sábado, 19 de setembro de 2026

Se os teus colegas se atirarem ao mar, tu também te atiras?


Esta era a pergunta retórica que os nossos pais nos faziam para dizer "não", que nós não gostávamos de ouvir, quando queríamos ir a algum lado ou fazer alguma coisa com a desculpa que os nossos colegas podiam ou faziam.

Tal como outras dezenas de milhar de jovens, Faten Ben Amar El Azizi atirou-se literalmente ao mar em Ceuta. Ela morreu. Era uma estrela do futebol feminino em Marrocos, jovem, certamente com alguma formação, mas acreditou no que viu nas redes sociais, seguiu os colegas e amigos, deixou-se manipular, pensando que bastava nadar um pouco para ter uma vida melhor.

Do lado de cá, em sentido contrário, isto serviu para manipular outros para se atirarem à luta numa cruzada contra a “invasão” da Europa, apesar de Ceuta ficar em África, sendo no entanto uma  cidade cujos habitantes preferem estar sob controlo de Espanha.

Individualmente, todas as pessoas são inteligentes, umas mais que outras, mas as multidões são estúpidas. Está estudado. É da natureza humana. Vejam o exemplo das claques de futebol. Jovens que na família, na escola ou no trabalho são normais, educados, trabalhadores, quando em grupo, devidamente manipulados e regados a álcool, ficam cegos e disparam foguetes com ódio de morte em direção à claque adversária.

Faten podia ter sido contratada para jogar no Benfica, Porto ou Sporting e seria recebida com flores no aeroporto e palmas no estádio, com adeptos dispostos a defendê-la até à morte, talvez pelos mesmos que lhe desejaram a morte ao ver a multidão  que invadiu Ceuta.

Nem as invasões de Ceuta nem a manipulação de multidões são novas na história. Provavelmente, há 2000 anos, entre a multidão dos que gritaram para Pilatos crucificar Jesus e libertar Barrabás, estavam muitos dos que dias antes  receberam Jesus com ramos na entrada triunfal em Jerusalém ou assistiram aos seus milagres e sermões. Não havia muita gente naquele tempo, não é possível que tenham desaparecido todos, o mais provável é que tenham sido manipulados para atacar aquele que dias antes seguiam. 

Faten podia ter vindo trabalhar para a agricultura ou para um lar de idosos, fazer o trabalho para o qual não encontramos mais ninguém que o  queira fazer. 40% da atual mão de obra agrícola é imigrante. Podia ter vindo legal, através da “via verde” da imigração, ou ilegal, através das redes de tráfico, mas também podia ser manipulada para ser terrorista como outras crianças e jovens são, mesmo pagando com a própria vida.

Não sejamos ingénuos num sentido nem noutro. Um país, ou um conjunto de países como a Europa, tem  o direito e o dever de controlar as fronteiras, ver quantos imigrantes precisa e quantos pode acomodar sem ruturas económicas e sociais, tal como o comandante de um barco não pode deixar entrar mais do que a lotação máxima do barco, e, mesmo em caso de um naufrágio, tem de impor limites, para que também o seu barco não vá ao fundo e morram todos ao tentar salvar mais alguns.

Eu sei que este tema é sensível, que as pessoas têm medo e convicções muito fortes, mas achei muito mau tudo o que se passou à volta de Ceuta, primeiro na falta de prevenção, depois na evidente manipulação para provocar a invasão e por último na reação ao que se passou.

Tenhamos consciência de que há sempre gente a tentar manipular-nos e que hoje isso é muito fácil, com o algoritmo que escolhe o que vemos nas redes sociais. Vivemos em bolhas de ideias tal como antigamente se vivia dentro das muralhas do castelo, mas temos obrigação de subir à torre e olhar o horizonte e entrar na  biblioteca  para ter um olhar crítico e mais abrangente sobre a realidade, para além da espuma dos dias e da indignação do momento.

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