
“Os clientes podem escolher qualquer cor, desde que seja preto.” (Henry Ford, 1909)
Em 1989, depois do meu pai comprar o trator Lamborghini branco (agora é cinza) fui estudar para a Casa- Escola agrÃcola Campo Verde, localizada então na “Casa da D. Laura”, cedida pela junta de freguesia da Vila de S. Pedro de Rates e ao lado da velha igreja românica dessa localidade da Póvoa de Varzim. Nesse ano letivo, o principal tema de discussão entre os meus colegas eram as marcas de tratores. No ano seguinte foram as motas e no terceiro, os carros. :)
Ao lado da Escola, também à sombra da Igreja, em espaço provisório cedido pela paróquia, funcionava a Leicar, Associação de Produtores de Leite e Carne, nascida em 1986 e que teve um grande desenvolvimento com a formação profissional, nomeadamente com os cursos de “Operador de Máquinas AgrÃcolas” que permitiam obter a carta de condução de tratores.
Nós estávamos em regime de internato e alternância (uma semana na escola e duas em casa, a estagiar na empresa agrÃcola da famÃlia) e na escola, ao serão, os professores organizavam a “tertúlia” com a reza do terço, jogos, debates e convidados. Uma noite, o convidado foi um especialista em mecanização agrÃcola que estava a dar formação num dos primeiros cursos da Leicar e um colega mais afoito lá disparou a pergunta: “Qual é o melhor trator??” O senhor tentou contornar a resposta, dizer que todos eram bons, mas nós insistimos e ele acabou por dizer: “Um bom trator é o Jonh Deere”. E o meu colega exclamou: “Ui, tão feio!” E o senhor ripostou: “Porquê, vais para a cama com ele?” Rimo-nos todos e o serão acabou animado.
Na altura, os tratores “Jonh Deere” eram de facto diferentes no design (ainda não tinham lançado a série 6000) e estranhos aos nossos olhos, por haver poucos exemplares da marca na zona. Nem sei quem era o concessionário. A empresa que agora vende esses tratores verdes e amarelos vendia então os Renault, laranjas, marca entretanto comprada pela Claas, verde-clara. Dos tratores mais vendidos em Portugal, os vermelhos Massey-Ferguson, havia poucos exemplares porque o concessionário estava longe, em Paredes. Duas marcas pouco vendidas a nÃvel nacional, as verdes Deutz e Fendt, tinham aqui muitos tratores devido ao bom trabalho dos concessionários locais. Isto tudo para dizer que o valor de um trator não depende apenas da sua tecnologia, preço e qualidade do material. Também depende muito da equipa de vendas, da confiança do vendedor (“levas e pagas quando puderes”), da prontidão da assistência e da proximidade.
Quem está fora da agricultura talvez não saiba que cada marca de trator tem uma cor, ao contrário dos carros, onde podemos escolher ao nosso gosto. Há apenas a exceção de uma marca, a Valtra / Valmet, que sempre deu opção de escolha das cores, e mais recentemente algumas marcas lançaram “edições especiais” a preto, como os modelo T do Henry Ford. Quem está fora do mundo agrÃcola também não faz ideia que cada marca de tratores tem os seus adeptos tão fanáticos como a politica ou futebol. Agora já não debatem na tertúlia e no recreio da escola agrÃcola, mas discutem da mesma forma apaixonada nos grupos de máquinas agrÃcolas do Facebook, que reúnem milhares de membros.
Oito anos depois da famosa tertúlia, em 1998 comprei o meu primeiro Jonh Deere (6210), depois um segundo em 2004 (5820), por troca do Lamborghini e este da foto (6534) há cerca de 4 anos. E vocês, se comprassem agora um trator, que cor preferiam?
#carlosnevesagricultor
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