quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

O que faria eu se tivesse um restaurante parado por causa do covid?

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Sinceramente, humildemente, não sei. Lamento. Tanta certeza sobre tanta coisa nessas redes sociais e eu aqui cheio de dúvidas. Não sei o que faria, como me sentiria, se estaria deprimido, com raiva, desesperado ou conformado… Mesmo assim, quero responder a alguém que me interpelou sobre o assunto.
Eu sei que “quem está de fora racha lenha” e que costuma dizer-se, de forma negativa, que é fácil falar quando não estamos debaixo dos problemas. Mas também é mais fácil pensar em soluções para quem não está sob pressão. Ainda bem que o dentista não nos atende cheio de dor de dentes. Só iria atrapalhar. Por isso arrisco. Pode ser que as minhas reflexões sirvam de alguma coisa a alguém. Se não servirem, perguntem a outra pessoa. Telefonem, escrevam, desabafem, ouçam opiniões, procurem soluções. Alguém de fora, com um ponto de vista diferente, pode apontar o caminho ou simplesmente ouvir-vos e, depois de desabafar, sentindo-vos mais aliviados, pode ser mais fácil para vocês encontrar a saída.
Seguindo o conselho de José Regio, “Não sei por onde vou, sei que não vou por aí”, eu evitaria ilegalidades que agravem a pandemia, como abrir restaurantes às escondidas. Quanto mais depressa isto se resolver, quanto mais a sério todos fizermos este combate ao Covid, mais depressa o problema se vai resolver e poderemos recomeçar. Os países que enfrentaram a pandemia com mais força são os que estão melhor economicamente.
A primeira coisa que eu faria era queixar-me à minha associação. Foi o que comecei a fazer quando me instalei em 1996 como jovem agricultor, comecei a queixar-me e a dar sugestões ao Carlos Torres Maia, então jovem agricultor na freguesia vizinha de Fajozes, amigo da família e membro da direção da AJAP. Passados alguns anos, quando ele decidiu deixar a direção da Associação, indicou-me como elemento a convidar como sucessor. Eu recusei o primeiro convite, mas aceitei ir jantar ao restaurante merendola, na Maia e lá me convenceram. Lá está, temos de proteger os restaurantes. Os maiores negócios e os mais importantes acordos e contratos fazem-se à mesa.
É uma ilusão pensar que uma pandemia se resolve numa semana. A experiência de 20 anos de “sindicalismo agrícola” também me ensinou que não basta uma greve ou manifestação para resolver os problemas. É preciso persistir, insistir, comunicar regularmente. A sociedade e o poder político precisam de saber das vossas dificuldades. É justo que haja apoios imediatos para quem tem de parar. É justo que essas ajudas sejam prioritárias. Se não houver dinheiro, é justo que se aumente algum imposto, de forma proporcional. Há quem esteja com mais rendimento disponível porque a pandemia impede de gastar o dinheiro nos restaurantes, nos hotéis, nos cruzeiros ou nas atividades culturais.
Façamos à distância tudo o que for possível. Não pode vir a diária no prato, venha a marmita quentinha do restaurante para comer à distância de segurança com os colegas de trabalho. Não posso ir com a família ao restaurante no fim de semana, venha o Takeaway. Vai resolver tudo? Não, mas “é melhor acender uma vela do que berrar contra a escuridão”. Depois da noite, para os que sobreviverem, virá a madrugada. A vida vai continuar. De formas diferentes, os próximos dias e semanas vão ser duros para todos. Se conseguirmos falar das soluções em vez de discutir culpados, poderá ser mais fácil ultrapassar este mau bocado.


P. S. - Há uma parábola sobre alguém que teve hipótese de visitar o inferno e viu toda a gente sentada à mesa a sofrer com fome porque os talheres tinham 1 metro de comprimento. Visitou depois o céu e viu as pessoas com os mesmos talheres, mas cada um dava de comer ao que estava na frente. Se tiverem tempo livre, procurem ajudar alguém que precise ainda mais de ajuda do que vocês. Vai ser bom para os dois. 
(na foto, nascer do sol do dia 19/01/2021)
#carlosnevesagricultor

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