quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

Leite inteiro e "gordofobia"


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Andam por aí "mosquitos por cordas" com um polémica por causa de algumas marcas terem passado a chamar "Leite inteiro" ao que até agora se chamava "leite gordo". Eu não tenho tempo para discutir o assunto nem tenho qualquer esperança de acabar com essa polémica, porque polémica é precisamente o que toda a gente quer (a comunicação social, os donos das redes sociais e as pessoas que estão aborrecidas e querem resmungar com alguma coisa), mas venho aqui dar o meu contributo, não sei se estou a deitar "água no lume" ou "achas para a fogueira", mas cá vai.

Eu acompanhei a "luta" de dezenas de anos de pessoas como o Dr Pedro Pimentel, que foi secretário-geral da ANIL, Associação dos Industriais de Lacticínios, para que se pudesse chamar "inteiro" ao leite gordo. Fez-se essa luta porque nos diziam que as pessoas não bebiam leite gordo com medo da gordura e portanto seria bom para o setor mudar o nome para "leite inteiro", como sempre se chamou nos outros países, e portanto, posso testemunhar que, na origem, isto não teve nada a ver com as modas "woke" dos últimos anos.(C.N.) Passo a palavra ao Pedro Pimentel:

"O tema da 'gordofobia' no leite tem uma história longa.

Em Portugal vingou, de há muito, a designação de magro, meio-gordo gordo para os leites que apresentam um teor de gordura inferior a 0,5%, a entre 1,5 e 1,8% e acima de 3,5%.

Refira-se que quando o leite é ordenhado tem, em média 3,7% de gordura. Ou seja o leite tal como é produzido pela vaca tem essa parcela de gordura, mas convencionou-se - noutros tempos - que essa seria a designação de venda do produto.

Como refere a notícia do DN a designação INTEIRO (a também as designações DESNATADO e SEMI-DESNATADO) é a que prevalece na generalidades dos países: Espanha, França, Alemanha, Bélgica, Itália, Reino Unido, EUA, Canadá, Brasil e em muitos mais e corresponde ao que efetivamente acontece: leite com a gordura natural ou leite a que foi parcial ou totalmente retirada a respectiva nata (a gordura do leite).

Em boa verdade, é muito redutor falar num produto GORDO quando o mesmo contém apenas 3,5% de gordura, quando existem no mercado inúmeros produtos magros ou light que têm 5 ou 10 vezes mais gordura.

No final dos anos 90, quando exercia as funções de secretário geral da associação de lacticínios portuguesa, fiz inúmeras démarches para alterar a nomenclatura utilizada ou, pelo menos, permitir às marcas que tivessem a hipótese de utilizar a designação de venda que entendessem.

Na altura, a autoridade portuguesa que poderia propor essa alteração legal opôs-se sempre a essa modificação com o extraordinário argumento, apresentado pelo responsável à época, de que "a minha mulher está habituada a essa designação e não perceberia a nova terminologia".

A coisa, não tendo qualquer graça, converteu-se em piada e dizia-se que as leis teriam que ser previamente validadas pela mulher do Eng.º X.

Contudo, num contacto totalmente fortuito com os serviços de tradução da União Europeia, consegui convencer a tradutora de um Regulamento sobre as designações de Leite, a - na versão portuguesa - referenciar as duas famílias de terminologias: gordo, meio-gordo, magro ou inteiro, desnatado e semidesnatado.

Ou seja, 'venceu-se' na secretaria um jogo que estava engalinhado dentro de campo.

Apesar disso, as marcas mantiveram a terminologia utilizadas por muitos anos, não sei se por temerem confundir o consumidor se por alguma cristalização de raciocínio.

E, sim, acredito que a mudança de designação de venda é um sinal-dos-tempos. Mas que poderia estar em prática, já não tenho de cor, mas há pelo menos dezena e meia de anos.

Uma das peripécias que, um dia, farão parte, por certo, de um livro de memórias que esses tempos me deixaram."(PP)

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