terça-feira, 15 de setembro de 2026

As notícias da morte da agricultura são manifestamente exageradas

Conta-se que, certo dia, ao ler num jornal a notícia da sua própria morte, o escritor Mark Twain respondeu escrevendo que “as notícias da minha morte são manifestamente exageradas”. Conta-se também que “o otimista é alguém que vê a luz ao fundo do túnel, mesmo quando ela não está lá, enquanto o pessimista é alguém que vai a correr apagá-la”. 

A partilha que eu fiz de um excerto de um artigo sobre a falta de candidatos em alguns cursos de agronomia neste ano de 2026, escrito por José Palha num artigo para o jornal Sol, despertou um conjunto de comentários, quase todos negativos, que agradeço e a que pretendo responder.

Primeiro, permitam-me que puxe dos meus galões da idade, porque com os anos não podemos ganhar só mazelas, também temos de ganhar estatuto e eu já vivi mais de meio século e toda a vida convivi com este “agro-pessimismo” generalizado e sempre me irritou ouvir dizer que a agricultura tinha acabado, porque não gosto de ouvir dizer que não existo, pronto! O meu pai dizia que “os homens são como o vinho, a idade adoça uns a azeda outros”, mas, em maior ou menor grau, é normal, à medida que os anos passam, ficamos mais pessimistas e rabugentos, e isso é bom, porque a alternativa era morrer cedo.

Depois, dizem que a falta de alunos em alguns cursos agrícolas é sinal do abandono da agricultura, mas, no passado, a ida de alguém para o ensino superior agrícola tinha muitas vezes, como objetivo, “sair da lavoura” e procurar trabalho atrás de uma secretária, no ministério da agricultura, nas cooperativas, associações, agroindústrias, fábricas de rações, empresas comerciais… e isso não era mau em si, era normal, se uma familia tinha 2, 3, 5 ou 10 filhos, não podiam ficar todos a trabalhar na terra que já era pouca.

Terceiro, pedi ao google para me fazer um gráfico com a evolução do número de vagas em agronomia e do número de candidatos colocados na primeira fase e, afinal, o gráfico não é a desgraça que parece quando olhamos para alguns cursos que ficam vazios. Então, está tudo bem? Claro que não! É evidente que muita coisa está mal, podem ser cursos desajustados ao mercado, pode ser excesso de cursos, talvez o setor agrícola deva estimar e comunicar o numero de licenciados de que vai precisar no futuro, e também os governantes devem avaliar se querem meter “sangue novo” nos quadros do ministério da agricultura, porque se há gente nova, não os vejo, e apesar das organizações agrícolas hoje fazerem muito do trabalho que antigamente era “extensão rural”, ainda assim há coisas, como os controlos e certificações, que, na minha opinião, não deviam ser tão “privatizadas” como estão a ser.

Quarto ponto, este menos positivo, talvez seja só impressão minha, mas, por razões que não quero agora discutir, por falta de tempo e espaço, passamos de um tempo em que se tinha “pena” do agricultor pobre e desgraçado para um tempo em que se ganhou “raiva” ao “agrónomo”, o “gajo mau” que aconselha e vende pesticidas, adubos químicos e sementes transgénicas, já para não falar sobre toda a imagem negativa dos zootécnicos e veterinários da pecuária, por isso os jovens candidatos à veterinária, quando não estão apenas à espera de uma vaga em medicina, tem por objetivo dedicar-se apenas a cães, gatos e outros animais de companhia.

Quinto e último ponto, de forma muito positiva, a todos os alunos (e aos seus familiares, que possam ler isto com o coração apertado) que agora entram em agronomia, zootecnia, veterinária e tudo o que tenha ver com agricultura, sejam bem-vindos, ânimo, pensamento positivo! A agricultura precisa de vós, precisa de sangue novo, precisa de massa cinzenta, os que já cá estão precisam da vossa “concorrência” e Portugal, e o mundo, precisam dos campos cultivados, do território ocupado e de comida na mesa! 
 #agricultura #agronomia #zootecnia #veterinaria #EnsinoSuperior

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

A luta do leite


Em janeiro de 2026 o preço do leite ao produtor desceu 3 cêntimos por litro e em agosto outro cêntimo e meio. Estas descidas representam aproximadamente uma perda de 72 milhões de euros para a produção face a 2025 e coincidem com aumentos dos custos de com fertilizantes, combustíveis e rações e com uma redução na produção de milho devido às ondas de calor. Além disso, pagamos o gasóleo agrícola 20 cêntimos acima dos colegas de Espanha e recebemos outras ajudas a um nível muito inferior em comparação com o país vizinho.
É verdade que o preço do leite ao produtor desceu menos em Portugal do que noutros países da Europa, mas também é verdade que isso aconteceu porque Portugal teve ao longo dos anos o preço mais baixo entre todos os países da EU. Não tivemos em Portugal um período de vacas gordas que nos permitisse acumular reservas e fazer investimentos. 
A descida do preço tem sido comunicada aos produtores tendo como justificação a descida de valor do leite em pó e da manteiga e a dificuldade em escoar leite por causa da importação de leite francês e das promoções agressivas com leite açoriano.

Para evitar ou atrasar tanto quanto possível essas descidas que ocorreram e novas descidas que alguns dizem que ainda vão acontecer, e que seriam dramáticas para o setor, nós, na APROLEP, ao longo dos últimos meses, procurámos combater as causas, desenvolvendo uma intensa campanha de comunicação, primeiro, de forma positiva, para apelar à distribuição e aos consumidores para darem preferência ao consumo de leite nacional, através da oferta de leite e do contacto com os consumidores na Rua de Santa Catarina no Porto e depois numa praia do Algarve. Para reforçar e levar mais longe a mensagem, de forma inédita, pagámos para um avião atravessar o Algarve de Portimão a Vila real de Santo António com a mensagem “BEBA LEITE NACIONAL”. 

Entretanto, apercebemo-nos que voltaram as importações de leite estrangeiro para os supermercados da cadeia Intermarché. Depois de um primeiro apelo que não foi ouvido e de um pedido de reunião que ainda não teve resposta, colocámos um primeiro rolo de palha no Intermarché da Maia e não vamos desistir dessa luta. 

O leite e os produtos agrícolas produzidos em Portugal alimentam os portugueses e a economia de Portugal, reduzindo o défice comercial e mantém os campos cultivados e longe dos incêndios.

O produtor é o elo mais fraco na cadeia de valor do leite e a corrente rebenta sempre pelo elo mais fraco, mas quando uma “casa de lavoura” vende as vacas leiteiras, nunca mais volta à produção de leite. As indústrias privadas e sobretudo a indústria cooperativa têm de ter consciência disto e da responsabilidade de defender a produção, criar valor e partilhar o valor com os produtores a quem pertencem.
Carlos Neves
Secretário-geral da APROLEP
Artigo de opinião no jornal Terras do Ave a 9.9.2026

sábado, 29 de agosto de 2026

Cenas da vida de um lavrador obrigado a crescer



Há muito, muito tempo…(precisamente quando o José Cid, autor de uma canção que começa assim, ainda era uma criança) a minha avó, Esperança, ficou viúva, mas com 3 vacas e 3 leiras de terra, criou 5 filhos e ainda comprou mais 3 hectares de terra.

Vinte anos mais tarde… quando o meu pai casou, já tinha trocado as “cortes” e os “aidos” do gado debaixo da velha casa de lavoura por uma pequena vacaria com 12 vacas e respetivas crias, alimentadas por 6 hectares de terra própria que cultivava.

Vinte anos passados, no início da década de 80, quando eu fui com o meu pai ouvir o José Cid à festa da Nossa Senhora das Neves, na freguesia vizinha de Azurara, já tínhamos mudado para a casa nova com uma vacaria maior e 30 vacas.

Com mais 20 anos em cima, instalei-me, como jovem agricultor, com 40 vacas e 10 hectares.
Parece que foi ontem, mas desde que me instalei já passaram 30 anos e hoje cultivo 30 hectares, a maior parte dos quais “arrendados” (parcelas de terra que há 50 anos eram cultivados por 8 famílias diferentes), tenho 70 vacas e outras tantas vitelas e novilhas, mas poderia ter 200 ou 300, que é agora o tamanho normal de muitas vacarias aqui em Vila do Conde.

Estou a dar estes números como exemplo da evolução da nossa agricultura. Não me estou a gabar nem a queixar. Não quero que tenham pena nem raiva, apesar da avó Esperança dizer que era melhor terem raiva do que pena dela, sinal que estava bem.

Estou convencido que esta história é semelhante à de outros agricultores noutros setores e regiões, cada um com uma evolução diferente, como na parábola dos talentos. Poderão encontrar quem manteve, quem dobrou, algum que passou de 3 para 30, outros para 300 ou até 3000, quer sejam hectares de terra ou animais. Não é esse campeonato que está em causa neste texto.

Quero apenas explicar que houve uma saída contínua de pessoas da agricultura desde há 200 anos, após a revolução industrial, procurando e aproveitando as oportunidades de uma vida melhor fora da agricultura.

Por outro lado, quem escolheu ficar na agricultura, teve de escolher também entre crescer ou acabar, porque parar de crescer ou de melhorar é como deixar de pedalar quando andamos de bicicleta.
Olhando para esta evolução, contudo, vejo dois paradoxos:

Por um lado, precisamos de crescer para ter uma vida mais confortável e uma empresa com futuro para nós e para que os nossos filhos queiram e possam suceder. Por outro lado, ao crescer deixamos de ser o “pequeno agricultor” que desperta simpatia e ficamos mais perto de ser um grande agricultor ou “latifundiário”, palavra negativa, isto é, passamos da “pena” à “raiva”.

As políticas públicas supostamente apoiam o investimento na agricultura, para ganhar dimensão, mas, ao mesmo tempo, os apoios ao rendimento são dados de forma simplificada aos pequenos agricultores e de forma mais complicada aos “grandes”, o que estimula a divisão das empresas agrícolas na procura desses apoios, as multas são mais elevadas para as sociedades agrícolas do que para os agricultores individuais da mesma dimensão e as licenças são mais caras e complicadas de obter.

Se calhar, na próxima PAC, é preciso calibrar os apoios que houver e talvez torná-los mais ajustados e progressivos, tal como as modernas caixas de velocidades dos tratores passaram das mudanças aos saltos para variação contínua, para que possamos continuar a “viver a vida” com a agricultura “viva”, porque “o tempo que passou, não volta mais”.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Cenas da vida de um lavrador - a "bufadeira"

D. Branca, a gata mais velha do pedaço, com um olho amarelo e outro azul, quase morreu de parto e foi salva in-extremis por uma cesariana do Dr. Ernesto, depois da sua brancura ter sido descoberta em cima de um saco branco pela minha esposa, arrastada pela trela de uma Lassie que era suposto passear e não tinha exatamente as melhores intenções em relação à Branca, mas a vida é assim, às vezes “avança-se mais com os pontapés dos inimigos do que com os abraços dos amigos”.
Ao longo da sua vida, a gata Branca teve muitas ninhadas. Alguns não sobreviveram, outros foram dados para adoção. Curiosamente, da ninhada anterior sobraram todos: O “Jorge”, chamado assim por ser igual a outro “Jorge” anterior que era irmão de uma “Pepa”, por causa da “porquinha Pepa”, e que emigrou para o cimo da rua, provavelmente escorraçado pelo “Cream”, de cor creme, que se tornou o “macho alfa” entre a gataria cá de casa; O “Ice”, branco como o “Jorge” e como o comboio rápido da Alemanha onde viajámos de visita às feiras agrícolas de Hannover quando estes gatos eram pequenos (temos portanto um “Ice” e um “cream”, portanto, “Icecream”, gelado, ao contrário da relação “quente” e barulhenta entre os dois, apesar de termos mandado castrar o Ice para não ter o mesmo destino do irmão escorraçado) e ainda (como se dizia no tempo do “1,2,3”), fazia parte dessa ninhada uma gata que se auto-marginalizou, e que se tornou “brava”, ao contrário dos irmãos dóceis que querem mimo, e que “bufa” como sabem bufar os gatos quando se querem mostrar bravos, mesmo quando vem comer os restos do jantar e comida de gato que lhe oferecemos todos os dias, e que por isso foi batizada pela minha esposa de “bufadeira”.
Mal alimentada porque se marginalizou, a “bufadeira” teve várias crias que não sobreviveram mas houve finalmente um gatinho, que também era uma bufadeira pequenina, mas que se aproximou o suficiente da minha esposa para ser criado a sopas de leite e que eu, mais tarde, pacientemente, fui domesticando e mimando para poder dar para adoção , mas apesar de várias publicações ninguém o quis e agora, pequeno adulto, já deve ser tarde para o adotar, e por agora ainda não houve grande stress entre o Cream e o filho da bufadeira” e por isso adotei-o eu novamente, e isto é tudo literalmente verdade, e não é só sobre gatos.

domingo, 23 de agosto de 2026

Milho contra o fogo e contra a fome


O Presidente da Câmara de Águeda quer recuperar o cultivo de milho nos campos agrícolas em redor das aldeias do seu concelho para dificultar a progressão dos incêndios florestais e eu apoio essa ideia.  
A propósito do incêndio que afetou o concelho no início de julho, disse o presidente: “Eu diria que vi o teste. O incêndio estava a progredir com uma violência incrível. Chegou a uma área de milho, chamuscou as duas primeiras carreiras e parou imediatamente”.
Os especialistas têm vindo a alertar que os terrenos abandonados onde a erva cresce no inverno e seca no verão são o equivalente a deixar a torneira do gaz aberta, à espera de uma faísca.
Eu concordo que não será simples a câmara fazer a sementeira e tratar do milho, mas acho que se deve começar já a tratar do assunto, e não é no próximo verão quando estiver a arder, nem no inverno quando Águeda e os restantes concelhos do país estiverem ocupados com as festas de Natal e preocupados com as inundações. O melhor é começar a estudar e decidir já, enquanto o assunto está, literalmente, “quente” e atrevo-me a atirar meia dúzia de ideias para a fogueira dessa discussão que não se deve apagar com a chegada das chuvas, tal como esperamos que se apaguem os incêndios.
Podem começar com uma área experimental.
A Câmara pode começar por dar um apoio aos agricultores locais que se comprometam a semear o milho.
Se não houver disponibilidade dos agricultores locais, pode contratar prestadores de serviços agrícolas que conseguem lavrar, preparar a terra, semear, fazer a monda e colher.
Pode, (deve!) chamar os agricultores locais, associações, cooperativas, historiadores, a gente mais velha, e perguntar porque deixaram de cultivar o milho, o que acham da ideia, o que pode correr mal.
Foi por causa da destruição causada pelo javali que abandonaram o milho, como aconteceu em muitas aldeias de Portugal? Ok, vamos controlar o javali, ou vamos deixar o javali mandar em nós para morrermos à fome e queimados?
Falta rega? Mas nunca se regou lá? Como dava milho antes? Não há poços, regadios tradicionais, pequenos ribeiros? Um pouco de água que dê para usar com a rega gota-a-gota? Há eletricidade? Temos de vender um rim para pagar cada “baixada”? Ou usar variedades de ciclo muito curto, semeadas o mais cedo possível, que produzem menos, mas também precisam de menos água?
O milho vai ser destinado a grão ou a silagem? Se não houver vacas para comer essa silagem, podem fazer “bolas” ou rolos e vender ou oferecer para alimentar no inverno os rebanhos de cabras e ovelhas que no resto do ano podem limpar os montes e terras impossíveis de cultivar para também aí proteger os incêndios.
E se for de todo impossível cultivar milho, porque não experimentar a luzerna, que não precisa de adubo azotado, nem de herbicida e tem uma raiz que vai buscar a água lá o fundo, muito fundo, e só exige cortes múltiplos dando um alimento com muita proteína? Ou azevém, ou aveia, que se colhe no fim da primavera ou início do verão, e que depois, não estando verde como o milho, pelo menos também não deixa crescer arbustos e ervas no inverno para arder no verão?
A agricultura é a única forma de alimentar a população e é a melhor forma de a proteger contra os incêndios e, como ouvi um dia numa palestra a D. António Couto, Bispo de Lamego: “Quem quer arranja maneira, quem não quer arranja desculpas”. Força com isso, e comecem já!
#carlosnevesagricultor #milho #agueda #incendios #fogo

terça-feira, 11 de agosto de 2026

O que vão fazer as vacas durante o eclipse?

 

Se me perguntassem isso, a minha resposta seria que vão fazer o que fazem sempre, noite e dia: comer, beber (água), ruminar, dormir, caminhar, brincar, coçar-se na escova, andar à pancada a mostrar quem manda, fazer leite durante esse tempo todo e ser ordenhadas 2 ou 3 vezes por dia durante 7 minutos de cada vez, em média.
Entretanto, num grupo de produtores de leite franceses, encontrei um texto de Alix Penichou, de L'Action Agricole Picard / Reussir fr , com o título "Eclipse: O que as vacas farão quando o dia estiver quase no fim?", pensando sobretudo nas vacas em pastagem:
"Na quarta-feira, 12 de agosto, o sol ficará encoberto em aproximadamente 91% na região do Somme. Essa queda repentina de luminosidade poderá afetar os padrões de deslocamento do gado. No entanto, não há motivo para pânico generalizado nos pastos. Cientistas já observaram esse fenômeno.
Amanhã à noite, as vacas poderão ter uma sensação estranha: a de que o dia terminará mais cedo do que o esperado. Em Amiens, o eclipse solar começará às 19h20, atingirá o seu máximo às 20h16, com 91,2% do disco solar obscurecido, antes de terminar às 21h08. O sol estará então muito baixo, a apenas 8,1° acima do horizonte, na direção oeste-noroeste.
Para os criadores de gado da região do Somme, esse fenómeno pode ser uma oportunidade para observar os seus animais. A luz desempenha um papel significativo nos ritmos diários dos animais e, quando desaparece repentinamente no meio do dia, alguns podem alterar o seu comportamento.
Será que as vacas conseguem acreditar que a noite está a chegar?
A resposta é sim… mas com algumas nuances. Um estudo publicado na revista Applied Animal Behaviour Science examinou especificamente o comportamento de vacas leiteiras durante um eclipse total. Os pesquisadores observaram o gado durante um eclipse em que o nível de luz caiu para níveis comparáveis ​​aos da noite.
O resultado: o eclipse não causou grandes alterações no comportamento de pastoreio ou ruminação das vacas. Os pesquisadores concluíram que a intensidade da luz, por si só, não parece desempenhar um papel importante no controle dos ritmos diários de pastoreio. Em outras palavras, as vacas não interrompem as suas atividades assim que a luz diminui. No entanto, outras observações mostram que os animais ainda conseguem reagir à mudança repentina de luminosidade.
Durante o eclipse solar total de 2017 nos Estados Unidos, uma equipe de pesquisadores estudou o comportamento de 17 espécies de animais no Zoológico Riverbanks, na Carolina do Sul. Treze das 17 espécies exibiram comportamentos diferentes do habitual.
Os pesquisadores identificaram quatro tipos principais de reações: comportamento consistente com hábitos noturnos, sinais aparentes de ansiedade, comportamentos incomuns e… ausência completa de reação. Em algumas espécies domésticas e selvagens, foram observados comportamentos associados ao anoitecer: retorno aos locais de repouso, agrupamento ou diminuição da atividade.
Mais recentemente, pesquisadores da Universidade Estadual de Ohio monitorizaram de perto um rebanho de 165 vacas da raça Holstein durante o eclipse solar total de 8 de abril de 2024. O gado foi equipado com coleiras para registar a sua atividade. Os pesquisadores compararam o comportamento dos animais antes, durante e depois do eclipse.
Os resultados são bastante tranquilizadores para os agricultores: não foi observada nenhuma diferença significativa na atividade no dia do eclipse em comparação com os períodos anteriores e posteriores ao evento. Os pesquisadores também vigiaram a produção de leite. Notaram variações na produção, mas estas corresponderam principalmente a um aumento nas médias ao longo dos dias e não permitiram atribuir qualquer efeito ao eclipse.
Portanto, não houve queda repentina na produção. E, sobretudo, não há motivos para crer que um eclipse possa ter um impacto duradouro na saúde ou no desempenho do rebanho.
Então, devemos ficar de olho em nossos animais?
Sim, mas mais por curiosidade do que por preocupação. As vacas poderiam continuar pastando como se nada estivesse errado... ou decidir que o dia acabou. De qualquer forma, alguns minutos de observação poderão render imagens interessantes.
Entretanto, nós por cá, na RFM, temos um artigo "Eclipse solar: há cuidados que também deves ter com os teus animais", onde se diz
"Mas se tens um animal de estimação (sim, digo eu, tenho bastantes), há uma recomendação simples que deves guardar: não tentes pôr-lhe óculos de proteção nem o obrigues a olhar para o eclipse. (ó pá, era mesmo isso que eu estava a pensar fazer...).
Enfim, como se diz aqui à moda do Porto, "Balha-me Deus!!!"
PS - Tende mas é cuidado que não baixem ainda mais o preço do leite ou de outros produtos aos agricultores durante o eclipse!!!

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Cenas da vida de um lavrador (IV) - Futebol, Fátima e Fado


 Futebol
Algures na década de 90 do século passado, eu teria cerca de 15 anos, era aluno da Casa-Escola Agrícola Campo Verde, em S. Pedro de Rates, Póvoa de Varzim, vogal multifunções da “Junta de autogoverno” da turma (uma equipa de 5 elementos que fazia as funções do “delegado de turma”) e guarda-redes da equipa de futebol da mesma turma. Um dia, tendo sido combinado um jogo com uma turma da escola C+S local, por razões que já esqueci, foi preciso ir à dita escola antes do jogo combinar os últimos detalhes. Lamentavelmente, aceitei tomar café, coisa com que não tinha experiência, mas que me deixou ainda mais nervoso. Entretanto, durante o jogo, quando já estávamos a perder 2-0, por golos de que não tive culpa, atrasaram-me a bola, não a consegui agarrar e à segunda tentativa escorregou-me das mãos e ainda meti a bola dentro da baliza. A minha carreira no futebol acabou aí… 

Fátima
No final desse mesmo ano letivo, as seis “Casas-Escolas Agrícolas” que então existiam agrupadas na APDR (agora existe apenas a nossa Escola em Rates, para além das outras escolas agrícolas que são públicas), juntaram-se em Fátima num convívio. Depois das orações e missa durante a manhã e do almoço de convívio e partilha de farnéis, 600 pessoas reuniram-se no auditório Paulo VI para uma palestra de que nada recordo, exceto que a dada altura o Dr. António Damásio, então diretor da nossa escola, sem me ter avisado ou preparado, foi ao microfone e chamou-me ao palco para ir dizer umas palavras sobre a escola e sobre a região do Entre Douro e Minho. Não me lembro do que disse, mas sei que correu bem, porque bateram palmas no fim e não me criticaram. A única coisa de que me lembro é que estava tão nervoso que as minhas pernas tremiam como varas verdes. Foi a primeira e a última vez. Depois disso já falei com 3 presidentes da república, ministros, deputados, eurodeputados, comissários europeus, já dei entrevistas em direto, no estúdio ou no meio das vacas… e nunca mais fiquei tão nervoso como dessa vez. Foi uma vacina e peras! 

Fado
Quando fiz o 9º ano na Escola Secundária José Régio, em Vila do Conde, cruzei-me na turma do 9ºI, se a memória não me falha, com um colega chamado Alexandre, que nunca mais vi, muito simpático e com um sentido de humor refinado… Sempre que me ouvia a cantarolar uma música, coisa que eu fazia com frequência, dizia: “Ó Neves, gostas dessa música?”, e eu dizia que sim, na primeira vez, pelo menos, porque “à primeira quem quer cai, à segunda cai quem quer” e portanto:
Gostas dessa música?
Gosto!
Então não a estragues!...
E portanto, citando Frei Hermano da Câmara, “Ser fadista foi meu sonho / mas não foi esse o meu fado / Deus traçou-me outro caminho / cheio de amor e carinho / fez-me andar para outro lado!”
(Escrito para a revista Mundo Rural de julho - Agosto de 2026)

sábado, 1 de agosto de 2026

A boa, o mau e o vilão - a raposa, o lobo e o javali

A raposa, até agora, foi boa para mim, porque quem não me faz mal já faz bem. A foto de uma raposa a passar ao lado de minha casa causou intenso debate entre os defensores das galinhas e os defensores da raposa, como se o meu comentário “anda mais perto do que eu pensava”, fosse um apelo à caça do animal. Ora eu não sou caçador de raposas. Aqui na net sou mais do que eu, mas sou apenas caçador de preconceitos, e apanhei-vos, porque eu só perguntei se os galinheiros estavam bem fechados. Soube, entretanto, que não estavam. Tem sido uma razia com galinhas, gansos e patos aqui à volta, porque as pessoas já não estavam habituadas às raposas, mas as raposas estão a habituar-se às pessoas e têm cada vez menos vergonha. Tive relatos de raposas que vão à porta do café, entram nos quintais durante o dia e deitam-se nos muros como os gatos e, já agora, também levam gatinhos. 
Até agora, a raposa foi “boa” para mim porque não me fez mal, não estragou milho nem atacou as minhas galinhas, talvez porque eu tinha o galinheiro fechado por causa da gripe das aves ou talvez a raposa não goste de galinhas com cheiro a vaca e se um dia tiver problemas a primeira solução será reforçar o galinheiro. 
Sobre os preconceitos, um facto: Aqui não houve incêndios. A raposa não veio a fugir de qualquer problema: é a natureza a evoluir naturalmente, como sempre evoluiu, a crescer e reproduzir-se quando tem oportunidade e, curiosamente, aqui nos meus campos cada vez mais no meio da cidade, de estradas, armazéns, casas e carros, andam cada vez mais animais: As andorinhas continuam a vir todas as primaveras, uma coruja veio viver para o Sinal, uma lontra para o meio do milho, uma ave de rapina (milhafre, acho) é visita cada vez mais frequente, as cegonhas vieram do rio Vouga para o Rio Ave, os peixinhos voltaram ao ribeiro que está menos poluído e as gaivotas que até há 30 anos só comiam peixe, aprenderam que quando alguém mexe na terra com o trator levanta minhocas e outros bichinhos que elas gostam de comer e por isso as gaivotas deixam a praia e vão cada vez mais para o interior, até agora, sem prejuízos, mas temos de estar atentos e saber viver com isto.
Entretanto, o “lobo mau” está de volta ao Alto Minho e a Trás-os-Montes. Sucedem-se os relatos de ataques a rebanhos. Toda a gente concorda que é preciso “mais cabras nos montes e menos cabr*** nos gabinetes”, e o lobo também concorda, porque lhes chama um petisco, às cabras, porque os outros ficam longe, mas depois as indemnizações vêm tarde ou nunca, os agricultores ficam sem os animais e com o prejuízo, as pessoas desesperam, desistem ou revoltam-se e os montes ficam sem as vacas, as cabras e as ovelhas. Não falei disto até agora porque o lobo ainda não chegou aqui e esta página é sobretudo para falar da realidade da minha agricultura, mas, POR FAVOR, VAMOS DAR ATENÇÃO A ESTE PROBLEMA E AJUDAR A GENTE QUE ESTÁ A SOFRER COM OS LOBOS? Ou cães vadios, seja lá o que for! Mais ajuda, mais ação e menos discussão!
Pior do que o lobo, O JAVALI É O GRANDE VILÃO da agricultura portuguesa. Ainda não chegou aqui, mas já anda perto, literalmente a meia dúzia de kms. Destrói campos de milho, onde calha, à sorte, fuça e escava, um bocado aqui, outro bocado ali. Nas clareiras de milho destruído crescem em vez dele as figueiras do inferno, ervas daninhas muito venenosas. Fazer seguros? Parece que só pagam prejuízos acima de 30%. Cerca elétrica? É uma solução que está a ser estudada, mas é muito mais difícil cercar um campo no meio do monte contra o javali do que um galinheiro contra a raposa. Aquela piada “posso não valer nada, mas javali”, ficou desatualizada: o Javali vale cada vez mais pela negativa, é uma praga descontrolada que está a fazer muito mal à nossa agricultura: ficam campos abandonados porque as pessoas desistem de produzir milho. Sucedem-se acidentes na estrada e invasões nas cidades. Podem ser portadores de doenças como a peste suína africana. 
Arrisco dizer que, em muitas situações, o javali está a causar, hoje, já, na agricultura portuguesa, em muitos casos concretos, mais prejuízo do que as alterações climáticas ou o acordo Mercosul e, tenho a certeza, é mais fácil resolver o problema do javali do que as outras duas coisas, que são fáceis de discutir na net mas são realidades complexas com muitas pontas soltas. Portanto, podemos deixar-nos de tretas e tratar do javali? Vamos pegar este “touro pelos cornos” ou vamos abandonar os campos e os agricultores? Senhores caçadores? Senhores ministro da agricultura e do ambiente? Por favor?...
#carlosnevesagricultor #raposa #lobo #javali #agricultura #prejuizo #Soluções

domingo, 12 de julho de 2026

Cenas da vida de um lavrador (III) - O mistério da saca das cuecas vermelhas



Não me recordo exatamente quando foi, mas terá sido, talvez, há 8 ou 10 anos. Um dia, no corredor de alimentação da vacaria, a que antigamente chamávamos “casa da erva”, apareceu uma saca com cuecas para senhora, vermelhas e de outras cores. Não recordo quem encontrou, mas não esqueço que ninguém sabia de onde veio ou para quem era. 
Pelo tamanho serviam à minha esposa, mas não tinha sido ela a comprar, nem imaginava quem teria trazido aquilo e se eram mesmo para ela, e porquê. Eu não fazia ideia. A minha mãe, por questões de saúde, já não andava sozinha fora de casa. O meu pai também não sabia, nem o nosso funcionário, nem a senhora que costumava vir passar a ferro e ajudar nas limpezas da casa. Mistério. Não faltava nada mas tinha aparecido uma coisa e não sabíamos como. Durante vários dias, puxámos pela cabeça e perguntámos a toda a gente que frequentava a casa mas ninguém sabia. Aqui na zona, ao contrário de outras regiões do país, quase sempre a casa do agricultor fica junto dos estábulos, currais e dos armazéns e ao conjunto chamava-se tradicionalmente “Casa de lavoura” e tecnicamente ainda se chama “assento de lavoura”.
Lembrei-me entretanto que já tínhamos câmaras de videovigilância. Quando tive oportunidade, sentei-me ao computador e “puxei o filme atrás”. Apareceu a saca e apareceu uma pessoa a entrar com ela na mão e a sair sem ela. 
Era uma senhora, nossa conhecida, tia de um amigo e vizinho, que nos tinha pedido, quando fosse possível, para mostrar as vaquinhas às suas netas. Uma tarde, mais ou menos sem avisar, apareceu. Trazia as meninas numa mão e na outra, para agradecer a visita, uma saca com roupa da sua fábrica de confecções, para oferecer à minha esposa (com a experiência que tinha, tirara-lhe as medidas só com o olhar). Entretanto as meninas, que eram pequeninas, deviam ter 4 anos, assustadas com as vacas, começaram a chorar, a visita acabou rapidamente e a senhora deu a saca e o recado ao meu filho mais velho, na altura pré-adolescente e que, com “a cabeça no ar”, não deu recado, nem saca e nunca mais pensou no assunto. E foi assim que as câmaras de videovigilância tiveram “uso efetivo” pela primeira vez... 
#carlosnevesagricultor #agricultura #lavoura #misterio

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Aqui o calor já passou, mas tenham cuidado

O nevoeiro pegou ao serviço no turno da manhã e a nortada arrefece as tardes e incomoda os banhistas da Póvoa e Vila do Conde. 
Foi duro para os animais, para as plantas e para nós. Levei a sério o aviso e estava mais preparado do que em anos anteriores. Ventiladores a funcionar, rega adiantada e mais equipamentos de rega do que nos anos anteriores, mas ainda assim o milho sofreu, as vacas sofreram, produziram menos leite e tiveram mais problemas de saúde. Podia ter corrido um pouco melhor se não houvesse uma avaria e se, na equipa de manutenção, o mais novo tivesse dado ouvidos ao mais velho: “Não queres ver aquela caixa?” Não quis.  Só a viu dois dias depois, e afinal tinha lá dentro uma coisa desapertada, quando depois de avarias e intermitentes e vários testes os voltei a chamar. 
Às vezes são os mais velhos que não ouvem os mais novos e isso é ainda mais complicado. Como contrariar o pai, mãe ou avô, a quem obedecemos toda a vida? 
Já partilhei há tempos um texto, que descobri através do canadiano Farmer Tim, com o título “Como, e quando, dizer não ao pai” - no caso, dizer ao pai “Não, não podes mais conduzir o trator, porque não estás em condições”, ou, no nosso caso, dizer “hoje está muito calor, não vais para o campo e muito menos para a estufa!” 
Para complicar, como escrevi há dias, andam por aí muitos “Pedros” a gritar “lobo” para chamar a atenção e depois, quando é a sério, como foi agora, as pessoas não levam a sério. Na Estela, uma freguesia da Póvoa de Varzim a 10 km daqui, também junto ao mar, duas idosas foram encontradas mortas numa estufa, no domingo de manhã, porque faltaram à feira. Viviam juntas e a mais velha cuidava da mais nova, que tinha um deficit cognitivo. A mais velha terá desmaiado ou tido um AVC ou ataque do coração e a mais nova não saiu da beira dela. Apesar do calor acima do normal, mantiveram a rotina, foram à estufa colher as coisas durante a tarde de sábado para vender na manhã seguinte. Faltaram à missa no fim da tarde mas as pessoas acharam normal por causa do calor, só deram pela falta delas na feira domingo de manhã. Ainda está a decorrer a autópsia, os resultados demoram meses e não quero aqui tirar conclusões, mas, como o calor ainda continua, e vai voltar, porque é verão, e pode voltar forte, mais forte do que estávamos habituados, vim aqui outra vez insistir: Tenham juízo, tenham cuidado convosco, com os vossos animais, com as crianças e com os idosos, por mais rabujentos e teimosos que sejam, porque somos todos um bocado assim, e, se Deus quiser, os que lá chegarmos, seremos também todos cada vez mais teimosos com o passar dos anos mas queremos continuar a desfrutar da vossa teimosia e da vossa companhia. Protejam-se, bebam água e fiquem à sombra. Agora, adeus, porque está fresco e vou regar.
#carlosnevesagricultor #agricultura #milho #regas #calor #Estufas

domingo, 5 de julho de 2026

Cenas da vida de um lavrador (II) - No campo e no futebol


O futebol é uma cena a que pouco assisto. Tornei-me adepto do Benfica por influência do meu pai, mas, tal como ele, nunca fui muito praticante dessa “religião”. Nunca fui à “catedral” da Luz, mas fomos os dois assistir a um jogo Benfica - Rio Ave, os nossos clubes, no antigo Estádio da Avenida, em Vila do Conde. Pelo contrário, fui duas vezes ao Estádio do Dragão, mas nunca para ver o “papa”, porque o nosso sempre esteve em Roma. A primeira vez terá sido há 15 anos, ao festival Panda e a segunda vez foi para ver a seleção, na Liga das Nações, derrotar a Suíça, tornando realidade a previsão que me fez ganhar dois bilhetes e duas camisolas num concurso da GALP, com a frase: “vamos comê-los como um queijo suíço!” E, se não estou em erro, foi um hat-trick de Ronaldo. Já posso dizer que o vi jogar ao vivo.

O futebol tem coisas horríveis, como a violência das claques nos estádios e os ataques de ódio nas redes sociais, mas também tem coisas fantásticas.
Em 2002, fui com um grupo de agricultores numa viagem organizada pela empresa Semex visitar vacarias de alta genética e o Royal Show no Canadá, atravessando de Montreal a Toronto. Aterrámos com 30 graus negativos e fomos parar a um interrogatório de duas horas no departamento de imigração - “Vais visitar quintas? E não trazes botas?” Fora do aeroporto estava a equipa da Semex que então nos deu as botas descartáveis tipo sacas de plástico para colocar por cima dos sapatos normais. O resto da viagem correu muito bem, com um detalhe que não esqueço, já em Toronto. Era meia-noite e regressávamos de táxi ao hotel. O motorista perguntou de onde éramos, respondemos “Portugal”. “Portugal? Luís Figo!!!”
Regressemos a 2026, manhã de 3 de julho, sexta-feira. Na ponta do mesmo campo por onde saiu, a caminho do mar, a “mulher misteriosa” da história que contei na semana passada, agora já com milho alto a pedir rega, estava eu a afinar o aspersor e apareceu-me um homem, menos misterioso, de chapéu e mochila às costas. Passa muita gente aqui perto, pela “Estrada velha”, vindo do Porto pelo “Caminho da Costa” em direção a Compostela. Tentei explicar que ali não era caminho, não percebeu, falei em inglês, percebia pouco, disse-me que era da República Checa, perguntei se conhecia o Marek Cech, futebolista eslovaco, antigo jogador do Porto, abriu um sorriso e respondeu que sim, expliquei que ele mora a 1 km do campo onde estávamos, a atitude do homem mudou, abriu o telemóvel, meteu o tradutor de checo para inglês e percebi que, tal como a outra senhora, também queria ir para o mar, a partir daí foi fácil dar as indicações e lá partiu, feliz, de mochila às costas. Pareceu-me vê-lo mais tarde, já na “estrada velha”, acompanhado, a caminhar em Direção a Santiago.
Recuemos 2 meses. Quando estive na Holanda, em Roterdão, apanhei um uber, nova cena… “De onde são?”, “Portugal” “Ah, Ronaldo!!!”. Minutos antes, na rua, um miúdo levava na mão um lego… do Ronaldo.
O futebol tem a magia do imprevisto, de um ressalto, um penalti, um capricho da bola. Podem-se fazer previsões, mas não basta ordenar as equipas pelo orçamento ou pelo valor de mercado de cada jogador para saber quem vai ganhar. E Ronaldo é muito mais do que futebol e os golos que marca. Com a carreira que construiu a pulso, é a inspiração para milhões e milhões de miúdos e gente de todas as idades em todo o mundo. Não é perfeito porque ninguém é perfeito, mas ninguém pode negar que é inspiradora a história de alguém que nasceu pobre, filho de um pai alcoólico, cresceu sem dinheiro para ir ao Mac Donalds, e mesmo assim teve sucesso na vida. Que este campeonato seja uma festa. Desfrutem!
PS – E parem de chamar velho a uma pessoa 10 anos mais nova do que eu! Se ele fosse agricultor ainda era jovem, carago!

domingo, 28 de junho de 2026

Cenas da vida de um lavrador (I) - A mulher misteriosa


Ao fim tarde, mais uma vez, fui para o campo à hora de vir. O campo fica a 400 metros da foz do Rio Ave, nas traseiras do convento abandonado de Nossa Senhora dos Anjos, convento franciscano mais conhecido pela Igreja de S. Donato. Para chegar ao campo atravessei outro campo que fica no fim de uma rua sem saída. O objetivo era juntar a erva que já estava cortada e seca ao sol ou, como nós dizemos, “encordoar”, colocar em “cordões” para fazer rolos e plastificar no dia seguinte. Cheguei ao campo e desci do trator para “armar a tenda”, que no caso consistia em montar as várias hastes do “encordoador” na posição horizontal, posição de trabalho, ficando com 4 metros e trinta de largura. Na hora de voltar a subir para o trator e começar a juntar a erva, vi uma mulher, relativamente jovem, a caminhar ao meu encontro, já depois de ter atravessado o primeiro campo. Trazia na mão uma latinha de creme nívea e dois ou três pedaços de creme colocados no rosto, talvez em borbulhas ou queimaduras.

- Posso passar?
- Para onde quer ir???
- Para o mar. Quero caminhar em direção ao pôr do sol!
Estranhei a voz ligeiramente nervosa, mas pensei que podia ser alguém a passar férias, instalada nalgum alojamento local próximo, à procura de um atalho para a praia. Então respondi:
- Pode descer por ali para o outro campo, ao meio há um caminho onde pode virar à direita e no fim do campo está na foz do rio Ave, virando à esquerda está na praia de Azurara.
Ela agradeceu, seguiu caminho e eu fiquei só com o trator, a máquina e o meu trabalho, mas cada vez mais angustiado com os meus pensamentos. Tirei uma foto quando já estava a 100 metros de distância e filmei-a a caminhar tão longe que já parecia um fantasma. Seria apenas uma turista, como pensei, alguém à procura de um momento “zen”, um momento de paz e meditação em frente ao mar, ou uma pessoa perturbada a caminho de um ato de desespero? Devia eu ter perguntado à senhora se precisava de ajuda? Estaria ela disposta a responder alguma coisa a um “lavrador” armado em psicólogo? Pensei ligar para os bombeiros ou para a GNR, mas e depois? Dizia-lhes que passou por mim uma mulher estranha e que era melhor segui-la para ver se ia apanhar sol ou atirar-se ao mar? Como iriam reagir no quartel? Sairiam em patrulha à procura dela ou diriam para ter juízo e procurar ajuda porque quem não estava bem era eu?
Nunca mais a vi e, sobretudo, mais importante, nas semanas seguintes, não ouvi notícias de qualquer ocorrência negativa. Espero que tenha encontrado a praia e a paz, que esteja bem e que não seja identificada nesta publicação onde procurei respeitar a sua privacidade como, mal ou bem, fiz nesse dia.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Os Pedros, os lobos e os calores

Já escrevi aqui, em plena vaga de frio no inverno de 2025, que tinha saudades do tempo em que o estado do tempo era um desbloqueador de conversas e não um detonador de discussões entre guerreiros do teclado. Uma pessoa chegava a um elevador ou à sala de espera do médico, comentava que estava frio e uns acenavam com a cabeça, outros ficavam calados e outros, se quisessem, tinham conversa para ocupar o tempo de espera.
Na pior das hipóteses, as discussões a sério eram resolvidas à sacholada quando os lavradores não se entendiam nas repartições das águas das presas.
Agora, venha frio ou calor,  vento ou chuva, lá começa a discussão entre os adeptos da teoria do “fim do mundo” (vamos todos morrer, temos de mudar de carro e de dieta) e do “fim do mês” (não se passa nada). 
Para piorar, as redes sociais estão cheias de páginas “meteo”  a lutar desesperadamente por likes e até a comunicação social tradicional às vezes entra nessa luta desesperada pela audiência. São os “Pedros” do nosso tempo, que buscam a mesma atenção que o Pastor Pedro, na história tradicional, procurava quando estava aborrecido a guardar as ovelhas e gritava “lobo” para ver toda a gente acudir, e quando veio o lobo a sério já ninguém o levou a sério. 
O risco, hoje, é que quando os lobos do calor ou de outros extremos vierem, como sempre vieram, mas agora podem vir mais vezes, com mais força, por várias causas que não quero agora aqui discutir, o problema é que se vierem, quem vai sofrer não são os “Pedros” dos likes, que nessa hora já estarão bem isolados do calor ou do frio com o dinheiro que ganharam nas discussões, quem vai sofrer serão as “ovelhas” do nosso tempo, que são os mais idosos, os mais sós, os doentes, os sem-abrigo, e no caso da agricultura, nós, os nossos trabalhadores, os nossos animais e as nossas culturas agrícolas. 
Sejamos objetivos. Procuremos informação credível como o site do IPMA, que na precisão da temperatura não costuma falhar. Na próxima semana, dizem as previsões,  vem calor. Não é o fim do mundo, é só muito calor. Protejam-se, e discutam menos, que aumenta ainda mais a temperatura…
#carlosnevesagricultor #agricultura #tempo #calor #VamosTodosMorrer

quinta-feira, 18 de junho de 2026

História de um gato preto


Tive um tio (por afinidade) que era médico de família, como o Dr. João Semana, do livro “As pupilas do Sr. Reitor”, de Júlio Dinis, e também dentista, com um consultório no Porto e outro na freguesia natal. Na sala de espera, tinha um quadro / aviso: “Ao médico, ao advogado e ao padre, dizei só a verdade”. No consultório, tinha uma cadeira antiga de dentista, onde passei longas horas a sofrer e também, em jeito de anestesia, a ouvir muitas histórias da sua vida.

Aconteceu que um dia, o meu tio foi chamado para acudir a um bruxo ou bruxa de uma freguesia vizinha, que estava doente (vou deixar em dúvida para não identificar exatamente a pessoa em causa). Lá foi o meu “tio doutor” na mota que usava para as consultas na aldeia. Chegou lá, entrou no quarto e um gato preto saltou da cama do/a doente.
- Não tenha medo!
- Não tenho medo de gatos!
Realizada a consulta e deixada a receita, disparou o meu tio para a pessoa, que quando não estava doente era sua “concorrente”:
- Então você atende aqui tanta gente e agora que está doente chama-me???
- Ó Sôtor, eu já passei muita miséria! Agora, com duas tretas, endireitei a minha vida!
Portanto, agora que já prendi a vossa atenção, se alguém precisar de endireitar a vida, ou simplesmente de companhia, tenho esta gatinha preta para adoção (agora já está mais crescida).

Dermatose e outras doenças emergentes – como proteger os nossos animais?

 



“Houve um tempo, até há cerca de 35 anos, em que a vacina da febre aftosa era obrigatória para os bovinos. Nessa altura o meu pai fazia engorda dos novilhos e um nosso vizinho, o senhor António, tinha um talho e comprava-nos alguns desses animais. Um dia combinámos vender-lhe um touro, ele veio vê-lo, eu entreguei-lhe o "boletim de sanidade” do animal e a folha comprovativa da vacina. Recordo bem que era uma folha A5, letra azul e papel fino. O Sr. António quis ver novamente a traseira do novilho, para se certificar que estava bem gordo. O animal estava preso à manjedoura num anexo com 3 animais. O Sr. António pousou os papéis na manjedoura, que ficava a 50 cm do chão, à moda antiga, e lá fomos todos avaliar a gordura do touro. Quando voltámos à frente a folha da vacina já estava na boca do animal. Basicamente, comeu a sentença de morte e durou mais uma semana, enquanto esperámos pela segunda via pedida na “Zona Agrária”…

Lembrei-me desta história, presente no meu livro de crónicas agrícolas, inserida num texto sobre vacinas, ao ouvir num destes dias recentes, uma notícia sobre o regresso da Febre aftosa à Europa, com focos na Grécia e em Chipre. A doença está de volta após décadas de erradicação que tornaram a vacina desnecessária.

Nos últimos meses a Direção Geral de Veterinária e as organizações de agricultores tem chamado a atenção para várias doenças “emergentes”, doenças que estão a “emergir”, a surgir pela primeira vez na Europa, por causas diversas, nomeadamente a maior movimentação de pessoas e mercadorias e também as alterações climáticas, com o aumento de temperatura que tem feito aparecer insetos que até agora apenas andavam por regiões tropicais.

A Dermatose Nodular Contagiosa é uma doença que afeta os bovinos e foi identificada pela primeira vez em África, na Zâmbia, então Rodésia, em 1929. A doença não é transmissível aos humanos, mas provoca febre alta, nódulos cutâneos característicos, inchaço dos gânglios, queda severa na produção de leite, emagrecimento, abortos e infertilidade. A doença é transmitida principalmente por insetos. Em África a doença é comum mas não existia na Europa. Apareceu em 2016 na Grécia, vinda da Turquia, mas foi controlada e erradicada. Voltou a surgir na ilha da Sardenha em 2025, na França e na Espanha (Catalunha). Como o objetivo é manter a Europa livre de doença, só é permitida a vacinação nas regiões afetadas pela doença e sempre que surge um caso num estábulo, todos os animais desse estábulo são abatidos e os animais 20 km à volta são obrigatoriamente vacinados.

O que podemos fazer para nos protegermos destas e de outras doenças “emergentes” antes que se tornem uma “emergência”?

Para começar, nós os crentes podemos rezar para que a doença não chegue a Portugal. Mas, lembrando o aviso “fia-te na Virgem e não corras…”, neste caso correr significa prevenir.

Apresento de seguida alguns conselhos de “Biosegurança” que escolhi entre os sugeridos pela Dra. Andreia Santos, Médica Veterinária responsável pela sanidade animal na Cooperativa Agrícola de Vila do Conde:

1.       Arrumar

·  Antes de pensarmos em lavar ou desinfetar, há que pensar em manter os espaços arrumados.

2.       Limpar

·         Retirar os excessos de materiais inertes ou não inertes. Facilitamos as ações como lavagem ou desinfeção.

3.       Lavar

·     O uso de detergentes específicos ajuda a retirar carga de matéria orgânica, gorduras, biofilmes e potenciam a desinfeção.

4.       Desinfetar

·         A desinfeção é a última escala da defesa por aplicação de biocidas.

5.       Estabular e Desinsetizar

·         Estabular os animais e aplicar insecticidas adequados.

6.       Limpar o excesso de vegetação em volta da exploração (20metros)

·      A vegetação é considerada uma barreira de biossegurança, mas deve estar afastada da exploração alguns metros, por poder ser abrigo de insetos e pássaros, visitas pouco desejadas nas manjedouras.

7.       Eliminar locais de águas paradas, como lagos, pocinhas, pneus dos silos (locais de eclosão de insetos)

·      Os bebedouros também podem ser locais de germinação de larvas de insetos se não forem higienizados de forma sistemática.

·       Atenção aos pneus usados para manter a cobertura dos silos: a água que se mantém no interior aquece e mantem temperatura mais elevadas facilmente, incluindo no Inverno, fazendo deles excelentes locais de multiplicação e manutenção das populações de insetos.

8.       Aplicar redes mosquiteiras nas grandes áreas abertas, como topos e laterais das explorações

9.       Manter ventilação ligada 24h por dia

·         Insetos tão pequenos como o culicóide (2 a 4mm) têm dificuldade em lutar contra correntes de ar e, por essa razão, a ventilação ligada permanentemente reduz o risco de ataque.

10.   Lavar e desinfetar qualquer veículo ou instrumento que tenha sido emprestado ou usado para ajudar outros agricultores.

11.   Dispor de umas quantas batas na exploração para os visitantes técnicos utilizarem por cima do equipamento que trazem.

12.   Dispor em locais estratégicos de lava botas com desinfetante.

13.   Criar um espaço de verdadeira quarentena

·     Animais que são comprados deviam cumprir um período de quarentena, pelo menos até serem conhecidas os resultados de análises.

14.   Desenvolver o hábito de ter agenda para receber visitas na exploração.

15.   Ter um espaço para receber as viaturas estranhas à exploração.

16.   Ser agente de mudança.

·         Exigir aos técnicos e pares mudanças de comportamentos, sendo exemplo. Atitudes em bloco têm infinitamente mais força e expressão.

17.   IMAGINAÇÃO E DETERMINAÇÃO!!! (artigo completo sobre Biosegurança disponível na Revista “Produtores de Leite” nº 33)

#carlosnevesagricultor #vacas #dermatose #vacinas