A raposa, até agora, foi boa para mim, porque quem não me faz mal já faz bem. A foto de uma raposa a passar ao lado de minha casa causou intenso debate entre os defensores das galinhas e os defensores da raposa, como se o meu comentário “anda mais perto do que eu pensava”, fosse um apelo à caça do animal. Ora eu não sou caçador de raposas. Aqui na net sou mais do que eu, mas sou apenas caçador de preconceitos, e apanhei-vos, porque eu só perguntei se os galinheiros estavam bem fechados. Soube, entretanto, que não estavam. Tem sido uma razia com galinhas, gansos e patos aqui à volta, porque as pessoas já não estavam habituadas às raposas, mas as raposas estão a habituar-se às pessoas e têm cada vez menos vergonha. Tive relatos de raposas que vão à porta do café, entram nos quintais durante o dia e deitam-se nos muros como os gatos e, já agora, também levam gatinhos.
Até agora, a raposa foi “boa” para mim porque não me fez mal, não estragou milho nem atacou as minhas galinhas, talvez porque eu tinha o galinheiro fechado por causa da gripe das aves ou talvez a raposa não goste de galinhas com cheiro a vaca e se um dia tiver problemas a primeira solução será reforçar o galinheiro.
Sobre os preconceitos, um facto: Aqui não houve incêndios. A raposa não veio a fugir de qualquer problema: é a natureza a evoluir naturalmente, como sempre evoluiu, a crescer e reproduzir-se quando tem oportunidade e, curiosamente, aqui nos meus campos cada vez mais no meio da cidade, de estradas, armazéns, casas e carros, andam cada vez mais animais: As andorinhas continuam a vir todas as primaveras, uma coruja veio viver para o Sinal, uma lontra para o meio do milho, uma ave de rapina (milhafre, acho) é visita cada vez mais frequente, as cegonhas vieram do rio Vouga para o Rio Ave, os peixinhos voltaram ao ribeiro que está menos poluído e as gaivotas que até há 30 anos só comiam peixe, aprenderam que quando alguém mexe na terra com o trator levanta minhocas e outros bichinhos que elas gostam de comer e por isso as gaivotas deixam a praia e vão cada vez mais para o interior, até agora, sem prejuízos, mas temos de estar atentos e saber viver com isto.
Entretanto, o “lobo mau” está de volta ao Alto Minho e a Trás-os-Montes. Sucedem-se os relatos de ataques a rebanhos. Toda a gente concorda que é preciso “mais cabras nos montes e menos cabr*** nos gabinetes”, e o lobo também concorda, porque lhes chama um petisco, às cabras, porque os outros ficam longe, mas depois as indemnizações vêm tarde ou nunca, os agricultores ficam sem os animais e com o prejuízo, as pessoas desesperam, desistem ou revoltam-se e os montes ficam sem as vacas, as cabras e as ovelhas. Não falei disto até agora porque o lobo ainda não chegou aqui e esta página é sobretudo para falar da realidade da minha agricultura, mas, POR FAVOR, VAMOS DAR ATENÇÃO A ESTE PROBLEMA E AJUDAR A GENTE QUE ESTÁ A SOFRER COM OS LOBOS? Ou cães vadios, seja lá o que for! Mais ajuda, mais ação e menos discussão!
Pior do que o lobo, O JAVALI É O GRANDE VILÃO da agricultura portuguesa. Ainda não chegou aqui, mas já anda perto, literalmente a meia dúzia de kms. Destrói campos de milho, onde calha, à sorte, fuça e escava, um bocado aqui, outro bocado ali. Nas clareiras de milho destruído crescem em vez dele as figueiras do inferno, ervas daninhas muito venenosas. Fazer seguros? Parece que só pagam prejuízos acima de 30%. Cerca elétrica? É uma solução que está a ser estudada, mas é muito mais difícil cercar um campo no meio do monte contra o javali do que um galinheiro contra a raposa. Aquela piada “posso não valer nada, mas javali”, ficou desatualizada: o Javali vale cada vez mais pela negativa, é uma praga descontrolada que está a fazer muito mal à nossa agricultura: ficam campos abandonados porque as pessoas desistem de produzir milho. Sucedem-se acidentes na estrada e invasões nas cidades. Podem ser portadores de doenças como a peste suína africana.
Arrisco dizer que, em muitas situações, o javali está a causar, hoje, já, na agricultura portuguesa, em muitos casos concretos, mais prejuízo do que as alterações climáticas ou o acordo Mercosul e, tenho a certeza, é mais fácil resolver o problema do javali do que as outras duas coisas, que são fáceis de discutir na net mas são realidades complexas com muitas pontas soltas. Portanto, podemos deixar-nos de tretas e tratar do javali? Vamos pegar este “touro pelos cornos” ou vamos abandonar os campos e os agricultores? Senhores caçadores? Senhores ministro da agricultura e do ambiente? Por favor?...
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