sábado, 1 de agosto de 2026

A boa, o mau e o vilão - a raposa, o lobo e o javali

A raposa, até agora, foi boa para mim, porque quem não me faz mal já faz bem. A foto de uma raposa a passar ao lado de minha casa causou intenso debate entre os defensores das galinhas e os defensores da raposa, como se o meu comentário “anda mais perto do que eu pensava”, fosse um apelo à caça do animal. Ora eu não sou caçador de raposas. Aqui na net sou mais do que eu, mas sou apenas caçador de preconceitos, e apanhei-vos, porque eu só perguntei se os galinheiros estavam bem fechados. Soube, entretanto, que não estavam. Tem sido uma razia com galinhas, gansos e patos aqui à volta, porque as pessoas já não estavam habituadas às raposas, mas as raposas estão a habituar-se às pessoas e têm cada vez menos vergonha. Tive relatos de raposas que vão à porta do café, entram nos quintais durante o dia e deitam-se nos muros como os gatos e, já agora, também levam gatinhos. 
Até agora, a raposa foi “boa” para mim porque não me fez mal, não estragou milho nem atacou as minhas galinhas, talvez porque eu tinha o galinheiro fechado por causa da gripe das aves ou talvez a raposa não goste de galinhas com cheiro a vaca e se um dia tiver problemas a primeira solução será reforçar o galinheiro. 
Sobre os preconceitos, um facto: Aqui não houve incêndios. A raposa não veio a fugir de qualquer problema: é a natureza a evoluir naturalmente, como sempre evoluiu, a crescer e reproduzir-se quando tem oportunidade e, curiosamente, aqui nos meus campos cada vez mais no meio da cidade, de estradas, armazéns, casas e carros, andam cada vez mais animais: As andorinhas continuam a vir todas as primaveras, uma coruja veio viver para o Sinal, uma lontra para o meio do milho, uma ave de rapina (milhafre, acho) é visita cada vez mais frequente, as cegonhas vieram do rio Vouga para o Rio Ave, os peixinhos voltaram ao ribeiro que está menos poluído e as gaivotas que até há 30 anos só comiam peixe, aprenderam que quando alguém mexe na terra com o trator levanta minhocas e outros bichinhos que elas gostam de comer e por isso as gaivotas deixam a praia e vão cada vez mais para o interior, até agora, sem prejuízos, mas temos de estar atentos e saber viver com isto.
Entretanto, o “lobo mau” está de volta ao Alto Minho e a Trás-os-Montes. Sucedem-se os relatos de ataques a rebanhos. Toda a gente concorda que é preciso “mais cabras nos montes e menos cabr*** nos gabinetes”, e o lobo também concorda, porque lhes chama um petisco, às cabras, porque os outros ficam longe, mas depois as indemnizações vêm tarde ou nunca, os agricultores ficam sem os animais e com o prejuízo, as pessoas desesperam, desistem ou revoltam-se e os montes ficam sem as vacas, as cabras e as ovelhas. Não falei disto até agora porque o lobo ainda não chegou aqui e esta página é sobretudo para falar da realidade da minha agricultura, mas, POR FAVOR, VAMOS DAR ATENÇÃO A ESTE PROBLEMA E AJUDAR A GENTE QUE ESTÁ A SOFRER COM OS LOBOS? Ou cães vadios, seja lá o que for! Mais ajuda, mais ação e menos discussão!
Pior do que o lobo, O JAVALI É O GRANDE VILÃO da agricultura portuguesa. Ainda não chegou aqui, mas já anda perto, literalmente a meia dúzia de kms. Destrói campos de milho, onde calha, à sorte, fuça e escava, um bocado aqui, outro bocado ali. Nas clareiras de milho destruído crescem em vez dele as figueiras do inferno, ervas daninhas muito venenosas. Fazer seguros? Parece que só pagam prejuízos acima de 30%. Cerca elétrica? É uma solução que está a ser estudada, mas é muito mais difícil cercar um campo no meio do monte contra o javali do que um galinheiro contra a raposa. Aquela piada “posso não valer nada, mas javali”, ficou desatualizada: o Javali vale cada vez mais pela negativa, é uma praga descontrolada que está a fazer muito mal à nossa agricultura: ficam campos abandonados porque as pessoas desistem de produzir milho. Sucedem-se acidentes na estrada e invasões nas cidades. Podem ser portadores de doenças como a peste suína africana. 
Arrisco dizer que, em muitas situações, o javali está a causar, hoje, já, na agricultura portuguesa, em muitos casos concretos, mais prejuízo do que as alterações climáticas ou o acordo Mercosul e, tenho a certeza, é mais fácil resolver o problema do javali do que as outras duas coisas, que são fáceis de discutir na net mas são realidades complexas com muitas pontas soltas. Portanto, podemos deixar-nos de tretas e tratar do javali? Vamos pegar este “touro pelos cornos” ou vamos abandonar os campos e os agricultores? Senhores caçadores? Senhores ministro da agricultura e do ambiente? Por favor?...
#carlosnevesagricultor #raposa #lobo #javali #agricultura #prejuizo #Soluções

domingo, 12 de julho de 2026

Cenas da vida de um lavrador (III) - O mistério da saca das cuecas vermelhas



Não me recordo exatamente quando foi, mas terá sido, talvez, há 8 ou 10 anos. Um dia, no corredor de alimentação da vacaria, a que antigamente chamávamos “casa da erva”, apareceu uma saca com cuecas para senhora, vermelhas e de outras cores. Não recordo quem encontrou, mas não esqueço que ninguém sabia de onde veio ou para quem era. 
Pelo tamanho serviam à minha esposa, mas não tinha sido ela a comprar, nem imaginava quem teria trazido aquilo e se eram mesmo para ela, e porquê. Eu não fazia ideia. A minha mãe, por questões de saúde, já não andava sozinha fora de casa. O meu pai também não sabia, nem o nosso funcionário, nem a senhora que costumava vir passar a ferro e ajudar nas limpezas da casa. Mistério. Não faltava nada mas tinha aparecido uma coisa e não sabíamos como. Durante vários dias, puxámos pela cabeça e perguntámos a toda a gente que frequentava a casa mas ninguém sabia. Aqui na zona, ao contrário de outras regiões do país, quase sempre a casa do agricultor fica junto dos estábulos, currais e dos armazéns e ao conjunto chamava-se tradicionalmente “Casa de lavoura” e tecnicamente ainda se chama “assento de lavoura”.
Lembrei-me entretanto que já tínhamos câmaras de videovigilância. Quando tive oportunidade, sentei-me ao computador e “puxei o filme atrás”. Apareceu a saca e apareceu uma pessoa a entrar com ela na mão e a sair sem ela. 
Era uma senhora, nossa conhecida, tia de um amigo e vizinho, que nos tinha pedido, quando fosse possível, para mostrar as vaquinhas às suas netas. Uma tarde, mais ou menos sem avisar, apareceu. Trazia as meninas numa mão e na outra, para agradecer a visita, uma saca com roupa da sua fábrica de confecções, para oferecer à minha esposa (com a experiência que tinha, tirara-lhe as medidas só com o olhar). Entretanto as meninas, que eram pequeninas, deviam ter 4 anos, assustadas com as vacas, começaram a chorar, a visita acabou rapidamente e a senhora deu a saca e o recado ao meu filho mais velho, na altura pré-adolescente e que, com “a cabeça no ar”, não deu recado, nem saca e nunca mais pensou no assunto. E foi assim que as câmaras de videovigilância tiveram “uso efetivo” pela primeira vez... 
#carlosnevesagricultor #agricultura #lavoura #misterio

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Aqui o calor já passou, mas tenham cuidado

O nevoeiro pegou ao serviço no turno da manhã e a nortada arrefece as tardes e incomoda os banhistas da Póvoa e Vila do Conde. 
Foi duro para os animais, para as plantas e para nós. Levei a sério o aviso e estava mais preparado do que em anos anteriores. Ventiladores a funcionar, rega adiantada e mais equipamentos de rega do que nos anos anteriores, mas ainda assim o milho sofreu, as vacas sofreram, produziram menos leite e tiveram mais problemas de saúde. Podia ter corrido um pouco melhor se não houvesse uma avaria e se, na equipa de manutenção, o mais novo tivesse dado ouvidos ao mais velho: “Não queres ver aquela caixa?” Não quis.  Só a viu dois dias depois, e afinal tinha lá dentro uma coisa desapertada, quando depois de avarias e intermitentes e vários testes os voltei a chamar. 
Às vezes são os mais velhos que não ouvem os mais novos e isso é ainda mais complicado. Como contrariar o pai, mãe ou avô, a quem obedecemos toda a vida? 
Já partilhei há tempos um texto, que descobri através do canadiano Farmer Tim, com o título “Como, e quando, dizer não ao pai” - no caso, dizer ao pai “Não, não podes mais conduzir o trator, porque não estás em condições”, ou, no nosso caso, dizer “hoje está muito calor, não vais para o campo e muito menos para a estufa!” 
Para complicar, como escrevi há dias, andam por aí muitos “Pedros” a gritar “lobo” para chamar a atenção e depois, quando é a sério, como foi agora, as pessoas não levam a sério. Na Estela, uma freguesia da Póvoa de Varzim a 10 km daqui, também junto ao mar, duas idosas foram encontradas mortas numa estufa, no domingo de manhã, porque faltaram à feira. Viviam juntas e a mais velha cuidava da mais nova, que tinha um deficit cognitivo. A mais velha terá desmaiado ou tido um AVC ou ataque do coração e a mais nova não saiu da beira dela. Apesar do calor acima do normal, mantiveram a rotina, foram à estufa colher as coisas durante a tarde de sábado para vender na manhã seguinte. Faltaram à missa no fim da tarde mas as pessoas acharam normal por causa do calor, só deram pela falta delas na feira domingo de manhã. Ainda está a decorrer a autópsia, os resultados demoram meses e não quero aqui tirar conclusões, mas, como o calor ainda continua, e vai voltar, porque é verão, e pode voltar forte, mais forte do que estávamos habituados, vim aqui outra vez insistir: Tenham juízo, tenham cuidado convosco, com os vossos animais, com as crianças e com os idosos, por mais rabujentos e teimosos que sejam, porque somos todos um bocado assim, e, se Deus quiser, os que lá chegarmos, seremos também todos cada vez mais teimosos com o passar dos anos mas queremos continuar a desfrutar da vossa teimosia e da vossa companhia. Protejam-se, bebam água e fiquem à sombra. Agora, adeus, porque está fresco e vou regar.
#carlosnevesagricultor #agricultura #milho #regas #calor #Estufas

domingo, 5 de julho de 2026

Cenas da vida de um lavrador (II) - No campo e no futebol


O futebol é uma cena a que pouco assisto. Tornei-me adepto do Benfica por influência do meu pai, mas, tal como ele, nunca fui muito praticante dessa “religião”. Nunca fui à “catedral” da Luz, mas fomos os dois assistir a um jogo Benfica - Rio Ave, os nossos clubes, no antigo Estádio da Avenida, em Vila do Conde. Pelo contrário, fui duas vezes ao Estádio do Dragão, mas nunca para ver o “papa”, porque o nosso sempre esteve em Roma. A primeira vez terá sido há 15 anos, ao festival Panda e a segunda vez foi para ver a seleção, na Liga das Nações, derrotar a Suíça, tornando realidade a previsão que me fez ganhar dois bilhetes e duas camisolas num concurso da GALP, com a frase: “vamos comê-los como um queijo suíço!” E, se não estou em erro, foi um hat-trick de Ronaldo. Já posso dizer que o vi jogar ao vivo.

O futebol tem coisas horríveis, como a violência das claques nos estádios e os ataques de ódio nas redes sociais, mas também tem coisas fantásticas.
Em 2002, fui com um grupo de agricultores numa viagem organizada pela empresa Semex visitar vacarias de alta genética e o Royal Show no Canadá, atravessando de Montreal a Toronto. Aterrámos com 30 graus negativos e fomos parar a um interrogatório de duas horas no departamento de imigração - “Vais visitar quintas? E não trazes botas?” Fora do aeroporto estava a equipa da Semex que então nos deu as botas descartáveis tipo sacas de plástico para colocar por cima dos sapatos normais. O resto da viagem correu muito bem, com um detalhe que não esqueço, já em Toronto. Era meia-noite e regressávamos de táxi ao hotel. O motorista perguntou de onde éramos, respondemos “Portugal”. “Portugal? Luís Figo!!!”
Regressemos a 2026, manhã de 3 de julho, sexta-feira. Na ponta do mesmo campo por onde saiu, a caminho do mar, a “mulher misteriosa” da história que contei na semana passada, agora já com milho alto a pedir rega, estava eu a afinar o aspersor e apareceu-me um homem, menos misterioso, de chapéu e mochila às costas. Passa muita gente aqui perto, pela “Estrada velha”, vindo do Porto pelo “Caminho da Costa” em direção a Compostela. Tentei explicar que ali não era caminho, não percebeu, falei em inglês, percebia pouco, disse-me que era da República Checa, perguntei se conhecia o Marek Cech, futebolista eslovaco, antigo jogador do Porto, abriu um sorriso e respondeu que sim, expliquei que ele mora a 1 km do campo onde estávamos, a atitude do homem mudou, abriu o telemóvel, meteu o tradutor de checo para inglês e percebi que, tal como a outra senhora, também queria ir para o mar, a partir daí foi fácil dar as indicações e lá partiu, feliz, de mochila às costas. Pareceu-me vê-lo mais tarde, já na “estrada velha”, acompanhado, a caminhar em Direção a Santiago.
Recuemos 2 meses. Quando estive na Holanda, em Roterdão, apanhei um uber, nova cena… “De onde são?”, “Portugal” “Ah, Ronaldo!!!”. Minutos antes, na rua, um miúdo levava na mão um lego… do Ronaldo.
O futebol tem a magia do imprevisto, de um ressalto, um penalti, um capricho da bola. Podem-se fazer previsões, mas não basta ordenar as equipas pelo orçamento ou pelo valor de mercado de cada jogador para saber quem vai ganhar. E Ronaldo é muito mais do que futebol e os golos que marca. Com a carreira que construiu a pulso, é a inspiração para milhões e milhões de miúdos e gente de todas as idades em todo o mundo. Não é perfeito porque ninguém é perfeito, mas ninguém pode negar que é inspiradora a história de alguém que nasceu pobre, filho de um pai alcoólico, cresceu sem dinheiro para ir ao Mac Donalds, e mesmo assim teve sucesso na vida. Que este campeonato seja uma festa. Desfrutem!
PS – E parem de chamar velho a uma pessoa 10 anos mais nova do que eu! Se ele fosse agricultor ainda era jovem, carago!

domingo, 28 de junho de 2026

Cenas da vida de um lavrador (I) - A mulher misteriosa


Ao fim tarde, mais uma vez, fui para o campo à hora de vir. O campo fica a 400 metros da foz do Rio Ave, nas traseiras do convento abandonado de Nossa Senhora dos Anjos, convento franciscano mais conhecido pela Igreja de S. Donato. Para chegar ao campo atravessei outro campo que fica no fim de uma rua sem saída. O objetivo era juntar a erva que já estava cortada e seca ao sol ou, como nós dizemos, “encordoar”, colocar em “cordões” para fazer rolos e plastificar no dia seguinte. Cheguei ao campo e desci do trator para “armar a tenda”, que no caso consistia em montar as várias hastes do “encordoador” na posição horizontal, posição de trabalho, ficando com 4 metros e trinta de largura. Na hora de voltar a subir para o trator e começar a juntar a erva, vi uma mulher, relativamente jovem, a caminhar ao meu encontro, já depois de ter atravessado o primeiro campo. Trazia na mão uma latinha de creme nívea e dois ou três pedaços de creme colocados no rosto, talvez em borbulhas ou queimaduras.

- Posso passar?
- Para onde quer ir???
- Para o mar. Quero caminhar em direção ao pôr do sol!
Estranhei a voz ligeiramente nervosa, mas pensei que podia ser alguém a passar férias, instalada nalgum alojamento local próximo, à procura de um atalho para a praia. Então respondi:
- Pode descer por ali para o outro campo, ao meio há um caminho onde pode virar à direita e no fim do campo está na foz do rio Ave, virando à esquerda está na praia de Azurara.
Ela agradeceu, seguiu caminho e eu fiquei só com o trator, a máquina e o meu trabalho, mas cada vez mais angustiado com os meus pensamentos. Tirei uma foto quando já estava a 100 metros de distância e filmei-a a caminhar tão longe que já parecia um fantasma. Seria apenas uma turista, como pensei, alguém à procura de um momento “zen”, um momento de paz e meditação em frente ao mar, ou uma pessoa perturbada a caminho de um ato de desespero? Devia eu ter perguntado à senhora se precisava de ajuda? Estaria ela disposta a responder alguma coisa a um “lavrador” armado em psicólogo? Pensei ligar para os bombeiros ou para a GNR, mas e depois? Dizia-lhes que passou por mim uma mulher estranha e que era melhor segui-la para ver se ia apanhar sol ou atirar-se ao mar? Como iriam reagir no quartel? Sairiam em patrulha à procura dela ou diriam para ter juízo e procurar ajuda porque quem não estava bem era eu?
Nunca mais a vi e, sobretudo, mais importante, nas semanas seguintes, não ouvi notícias de qualquer ocorrência negativa. Espero que tenha encontrado a praia e a paz, que esteja bem e que não seja identificada nesta publicação onde procurei respeitar a sua privacidade como, mal ou bem, fiz nesse dia.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Os Pedros, os lobos e os calores

Já escrevi aqui, em plena vaga de frio no inverno de 2025, que tinha saudades do tempo em que o estado do tempo era um desbloqueador de conversas e não um detonador de discussões entre guerreiros do teclado. Uma pessoa chegava a um elevador ou à sala de espera do médico, comentava que estava frio e uns acenavam com a cabeça, outros ficavam calados e outros, se quisessem, tinham conversa para ocupar o tempo de espera.
Na pior das hipóteses, as discussões a sério eram resolvidas à sacholada quando os lavradores não se entendiam nas repartições das águas das presas.
Agora, venha frio ou calor,  vento ou chuva, lá começa a discussão entre os adeptos da teoria do “fim do mundo” (vamos todos morrer, temos de mudar de carro e de dieta) e do “fim do mês” (não se passa nada). 
Para piorar, as redes sociais estão cheias de páginas “meteo”  a lutar desesperadamente por likes e até a comunicação social tradicional às vezes entra nessa luta desesperada pela audiência. São os “Pedros” do nosso tempo, que buscam a mesma atenção que o Pastor Pedro, na história tradicional, procurava quando estava aborrecido a guardar as ovelhas e gritava “lobo” para ver toda a gente acudir, e quando veio o lobo a sério já ninguém o levou a sério. 
O risco, hoje, é que quando os lobos do calor ou de outros extremos vierem, como sempre vieram, mas agora podem vir mais vezes, com mais força, por várias causas que não quero agora aqui discutir, o problema é que se vierem, quem vai sofrer não são os “Pedros” dos likes, que nessa hora já estarão bem isolados do calor ou do frio com o dinheiro que ganharam nas discussões, quem vai sofrer serão as “ovelhas” do nosso tempo, que são os mais idosos, os mais sós, os doentes, os sem-abrigo, e no caso da agricultura, nós, os nossos trabalhadores, os nossos animais e as nossas culturas agrícolas. 
Sejamos objetivos. Procuremos informação credível como o site do IPMA, que na precisão da temperatura não costuma falhar. Na próxima semana, dizem as previsões,  vem calor. Não é o fim do mundo, é só muito calor. Protejam-se, e discutam menos, que aumenta ainda mais a temperatura…
#carlosnevesagricultor #agricultura #tempo #calor #VamosTodosMorrer

quinta-feira, 18 de junho de 2026

História de um gato preto


Tive um tio (por afinidade) que era médico de família, como o Dr. João Semana, do livro “As pupilas do Sr. Reitor”, de Júlio Dinis, e também dentista, com um consultório no Porto e outro na freguesia natal. Na sala de espera, tinha um quadro / aviso: “Ao médico, ao advogado e ao padre, dizei só a verdade”. No consultório, tinha uma cadeira antiga de dentista, onde passei longas horas a sofrer e também, em jeito de anestesia, a ouvir muitas histórias da sua vida.

Aconteceu que um dia, o meu tio foi chamado para acudir a um bruxo ou bruxa de uma freguesia vizinha, que estava doente (vou deixar em dúvida para não identificar exatamente a pessoa em causa). Lá foi o meu “tio doutor” na mota que usava para as consultas na aldeia. Chegou lá, entrou no quarto e um gato preto saltou da cama do/a doente.
- Não tenha medo!
- Não tenho medo de gatos!
Realizada a consulta e deixada a receita, disparou o meu tio para a pessoa, que quando não estava doente era sua “concorrente”:
- Então você atende aqui tanta gente e agora que está doente chama-me???
- Ó Sôtor, eu já passei muita miséria! Agora, com duas tretas, endireitei a minha vida!
Portanto, agora que já prendi a vossa atenção, se alguém precisar de endireitar a vida, ou simplesmente de companhia, tenho esta gatinha preta para adoção (agora já está mais crescida).