O Presidente da Câmara de Águeda quer recuperar o cultivo de milho nos campos agrícolas em redor das aldeias do seu concelho para dificultar a progressão dos incêndios florestais e eu apoio essa ideia.
A propósito do incêndio que afetou o concelho no início de julho, disse o presidente: “Eu diria que vi o teste. O incêndio estava a progredir com uma violência incrível. Chegou a uma área de milho, chamuscou as duas primeiras carreiras e parou imediatamente”.
Os especialistas têm vindo a alertar que os terrenos abandonados onde a erva cresce no inverno e seca no verão são o equivalente a deixar a torneira do gaz aberta, à espera de uma faísca.
Eu concordo que não será simples a câmara fazer a sementeira e tratar do milho, mas acho que se deve começar já a tratar do assunto, e não é no próximo verão quando estiver a arder, nem no inverno quando Águeda e os restantes concelhos do país estiverem ocupados com as festas de Natal e preocupados com as inundações. O melhor é começar a estudar e decidir já, enquanto o assunto está, literalmente, “quente” e atrevo-me a atirar meia dúzia de ideias para a fogueira dessa discussão que não se deve apagar com a chegada das chuvas, tal como esperamos que se apaguem os incêndios.
Podem começar com uma área experimental.
A Câmara pode começar por dar um apoio aos agricultores locais que se comprometam a semear o milho.
Se não houver disponibilidade dos agricultores locais, pode contratar prestadores de serviços agrícolas que conseguem lavrar, preparar a terra, semear, fazer a monda e colher.
Pode, (deve!) chamar os agricultores locais, associações, cooperativas, historiadores, a gente mais velha, e perguntar porque deixaram de cultivar o milho, o que acham da ideia, o que pode correr mal.
Foi por causa da destruição causada pelo javali que abandonaram o milho, como aconteceu em muitas aldeias de Portugal? Ok, vamos controlar o javali, ou vamos deixar o javali mandar em nós para morrermos à fome e queimados?
Falta rega? Mas nunca se regou lá? Como dava milho antes? Não há poços, regadios tradicionais, pequenos ribeiros? Um pouco de água que dê para usar com a rega gota-a-gota? Há eletricidade? Temos de vender um rim para pagar cada “baixada”? Ou usar variedades de ciclo muito curto, semeadas o mais cedo possível, que produzem menos, mas também precisam de menos água?
O milho vai ser destinado a grão ou a silagem? Se não houver vacas para comer essa silagem, podem fazer “bolas” ou rolos e vender ou oferecer para alimentar no inverno os rebanhos de cabras e ovelhas que no resto do ano podem limpar os montes e terras impossíveis de cultivar para também aí proteger os incêndios.
E se for de todo impossível cultivar milho, porque não experimentar a luzerna, que não precisa de adubo azotado, nem de herbicida e tem uma raiz que vai buscar a água lá o fundo, muito fundo, e só exige cortes múltiplos dando um alimento com muita proteína? Ou azevém, ou aveia, que se colhe no fim da primavera ou início do verão, e que depois, não estando verde como o milho, pelo menos também não deixa crescer arbustos e ervas no inverno para arder no verão?
A agricultura é a única forma de alimentar a população e é a melhor forma de a proteger contra os incêndios e, como ouvi um dia numa palestra a D. António Couto, Bispo de Lamego: “Quem quer arranja maneira, quem não quer arranja desculpas”. Força com isso, e comecem já!
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