sábado, 3 de abril de 2021

Este feno dava um filme!


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"-Já é Páscoa???” - perguntou (gritou!) o Luís à mãe quando chegou do colégio e me viu a cortar a erva aqui na Arroteia de Cima, o campo onde está a vacaria e todo o “assento de lavoura”. Há alguns meses alguém lhe deve ter dito que só haveria silagem de erva ou feno por altura da Páscoa e ele leva estas coisas muito a sério, tal como as máquinas ou reboques que cada trator pode engatar. Por isso, a seguir essa cena que perdi, tive direito ao interrogatório que já partilhei há tempos enquanto cortava o resto da erva na sua companhia.



Antigamente só cortávamos as ervas para feno depois da Páscoa, lá para o fim de Abril. Na Páscoa, o meu padrinho, o tio David, trazia sempre um grande Pão de ló, de uma pastelaria da Póvoa de Varzim, mas nós comíamos primeiro o que a minha mãe fazia em casa, no forno do fogão a lenha, de modo que o pão de ló do padrinho era quase todo torrado no forno e guardado nas caixas de bolachas vazias ou nos tupperwares disponíveis e depois sabia pela vida, algumas semanas mais tarde, na merenda dos dias de guardar o feno. Essa era a parte boa, além do convívio com o padrinho e com as outras pessoas que vinham ajudar a carregar o feno.

“-Estive a ver as previsões e a melhor ocasião para enfardar é domingo à hora do almoço!” - disse eu à família, meio a sério e meio a brincar, uma semana depois de cortar a erva. Na verdade a previsão apontava o domingo como o dia mais quente e seco, como se quer na hora de enfardar, mas como eu tinha semeado azevém galego (uma variedade regional que produz pouco mas é precoce e seca rápido), os dias tinham estado bons para secar, com vento leste e tínhamos mexido a erva várias vezes, estava convencido de poder enfardar no sábado e deixar para domingo apenas os trabalhos essenciais que não podemos adiar, ligados à ordenha, alimentação e cuidados das vacas.

Na véspera, sexta-feira, engatámos o Massey Ferguson à enfardadeira, fizemos as últimas lubrificações e parecia tudo afinado. O Massey Ferguson enfardou muitos anos até ser substituído pelo Renault, porque são os dois tratores que permitem inverter o funcionamento da tomada de força, necessária para quando a enfardadeira encrava com algum pedaço de feno maior, mas este ano voltei a usá-lo porque estava livre e quis “matar saudades”. Foi fixe mas arrependi-me, não pelo perigo de andar sem arco de segurança, porque aqui o risco era mínimo, mas porque, sem cabine, ao fim de uns minutos tive de pedir aos miúdos para irem meter protetor solar, e trazer também protetor e um chapéu de abas largas para mim, que ainda estamos muito branquinhos depois do inverno e é cedo para apanhar o primeiro escaldão ou ficar com remorsos sobre cancro da pele…

Tinha “encordoado” a erva em pequenos cordões para continuar a secar. Sábado ao meio dia tentei enfardar, mas os fardos ficavam pesados - ainda havia alguma humidade que podia causa bolor no armazenamento (com fardos grandes, mais apertados, até pode causar incêndios). Adiar o enfardamento é um stress enorme quando temos as pessoas marcadas para ajudar, medo que venha chuva e a família enervada a dizer –“Está boa, avança!”, mas como íamos resolver com a prata da casa e não havia chuva no horizonte, adiei para o dia seguinte e aproveitei para dar mais uma cambalhota à erva com o encordoador, para secar um pouco mais.

Enfardei após o almoço de domingo, sem remorsos de privar a família do passeio – afinal não se podia sair de casa. A enfardadeira velhinha e portou-se “mais ou menos” – lá foi deixando uns fardos por atar, encravando e obrigando-me a ir para debaixo dela atar os fios – o que é giro para tirar fotos mas nada mais. Já com ¾ da erva enfardada teve uma avaria maior. Fiz bem em parar, pois só vi depois o que se passara, tem uma roda dentada partida e precisa de uma revisão profunda no atador. Com tempo, tenho de ver se compensa reparar. Chamei depois um colega com uma enfardadeira de rolos para outro campo, onde não podia entrar a automotriz da silagem e, num rolo, colocou quase tanto feno como num reboque de fardos pequenos.

Estes fardos pequenos são muito práticos para dar aos vitelos ou pequenos ruminantes, mas há motivos para as vacarias de maior dimensão terem deixado de usar este sistema. Isto é muito giro para fazer umas horas por ano, uma tarde de convívio e ginásio ao ar livre, mas andar dias a carregar fardos pesados, ficar com os dedos a doer de pegar nos fardos pelos fios, amarrar cargas e virar reboques em “caminhos de cabras”, fazendo centenas ou milhares de fardos por ano exigia uma mão de obra que já não existe – emigrou para o estrangeiro ou para a cidade, com todo o direito, à procura de uma vida melhor. Nós, os poucos que ficámos na terra e continuamos a produzir comida para todos, tivemos de comprar ou alugar máquinas maiores e passar a fazer a silagem, os rolos de erva plastificados e usar outras novas tecnologias que são criticadas por quem usa novas tecnologias na ponta dos dedos, não sabe o que passámos mas quer comida barata produzida à moda antiga. É por isso que temos de explicar estas coisas. Santa Páscoa para todos!

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