
Na freguesia onde vivo, Árvore, existem seis casas agrícolas, seis “casas de lavoura” com famílias que se dedicam à produção de leite. Por coincidência, metade estão reunidas à volta do pequeno e antigo largo de Lente, na curva mais apertada da Nacional 104, que liga Vila do Conde a Santo Tirso. Nas suas eiras de granito ocorreram, ao longo de séculos, as desfolhadas coletivas do milho, tal como relatadas nos livros de Júlio Dinis, milho que depois era guardado no espigueiro e servia de alimento a pessoas e animais. Há 50 anos, com o crescimento da produção de leite, passámos do aproveitamento do milho grão para a silagem que utiliza toda a planta do milho, porque, ao contrário de nós e dos outros monogástricos, as vacas conseguem digerir a fibra. A silagem era feita com pequenos tratores e máquinas de ensilar, de forma individual, cada família por si . Mais recentemente, nos últimos 20 anos, essas pequenas máquinas foram substituídas por grandes automotrizes que colhem 6 ou 8 linhas de milho e precisam de vários tratores e reboques para transportar a silagem para o silo. Há quem pague esse serviço e quem faça equipas entreajuda com amigos, vizinhos e familiares, usando o seu trator e reboque.
Há mais de 60 anos, a minha tia Ana, irmã de minha mãe, deixou a casa materna junto à fonte, em Rio Mau, e pelo casamento veio morar para uma destas casas de lavoura aqui no lugar de Lente. Há 15 dias, por algumas horas, eu deixei a minha casa na fronteira dos lugares do Souto, Pindelo e Quintã, que o povo chamava de “Quintão”, e subi até ao lugar de Lente para “ajudar quem me ajudou”, neste caso os meus primos que, como eu, continuam o legado da família na agricultura e produção de leite. No mesmo dia, no sentido oposto mas com o mesmo objetivo, o Carlos Antunes desceu da freguesia de Vairão, para ajudar na silagem do seu tio, vizinho dos meus primos. Numa das viagens entre o silo e o campo, tive de parar na estrada, enquanto o Antunes manobrava o trator e reboque, em marcha-atrás, para começar a cortar o milho num dos campos. Aproveitei a paragem para puxar do telemóvel de modo a filmar e depois mostrar uma manobra bem feita, mas normal nas nossas silagens. Partilhei o vídeo na minha página de facebook alguns dias depois, quando já andava noutra equipa a colher outra silagem, desta vez em Mindelo, entre campos, bouças, casas, estradas e linha do metro, no “mosaico” típico aqui de Entre Douro e Minho.
O vídeo tornou-se viral, teve milhares de “gostos”, mereceu elogios, partilhas e impressionou agricultores de todo o mundo, nomeadamente do Norte da Europa, uns admirados com a destreza da manobra, outros a teimar que devia “entrar de frente”. Pela amostra dos comentários, fiquei com a impressão que somos bons a conduzir, inventar e desenrascar, face aos nossos colegas europeus que resistem mais à mudança.
Foi a minha publicação mais vista de sempre. Milhares de “gostos” e centenas de comentários e partilhas. Em duas semanas, a minha página passou a barreira dos 20.000 seguidores e o alcance das minhas publicações passou de 400.000 para mais 3 milhões de pessoas. A todos os que agora aqui chegaram, bem-vindos!
A quem me acompanha há vários anos, comentando e colocando “gostos”, muito obrigado! Para esses, uma nota final: o campo que aparece no filme é nesta imagem é o campo de uma história que já contei aqui:
No livro "memórias de um lápis de lousa", o autor, Fernando Pinheiro lamentava que o velho tanque de lavar (no canto esquerdo inferior da imagem), por onde passava no caminho para a escola, o tanque para regar o campo onde ia com os colegas de infância fazer xixi na toca dos grilos na primavera, esteja agora abandonado e a ramada tenha desaparecido. Respondi que o tanque está abandonado por um bom motivo: todas as pessoas agora têm água canalizada e máquina de lavar. É verdade que as ramadas foram quase todas cortadas, porque esta terra, muito próxima do mar, tem poucas condições para produzir vinho de qualidade, mas não falta bom vinho português, de melhor qualidade que antigamente. E o terreno continua a ser regado, agora com motor direto do poço e continua cultivado pelos descendentes ou caseiros, tal como todos os terrenos das antigas casas de lavoura do lugar de Lente e de toda a freguesia de S. Salvador de Árvore.
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