sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

A história das minhas botas

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Ao fim da tarde de quinta-feira, enquanto a família plantava morangos, eu preparava-me para a manifestação. Depois de lavar a vitela do musgo que o inverno deixou na fibra, carreguei a também a carrinha com as botas, minhas e de outros colegas. Algumas dessas botas já voltaram ao trabalho, mas pedimos sobretudo botas velhas que estivessem arrumadas, para não ter de as devolver no final e assim reduzir os contactos. Fui também buscar as botas de nossa casa, que o Hugo, nosso funcionário, tinha separado. Quando vi 4 pares de botas alinhados e de tamanhos diferentes, pensei que davam uma boa foto a representar a família. Teve razão quem pensou assim quando viu essa minha foto de quinta-feira, pois foi a minha intenção. Mas também tiveram razão aqueles que, com mais tempo, atenção ou um ecrã maior, repararam que faltava uso às botas (pudera, paradas há meses ou anos) e as mais pequenas pareciam grandes para o miúdo mais novo. Na verdade, eram todas botas velhas e não eram de toda a família. 


Aqui estão agora as atuais botas do Luís, do Pedro, da Carina, as minhas e do Hugo. Botas iguais às de outras famílias, de outras vacarias, dos veterinários, inseminadores, podólogos e outros técnicos que nos visitam ou trabalham connosco. Botas de trabalho para os mais velhos e de proteção para os mais novos quando passam o tempo na vacaria, no quintal ou no pomar. Botas dos mais novos, pelo futuro dos quais lutámos. Botas de quem resiste apesar das dificuldades que expressámos na manifestação. Preço do leite baixo, rações e outras despesas a subir, ajudas sob ameaça de enorme redução. 


Na manifestação, havia muito botas iguais às nossas. São confortáveis, leves e seguras. Vi estas botas na feira de Paris há mais de 20 anos e fiquei encantado. Devido a uma tecnologia que coloca ar no meio da borracha, são menos frias, pesam menos um kg e escorregam menos do que que as botas “Pinta Amarela” que então usávamos. Perguntei se vendiam para Portugal, deram-me o número de uma empresa de Águeda. Fui de Vila do Conde a Águeda, de propósito, comprar botas. Trouxe vários pares, para mim e para alguns colegas. Não me recordo se voltei lá, mas depois a marca espalhou-se e passei a comprá-las na minha cooperativa. 


Nesse tempo, recebia por um litro de leite 66$ (33 cêntimos), mais do que hoje, quando recebo menos de 32 cêntimos e temos um preço médio em Portugal de 30,4. Não é justo porque não paga os custos de produção nem o nosso trabalho. E isto tem de ser denunciado, teimado, batalhado, como a viúva da bíblia que insistiu até que o juiz lhe fez justiça.


#carlosnevesagricultor

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