sábado, 29 de agosto de 2026

Cenas da vida de um lavrador obrigado a crescer



Há muito, muito tempo…(precisamente quando o José Cid, autor de uma canção que começa assim, ainda era uma criança) a minha avó, Esperança, ficou viúva, mas com 3 vacas e 3 leiras de terra, criou 5 filhos e ainda comprou mais 3 hectares de terra.

Vinte anos mais tarde… quando o meu pai casou, já tinha trocado as “cortes” e os “aidos” do gado debaixo da velha casa de lavoura por uma pequena vacaria com 12 vacas e respetivas crias, alimentadas por 6 hectares de terra própria que cultivava.

Vinte anos passados, no início da década de 80, quando eu fui com o meu pai ouvir o José Cid à festa da Nossa Senhora das Neves, na freguesia vizinha de Azurara, já tínhamos mudado para a casa nova com uma vacaria maior e 30 vacas.

Com mais 20 anos em cima, instalei-me, como jovem agricultor, com 40 vacas e 10 hectares.
Parece que foi ontem, mas desde que me instalei já passaram 30 anos e hoje cultivo 30 hectares, a maior parte dos quais “arrendados” (parcelas de terra que há 50 anos eram cultivados por 8 famílias diferentes), tenho 70 vacas e outras tantas vitelas e novilhas, mas poderia ter 200 ou 300, que é agora o tamanho normal de muitas vacarias aqui em Vila do Conde.

Estou a dar estes números como exemplo da evolução da nossa agricultura. Não me estou a gabar nem a queixar. Não quero que tenham pena nem raiva, apesar da avó Esperança dizer que era melhor terem raiva do que pena dela, sinal que estava bem.

Estou convencido que esta história é semelhante à de outros agricultores noutros setores e regiões, cada um com uma evolução diferente, como na parábola dos talentos. Poderão encontrar quem manteve, quem dobrou, algum que passou de 3 para 30, outros para 300 ou até 3000, quer sejam hectares de terra ou animais. Não é esse campeonato que está em causa neste texto.

Quero apenas explicar que houve uma saída contínua de pessoas da agricultura desde há 200 anos, após a revolução industrial, procurando e aproveitando as oportunidades de uma vida melhor fora da agricultura.

Por outro lado, quem escolheu ficar na agricultura, teve de escolher também entre crescer ou acabar, porque parar de crescer ou de melhorar é como deixar de pedalar quando andamos de bicicleta.
Olhando para esta evolução, contudo, vejo dois paradoxos:

Por um lado, precisamos de crescer para ter uma vida mais confortável e uma empresa com futuro para nós e para que os nossos filhos queiram e possam suceder. Por outro lado, ao crescer deixamos de ser o “pequeno agricultor” que desperta simpatia e ficamos mais perto de ser um grande agricultor ou “latifundiário”, palavra negativa, isto é, passamos da “pena” à “raiva”.

As políticas públicas supostamente apoiam o investimento na agricultura, para ganhar dimensão, mas, ao mesmo tempo, os apoios ao rendimento são dados de forma simplificada aos pequenos agricultores e de forma mais complicada aos “grandes”, o que estimula a divisão das empresas agrícolas na procura desses apoios, as multas são mais elevadas para as sociedades agrícolas do que para os agricultores individuais da mesma dimensão e as licenças são mais caras e complicadas de obter.

Se calhar, na próxima PAC, é preciso calibrar os apoios que houver e talvez torná-los mais ajustados e progressivos, tal como as modernas caixas de velocidades dos tratores passaram das mudanças aos saltos para variação contínua, para que possamos continuar a “viver a vida” com a agricultura “viva”, porque “o tempo que passou, não volta mais”.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Cenas da vida de um lavrador - a "bufadeira"

D. Branca, a gata mais velha do pedaço, com um olho amarelo e outro azul, quase morreu de parto e foi salva in-extremis por uma cesariana do Dr. Ernesto, depois da sua brancura ter sido descoberta em cima de um saco branco pela minha esposa, arrastada pela trela de uma Lassie que era suposto passear e não tinha exatamente as melhores intenções em relação à Branca, mas a vida é assim, às vezes “avança-se mais com os pontapés dos inimigos do que com os abraços dos amigos”.
Ao longo da sua vida, a gata Branca teve muitas ninhadas. Alguns não sobreviveram, outros foram dados para adoção. Curiosamente, da ninhada anterior sobraram todos: O “Jorge”, chamado assim por ser igual a outro “Jorge” anterior que era irmão de uma “Pepa”, por causa da “porquinha Pepa”, e que emigrou para o cimo da rua, provavelmente escorraçado pelo “Cream”, de cor creme, que se tornou o “macho alfa” entre a gataria cá de casa; O “Ice”, branco como o “Jorge” e como o comboio rápido da Alemanha onde viajámos de visita às feiras agrícolas de Hannover quando estes gatos eram pequenos (temos portanto um “Ice” e um “cream”, portanto, “Icecream”, gelado, ao contrário da relação “quente” e barulhenta entre os dois, apesar de termos mandado castrar o Ice para não ter o mesmo destino do irmão escorraçado) e ainda (como se dizia no tempo do “1,2,3”), fazia parte dessa ninhada uma gata que se auto-marginalizou, e que se tornou “brava”, ao contrário dos irmãos dóceis que querem mimo, e que “bufa” como sabem bufar os gatos quando se querem mostrar bravos, mesmo quando vem comer os restos do jantar e comida de gato que lhe oferecemos todos os dias, e que por isso foi batizada pela minha esposa de “bufadeira”.
Mal alimentada porque se marginalizou, a “bufadeira” teve várias crias que não sobreviveram mas houve finalmente um gatinho, que também era uma bufadeira pequenina, mas que se aproximou o suficiente da minha esposa para ser criado a sopas de leite e que eu, mais tarde, pacientemente, fui domesticando e mimando para poder dar para adoção , mas apesar de várias publicações ninguém o quis e agora, pequeno adulto, já deve ser tarde para o adotar, e por agora ainda não houve grande stress entre o Cream e o filho da bufadeira” e por isso adotei-o eu novamente, e isto é tudo literalmente verdade, e não é só sobre gatos.

domingo, 23 de agosto de 2026

Milho contra o fogo e contra a fome


O Presidente da Câmara de Águeda quer recuperar o cultivo de milho nos campos agrícolas em redor das aldeias do seu concelho para dificultar a progressão dos incêndios florestais e eu apoio essa ideia.  
A propósito do incêndio que afetou o concelho no início de julho, disse o presidente: “Eu diria que vi o teste. O incêndio estava a progredir com uma violência incrível. Chegou a uma área de milho, chamuscou as duas primeiras carreiras e parou imediatamente”.
Os especialistas têm vindo a alertar que os terrenos abandonados onde a erva cresce no inverno e seca no verão são o equivalente a deixar a torneira do gaz aberta, à espera de uma faísca.
Eu concordo que não será simples a câmara fazer a sementeira e tratar do milho, mas acho que se deve começar já a tratar do assunto, e não é no próximo verão quando estiver a arder, nem no inverno quando Águeda e os restantes concelhos do país estiverem ocupados com as festas de Natal e preocupados com as inundações. O melhor é começar a estudar e decidir já, enquanto o assunto está, literalmente, “quente” e atrevo-me a atirar meia dúzia de ideias para a fogueira dessa discussão que não se deve apagar com a chegada das chuvas, tal como esperamos que se apaguem os incêndios.
Podem começar com uma área experimental.
A Câmara pode começar por dar um apoio aos agricultores locais que se comprometam a semear o milho.
Se não houver disponibilidade dos agricultores locais, pode contratar prestadores de serviços agrícolas que conseguem lavrar, preparar a terra, semear, fazer a monda e colher.
Pode, (deve!) chamar os agricultores locais, associações, cooperativas, historiadores, a gente mais velha, e perguntar porque deixaram de cultivar o milho, o que acham da ideia, o que pode correr mal.
Foi por causa da destruição causada pelo javali que abandonaram o milho, como aconteceu em muitas aldeias de Portugal? Ok, vamos controlar o javali, ou vamos deixar o javali mandar em nós para morrermos à fome e queimados?
Falta rega? Mas nunca se regou lá? Como dava milho antes? Não há poços, regadios tradicionais, pequenos ribeiros? Um pouco de água que dê para usar com a rega gota-a-gota? Há eletricidade? Temos de vender um rim para pagar cada “baixada”? Ou usar variedades de ciclo muito curto, semeadas o mais cedo possível, que produzem menos, mas também precisam de menos água?
O milho vai ser destinado a grão ou a silagem? Se não houver vacas para comer essa silagem, podem fazer “bolas” ou rolos e vender ou oferecer para alimentar no inverno os rebanhos de cabras e ovelhas que no resto do ano podem limpar os montes e terras impossíveis de cultivar para também aí proteger os incêndios.
E se for de todo impossível cultivar milho, porque não experimentar a luzerna, que não precisa de adubo azotado, nem de herbicida e tem uma raiz que vai buscar a água lá o fundo, muito fundo, e só exige cortes múltiplos dando um alimento com muita proteína? Ou azevém, ou aveia, que se colhe no fim da primavera ou início do verão, e que depois, não estando verde como o milho, pelo menos também não deixa crescer arbustos e ervas no inverno para arder no verão?
A agricultura é a única forma de alimentar a população e é a melhor forma de a proteger contra os incêndios e, como ouvi um dia numa palestra a D. António Couto, Bispo de Lamego: “Quem quer arranja maneira, quem não quer arranja desculpas”. Força com isso, e comecem já!
#carlosnevesagricultor #milho #agueda #incendios #fogo

terça-feira, 11 de agosto de 2026

O que vão fazer as vacas durante o eclipse?

 

Se me perguntassem isso, a minha resposta seria que vão fazer o que fazem sempre, noite e dia: comer, beber (água), ruminar, dormir, caminhar, brincar, coçar-se na escova, andar à pancada a mostrar quem manda, fazer leite durante esse tempo todo e ser ordenhadas 2 ou 3 vezes por dia durante 7 minutos de cada vez, em média.
Entretanto, num grupo de produtores de leite franceses, encontrei um texto de Alix Penichou, de L'Action Agricole Picard / Reussir fr , com o título "Eclipse: O que as vacas farão quando o dia estiver quase no fim?", pensando sobretudo nas vacas em pastagem:
"Na quarta-feira, 12 de agosto, o sol ficará encoberto em aproximadamente 91% na região do Somme. Essa queda repentina de luminosidade poderá afetar os padrões de deslocamento do gado. No entanto, não há motivo para pânico generalizado nos pastos. Cientistas já observaram esse fenômeno.
Amanhã à noite, as vacas poderão ter uma sensação estranha: a de que o dia terminará mais cedo do que o esperado. Em Amiens, o eclipse solar começará às 19h20, atingirá o seu máximo às 20h16, com 91,2% do disco solar obscurecido, antes de terminar às 21h08. O sol estará então muito baixo, a apenas 8,1° acima do horizonte, na direção oeste-noroeste.
Para os criadores de gado da região do Somme, esse fenómeno pode ser uma oportunidade para observar os seus animais. A luz desempenha um papel significativo nos ritmos diários dos animais e, quando desaparece repentinamente no meio do dia, alguns podem alterar o seu comportamento.
Será que as vacas conseguem acreditar que a noite está a chegar?
A resposta é sim… mas com algumas nuances. Um estudo publicado na revista Applied Animal Behaviour Science examinou especificamente o comportamento de vacas leiteiras durante um eclipse total. Os pesquisadores observaram o gado durante um eclipse em que o nível de luz caiu para níveis comparáveis ​​aos da noite.
O resultado: o eclipse não causou grandes alterações no comportamento de pastoreio ou ruminação das vacas. Os pesquisadores concluíram que a intensidade da luz, por si só, não parece desempenhar um papel importante no controle dos ritmos diários de pastoreio. Em outras palavras, as vacas não interrompem as suas atividades assim que a luz diminui. No entanto, outras observações mostram que os animais ainda conseguem reagir à mudança repentina de luminosidade.
Durante o eclipse solar total de 2017 nos Estados Unidos, uma equipe de pesquisadores estudou o comportamento de 17 espécies de animais no Zoológico Riverbanks, na Carolina do Sul. Treze das 17 espécies exibiram comportamentos diferentes do habitual.
Os pesquisadores identificaram quatro tipos principais de reações: comportamento consistente com hábitos noturnos, sinais aparentes de ansiedade, comportamentos incomuns e… ausência completa de reação. Em algumas espécies domésticas e selvagens, foram observados comportamentos associados ao anoitecer: retorno aos locais de repouso, agrupamento ou diminuição da atividade.
Mais recentemente, pesquisadores da Universidade Estadual de Ohio monitorizaram de perto um rebanho de 165 vacas da raça Holstein durante o eclipse solar total de 8 de abril de 2024. O gado foi equipado com coleiras para registar a sua atividade. Os pesquisadores compararam o comportamento dos animais antes, durante e depois do eclipse.
Os resultados são bastante tranquilizadores para os agricultores: não foi observada nenhuma diferença significativa na atividade no dia do eclipse em comparação com os períodos anteriores e posteriores ao evento. Os pesquisadores também vigiaram a produção de leite. Notaram variações na produção, mas estas corresponderam principalmente a um aumento nas médias ao longo dos dias e não permitiram atribuir qualquer efeito ao eclipse.
Portanto, não houve queda repentina na produção. E, sobretudo, não há motivos para crer que um eclipse possa ter um impacto duradouro na saúde ou no desempenho do rebanho.
Então, devemos ficar de olho em nossos animais?
Sim, mas mais por curiosidade do que por preocupação. As vacas poderiam continuar pastando como se nada estivesse errado... ou decidir que o dia acabou. De qualquer forma, alguns minutos de observação poderão render imagens interessantes.
Entretanto, nós por cá, na RFM, temos um artigo "Eclipse solar: há cuidados que também deves ter com os teus animais", onde se diz
"Mas se tens um animal de estimação (sim, digo eu, tenho bastantes), há uma recomendação simples que deves guardar: não tentes pôr-lhe óculos de proteção nem o obrigues a olhar para o eclipse. (ó pá, era mesmo isso que eu estava a pensar fazer...).
Enfim, como se diz aqui à moda do Porto, "Balha-me Deus!!!"
PS - Tende mas é cuidado que não baixem ainda mais o preço do leite ou de outros produtos aos agricultores durante o eclipse!!!

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Cenas da vida de um lavrador (IV) - Futebol, Fátima e Fado


 Futebol
Algures na década de 90 do século passado, eu teria cerca de 15 anos, era aluno da Casa-Escola Agrícola Campo Verde, em S. Pedro de Rates, Póvoa de Varzim, vogal multifunções da “Junta de autogoverno” da turma (uma equipa de 5 elementos que fazia as funções do “delegado de turma”) e guarda-redes da equipa de futebol da mesma turma. Um dia, tendo sido combinado um jogo com uma turma da escola C+S local, por razões que já esqueci, foi preciso ir à dita escola antes do jogo combinar os últimos detalhes. Lamentavelmente, aceitei tomar café, coisa com que não tinha experiência, mas que me deixou ainda mais nervoso. Entretanto, durante o jogo, quando já estávamos a perder 2-0, por golos de que não tive culpa, atrasaram-me a bola, não a consegui agarrar e à segunda tentativa escorregou-me das mãos e ainda meti a bola dentro da baliza. A minha carreira no futebol acabou aí… 

Fátima
No final desse mesmo ano letivo, as seis “Casas-Escolas Agrícolas” que então existiam agrupadas na APDR (agora existe apenas a nossa Escola em Rates, para além das outras escolas agrícolas que são públicas), juntaram-se em Fátima num convívio. Depois das orações e missa durante a manhã e do almoço de convívio e partilha de farnéis, 600 pessoas reuniram-se no auditório Paulo VI para uma palestra de que nada recordo, exceto que a dada altura o Dr. António Damásio, então diretor da nossa escola, sem me ter avisado ou preparado, foi ao microfone e chamou-me ao palco para ir dizer umas palavras sobre a escola e sobre a região do Entre Douro e Minho. Não me lembro do que disse, mas sei que correu bem, porque bateram palmas no fim e não me criticaram. A única coisa de que me lembro é que estava tão nervoso que as minhas pernas tremiam como varas verdes. Foi a primeira e a última vez. Depois disso já falei com 3 presidentes da república, ministros, deputados, eurodeputados, comissários europeus, já dei entrevistas em direto, no estúdio ou no meio das vacas… e nunca mais fiquei tão nervoso como dessa vez. Foi uma vacina e peras! 

Fado
Quando fiz o 9º ano na Escola Secundária José Régio, em Vila do Conde, cruzei-me na turma do 9ºI, se a memória não me falha, com um colega chamado Alexandre, que nunca mais vi, muito simpático e com um sentido de humor refinado… Sempre que me ouvia a cantarolar uma música, coisa que eu fazia com frequência, dizia: “Ó Neves, gostas dessa música?”, e eu dizia que sim, na primeira vez, pelo menos, porque “à primeira quem quer cai, à segunda cai quem quer” e portanto:
Gostas dessa música?
Gosto!
Então não a estragues!...
E portanto, citando Frei Hermano da Câmara, “Ser fadista foi meu sonho / mas não foi esse o meu fado / Deus traçou-me outro caminho / cheio de amor e carinho / fez-me andar para outro lado!”
(Escrito para a revista Mundo Rural de julho - Agosto de 2026)

sábado, 1 de agosto de 2026

A boa, o mau e o vilão - a raposa, o lobo e o javali

A raposa, até agora, foi boa para mim, porque quem não me faz mal já faz bem. A foto de uma raposa a passar ao lado de minha casa causou intenso debate entre os defensores das galinhas e os defensores da raposa, como se o meu comentário “anda mais perto do que eu pensava”, fosse um apelo à caça do animal. Ora eu não sou caçador de raposas. Aqui na net sou mais do que eu, mas sou apenas caçador de preconceitos, e apanhei-vos, porque eu só perguntei se os galinheiros estavam bem fechados. Soube, entretanto, que não estavam. Tem sido uma razia com galinhas, gansos e patos aqui à volta, porque as pessoas já não estavam habituadas às raposas, mas as raposas estão a habituar-se às pessoas e têm cada vez menos vergonha. Tive relatos de raposas que vão à porta do café, entram nos quintais durante o dia e deitam-se nos muros como os gatos e, já agora, também levam gatinhos. 
Até agora, a raposa foi “boa” para mim porque não me fez mal, não estragou milho nem atacou as minhas galinhas, talvez porque eu tinha o galinheiro fechado por causa da gripe das aves ou talvez a raposa não goste de galinhas com cheiro a vaca e se um dia tiver problemas a primeira solução será reforçar o galinheiro. 
Sobre os preconceitos, um facto: Aqui não houve incêndios. A raposa não veio a fugir de qualquer problema: é a natureza a evoluir naturalmente, como sempre evoluiu, a crescer e reproduzir-se quando tem oportunidade e, curiosamente, aqui nos meus campos cada vez mais no meio da cidade, de estradas, armazéns, casas e carros, andam cada vez mais animais: As andorinhas continuam a vir todas as primaveras, uma coruja veio viver para o Sinal, uma lontra para o meio do milho, uma ave de rapina (milhafre, acho) é visita cada vez mais frequente, as cegonhas vieram do rio Vouga para o Rio Ave, os peixinhos voltaram ao ribeiro que está menos poluído e as gaivotas que até há 30 anos só comiam peixe, aprenderam que quando alguém mexe na terra com o trator levanta minhocas e outros bichinhos que elas gostam de comer e por isso as gaivotas deixam a praia e vão cada vez mais para o interior, até agora, sem prejuízos, mas temos de estar atentos e saber viver com isto.
Entretanto, o “lobo mau” está de volta ao Alto Minho e a Trás-os-Montes. Sucedem-se os relatos de ataques a rebanhos. Toda a gente concorda que é preciso “mais cabras nos montes e menos cabr*** nos gabinetes”, e o lobo também concorda, porque lhes chama um petisco, às cabras, porque os outros ficam longe, mas depois as indemnizações vêm tarde ou nunca, os agricultores ficam sem os animais e com o prejuízo, as pessoas desesperam, desistem ou revoltam-se e os montes ficam sem as vacas, as cabras e as ovelhas. Não falei disto até agora porque o lobo ainda não chegou aqui e esta página é sobretudo para falar da realidade da minha agricultura, mas, POR FAVOR, VAMOS DAR ATENÇÃO A ESTE PROBLEMA E AJUDAR A GENTE QUE ESTÁ A SOFRER COM OS LOBOS? Ou cães vadios, seja lá o que for! Mais ajuda, mais ação e menos discussão!
Pior do que o lobo, O JAVALI É O GRANDE VILÃO da agricultura portuguesa. Ainda não chegou aqui, mas já anda perto, literalmente a meia dúzia de kms. Destrói campos de milho, onde calha, à sorte, fuça e escava, um bocado aqui, outro bocado ali. Nas clareiras de milho destruído crescem em vez dele as figueiras do inferno, ervas daninhas muito venenosas. Fazer seguros? Parece que só pagam prejuízos acima de 30%. Cerca elétrica? É uma solução que está a ser estudada, mas é muito mais difícil cercar um campo no meio do monte contra o javali do que um galinheiro contra a raposa. Aquela piada “posso não valer nada, mas javali”, ficou desatualizada: o Javali vale cada vez mais pela negativa, é uma praga descontrolada que está a fazer muito mal à nossa agricultura: ficam campos abandonados porque as pessoas desistem de produzir milho. Sucedem-se acidentes na estrada e invasões nas cidades. Podem ser portadores de doenças como a peste suína africana. 
Arrisco dizer que, em muitas situações, o javali está a causar, hoje, já, na agricultura portuguesa, em muitos casos concretos, mais prejuízo do que as alterações climáticas ou o acordo Mercosul e, tenho a certeza, é mais fácil resolver o problema do javali do que as outras duas coisas, que são fáceis de discutir na net mas são realidades complexas com muitas pontas soltas. Portanto, podemos deixar-nos de tretas e tratar do javali? Vamos pegar este “touro pelos cornos” ou vamos abandonar os campos e os agricultores? Senhores caçadores? Senhores ministro da agricultura e do ambiente? Por favor?...
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