
Fez ontem um ano que publiquei um texto sobre vacinas que vem a propósito recordar. Mas, antes disso, quero dizer que as redes sociais me recordam cada vez mais a história do “velho, o rapaz e o burro”, que eram sempre criticados pelo povo quer fosse o velho em cima do burro, ou o rapaz, ou os dois, ou os três a pé, ou o velho e o rapaz com o burro ao colo.
Em 2020: "A vacina devia ser testada nos políticos"; Quando chegou a vacina: "Foi muito rápido, não tomo porque não confio"; Quando vacinaram médicos: “deviam ser os velhinhos”; quando foram os velhinhos com mais de 100 anos : "É um desperdício!" (garanto que li vários comentários desses). Quando vão ser vacinados alguns políticos: "É uma vergonha!"
Posso compreender a necessidade das pessoas desabafarem sobre tudo e o seu contrário, mas acho mal, tanto os “aproveitamentos” de quem passa à frente na fila para se vacinar como quem recusa a vacina só para parecer bem. Presidente da República, Primeiro-Ministro, ministros, deputados mais velhos, presidentes da câmara e da junta, na minha opinião, já deviam estar na fila para vacinar. Mas isso devia ser decidido em consenso pelos políticos sob conselho médico e sem o espetáculo degradante da confusão dos últimos dias.
Por outro lado, não posso deixar de reparar na diferença entre as redes sociais, a comunicação social e a realidade: Na teoria ninguém queria a vacina, na prática é só esquemas para passar à frente dos outros na fila das vacinas.
Nas redes sociais, nas revistas e nos programas da TV que acompanham os portugueses confinados, é tudo cada vez mais vegetal e natural. Na prática, 99,8% dos portugueses come carne e peixe e esgota os talhos e corredores do supermercado no confinamento. E por aí fora...
Quanto à recordação:
“Houve um tempo, até há 30 anos, em que a vacina da febre aftosa era obrigatória para os bovinos. Nessa altura o meu pai fazia engorda dos novilhos e um nosso vizinho, o senhor António, tinha um talho e comprava-nos alguns desses animais. Um dia combinámos vender-lhe um touro, ele veio vê-lo, eu entreguei-lhe o "boletim de sanidade” do animal e a folha comprovativa da vacina. Recordo bem que era uma folha A5, letra azul e papel fino. O Sr António quis ver novamente a traseira do novilho, para se certificar que estava bem gordo. O animal estava preso à manjedoura. O Sr António pousou os papéis na manjedoura e lá fomos todos avaliar a gordura do touro. Quando voltámos à frente a folha da vacina já estava na boca do animal . Basicamente, comeu a sentença de morte e durou mais uma semana, enquanto esperámos pela segunda via pedida na Zona agrária.
De volta a coisas mais sérias, as vacinas que hoje damos às vacas são opcionais, mas, apesar dos custos, os agricultores aceitam bem os conselhos dos médicos veterinários. Aqui na agricultura não há moda anti-vacinas com teorias de autismo nas vacas ou conspirações de bigpharma. E podemos dar graças pelo trabalho conjunto de agricultores e veterinários para ter na Europa saúde e segurança alimentar.”
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