terça-feira, 22 de março de 2022

Sobre a falta de fertilizantes, exposição ao Ministro da Agricultura em 1934


A notícia de que o governo vai procurar substitutos orgânicos para os adubos químicos fez-me lembrar um texto de 1934, escrito por João Vasconcelos e Sá, avô do fadista António Pinto Basto, recitado num jantar de carnaval ao Ministro da Agricultura de então:

 



"Ao Excelentíssimo Senhor

Ministro da Agricultura

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Exposição

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Porque julgamos digno de registro

A nossa exposição, Senhor Ministro,

Erguemos até vós, humildemente,

Uma toada unissona e plangente,

Em que evitamos o menor deslise,

E em que damos razão da nossa crise.

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Senhor! em vão esta provincia inteira,

Desmoita, lavra, atalha a sementeira,

Suando até à fralda da camisa.

Mas falta-nos a matéria orgânica precisa,

Na terra que é delgada e sempre fraca.

A matéria em questão, chama-se CACA.

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Precisamos de merda, senhor Soisa!

E nunca precisamos de outra coisa.

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Se os membros desse ilustre Ministério,

Querem tomar o nosso caso bem a sério,

Se é nobre o sentimento que os anima,

Mandem cagar-nos toda a gente em cima,

Dos maninhos torrões de cada herdade!

... E mijem-nos também por caridade!

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O Senhor Oliveira Salazar

Quando tiver vontade de cagar,

Venha até nós!...

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Solícito, calado,

Busque um terreno que estiver lavrado,

Deite a calças a baixo, com sossego,

Ageite o cu bem apontado ao rego,

E, ... como Prisidente do Conselho,

Queira espremêr-se até ficar vermelho!

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A nação confiou-lhe os seus destinos? ...

Então, comprima, aperte os intestinos;

E... se lhe escapar um traque, não se importe,

... Quem sabe se o cheirá-lo não dará sorte?

Quantos porão as suas esperanças

Num traque do Ministro das Finanças?...

E também quem viver afito, e sem recursos,

Já não distingue os traques dos discursos.

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Não precisa falar!... Tenha a certeza,

Que a nossa maior fonte de riqueza,

Desde as grandes herdades às courélas,

Provém da merda, que juntar-mos nelas.

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Precisamos de merda, senhor Soisa!

E nunca precisamos de outra coisa.

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Adubos de potassa?... Cal?... Azote?...

Tragam-nos merda pura do bispote!

E todos os penicos portugueses,

Durante, pelo menos, uns seis meses,

Sobre o montado sobre a terra campa,

Continuamente, eles nos despejem trama!

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Ah, terras Alentejanas, terras nuas,

Desespêros de arados e charruas,

Quem os compra ou arenda ou quem as herda,

Sente a paixão nostálgica da merda...

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Precisamos de merda senhor Soisa!

E nunca precisamos de outra coisa.

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Ah!... Merda grossa e fina!

Merda boa, das inúteis retretes de Lisboa!...

Como é triste saber que todos vós,

Andais cagando sem pensar em nós??

Se querem fomentar a agricultura,

Mandem vir muita gente com soltura.

Nós darêmos o trigo em larga escala,

Pois até nos faz conta a merda rala.

.

Ah, venham todas as merdas à vontade,

Não faremos questão da qualidade.

Formas normais ou formas esquisitas,

E, desde o cagalhão às caganitas,

Desde a pequena põia à grande bósta,

De tudo o que vier, a gente gosta!

.

Precisamos de merda, senhor Soisa!

E nunca precisamos de outra coisa.

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Évora, 13 de Fevereiro de 1934

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Pela Junta Corporativa dos Sindicatos Reunidos do Norte, Centro e Sul do Alentejo.

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O Presidente

Dom Tancredo / O Lavrador»

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