
Cansados de histórias de um mundo cada vez mais poluído? Posso contar-vos um caso em sentido contrário. Hoje quando fui ao campo apanhar erva para os animais reparei na água transparente da "Ribeira da Granja" que passa ao lado. Nasce algures nas freguesias de Vairão e Macieira, em vários fios de água que no Verão ficam secos, passa por Fajozes, Árvore, Azurara e desagua na margem esquerda do Rio Ave, entre os estaleiros de Azurara e a foz, no lugar da Granja, que lhe dá o nome.
Quando eu era criança havia cá na terra uma grande fábrica, a Nórdica, uma tinturaria que tingia a roupa e também o regato à cor da moda, variando com os dias. Às vezes a água vinha quente e um dia até queimámos o milho ao regar o “campo da ribeira” com essa água. Outros dias, muitos dias, cheirava à suinicultura da zona. Depois a Nórdica fechou e a suinicultura, que ainda existe, construiu lagoas de tratamento/decantação dos efluentes, mas entretanto também construíram a zona industrial da Varziela e uma etar com o pomposo nome de “ambicentro”, que ficou abandonada e cheia de silvas alguns anos depois de ser notícia de jornal pela inovadora “tecnologia de tratamento” que possuía. Mais tarde a zona industrial, que creio não ter indústrias particularmente poluentes, passou a “zona comercial dos chineses” e com esse e outros “saneamentos diretos” das habitações ao longo do percurso o regato tornou-se um esgoto a céu aberto cada vez mais poluído até à foz. Um dia estávamos a regar o milho com essa água e veio a GNR perguntar porque estávamos a regar o milho com “água choca”, pois pelo aspeto parecia que vinha direto de alguma fossa (e vinha, de muitas). Resultado: deixei de regar um dos campos, cuja frescura da terra tem bastado para ter milho de qualidade e gastei dinheiro a fazer um poço noutro campo para poder ter água limpa para rega. Até que há uns anos construíram um sistema de saneamento ao longo da ribeira e voltamos a ter lá água quase transparente. Pagaram uma pequena indemnização pelas culturas que estragaram durante a obra e pelas tampas de vigia que deixaram a estorvar o trabalho dos campos e eu pagaria o dobro para que não estivessem lá ou estivessem enterradas mas a compensação principal é ver de novo a ribeira quase recuperada. Ainda há alguma turvação, ainda há algum lixo nas margens e no fundo, ainda não vi as enguias que haveria antigamente, mas já vemos areias douradas no fundo e alguns patos bravos a viver pelas margens. Ainda há muito por fazer mas há que valorizar o que já foi feito. #carlosnevesagricultor
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