domingo, 25 de outubro de 2026

Cenas e palavras - chave na vida de um agricultor

Há um conceito chamado “imagem de busca”, que se observa tanto na natureza como no comportamento humano. Na natureza, um predador foca-se na imagem da presa que pretende caçar e ignora quase completamente o cenário envolvente. Por outro lado, nós, humanos, temos tendência a ver o que procuramos, mesmo de forma inconsciente. Alguém que espera o nascimento de um filho repara em todos os carrinhos de bebé e todas as grávidas. Alguém que comprou recentemente ou pensa comprar um carro de uma determinada marca, repara em todos os carros dessa marca que vê na estrada. Um agricultor como eu repara em vacas e tratores. Nas redes sociais, os algoritmos amplificam, limitam essas escolhas e colocam-nos numa “bolha”. 
Pude comprovar isso há alguns meses, quando tive uma consulta que se atrasou uma meia hora. Enquanto esperava, espreitei as redes sociais e aproveitei para escrever umas coisas. Na sala de espera, atrás de mim, algumas senhoras falavam tranquilamente em voz baixa. Passados alguns minutos, uma palavra despertou a minha atenção: “dar aos vitelos” (dar de comer, subentende-se). Virei-me para ver quem estava ali, mas não eram rostos conhecidos. Voltei ao texto que escrevia no telemóvel. Passados minutos, nova expressão capta a minha atenção: “charrua de 4 ferros”. Não havia dúvida que era gente do setor, e profissional, mas voltaram a baixar o tom de voz e entretanto fui chamado para a minha consulta… 
#carlosnevesagricultor #agricultura

sábado, 19 de setembro de 2026

Se os teus colegas se atirarem ao mar, tu também te atiras?


Esta era a pergunta retórica que os nossos pais nos faziam para dizer "não", que nós não gostávamos de ouvir, quando queríamos ir a algum lado ou fazer alguma coisa com a desculpa que os nossos colegas podiam ou faziam.

Tal como outras dezenas de milhar de jovens, Faten Ben Amar El Azizi atirou-se literalmente ao mar em Ceuta. Ela morreu. Era uma estrela do futebol feminino em Marrocos, jovem, certamente com alguma formação, mas acreditou no que viu nas redes sociais, seguiu os colegas e amigos, deixou-se manipular, pensando que bastava nadar um pouco para ter uma vida melhor.

Do lado de cá, em sentido contrário, isto serviu para manipular outros para se atirarem à luta numa cruzada contra a “invasão” da Europa, apesar de Ceuta ficar em África, sendo no entanto uma  cidade cujos habitantes preferem estar sob controlo de Espanha.

Individualmente, todas as pessoas são inteligentes, umas mais que outras, mas as multidões são estúpidas. Está estudado. É da natureza humana. Vejam o exemplo das claques de futebol. Jovens que na família, na escola ou no trabalho são normais, educados, trabalhadores, quando em grupo, devidamente manipulados e regados a álcool, ficam cegos e disparam foguetes com ódio de morte em direção à claque adversária.

Faten podia ter sido contratada para jogar no Benfica, Porto ou Sporting e seria recebida com flores no aeroporto e palmas no estádio, com adeptos dispostos a defendê-la até à morte, talvez pelos mesmos que lhe desejaram a morte ao ver a multidão  que invadiu Ceuta.

Nem as invasões de Ceuta nem a manipulação de multidões são novas na história. Provavelmente, há 2000 anos, entre a multidão dos que gritaram para Pilatos crucificar Jesus e libertar Barrabás, estavam muitos dos que dias antes  receberam Jesus com ramos na entrada triunfal em Jerusalém ou assistiram aos seus milagres e sermões. Não havia muita gente naquele tempo, não é possível que tenham desaparecido todos, o mais provável é que tenham sido manipulados para atacar aquele que dias antes seguiam. 

Faten podia ter vindo trabalhar para a agricultura ou para um lar de idosos, fazer o trabalho para o qual não encontramos mais ninguém que o  queira fazer. 40% da atual mão de obra agrícola é imigrante. Podia ter vindo legal, através da “via verde” da imigração, ou ilegal, através das redes de tráfico, mas também podia ser manipulada para ser terrorista como outras crianças e jovens são, mesmo pagando com a própria vida.

Não sejamos ingénuos num sentido nem noutro. Um país, ou um conjunto de países como a Europa, tem  o direito e o dever de controlar as fronteiras, ver quantos imigrantes precisa e quantos pode acomodar sem ruturas económicas e sociais, tal como o comandante de um barco não pode deixar entrar mais do que a lotação máxima do barco, e, mesmo em caso de um naufrágio, tem de impor limites, para que também o seu barco não vá ao fundo e morram todos ao tentar salvar mais alguns.

Eu sei que este tema é sensível, que as pessoas têm medo e convicções muito fortes, mas achei muito mau tudo o que se passou à volta de Ceuta, primeiro na falta de prevenção, depois na evidente manipulação para provocar a invasão e por último na reação ao que se passou.

Tenhamos consciência de que há sempre gente a tentar manipular-nos e que hoje isso é muito fácil, com o algoritmo que escolhe o que vemos nas redes sociais. Vivemos em bolhas de ideias tal como antigamente se vivia dentro das muralhas do castelo, mas temos obrigação de subir à torre e olhar o horizonte e entrar na  biblioteca  para ter um olhar crítico e mais abrangente sobre a realidade, para além da espuma dos dias e da indignação do momento.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Os produtores de leite já estão em modo “Macgyver” e a indústria tem de acompanhar

MacGyver era o personagem central de uma série de ação que passou na TV nos anos 80 e que, em vez de usar armas de fogo ou violência como outros heróis,  usava ciência, lógica, criatividade e um canivete suíço. Por oposição, na mesma época, o “Justiceiro” dependia do “Kitt” como hoje dependemos das ferramentas de inteligência artificial.

Nos dias de hoje, um agricultor e produtor de leite tem de ser, muitas vezes, Macgyver. No campo, no estábulo ou até na luta associativa, temos muitas vezes de nos desenrascar. Se rebenta um cano da água num sábado à noite, avaria o trator ou a máquina da ordenha no domingo de manhã, falta eletricidade, ou mil outras coisas diferentes que estão sempre a acontecer, não podemos deixar as vacas sem água, comida e ordenha, mesmo que os técnicos estejam longe, de férias ou ocupados noutra avaria.

Este verão foi assim com a rega: se faltou a água no poço para regar o milho ou o motor avariou, fomos procurar outra captação, mudar as mangueiras, buscar outro trator, levar outra cisterna, pedir ao vizinho, dobrar o sistema de rega e as horas de trabalho.

E quando foi preciso “fazer barulho” rapidamente, com pouco tempo e pouca gente, porque os poucos que somos já estavam a produzir em “modo MacGyver”, também fomos para as ruas da cidade, para as praias do Algarve, contratámos aviões de um dia para o outro e colocámos rolos de palha à porta de supermercados da noite para o dia… e poderemos colocar noutros sítios.

A transformação e venda do leite e dos produtos lácteos, que os produtores delegaram nas cooperativas e indústrias, também se transformou. O mercado mundial deixou de ser o clássico tabuleiro de xadrez com movimentos lentos e ponderados e parece mais uma mesa de bilhar no início do jogo, onde cada nova tarifa nos Estados Unidos, cada drone na guerra da Ucrânia ou míssil na guerra do Irão é uma tacada com tabelas e choques imprevistos.

Junte-se também a esta nova geopolítica a valorização da carne, com vitelos cruzados nos EUA a valer 1000 dólares à nascença e mudanças no perfil dos consumidores, que agora procuram produtos com proteína whey, que é tirada do soro do queijo, queijo que por causa disso pode agora valer menos do que o soro que até há pouco tempo era um subproduto.

Perante este novo cenário, quem gere a indústria não poderá mais continuar a usar a receita clássica de não comunicar com os produtores, não partilhar lucros, reagir tarde e baixar o preço ao produtor sempre que precisa de  equilibrar as contas ou obter lucros para os seus objectivos estratégicos. Até agora a produção não baixou porque os produtores que ficaram, em modo MacGyver, assumiram as terras e  as vacas dos que deixaram  o setor em cada crise, mas  somos cada vez menos e com mais vontade de mudar de vida e de estratégia.
 
Carlos Neves 
Secretário-geral da APROLEP

terça-feira, 15 de setembro de 2026

As notícias da morte da agricultura são manifestamente exageradas

Conta-se que, certo dia, ao ler num jornal a notícia da sua própria morte, o escritor Mark Twain respondeu escrevendo que “as notícias da minha morte são manifestamente exageradas”. Conta-se também que “o otimista é alguém que vê a luz ao fundo do túnel, mesmo quando ela não está lá, enquanto o pessimista é alguém que vai a correr apagá-la”. 

A partilha que eu fiz de um excerto de um artigo sobre a falta de candidatos em alguns cursos de agronomia neste ano de 2026, escrito por José Palha num artigo para o jornal Sol, despertou um conjunto de comentários, quase todos negativos, que agradeço e a que pretendo responder.

Primeiro, permitam-me que puxe dos meus galões da idade, porque com os anos não podemos ganhar só mazelas, também temos de ganhar estatuto e eu já vivi mais de meio século e toda a vida convivi com este “agro-pessimismo” generalizado e sempre me irritou ouvir dizer que a agricultura tinha acabado, porque não gosto de ouvir dizer que não existo, pronto! O meu pai dizia que “os homens são como o vinho, a idade adoça uns a azeda outros”, mas, em maior ou menor grau, é normal, à medida que os anos passam, ficamos mais pessimistas e rabugentos, e isso é bom, porque a alternativa era morrer cedo.

Depois, dizem que a falta de alunos em alguns cursos agrícolas é sinal do abandono da agricultura, mas, no passado, a ida de alguém para o ensino superior agrícola tinha muitas vezes, como objetivo, “sair da lavoura” e procurar trabalho atrás de uma secretária, no ministério da agricultura, nas cooperativas, associações, agroindústrias, fábricas de rações, empresas comerciais… e isso não era mau em si, era normal, se uma familia tinha 2, 3, 5 ou 10 filhos, não podiam ficar todos a trabalhar na terra que já era pouca.

Terceiro, pedi ao google para me fazer um gráfico com a evolução do número de vagas em agronomia e do número de candidatos colocados na primeira fase e, afinal, o gráfico não é a desgraça que parece quando olhamos para alguns cursos que ficam vazios. Então, está tudo bem? Claro que não! É evidente que muita coisa está mal, podem ser cursos desajustados ao mercado, pode ser excesso de cursos, talvez o setor agrícola deva estimar e comunicar o numero de licenciados de que vai precisar no futuro, e também os governantes devem avaliar se querem meter “sangue novo” nos quadros do ministério da agricultura, porque se há gente nova, não os vejo, e apesar das organizações agrícolas hoje fazerem muito do trabalho que antigamente era “extensão rural”, ainda assim há coisas, como os controlos e certificações, que, na minha opinião, não deviam ser tão “privatizadas” como estão a ser.

Quarto ponto, este menos positivo, talvez seja só impressão minha, mas, por razões que não quero agora discutir, por falta de tempo e espaço, passamos de um tempo em que se tinha “pena” do agricultor pobre e desgraçado para um tempo em que se ganhou “raiva” ao “agrónomo”, o “gajo mau” que aconselha e vende pesticidas, adubos químicos e sementes transgénicas, já para não falar sobre toda a imagem negativa dos zootécnicos e veterinários da pecuária, por isso os jovens candidatos à veterinária, quando não estão apenas à espera de uma vaga em medicina, tem por objetivo dedicar-se apenas a cães, gatos e outros animais de companhia.

Quinto e último ponto, de forma muito positiva, a todos os alunos (e aos seus familiares, que possam ler isto com o coração apertado) que agora entram em agronomia, zootecnia, veterinária e tudo o que tenha ver com agricultura, sejam bem-vindos, ânimo, pensamento positivo! A agricultura precisa de vós, precisa de sangue novo, precisa de massa cinzenta, os que já cá estão precisam da vossa “concorrência” e Portugal, e o mundo, precisam dos campos cultivados, do território ocupado e de comida na mesa! 
 #agricultura #agronomia #zootecnia #veterinaria #EnsinoSuperior

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

A luta do leite


Em janeiro de 2026 o preço do leite ao produtor desceu 3 cêntimos por litro e em agosto outro cêntimo e meio. Estas descidas representam aproximadamente uma perda de 72 milhões de euros para a produção face a 2025 e coincidem com aumentos dos custos de com fertilizantes, combustíveis e rações e com uma redução na produção de milho devido às ondas de calor. Além disso, pagamos o gasóleo agrícola 20 cêntimos acima dos colegas de Espanha e recebemos outras ajudas a um nível muito inferior em comparação com o país vizinho.
É verdade que o preço do leite ao produtor desceu menos em Portugal do que noutros países da Europa, mas também é verdade que isso aconteceu porque Portugal teve ao longo dos anos o preço mais baixo entre todos os países da EU. Não tivemos em Portugal um período de vacas gordas que nos permitisse acumular reservas e fazer investimentos. 
A descida do preço tem sido comunicada aos produtores tendo como justificação a descida de valor do leite em pó e da manteiga e a dificuldade em escoar leite por causa da importação de leite francês e das promoções agressivas com leite açoriano.

Para evitar ou atrasar tanto quanto possível essas descidas que ocorreram e novas descidas que alguns dizem que ainda vão acontecer, e que seriam dramáticas para o setor, nós, na APROLEP, ao longo dos últimos meses, procurámos combater as causas, desenvolvendo uma intensa campanha de comunicação, primeiro, de forma positiva, para apelar à distribuição e aos consumidores para darem preferência ao consumo de leite nacional, através da oferta de leite e do contacto com os consumidores na Rua de Santa Catarina no Porto e depois numa praia do Algarve. Para reforçar e levar mais longe a mensagem, de forma inédita, pagámos para um avião atravessar o Algarve de Portimão a Vila real de Santo António com a mensagem “BEBA LEITE NACIONAL”. 

Entretanto, apercebemo-nos que voltaram as importações de leite estrangeiro para os supermercados da cadeia Intermarché. Depois de um primeiro apelo que não foi ouvido e de um pedido de reunião que ainda não teve resposta, colocámos um primeiro rolo de palha no Intermarché da Maia e não vamos desistir dessa luta. 

O leite e os produtos agrícolas produzidos em Portugal alimentam os portugueses e a economia de Portugal, reduzindo o défice comercial e mantém os campos cultivados e longe dos incêndios.

O produtor é o elo mais fraco na cadeia de valor do leite e a corrente rebenta sempre pelo elo mais fraco, mas quando uma “casa de lavoura” vende as vacas leiteiras, nunca mais volta à produção de leite. As indústrias privadas e sobretudo a indústria cooperativa têm de ter consciência disto e da responsabilidade de defender a produção, criar valor e partilhar o valor com os produtores a quem pertencem.
Carlos Neves
Secretário-geral da APROLEP
Artigo de opinião no jornal Terras do Ave a 9.9.2026

sábado, 29 de agosto de 2026

Cenas da vida de um lavrador obrigado a crescer



Há muito, muito tempo…(precisamente quando o José Cid, autor de uma canção que começa assim, ainda era uma criança) a minha avó, Esperança, ficou viúva, mas com 3 vacas e 3 leiras de terra, criou 5 filhos e ainda comprou mais 3 hectares de terra.

Vinte anos mais tarde… quando o meu pai casou, já tinha trocado as “cortes” e os “aidos” do gado debaixo da velha casa de lavoura por uma pequena vacaria com 12 vacas e respetivas crias, alimentadas por 6 hectares de terra própria que cultivava.

Vinte anos passados, no início da década de 80, quando eu fui com o meu pai ouvir o José Cid à festa da Nossa Senhora das Neves, na freguesia vizinha de Azurara, já tínhamos mudado para a casa nova com uma vacaria maior e 30 vacas.

Com mais 20 anos em cima, instalei-me, como jovem agricultor, com 40 vacas e 10 hectares.
Parece que foi ontem, mas desde que me instalei já passaram 30 anos e hoje cultivo 30 hectares, a maior parte dos quais “arrendados” (parcelas de terra que há 50 anos eram cultivados por 8 famílias diferentes), tenho 70 vacas e outras tantas vitelas e novilhas, mas poderia ter 200 ou 300, que é agora o tamanho normal de muitas vacarias aqui em Vila do Conde.

Estou a dar estes números como exemplo da evolução da nossa agricultura. Não me estou a gabar nem a queixar. Não quero que tenham pena nem raiva, apesar da avó Esperança dizer que era melhor terem raiva do que pena dela, sinal que estava bem.

Estou convencido que esta história é semelhante à de outros agricultores noutros setores e regiões, cada um com uma evolução diferente, como na parábola dos talentos. Poderão encontrar quem manteve, quem dobrou, algum que passou de 3 para 30, outros para 300 ou até 3000, quer sejam hectares de terra ou animais. Não é esse campeonato que está em causa neste texto.

Quero apenas explicar que houve uma saída contínua de pessoas da agricultura desde há 200 anos, após a revolução industrial, procurando e aproveitando as oportunidades de uma vida melhor fora da agricultura.

Por outro lado, quem escolheu ficar na agricultura, teve de escolher também entre crescer ou acabar, porque parar de crescer ou de melhorar é como deixar de pedalar quando andamos de bicicleta.
Olhando para esta evolução, contudo, vejo dois paradoxos:

Por um lado, precisamos de crescer para ter uma vida mais confortável e uma empresa com futuro para nós e para que os nossos filhos queiram e possam suceder. Por outro lado, ao crescer deixamos de ser o “pequeno agricultor” que desperta simpatia e ficamos mais perto de ser um grande agricultor ou “latifundiário”, palavra negativa, isto é, passamos da “pena” à “raiva”.

As políticas públicas supostamente apoiam o investimento na agricultura, para ganhar dimensão, mas, ao mesmo tempo, os apoios ao rendimento são dados de forma simplificada aos pequenos agricultores e de forma mais complicada aos “grandes”, o que estimula a divisão das empresas agrícolas na procura desses apoios, as multas são mais elevadas para as sociedades agrícolas do que para os agricultores individuais da mesma dimensão e as licenças são mais caras e complicadas de obter.

Se calhar, na próxima PAC, é preciso calibrar os apoios que houver e talvez torná-los mais ajustados e progressivos, tal como as modernas caixas de velocidades dos tratores passaram das mudanças aos saltos para variação contínua, para que possamos continuar a “viver a vida” com a agricultura “viva”, porque “o tempo que passou, não volta mais”.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Cenas da vida de um lavrador - a "bufadeira"

D. Branca, a gata mais velha do pedaço, com um olho amarelo e outro azul, quase morreu de parto e foi salva in-extremis por uma cesariana do Dr. Ernesto, depois da sua brancura ter sido descoberta em cima de um saco branco pela minha esposa, arrastada pela trela de uma Lassie que era suposto passear e não tinha exatamente as melhores intenções em relação à Branca, mas a vida é assim, às vezes “avança-se mais com os pontapés dos inimigos do que com os abraços dos amigos”.
Ao longo da sua vida, a gata Branca teve muitas ninhadas. Alguns não sobreviveram, outros foram dados para adoção. Curiosamente, da ninhada anterior sobraram todos: O “Jorge”, chamado assim por ser igual a outro “Jorge” anterior que era irmão de uma “Pepa”, por causa da “porquinha Pepa”, e que emigrou para o cimo da rua, provavelmente escorraçado pelo “Cream”, de cor creme, que se tornou o “macho alfa” entre a gataria cá de casa; O “Ice”, branco como o “Jorge” e como o comboio rápido da Alemanha onde viajámos de visita às feiras agrícolas de Hannover quando estes gatos eram pequenos (temos portanto um “Ice” e um “cream”, portanto, “Icecream”, gelado, ao contrário da relação “quente” e barulhenta entre os dois, apesar de termos mandado castrar o Ice para não ter o mesmo destino do irmão escorraçado) e ainda (como se dizia no tempo do “1,2,3”), fazia parte dessa ninhada uma gata que se auto-marginalizou, e que se tornou “brava”, ao contrário dos irmãos dóceis que querem mimo, e que “bufa” como sabem bufar os gatos quando se querem mostrar bravos, mesmo quando vem comer os restos do jantar e comida de gato que lhe oferecemos todos os dias, e que por isso foi batizada pela minha esposa de “bufadeira”.
Mal alimentada porque se marginalizou, a “bufadeira” teve várias crias que não sobreviveram mas houve finalmente um gatinho, que também era uma bufadeira pequenina, mas que se aproximou o suficiente da minha esposa para ser criado a sopas de leite e que eu, mais tarde, pacientemente, fui domesticando e mimando para poder dar para adoção , mas apesar de várias publicações ninguém o quis e agora, pequeno adulto, já deve ser tarde para o adotar, e por agora ainda não houve grande stress entre o Cream e o filho da bufadeira” e por isso adotei-o eu novamente, e isto é tudo literalmente verdade, e não é só sobre gatos.