: “um agricultor que semeia cerca de 12 hectares de culturas arvenses de regadio e que suporta um encargo anual com a energia eléctrica a rondar 3.600€, de acordo com o que consta na Portaria, terá direito a um apoio anual de apenas 32,40€, o que se revela um valor manifestamente irrisório face à despesa global suportada (cerca de 0,9%).”

Por estranho que pareça, a “ajuda” é apenas de julho a dezembro… se pensarmos que a rega ocorre sobretudo entre junho e agosto… estamos a falar de receber 10 ou 20% da taxa do contador durante 2 meses… Nem dá para ir jantar fora. Também não é aconselhável, por causa do covid. Por falar em Covid… A portaria publicada em 16 de novembro estabelece como data limite de candidatura 30 de novembro… A candidatura é online, mas o procedimento habitual passa pela deslocação dos agricultores às associações e cooperativas onde os técnicos preenchem a candidatura. Só meia dúzia serão capazes de preencher a candidatura em casa. Talvez ainda tenham de passar no contabilista a pedir duas faturas da eletricidade... Portanto, em pleno estado de emergência, em que pedimos / obrigamos as pessoas a estar em casa, vamos obrigar centenas de milhar de agricultores, a maioria dos quais idosos, população de risco, ou mais jovens com idosos a cargo, a deslocarem-se todos, em meia dúzia de dias, às organizações agrícolas?!!! Mas o que estava a pensar quem decidiu estas coisas desta maneira? E da oposição, ninguém fala disto, porquê?

Não me interpretem mal. Estou muito grato a quem pediu esta ajuda, a quem trabalhou para que existisse, a quem a apresentou a proposta, negociou e votou positivo. Sei o trabalho que dá. Mas assim eu não quero. Sei que muitos agricultores pensam como eu. Não vou colocar a minha saúde e a dos meus em risco, por causa de uma migalha. Se não têm dinheiro, assumam. Se precisam do dinheiro para outra coisa por causa da pandemia, assumam! Se não têm vontade de dar a ajuda, assumam! Mas não coloquem em risco a saúde de técnicos e agricultores para depois dizer que deram mais um subsídio com meia dúzia de euros!


domingo, 22 de novembro de 2020

Memórias de uma aventura no Pingo Doce

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A polémica que nasceu e desapareceu há dias com a hora de abertura do Pingo Doce (ups, já tinham esquecido, não?) fez-me recordar uma aventura que vivi nas lutas do leite, a 22 de Março de 2016, e cuja leitura vos pode ajudar a passar estes dias de recolhimento…


Antes de mais, puxo atrás o filme para fazer o enquadramento: a 1 de Abril de 2015, acabaram as quotas que limitavam a produção de leite na Europa. Isso levou ao aumento de produção, à importação de leite barato pelos hipermercados, à baixa de preço do leite ao produtor, à redução de compras de leite português por parte de Espanha e à redução dos contratos que muitos produtores portugueses  tinham com as cooperativas. Perante o desespero, as  opções eram: 1) fazer barulho à porta das fábricas ou cooperativas e ficar num eterna discussão entre produtores e dirigentes; 2) arranjar problemas com a policia atacando e estragando camiões de leite importado, como faziam então os colegas espanhóis; 3) de forma pacífica mas persistente, apontar a solução mais lógica, que seria os hipermercados darem preferência ao leite português e fazer isto sem voltar a sociedade contra os produtores e  sem problemas com polícia ou tribunais para os colegas que aceitavam participar nas nossa ações, porque somos gente de trabalho que tem família e animais que dependem da nossa presença (um dia conto a minha experiência de arguido nestas cenas).


Assim, numa estratégia de comunicação e pressão contínua da APROLEP, a 17 de fevereiro de 2016, fizemos a primeira ação de “marketing direto” à porta de um Pingo Doce na Avenida da Boavista, no Porto, mostrando os produtos lácteos importados que se vendiam lá dentro e que previamente havíamos comprado; a 23 de fevereiro, domingo à tarde, repetimos a ação no Continente de Barcelos; A 6 de Março, os colegas do Sul fizeram uma ação de Marketing Direto à porta do Centro Comercial Vasco da Gama em Lisboa; E a 14 de Março, numa enorme manifestação organizada em conjunto por APROLEP, CNA e FENALAC, colocámos 200 tratores e um milhar de pessoas na Circunvalação do Porto, com paragens na DRAPN (Governo), no Pingo Doce  e no Continente de Matosinhos. Entretanto, o Continente deu resposta positiva, mas o Pingo Doce queria esperar pela sua nova fábrica para aumentar as suas compras de leite nacional. Que mais podíamos fazer?


No maior secretismo possível, a 22 de março organizámos um “raide surpresa” à loja do pingo doce na Póvoa de Varzim. Um grupo de 15/20 produtores entrou na loja, cada um com um carrinho de compras (um deles levava uma câmara “go pro”), outros com telemóvel a filmar, alguns com fita cola e cartazes bem visíveis para afixar no leite e produtos lácteos importados, tendo o cuidado de nada danificar. Os cartazes foram facilmente retirados  pelos funcionários, mas já depois de fotografados pelos nossos telemóveis e por alguns jornalistas que nos acompanharam; Além disso, para dar o exemplo ao Governo e Comissão Europeia sobre o que fazer com o leite excedentário, comprámos cerca de 1000 litros de leite nacional que entregámos depois no banco alimentar contra a fome. Entretanto, a gerência da loja chamou a polícia que identificou 2 voluntários do nosso grupo, mas não houve consequências.


Sabiam desta história? É provável que não, porque quase não foi notícia. Por azar, à mesma hora em que terminámos a ordenha da manhã antes de iniciar esta “invasão”, terroristas rebentaram uma bomba no aeroporto de Bruxelas. Ainda pensámos abortar a iniciativa, mas as primeiras notícias falavam de um pequeno rebentamento. Não foi pequeno, o atentado foi grave, foi a notícia do dia, ocupou todos os noticiários da TV durante dias, não houve tempo para nós e só no dia seguinte um dos canais passou a reportagem da nossa ação. Mas, apesar disso, pouco tempo depois o Pingo Doce chegou a acordo com uma indústria nacional para embalar leite português até à abertura da sua nova fábrica que permitiu aumentar as suas compras nacionais. Hoje, os preços aos produtores ainda continuam demasiado baixos, ainda há muita gente aflita com os limites de produção dos contratos, mas, curiosamente, alguns dos colegas nesta aventura já vendem leite diretamente para o Pingo Doce e, pelo que vejo, todos os hipermercados vendem leite nacional nas suas marcas próprias e declaram-no com orgulho.#carlosnevesagricultor


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sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Castanhas em ano de pandemia

castanhas2.jpg"As "As castanhas são os aquénios (geralmente três) do ouriço, o fruto, com espinhos, do castanheiro-da-europa (Castanea sativa).
Presume-se que a castanha seja oriunda da Ásia Menor, Balcãs e Cáucaso, acompanhando a história da civilização ocidental desde há mais de 100 mil anos. A par com o pistácio, a castanha constituiu um importante contributo calórico ao homem pré-histórico que também a utilizou na alimentação dos animais.
Os gregos e os romanos colocavam castanhas em ânforas cheias de mel silvestre. Este conservava o alimento e impregnava-o com o seu sabor. Os romanos incluíam a castanha nos seus banquetes. Durante a Idade Média, nos mosteiros e abadias, monges e freiras utilizavam frequentemente as castanhas nas suas receitas. Por esta altura, a castanha, era moída, tendo-se tornado mesmo um dos principais farináceos da Europa.
Com o Renascimento, a gastronomia assume novo requinte, com novas fórmulas e confeções. Surge o marron glacé, passando de França para Espanha e daí, com as Invasões Francesas, chega a Portugal.
A castanha que comemos é, de facto, uma semente que surge no interior de um ouriço (o fruto do castanheiro). Mas, embora seja uma semente, como as nozes, tem muito menos gordura e muito mais amido (um hidrato de carbono), o que lhe dá outras possibilidades de uso na alimentação. As castanhas têm mesmo cerca do dobro da percentagem de amido das batatas. São também ricas em vitaminas C e B6 e uma boa fonte de potássio. Consideradas, atualmente, quase como uma “guloseima” de época, as castanhas, em tempo idos, constituíram um nutritivo complemento alimentar, substituindo o pão na ausência deste, quando os rigores e escassez do Inverno se instalavam. Cozidas, assadas ou transformadas em farinha, as castanhas sempre foram um alimento muito popular, cujo aproveitamento remonta à Pré-História." (Da Wikipédia)

Comecei este texto numa tarde soalheira de início de Outono. Mais cinzentos e preocupantes são os números crescentes de casos diagnosticados de Covid-19 que nos deixam apreensivos quanto ao futuro próximo. Dificilmente teremos magustos e feiras de S. Martinho e o que houver será muito limitado.
Tenho pena da falta de convívio, da festas e do “arejar” que as feiras agrícolas e as feiras das colheitas permitiam. Podemos manter o contacto e passar o tempo com as redes sociais e todos os meios de comunicação à distância, mas não é a mesma coisa. Mesmo assim, mesmo com as limitações, devemos fazê-lo. Fazer o pouco, pequeno que for possível. Manter o contacto através dos novos meios. O “confinamento geral” que passámos e os confinamentos locais ou individuais que teremos de fazer seriam muito mais duros há alguns anos quando não havia internet, telemóveis e redes sociais. Com o outono, o inverno, os dias cinzentos e chuvosos, o cansaço e depressão serão maiores e será mais difícil aguentar.
Como podem ler no texto acima, a castanha já foi peça fundamental da nossa alimentação. Hoje é uma iguaria, uma sobremesa, ainda assim uma produção muito importante em algumas regiões do interior do nosso pais. Comer castanhas também alimenta muitos portugueses.
Comprem castanhas. Vão à feira, ao supermercado ou mandem vir pela net. Coloquem-nas a assar, seja no fogareiro com brasas ou no grelhador elétrico. Convivam em família. Bebam um copo da vossa adega (pelo S. Martinho, vai à adega e prova o vinho), da adega de um amigo (aquele mesmo amigo a cuja horta vocês recorreram no confinamento) ou um copo de qualquer bom vinho, sumo ou o que vos apetecer. Celebrem o S. Martinho em família, em segurança, mas celebrem. Isto vai melhorar! Saúde! (publicado na revista mundo rural de Novembro 2020) Carlos Neves


 

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Temos vacina para as mortes com trator, vamos usar?

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Morreram 57 pessoas em acidentes com tratores em 2019, mais duas que em 2018. Uma morte por semana. Os números mais altos da Europa. Segundo o “Correio da Manhã” de 2/01/2020, “a maioria dos sinistros aconteceu em ambiente agrícola, fora de estrada, sendo que o distrito onde se registaram mais vítimas mortais foi em Bragança, com 11 óbitos. Seguiram-se Braga e Guarda, com seis. Nesta estatística não entram eventuais vítimas que sofreram ferimentos graves e acabaram por não resistir e morrer em ambiente hospitalar.” A notícia mostra-nos ainda que os acidentes ocorrem nas regiões montanhosas. Como bem afirmou Gonçalo Leal, Diretor-geral da DGADR (Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural) no programa “Sociedade civil”, RTP2, no passado dia 29/10, os acidentes devem-se a 3 causas: orografia, condutores idosos e tratores velhos, sem sistemas de proteção.


Há três sistemas de proteção: o arco de segurança, a cabine de proteção e o quadro de segurança, que basicamente é uma cabina sem vidros. Os sistemas de proteção são obrigatoriamente instalados em tratores novos vendidos desde 1994. Mas temos cerca de 80.000 tratores velhos, com mais de 25 anos, boa parte sem qualquer sistema de proteção. Não sei quantos serão e duvido que alguém tenha feito esse levantamento. Fica a sugestão.


Pelo “Jornal de Notícias” de 16/11/2020 ficámos a saber que no futuro código da estrada, “quem não tiver o arco de segurança no trator arrisca multa até 600 euros”. É esta a grande solução do governo para o problema? Como vimos atrás, só uma pequena parte das mortes ocorre na estrada. A maioria ocorre em propriedade privada. Não é com multas na estrada que vamos evitar essas mortes!


O que podemos fazer para mudar isto? Proponho investir uns trocos da “basuca europeia”:


- Para agricultores e empresas que tenham muito trabalho para o trator, proponho um programa para a troca/abate dos tratores velhos, poluentes e perigosos, substituindo por tratores novos, mais seguros, económicos e ecológicos, talvez com um apoio a fundo perdido de 60%;


- Para quem apenas usar o trator poucas horas por ano, se estiver em bom estado de mecânica, proponho um apoio de 90% para a instalação do arco de proteção, que certamente custará muito menos que os 7.000 euros citados na notícia do J.N. Isso já deve pagar uma cabine.


- Por último, é preciso uma boa campanha de comunicação para meter na cabeça dos mais casmurros que o arco da segurança só protege se for usado corretamente. Trazer o arco dobrado para passar debaixo das árvores ou ramadas não funciona, é como levar o capacete no braço para o caso de aparecer a polícia. Só então, depois dos apoios e da comunicação é que as multas farão sentido.


Além de poder salvar algumas vidas todos os anos, este dinheiro não vai ficar nos agricultores. Vai dar trabalho às pequenas empresas, aos mecânicos e serralheiros que vendem e reparam tratores e máquinas agrícolas. Acima de tudo, quanto vale uma vida? Quanto custa o socorro, o tratamento dos feridos e as reformas por invalidez aos sobreviventes? Temos a vacina disponível, de que estamos à espera para usá-la?


#carlosnevesagricultor

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Pingo Doce, vamos lá?

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Eu sei que chego um bocado atrasado à pancadaria, porque o primeiro-ministro já veio hoje dizer que acabou o recreio e às 13h00 de sábado vai tudo para casa, mas não resisto a comentar o que se passou no meu feed do Facebook durante os últimos dias. Se me permitem, vou pegar no comando e andar atrás na gravação automática para rever o filme dos últimos dias:
Sexta-feira, 7 de novembro, 19h00 – o Governo reúne-se para tomar as medidas para conter a segunda vaga que quase todos os países da Europa já tomaram e que, na opinião de muitos médicos que estão na frente da batalha, chegam atrasadas.
Sábado, 8 de novembro – Acordamos, vamos ao Facebook e ficamos a saber as medidas que o primeiro-ministro anunciou à meia noite, nomeadamente o recolher obrigatório ao fim de semana das 13h00 às 6h00 do dia seguinte; Imediatamente, e durante todo o sábado e o domingo, o meu feed de noticias do Facebook (aquilo que vemos quando rolamos o dedo) enche-se de críticas e indignações porque fechar os supermercados à tarde vai concentrar toda a gente nas lojas durante a manhã. Só ao fim do dia vejo uma pequena publicação a lembrar que antigamente não havia hipermercados abertos ao domingo e também se vivia.
Domingo à noite, 9 de novembro – quando finalmente é publicada a lei que regula o recolher obrigatório, aparece a exceção para ir ao supermercado, mercearia e etc. comprar comida durante a tarde; imediatamente começo a ler críticas porque são muitas exceções e assim não adianta nada…
Quarta-feira, 11 de novembro – O Facebook fica inundado de publicações indignadas porque o Pingo Doce vai abrir as lojas às 6h30 aos sábados e domingos. Eu pensei que fosse para evitar a tal concentração de pessoas na loja que toda a gente criticava no sábado, mas devo ter sido o único a entender assim. Hoje os autarcas e sindicatos juntaram-se às criticas, referindo a injustiça de horários dos hipermercados face ao pequeno comércio e o sacrifício que seria para os empregados estar nas lojas às 4h00 da madrugada, sem transportes, etc – e eu acho que estas críticas tem razão.
Quinta-feira, 12 novembro – o Pingo doce percebe que fez asneira, pede desculpa e volta ao horário normal; A situação da epidemia está pior e o primeiro-ministro diz que fecha tudo às 13h00 exceto farmácias, combustíveis e mercearias até 200 m2.
Entretanto, não percebo as críticas ao Pingo Doce porque a empresa proprietária destes supermercados mudou a sede para a Holanda de modo a pagar menos impostos. Aliás, pela análise do meu Facebook, não sei como é que tem lucros, ou como conseguem manter as lojas abertas, ou vender alguma coisa! Ninguém vai ao pingo doce ou outros hipermercados, toda a gente diz que só compra no comércio local…
Eu, que devo ser insuspeito de defender os hipermercados, que já organizei várias manifestações contra as práticas do pingo Doce e de outros hipermercados, incluindo duas “invasões” pacíficas de lojas por causa da importação de leite (que entretanto acabou, fruto dessa pressão que fizemos), não acredito que o pingo doce esperasse vender mais por causa de abrir às 6h00, parece-me que queriam talvez ficar bem na fotografia. Fiaram-se nas opiniões das redes sociais e correu mal. As opiniões mudaram mais depressa que o vento de incêndios traiçoeiros e queimaram-se bem. Basicamente, acho que andamos todos zangados com o vírus e disparamos indignação sobre tudo o que mexe. Mas, no Pingo Doce, no Continente, nos outros hipermercados, nas mercearias do bairro ou dos centros comerciais, nos mercados municipais e nas feiras de levante, em todos os lugares vendem-se produtos dos nossos agricultores; em todos esses sítios trabalham pessoas que precisam do salário para sustentar a família. Não deixem de comprar o que precisam no sítio em que confiam e se sentem seguros. Ah, a mim não me apanhavam lá às 6h30 nem conto lá ir durante o fim de semana. Vou ficar em casa e só sair em caso de extrema necessidade. Temos de reduzir saídas e contactos. Vai doer para muita gente (restauração, etc), que vai precisar de muita ajuda, ma tem de ser. Quanto mais a sério levarmos este assunto, mais depressa recuperamos e com menos vítimas.
#carlosnevesagricultor

domingo, 8 de novembro de 2020

Adubo mais caro para os pequenos agricultores por causa do PAN



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Em comunicado, o Grupo Parlamentar do PAN – Pessoas-Animais-Natureza afirmou que “conseguiu o acolhimento do Governo, em sede de discussão na especialidade do Orçamento do Estado para 2021, de uma medida que visa agravar a taxa de IVA dos adubos sintetizados e fertilizantes não-orgânicos de 6% para 13% em 2021, com o objetivo de fomentar a prática da agricultura em modo biológico.”





Começo pelo lado positivo: De forma involuntária, o PAN reconhece finalmente a importância da pecuária, porque os fertilizantes orgânicos disponíveis no mercado são, em grande maioria, compostos pelos excrementos de galinhas, porcos e outros animais da “pecuária intensiva e super-intensiva” que o PAN está sempre a criticar. Bem-vindos à realidade.

Os excessos ou erros de adubação podem, efetivamente, causar poluição das águas, nomeadamente em nitratos. Mas esta medida não vai ter qualquer efeito nesse sentido nem vai “fomentar a prática de agricultura biológica”, que é um assunto mais complexo que deixo para outra publicação.

Se queremos reduzir esse problema, devemos começar por promover análises de solo, apoio técnico, formação dos agricultores e agricultura de precisão, para aplicar da forma mais correta possível a quantidade exata que as plantas precisam, sem que o adubo se perca por escorrência.

Se queriam promover a adubação orgânica e ajudar os agricultores, deviam isentar o iva do adubo orgânico. O que fazem aqui é aplicar mais uma das “taxas e taxinhas” de que tanto gostam.

O que esta medida vai fazer é incentivar as empresas agrícolas de maior dimensão a comprar o adubo em Espanha, porque segundo as regras de iva intracomunitário ficam isentas. Na verdade, o IVA é um imposto sobre o consumidor mas que obriga as empresas a empatar dinheiro. Os agricultores de média dimensão, com contabilidade simplificada ou organizada, recebem iva quando faturam os produtos que vendem, pagam iva quando compram e depois, ao fim de cada trimestre, se houver IVA a entregar ao estado entregam imediatamente, mas se houver a receber, só podem pedir o reembolso quando tem a receber um mínimo de 3000 euros. Portanto, esta medida vai obrigar os agricultores a gastar mais dinheiro, que as empresas de adubos vão guardar 3 meses até entregar ao estado e depois os agricultores levarão muitos meses até poder pedir a devolução.

Isto será efetivamente negativo para os pequenos agricultores, a agricultura familiar e de subsistencia, os que faturem menos de 12.500 euros por ano, que têm contabidade simplificada e estão no “regime de isenção de iva”, não sao obrigados a cobrar iva quando vendem nem tem direito a receber o iva do que compram: são esses que vão pagar o adubo mais caro, se for faturado. Portanto, esta medida também pode promover a venda sem fatura. Era nisto que estavam a pensar? Ou não sabiam que a realidade é assim?


terça-feira, 3 de novembro de 2020

Porque terminei as sementeiras em Outubro?

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Tal como muitos colegas agricultores, passei os últimos dias de outubro a todo o vapor para concluir as sementeiras antes do final do mês. Porquê? Por um lado, avizinhava-se mais chuva que podia impedir a entrada do trator nos campos mais encharcados. Este, na imagem, já foi semeado em setembro, para prevenir essa situação. Por outro lado, se atrasarmos a sementeira para o tempo frio de dezembro ou janeiro não teremos as ervas crescidas e maduras para colher no início de abril. Mas há uma terceira razão, uma regra que um e-mail e uma sms do Ifap (Instituto de financiamento da agricultura e pescas) me recordaram: “Como aderente da “prática equivalente” no Pedido Único 2020, relembra-se que ao abrigo do Despacho Normativo n.º1-C/2016 é obrigado a instalar pelo menos uma cultura de cobertura outono/inverno elegível até 31 de outubro. A sua destruição, colheita ou incorporação apenas é permitida a partir de 15 de março de 2021. “
Passo a explicar: Para receber os “subsídios agrícolas anuais” que Bruxelas definiu para compensar a perda de rendimento, os agricultores tem de cumprir várias obrigações de carácter ambiental. Neste caso concreto, por cultivar mais de 15 hectares, tenho de deixar 5% da área em pousio (sem cultivar) ou com culturas de interesse ecológico. Optei por semear luzerna nesses campos. Além disso, para promover a diversidade de culturas, apenas poderia semear 75 % da área com a cultura principal (no nosso caso, o milho) ou, em alternativa, posso semear 95% de milho (que preciso para alimentar os animais) se me comprometer a semear a tal “cultura de cobertura” (erva) no outono/inverno. Quais as vantagens ecológicas? Desde logo, temos duas culturas anuais e, portanto, diversidade. Depois, vamos evitar a erosão da terra por ter a cobertura vegetal durante o período de maior precipitação. As raízes da erva impedem o arrastamento da terra (podem ver isso nos taludes de autoestradas recentes). Por último, essa cultura vai utilizar o adubo que sobrou da cultura do milho, sobretudo o azoto, que as chuvas de inverno poderiam arrastar para a água dos rios ou infiltrar nas correntes subterrâneas aumentando o teor de nitratos.
Os agricultores são depois auditados / fiscalizados por uma empresa acreditada ou pelo próprio Estado. Isto é a sério. Um colega que atrasou a sementeira da erva por causa da colheita do milho e da chuva abundante de um outono passado ficou sem largos milhares de euros a que teria direito. E não adiantou reclamar. Regras são regras e há auditorias de Bruxelas.
A Política agrícola comum nasceu num momento de fome na Europa, após a segunda guerra mundial. Teve tanto sucesso que gerou excedentes e foi preciso colocar limites como as quotas de produção. Além disso, ao longo das últimas décadas passou a ter cada vez mais objetivos ecológicos, pagando aos agricultores pelas medidas agro-ambientais adotadas ou exigindo um conjunto de práticas de bem-estar animal ou de proteção ambiental, sem descurar o primeiro objetivo de produzir os alimentos que a população precisa, ao custo que o nível de vida permite pagar. Há quem ache que as exigências são poucas, apesar de aumentarem para a próxima PAC. Produzir alimentos e proteger o ambiente exige bom senso. Na teoria, atrás do teclado é fácil ser puro e criticar. Na prática temos de procurar equilíbrios.
#carlosnevesagricultor
#pac
#greening 

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Tá bô p'ra comer o ganhado!

Lá fora chove. Chuva macia, boa, certinha, daquela que se infiltra no solo sem arrastar a terra fértil para os rios e para o mar. Boa para regar as sementeiras de erva do outono, boa para recuperar as reservas subterrâneas de água e boa ainda, li ou escutei algures, para engordar as castanhas mais atrasadas.

Ali na vacaria, à mangedoura, abrigadas e enxutas, vacas e novilhas comem o que cultivámos e guardámos, a silagem de erva do inverno passado e a silagem de milho deste verão, condimentadas com um pouco de palha e ração qb. Hoje está mais agradável ali que na pastagem.

Chuva boa de morrinha, mas dia morrinhento, triste e deprimente por causa da mesma chuva. Algures na América do Norte já cai neve e uma colega agricultora fala em colocar a árvore de natal. O fenómeno deve ser global, porque na rádio falavam do mesmo, da árvore de Natal, não da neve, embora ontem já tenha nevado em alturas do Barroso, Boticas. Coisas boas que sabemos pela internet, não é só notícias e contra-notícias de covid.

Natal já? Calma, ainda faltam dois meses. Não gastem já o Natal. Quando o presidente falou em repensar o natal não era para celebrar antes dos Santos, era só para não ter 50 ou 100 pessoas à mesa.

Eu sei que “dos Santos ao Natal é um salto de pardal”, mas ainda falta o S. Martinho, o verão de S. Martinho e as castanhas. Castanhas boas e com produção a sério vem de Trás os Montes, mas por aqui junto ao mar também há castanheiros e castanhas. Já colhi e comi meia dúzia delas de um pequeno castanheiro plantado na bordadura dos campos, ao pé da ribeira. (e mais algumas que a minha esposa trouxe do mercado).

Ainda há por aí bastantes castanheiros. Antigamente havia mais, mas foram-se cortando porque a sombra não deixava crescer o milho, porque ficou mais caro mandar fazer a mobília de madeira de castanho do que comprá-la e a baixa produção de castanhas ainda tinha de ser dividida entre o dono e a rapaziada que por esta altura batia todos os castanheiros da região. Apesar disso, há 30 anos, quando andávamos na silagem, então com a máquina que cortava um linha de milho de cada vez, enquanto esperava pelo reboque ainda dava tempo para encher os bolsos e a caixa de ferramenta do trator com as castanhas que à noite assávamos no fogareiro com carvão ou no forno ainda quente do fogão a lenha. Hoje, para ter menos trabalho, pode-se usar a torradeira / sandwicheira elétrica, não tem o mesmo sabor mas é fácil e rápido.

Pois, já estamos a ver que não vamos ter os magustos do costume, mas podemos “repensar o S. Martinho e os magustos”. Pode ser em zoom, com sala de chat do facebook ou no sossego da família nuclear, podemos comer umas castanhas regadas com um bom vinho, vinho do Porto, ou sumo ou o que quiserem.

Disse-me o José Macedo, produtor de leite e de castanhas, a quem roubei esta foto, que o mercado da castanha está mais difícil por causa da pandemia. Vamos ajudar? A castanha faz parte da história da nossa alimentação. Comprar, assar e comer castanhas sabe bem e faz bem à economia de Portugal. Em dias morrinhentos ainda sabe melhor.

sábado, 24 de outubro de 2020

O nome da terra

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Vocês sabiam que cada campo, cada parcela de terra tem um nome? Sexta-feira  terminei as sementeiras no campo da “Arroteia de baixo”. Do outro lado da estrada está outro campo, a “Arroteia de cima”, ainda à espera da semente. Uma “arroteia” é um terreno que foi desbravado, provavelmente há centenas de anos. O meu pai conta que estas parcelas de terra, compradas pela minha avó, pertenceram em tempos ao convento Franciscano de Azurara, que podem ver ao fundo, na foto tirada  hoje na sementeira do campo de “Montezelo”.  Talvez este nome queira significar um pequeno monte, como é o caso.  É possível que quase todos os terrenos que cultivo por aqui, entre Árvore e Azurara, tenham sido pertença desse mosteiro, embora na história dos registos das propriedades haja mais referências ao convento de S. Bento de Vairão. 


Também semeei o “Campo do Sol”, que deve ter sido batizado assim por estar num declive exposto a sul e, portanto, ao Sol. Passei ainda pelo “Campo do Outeiro” (outro “pequeno monte”). Do outro lado da estrada velha, está o “Brejo”. “Brejo” significa pântano. Hoje é um terreno enxuto, ligeiramente arenoso, mas estando junto à ribeira da Granja, devia ser um local húmido que terá sido drenado. Por causa dessa ribeira, cultivo várias parcelas que ficam na sua margem com o nome de de “campo da ribeira”. Temos depois de distingui-las: “Ribeira do Loureiro, Ribeira nova...


Também cultivamos uma “Agra”, que tal como “agro” significa “campo”. Há depois um “Campo da Bouça”, naturalmente junto a uma bouça, e o campo da “Bouça Aberta”, uma clareira rodeada de floresta por dois lados (talvez no passado fosse uma clareira no meio das bouças, daí o nome. Há ainda as cortinhas. Cortinha é o que se chama ao terreno que fica junto à casa agrícola. 


Estes nomes estão no registo predial dos terrenos, nas escrituras de compra e venda, nos contratos de arrendamento e nos registos que temos de fazer das sementeiras, adubações, colheitas e tratamentos. Precisamos desses registos para nosso controlo e alguns são obrigatórios por lei.


Podemos ainda dar novos nomes à terra. O meu filho Luís, que me acompanhou muitas vezes na mudança da rega durante este verão, batizou os campos conforme o sistema de rega. Tínhamos o campo da gota-a-gota, o campo da máquina verde, o campo da máquina vermelha e o campo da máquina suja (por causa do óleo de lubrificação que escorreu da corrente).


Cada parcela, cada campo, cada terreno tem um nome, uma história e características que aprendemos com os antepassados, que vamos aprendendo com a experiência e que num futuro breve poderemos aprofundar com a agricultura de precisão que, com recurso a sensores, imagens de satélite e sistemas informáticos nos permitirá cultivar cada metro quadrado de forma mais eficiente e sustentável.


#carlosnevesagricultor