
O auto-rádio é uma peça muito importante no trator. Mantém-nos acordados durante as lavouras ou outros trabalhos monótonos, permite-nos ouvir o relato do futebol, as últimas notícias ou as velhas músicas que nos fazem companhia na solidão da cabine. Pessoalmente, vou variando entre notícias e músicas ao meu gosto. No entanto, quando comprei a última máquina ( o unifeed, perdão, a bimbi :) ), sendo usada apenas meia hora por dia, não dei importância a ter o auto-rádio avariado. Só alguns dias após a compra me apercebi que acendia umas luzinhas. Perguntei a um vendedor de material agrícola se tinha disponível algum rádio barato e ouvi como resposta: “não aconselho rádios baratos, podem funcionar mal com os projetores Led”. Ele tem razão. O BARATO SAI CARO. Andamos muitas vezes a inventar, a tentar poupar e a perder dinheiro. É o resultado de receber pouco valor pelo leite e por outros produtos agrícolas…
Com a compra de um novo rádio posta de parte, alguns dias mais tarde resolvi dar uma nova oportunidade ao velho rádio. Ele funciona, só o visor é que está avariado. Quer dizer, não comunica. Acontece em muitas relações, quando alguém está amuado mas não diz porquê. É complicado, nestes tempos em que nos habituamos ao fácil e ao descartável. Não me refiro às luvas, máscaras ou louça descartável, para evitar as contaminações, ainda bem que existem, desde que as descartemos nos locais indicados. Refiro-me a descartar pessoas. NÃO PODEMOS DESISTIR OU EXPLODIR À PRIMEIRA DIFICULDADE, TEMOS DE TER PACIÊNCIA E HUMILDADE. Lembrei-me disto num momento em que esperava uns minutos para misturar a palha com a ração. Retirei a tampa do auto-rádio, encontrei o botão de “reset”, depois fui carregando nos botões que me pareciam servir para buscar emissoras, apareceu qualquer coisa baixinho e, com paciência, dando muitas voltas ao botão, lá consegui aumentar o volume do som para valores razoáveis.
Animado, com o rádio a funcionar, saí da vacaria em direção ao silo exterior para carregar as silagens de erva e milho. Talvez por faltar uma parte da antena e não captar bem, ou por causa dos botões onde carreguei antes, o rádio mudou de emissora. Passado uns minutos mudou de novo. Algumas músicas ao meu gosto, outras estranhas ao meu ouvido. Mas isto também é bom nestes tempos em que os grupos de Whatsapp e o algoritmo do facebook só nos mostram o que queremos ouvir. FAZ-NOS FALTA A DIVERSIDADE DE OPINIÕES, A PACIÊNCIA E O RESPEITO PARA OUVIR O DIFERENTE. Depois temos a nossa formação, os nossos valores e o nosso discernimento para escolher. Por exemplo, no dia seguinte o rádio arrancou com música popular. Começou com “Graças a Deus o divórcio vai chegar” (credo!) e terminou com o grande Quim Barreiros a apelar ao consumo de lácteos: “Eu gosto de mamar nos peitos da cabritinha” . A essa achei piada, embora dispense o consumo de leite cru. Devemos sempre ferver ou pasteurizar primeiro! Por hoje é tudo, despeço-me com amizade!...
#carlosnevesagricultor
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