Há muito, muito tempo…(precisamente quando o José Cid, autor de uma canção que começa assim, ainda era uma criança) a minha avó, Esperança, ficou viúva, mas com 3 vacas e 3 leiras de terra, criou 5 filhos e ainda comprou mais 3 hectares de terra.
Vinte anos mais tarde… quando o meu pai casou, já tinha trocado as “cortes” e os “aidos” do gado debaixo da velha casa de lavoura por uma pequena vacaria com 12 vacas e respetivas crias, alimentadas por 6 hectares de terra própria que cultivava.
Vinte anos passados, no início da década de 80, quando eu fui com o meu pai ouvir o José Cid à festa da Nossa Senhora das Neves, na freguesia vizinha de Azurara, já tínhamos mudado para a casa nova com uma vacaria maior e 30 vacas.
Com mais 20 anos em cima, instalei-me, como jovem agricultor, com 40 vacas e 10 hectares.
Parece que foi ontem, mas desde que me instalei já passaram 30 anos e hoje cultivo 30 hectares, a maior parte dos quais “arrendados” (parcelas de terra que há 50 anos eram cultivados por 8 famílias diferentes), tenho 70 vacas e outras tantas vitelas e novilhas, mas poderia ter 200 ou 300, que é agora o tamanho normal de muitas vacarias aqui em Vila do Conde.
Estou a dar estes números como exemplo da evolução da nossa agricultura. Não me estou a gabar nem a queixar. Não quero que tenham pena nem raiva, apesar da avó Esperança dizer que era melhor terem raiva do que pena dela, sinal que estava bem.
Estou convencido que esta história é semelhante à de outros agricultores noutros setores e regiões, cada um com uma evolução diferente, como na parábola dos talentos. Poderão encontrar quem manteve, quem dobrou, algum que passou de 3 para 30, outros para 300 ou até 3000, quer sejam hectares de terra ou animais. Não é esse campeonato que está em causa neste texto.
Quero apenas explicar que houve uma saída contínua de pessoas da agricultura desde há 200 anos, após a revolução industrial, procurando e aproveitando as oportunidades de uma vida melhor fora da agricultura.
Por outro lado, quem escolheu ficar na agricultura, teve de escolher também entre crescer ou acabar, porque parar de crescer ou de melhorar é como deixar de pedalar quando andamos de bicicleta.
Olhando para esta evolução, contudo, vejo dois paradoxos:
Por um lado, precisamos de crescer para ter uma vida mais confortável e uma empresa com futuro para nós e para que os nossos filhos queiram e possam suceder. Por outro lado, ao crescer deixamos de ser o “pequeno agricultor” que desperta simpatia e ficamos mais perto de ser um grande agricultor ou “latifundiário”, palavra negativa, isto é, passamos da “pena” à “raiva”.
As políticas públicas supostamente apoiam o investimento na agricultura, para ganhar dimensão, mas, ao mesmo tempo, os apoios ao rendimento são dados de forma simplificada aos pequenos agricultores e de forma mais complicada aos “grandes”, o que estimula a divisão das empresas agrícolas na procura desses apoios, as multas são mais elevadas para as sociedades agrícolas do que para os agricultores individuais da mesma dimensão e as licenças são mais caras e complicadas de obter.
Se calhar, na próxima PAC, é preciso calibrar os apoios que houver e talvez torná-los mais ajustados e progressivos, tal como as modernas caixas de velocidades dos tratores passaram das mudanças aos saltos para variação contínua, para que possamos continuar a “viver a vida” com a agricultura “viva”, porque “o tempo que passou, não volta mais”.
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