
Quando vi os meus filhos a colher laranjas na árvore que o avô plantou, lembrei-me de um “diálogo online” que tive alguns dias antes, com um amigo facebokiano, perante uma foto de terreno mobilizado, algures no Alentejo. “Manutenção ou plantação?”, perguntei eu. “Estou a plantar sobreiros para os filhos dos meus netos”, respondeu-me com algum humor, algum exagero e muita verdade.
Percebo pouco de sobreiros, mas sei que é uma árvore de crescimento lento. Aliás, para os nossos padrões da vida atual, todas as árvores são de crescimento lento, mas os sobreiros abusam da lentidão.
Há poucos anos, li a história impressionante do Barão Bodo Von Bruemmer nascido em 1911 na Rússia, de ascendência germânica. Nos anos 60 do século passado veio para Portugal. Aos 95 anos de idade, iniciou a plantação de uma vinha em Sintra, Colares. Ainda provou o vinho, pois viveu até aos 105 anos, mas sobretudo deixou um legado aos descendentes e à sociedade.
Vivemos no tempo do imediato, do instantâneo. Carregamos no botão e ligamos o aquecedor, a luz acende, carregamos no telemóvel e tiramos uma foto, enviamos um e-mail ou partilhamos um vídeo em direto com o resto do mundo. Isto é fruto do progresso, e é muito bom, mas faz-nos falta reaprender a esperar, como quando tirávamos uma foto e esperávamos até ao rolo acabar e depois a revelação no estúdio de fotografia, ou quando vamos buscar lenha para a lareira e temos de acender pacientemente até aquecer ou plantamos um pomar e temos de esperar vários anos até ter fruto.
Faz-nos falta também esta perspetiva de sermos elos da cadeia da vida. Não somos o centro do mundo, nem o princípio nem o fim da história. Beneficiamos do que os nossos pais e avós plantaram. Semeamos agora o que os nossos filhos e netos irão colher. A vida já existia antes de nós e continuará depois. Somos passageiros temporários deste comboio. Espero que este postal vos dê serenidade para desfrutar da viagem…#carlosnevesagricultor
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