MacGyver era o personagem central de uma série de ação que passou na TV nos anos 80 e que, em vez de usar armas de fogo ou violência como outros heróis, usava ciência, lógica, criatividade e um canivete suíço. Por oposição, na mesma época, o “Justiceiro” dependia do “Kitt” como hoje dependemos das ferramentas de inteligência artificial.
Nos dias de hoje, um agricultor e produtor de leite tem de ser, muitas vezes, Macgyver. No campo, no estábulo ou até na luta associativa, temos muitas vezes de nos desenrascar. Se rebenta um cano da água num sábado à noite, avaria o trator ou a máquina da ordenha no domingo de manhã, falta eletricidade, ou mil outras coisas diferentes que estão sempre a acontecer, não podemos deixar as vacas sem água, comida e ordenha, mesmo que os técnicos estejam longe, de férias ou ocupados noutra avaria.
Este verão foi assim com a rega: se faltou a água no poço para regar o milho ou o motor avariou, fomos procurar outra captação, mudar as mangueiras, buscar outro trator, levar outra cisterna, pedir ao vizinho, dobrar o sistema de rega e as horas de trabalho.
E quando foi preciso “fazer barulho” rapidamente, com pouco tempo e pouca gente, porque os poucos que somos já estavam a produzir em “modo MacGyver”, também fomos para as ruas da cidade, para as praias do Algarve, contratámos aviões de um dia para o outro e colocámos rolos de palha à porta de supermercados da noite para o dia… e poderemos colocar noutros sítios.
A transformação e venda do leite e dos produtos lácteos, que os produtores delegaram nas cooperativas e indústrias, também se transformou. O mercado mundial deixou de ser o clássico tabuleiro de xadrez com movimentos lentos e ponderados e parece mais uma mesa de bilhar no início do jogo, onde cada nova tarifa nos Estados Unidos, cada drone na guerra da Ucrânia ou míssil na guerra do Irão é uma tacada com tabelas e choques imprevistos.
Junte-se também a esta nova geopolítica a valorização da carne, com vitelos cruzados nos EUA a valer 1000 dólares à nascença e mudanças no perfil dos consumidores, que agora procuram produtos com proteína whey, que é tirada do soro do queijo, queijo que por causa disso pode agora valer menos do que o soro que até há pouco tempo era um subproduto.
Perante este novo cenário, quem gere a indústria não poderá mais continuar a usar a receita clássica de não comunicar com os produtores, não partilhar lucros, reagir tarde e baixar o preço ao produtor sempre que precisa de equilibrar as contas ou obter lucros para os seus objectivos estratégicos. Até agora a produção não baixou porque os produtores que ficaram, em modo MacGyver, assumiram as terras e as vacas dos que deixaram o setor em cada crise, mas somos cada vez menos e com mais vontade de mudar de vida e de estratégia.
Carlos Neves
Secretário-geral da APROLEP
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