sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Cinco fardos, dois rolos e favores em cadeia


feno24-1.jpg




feno24-4.jpg


feno24-3.jpg


feno24-2.jpg



“Cinco pães e dois peixes” é o nome de uma campanha solidária que a ACR (*) tem há vários anos, onde o pouco se torna muito para ajudar quem mais precisa.

Antes desta campanha surgir, noutra atividade da ACR, eu ouvi um dia alguém, talvez o saudoso Padre Rui Osório, Assistente da ACR no Porto, talvez outro que não recordo, levantar a hipótese de que o milagre da multiplicação dos peixes não tivesse sido multiplicação mas antes um “milagre da divisão”. Talvez não houvesse apenas um rapaz com cinco pães e dois peixes. Talvez o exemplo de partilha desse alimento tenha contagiado outros que também tinham trazido uma merenda escondida e dessa partilha tenham sobrado doze cestos.

Não sabemos exatamente o que aconteceu e não quero discutir isso. Sabemos que a Bíblia não é para ler “à letra”, como uma notícia de um acontecimento ou um livro de história. É muita coincidência ter cinco pães e dois peixes, 7 alimentos, como os sete dias da semana, e tenham sobrado 12 cestos como os 12 meses do ano e as doze tribos de Israel. Sabemos que 3, 7 e 12 são números que representam a plenitude na Bíblia. Pode ter sido multiplicação ou divisão. Foi impressionante e inspirador e deve servir de exemplo.

Assisti aos incêndios de Setembro de 2024 com o coração apertado, debaixo do fumo trazido pelo vento, mas longe do fogo, orgulhoso por ver o contributo que a agricultura e muitos agricultores deram para proteger as casas e bens de muita gente, com tratores, cisternas e depósitos improvisados, combatendo o fogo onde os bombeiros não conseguiram chegar. Entre muitos relatos de heroísmo que devem ser recordados, Impressionou-me o relato do trabalho de um estudante universitário com o trator do avô, a lutar contra o fogo num trator com o motor de arranque avariado, que só pegava de empurrão (agora os tratores novos com caixa de velocidades automática já não arrancam assim). Já depois de ter escrito este artigo fiquei feliz ao saber que a empresa que importa os motores Perkings já lhe ofereceu a revisão e reparação do trator. Merecido!

Alguns dias depois, recebi um pedido para ajudar os agricultores de Castro Daire que perderam tudo nos incêndios, nomeadamente pastagens e feno. Quem pediu ajuda não era agricultor, mas alguém preocupado com os agricultores e sabia que no Verão de 2017 também andei de trator, reboque e camião a recolher rolos de fenosilagem para ajudar um pouco quem precisava mais.

Este ano tínhamos menos tempo e mais experiência, por isso dei a volta com o “chapéu” a “fazer o peditório” de forma moderna. Discutimos o assunto num grupo online de produtores de leite da Aprolep Associação dos Produtores de Leite de Portugal e quem quis ajudar escreveu num formulário Google que valor estaria disponível para dar e contratámos a compra de feno para enviar. Contactámos a associaçao de criadores da raça arouquesa, responsáveis locais da ACR e da autarquia de Castro Daire para organizar a distribuição local do feno aos pequenos agricultores de Cinfães e Castro Daire. Muito obrigado a quem ajudou e trabalhou em todo este processo! Para acabar de encher o segundo camião de feno, porque ainda havia espaço após esgotar as primeiras ofertas, coloquei à venda alguns exemplares do meu livro de crónicas agrícolas e o valor, descontando o custo do envio dos livros, foi todo para converter em feno. Da minha parte, só dei algum tempo para isto.

A impressão desses livros já tinha sido paga pela generosidade de um amigo e o valor da venda tem me permitido tornar real o que vi no filme “Favores em cadeia”, em que alguém ajuda outro, de alguma forma, e quem é ajudado não pode agradecer, mas é “obrigado” a fazer três boas ações a três pessoas diferentes, numa espécie de “reação em cadeia”.

A nossa intenção é preservar a privacidade de quem ofereceu e quem deu ajuda, mas é importante divulgar estas coisas para que os agricultores, enquanto grupo, não sejam notícia apenas para pedir ajuda, mas também quando são solidários. Para que isto sirva de exemplo para outras situações e para que exista um controlo público sobre as ofertas e ajudas, de modo a que a repartição seja o mais justa, equilibrada e abrangente.

É claro que o Estado deve ajudar e vai ajudar, mas as ajudas do estado demoram tempo, há sempre leis a fazer, formulários a preparar, faturas a exigir, controlos a fazer. Por isso as pequenas ajuda privadas imediatas são importantes (e houve muitas que não foram notícia!), não só pela ajuda em si, mas sobretudo porque são um sinal de esperança, de ânimo para quem perdeu muito, para quem passou por muito. Permitem-nos dizer a essas pessoas que não estão sozinhos e dizer que os apoiamos porque sabemos que a agricultura é importante para produzir alimentos, para ocupar o território, para modelar a paisagem e para proteger as populações dos incêndios ao manter os terrenos limpos pela pastagem ou cultivados junto às povoações. E por ter os tratores que ajudam a apagar incêndios, mesmo sem motor de arranque!...

Que esta minha história aconchegue os vossos corações neste Natal. Um santo e feliz para todos! (*) Escrito para a revista da Acção Católica Rural - ACR - Mundo Rural

Carlos Neves

Sem comentários:

Enviar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.